Ucrânia escatológica?

Eu lembro que, na adolescência, quando comecei a frequentar uma igreja evangélica, eu ouvi pela primeira vez alguém falar da vinda de Jesus e dizer que tudo estava muito perto, que os sinais mostravam que faltava pouco tempo. Eu fiquei impressionado com o fervor escatológico de pessoas que com certeza sabiam muito mais da Bíblia do que eu.

Mas lembro de ficar chocando quando ouvi um membro mais velho e experiente da igreja dizer serenamente algo como: “não está perto, vai demorar ainda”. Pareceu-me que aquele era apenas um senhor sem fé, que perdeu o vigor ao longo da caminhada. Perdoe-me, eu era adolescente.

Ocorre que uma pessoa de idade já ouviu o mesmo discurso várias vezes e, por isso, está mais atenta à situação real. Já viu as mesmas coisas acontecerem, e até coisas mais graves que as de hoje, que lhe pareciam sinais claros da Parusia, 20, 30, 50 anos antes. E, quando jovem, talvez tenha ouvido o mesmo de pessoas que viveram há um século.

A idade confere certo senso histórico, mesmo que limitado. As pessoas podem fechar os olhos para esse senso ou podem perceber as coisas de maneira mais cuidadosa, sem deixar que a paixão do momento lhes turve o juízo. O conhecimento histórico aprofunda esse senso . Vemos os mesmos discursos ao longos dos séculos — o mesmo fervor que, no fundo, é fogo de palha e que não produz frutos de santidade duradouros.

Pois bem, toda vez que acontece qualquer evento de relevância geopolítica global, especialmente guerras, mas também doenças e crises, você vê pessoas ligarem o alarme do fim dos tempos. E essas pessoas estão certas, ao menos em parte. Os sinais de morte que nos cercam nos lembram sempre de que a aparência desse mundo passa, e de que devemos nos lembrar de morrer. Essa é uma verdade permanente. A advertência é permanente. Se atentarmos para o Discurso Apocalíptico de Cristo (Mc 13), vemos que a maioria das coisas que ele diz é bem pouco específica. (Tanto que Lucas mudou o texto numa direções mais clara.)

É que os “sinais bíblicos” não são coisas que acontecem apenas uma vez. Mesmo dentro da Bíblia, várias profecias são reiteradas e atualizadas para as situações dos novos profetas. Esses sinais e profecias expressam a circularidade da história, os altos e baixos de uma narrativa que teve um começo e terá um fim.

O Venerável Beda ensina que a lição do Apocalipse diz respeito às guerras e sofrimentos interiores da Igreja, coisas que podem acontecer em vários momentos diferentes, como o seu comentário dá a entender. Por isso, uma leitura idealista das profecias, que observe padrões reiterados de uma mesma batalha contínua, nos livra de ingenuidade histórica, uma eterna adolescência longe da sobriedade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Israel e a Igreja

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Um dos problemas centrais no Novo Testamento é a relação entre a Igreja e Israel, entre o povo de Deus no Antigo Testamento e o povo de Deus no Novo. Não é só uma curiosidade escatológica ou eclesiológica; é uma questão eminentemente prática, uma das preocupações fundamentais de textos dos Atos dos Apóstolos e das Cartas Paulinas. A solução desse problema conferiu aos gentios, através da revelação divina, um assento no povo de Deus igual ao dos primeiros convertidos judeus.

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Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras

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“Igualmente, acerca da justificação, ensinamos que, falando propriamente, ela significa o perdão dos pecados e nossa aceitação ou reconciliação para a graça e favor de Deus, isto é, a verdadeira renovação em Cristo, e que os pecadores não podem obter essa justificação sem arrependimento e o movimento correto e próprio do coração para Deus e o próximo, que é obra do Espírito Santo.” — Abp. Thomas Cranmer, Treze Artigos de 1538 Continue lendo “Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras”

O pior do dispensacionalismo

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O dispensacionalismo é um sistema de interpretação, criado há menos de 200 anos, que encara a história da salvação a partir do conceito de “dispensações”, fases diferentes dessa história nas quais “alianças” diferentes de Deus com os homens marcam modos diferentes de relacionamento dos homens com Deus, com diferentes promessas e diferentes mandamentos. Essa história inclui eventos futuros, e por isso o grande apelo do dispensacionalismo é apresentar esses eventos em uma ordem e complexidade que nenhum outro sistema poderia ter. Continue lendo “O pior do dispensacionalismo”

Duas palavrinhas sobre o “Milênio” em Ap. 20:4-6

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“Vi também tronos, e nestes sentaram-se aqueles aos quais foi dada autoridade de julgar. Vi ainda as almas dos decapitados por causa do testemunho de Jesus, bem como por causa da palavra de Deus, tantos quantos não adoraram a besta, nem tampouco a sua imagem, e não receberam a marca na fronte e na mão; e viveram e reinaram com Cristo durante mil anos. Os restantes dos mortos não reviveram até que se completassem os mil anos. Esta é a primeira ressurreição. Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade; pelo contrário, serão sacerdotes de Deus e de Cristo e reinarão com ele os mil anos.” (Apocalipse 20:4-6)

Dois pontos são especialmente incompreendidos quando se trata da interpretação de Apocalipse 20:4-6. Esse texto fala de um período de mil anos entre duas ressurreições. Aqueles que participam da primeira ressurreição reinam com Cristo pelos mil anos e a morte não tem domínio sobre eles, enquanto os outros mortos participam da segunda ressurreição. Continue lendo “Duas palavrinhas sobre o “Milênio” em Ap. 20:4-6″