Os Apóstolos não escreveram tudo

Existem várias coisas que Cristo e os apóstolos ensinaram e que sabemos, através do Novo Testamento, que não foram registradas nos escritos canônicos. Os apóstolos esperavam que esses ensinos orais tivessem autoridade (cf. 1Co 11:2; 2Ts 2:15; 3:6 etc).

Alguns exemplos:

1. O ensino acerca dos símbolos do Santuário israelita é mencionado em Hb 9:1–5, e a carta diz: “Dessas coisas, todavia, não falaremos, agora, pormenorizadamente.” Embora haja, aqui e ali no Novo Testamento (como no livro do Apocalipse) e nos primeiros Pais da Igreja alusões a esse tema, esses pormenores não estão explícitos em nenhum lugar da Bíblia.

2. A liturgia primitiva não foi registrada no Novo Testamento. Os apóstolos ensinaram às pessoas da época algum tipo de culto, mas ele só é conhecido indiretamente, por poucas referências no NT e por comparação com as liturgias históricas preservadas e costumes sinagogais. Não sabemos pelo NT como era a liturgia cristã primitiva, exceto quando lemos o NT à luz desses conhecimentos posteriores (ex: quando lemos os relatos da Ressurreição à luz dessas liturgias).

3. Em Jo 21:25 e At 1:3, ficamos sabendo que Jesus fez e disse coisas que não foram registradas por escrito. Alguém pode supor que essas coisas teriam reaparecido em algum outro momento do NT, mas não há como verificar essa afirmação. Como At 20:35 dá a entender, esse conhecimento oral sobre as palavras de Jesus não registradas nos evangelhos (ágrafos) circulava na época.

4. O NT depende de um “dicionário” moral específico, ou seja, de que certas virtudes, que nunca são explicadas, sejam entendidas de certa maneira. O que é piedade? O que hospitalidade? O que é mansidão? Essas e outras expressões dependem de uma dada cultura religiosa — pré-cristã em grande parte, inclusive (judaica e pagã) — que lhes confira significado e praticidade. Com certeza em algum momento os apóstolos tiverem que ensinar algo sobre essas coisas, mas não temos o registro direto desses momentos.

5. Em alguns momentos, como 2Tm 2:2, temos o ensino oral como coisa preciosa a ser guardada por pessoas específicas. Não faria sentido dizer isso se tudo seria escrito num mesmo lugar.

6. Em 2Co 12:2, Paulo fala do “terceiro céu“. Esse terceiro céu não é explicado em nenhum lugar da Bíblia. Havia no judaísmo apocalíptico da época especulações sobre isso. Cristo e os apóstolos pensavam algo sobre isso, e o texto dá a entender que eles concordavam em parte com essa cosmologia. Mas onde concordaram e onde discordaram? O NT não nos diz.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Inerrância? Contém? Bois?

Eu entendo bem as pessoas que se opõem à inerrância bíblica. Geralmente são evangélicos de origem fundamentalista decepcionados com certos tipos de leitura sectária das Escrituras.

Mas eu acho essa discussão sobre inerrância e infalibilidade, que tem o cheiro da modernidade — ela é proposta inicialmente pela discussão com história e ciência natural — tediosa demais. A Bíblia é ou contém a Palavra de Deus? Que canseira!

Uma abordagem hermenêutica é muito mais satisfatória: como dizem os pós-conservadores, a questão é como usamos as Escrituras. Elas não se usam sozinhas. O uso que fazemos é coerente com o propósito do cânon dentro da comunidade de fé, num encontro com Deus?

Pois a Bíblia é uma coleção eclesiástica de livros privilegiados (“cânon”), falando sobre Deus, a partir de um encontro transformativo com ele (“revelação”), para um contexto de devoção e liturgia próprio à comunidade de fé. Ao colecionar esses livros, percebendo através deles uma “grande narrativa” comum, os cristãos mudaram (muito ou pouco) o propósito original de cada texto, qualquer que tenha sido. Eles agora fazem parte de um projeto maior. Então naturalmente existe uma diferença entre a intenção do autor original e a intenção da igreja com aqueles livros. Acaso Deus cuida de bois ou de nós?

Nesse sentido, o sujeito que usar as Escrituras como critério último para estabelecer os acontecimentos do passado (“história” ou “origem das espécies”), às vezes faz mau uso e não acessa o propósito do cânon. O sentido do texto é condicionado pela maneira (apta ou inapta) como o leitor o usa; um texto sem interpretação é só tinta num papel, barulho no ar ou luz numa tela. A questão não é se as Escrituras têm contradições de história ou erros de biologia — se você as usa mal, elas terão, sim, essas coisas —, mas sim o que fazemos com os símbolos presentes nelas.

As Escrituras, enquanto Escrituras, não existem como pedacinhos que somamos para chegar a uma verdade. Ela existe como uma saga tempestuosa, um drama épico e trágico do qual somos chamados a participar. Quem recorta demais um organismo, pelo desejo de entender seus detalhes, o mata.

Não é, também, que as Escrituras não tenham nada a dizer sobre “o que realmente aconteceu”. Elas contêm, principalmente no Novo Testamento, um amálgama de relatos, religiosamente interpretados, das testemunhas oculares de vários acontecimentos no Oriente Próximo e em alguns outros lugares. Pois, por um lado, a fé cristã, particularmente quanto a certos acontecimentos relativos à vida de Jesus de Nazaré, tem pretensão de historicidade. Por outro, o historiador, segundo uma metodologia crítica, pode e dever usar esses livros como fonte, mas, ao fazê-lo, ele normalmente não lida com o cânon, mas com os livros individuais dentro de um dado condicionamento histórico e social, antes de serem, em conjunto, Escritura Sagrada.

Muito mais do que um sistema de proposições doutrinais — nunca perdoarei Schaeffer — ou descrições modernas dos fatos, a Escritura Sagrada é uma antologia de histórias estranhas e arquetípicas, regulamentos sacerdotais, paradoxos e poemas. É um livro espiritual. Os relatos evangélicos não são as “ipssissima verba”, mas a “ipssissima vox” de Cristo.

Por esses e outros motivos, se quisermos falar de “inerrância”, é muito melhor descrevê-la assim: a Escritura Sagrada, no seu propósito eclesiástico, não tem nenhum erro de nenhum tipo. É possível escrutiná-la de outras maneiras, úteis ou não, e, nesse caso, o uso literário do texto determinará se chegamos a erros ou não. Eu rejeito a distinção entre infalibilidade e inerrância.

Rev. Gyordano M. Brasilino