A Visão Beatífica e a Nova Criação

A Visão de Deus e a Nova Criação não são duas doutrinas em competição, mas o mesmo horizonte escatológico em duas perspectivas.

A Escritura fala da Visão Beatífica como uma promessa para os salvos, os outros de coração, os que tiverem buscado a santificação. Nós nunca seremos capazes de compreender a natureza divina, que é infinita, inabarcável e invisível, mas “veremos face a face“, como ensina o apóstolo, numa dilatação crescente do nosso espírito — portanto em amor, alegria e iluminação cada vez maiores, sem limite.

A Escritura também fala da nossa esperança como a Nova Criação (Novos Céus e Nova Terra) é a restauração de todas as coisas ao propósito original, nos quais a glória do Senhor cobre a criação assim como as águas cobrem o mar.

Essas duas doutrinas assinalar duas dimensões de nossa própria existência, a espiritual e a corporal, ambas feitas para Deus.

A doutrina bíblica não conhece uma separação ou conflito entre essas duas doutrinas. O Apocalipse ensina (22:3b–5):

“…Nela, estará o trono de Deus e do Cordeiro. Os seus servos o servirão, contemplarão a sua face, e na sua fronte está o nome dele. Então, já não haverá noite, nem precisam eles de luz de candeia, nem da luz do sol, porque o Senhor Deus brilhará sobre eles, e reinarão pelos séculos dos séculos.”

Depois de dizer que os servos de Deus e do Cordeiro “contemplarão a sua face”, o texto nos fala de como a luz divina será a iluminação de todas as coisas — significando que nossa visão delas não se dará mais por uma luz natural e limitada, mas pela Luz Eterna, de modo que, pela primeira vez, seremos capazes de ver as criaturas como elas são e, com isso, contemplar também a nós mesmos.

Se há uma distinção entre essas duas doutrinas, é apenas porque aqueles que nos precedem no Paraíso têm um acesso anterior à Visão Beatífica, eles veem antecipadamente aquilo que será.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Magnificat

O Cântico de Maria é um dos três belos cânticos que vemos no início do Evangelho de Lucas, aquele que conta mais detalhadamente sobre o nascimento de Jesus. Os três cânticos estão cheios de alegria e esperança messiânica.

O Magnificat tem quatro partes. A primeira é a adoração profunda e alegre de Maria. A segunda é a exaltação dela por Deus. A terceira é a reviravolta e inversão no mundo pela visitação de Deus: os pobres e pequenos são exaltados, os ricos e poderosos são rebaixados. A quarta é o fundamento de tudo, a lealdade de Deus a promessa feita aos antepassados da nação de Israel.

Assim, é em razão do juramento e da aliança que Deus cumpre agora sua promessa de trazer justiça ao mundo, alegrando o coração de Maria.

Entre a segunda e a terceira partes, há uma transição abrupta. Na segunda parte, Deus exalta a humilde Maria; na terceira, ela fala da mesma coisa acontecendo com o mundo. Mas essas coisas ainda não haviam acontecido; Maria fala no passado de coisas que se fariam no futuro. (Também o Cântico de Zacarias, o Benedictus, trata no passado coisas que se fariam no futuro.) Qual é a relação entre essas duas partes?

O que ocorre é que Maria vê, profeticamente, acontecer nela aquilo que aconteceria no mundo inteiro. Ela é o começo da salvação e redenção que Deus trouxe. A alegria de Maria é o início da alegria escatológica prometida a Israel na visitação de Deus: “Exulta, e alegra-te, ó filha de Sião, porque eis que venho, e habitarei no meio de ti, diz o Senhor.” (Zc 2:10).

É significativo que o cântico de Maria tenha sido entoado, dentro da narrativa do Evangelho de São Lucas, no momento em que Isabel e João Batista se alegram com a visitação de Jesus através de Maria. Assim como o início do Evangelho de Lucas é um pequeno Pentecostes, ele sinaliza o início da Nova Criação. Aquelas duas crianças e aquelas duas mulheres eram as pessoas mais aptas a, naquele momento, reconhecer os sinais dos tempos. Isabel e sua família eram a antiga aliança (ela era Sara), o antigo sacerdócio, o antigo profetismo, obedientes a todos os mandamentos da Lei. Jesus e Maria eram a Nova Aliança. O Antigo se alegra diante do Novo.

Ela, que não tinha filhos, teve um filho, o bendito fruto do seu ventre. Israel, que era infrutífero, agora produziria os frutos dignos do arrependimento.

O Magnificat contempla a misericórdia prometida aos ancestrais, portanto a dimensão de graça e promessa livre, assim como também a obediência de Maria e de Israel (“contemplou a humildade da sua serva”, “sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem”). Ela está em consonância com a mensagem de João Batista, segundo a qual os verdadeiros filhos de Abraão seriam aqueles que obedecessem a Deus.

A essência do cântico é Maria como um sinal profético da alegria escatológica pela visitação transformadora de Deus, como um cumprimento da aliança de Israel.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Certeza da salvação (II): João Calvino

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“Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.” (1 Pedro 1:13)

Continuando o texto anterior (leia aqui), agora nos voltamos para Calvino, cuja doutrina da certeza da salvação é mais famosa. Diferentemente de Tomás, que localiza a certeza da salvação na virtude da esperança, Calvino a coloca na virtude da fé; ainda assim, a diferença não é gritante se lembrarmos que Tomás coloca já na fé o fundamento da esperança, na medida em que a fé tem por objeto o Deus onipotente e misericordioso. Continue lendo “Certeza da salvação (II): João Calvino”

Certeza da salvação (I): Tomás de Aquino

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“Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.” (Judas 20-21)

A caminhada cristã é marcada, nutrida, sustentada, regida e consumada pela misericórdia de Deus. A bondade efusiva e obstinada do Pai das luzes, sumamente manifestada e realizada em seu Filho Jesus Cristo e trazida a nós nos meios de graça e esperança da glória eterna no poder do Espírito Santo, é a única cura para a chaga mortal do pecado humano, chamando-o a nova vida. Continue lendo “Certeza da salvação (I): Tomás de Aquino”