Oração é Coração

Oração não é falatório, mas alinhamento entre o coração e Deus.

Isso revela um dos perigos de achar que o mais importante na oração é usar palavras espontâneas, falar do seu jeito, pois você acaba tratando a oração como um falar com Deus, conversar com ele, dizer coisas a ele. Isso é parte da oração, mas há algo mais fundamental.

Quando dizemos “Santificado seja o teu nome”, como Cristo ensinou, o que estamos fazendo?

O nome de Deus já é santo, e não estamos simplesmente pedindo a Deus para que continue sendo assim ou que isso seja reconhecido por outras pessoas. O que fazemos, ao pronunciar essas palavras, é posicionar nosso coração do melhor jeito. Cristo nos dá as palavras certas, nas quais podemos meditar, para que possamos estar com Deus. São palavras que nos ajudam a preparar o coração para a graça.

Sem proibir outras formas, Cristo nos ensinou a invocar a Deus dizendo “Pai” ou “Abá”. Essas palavras não têm efeito sobre Deus (ele já sabe que é Pai e não esquece disso), mas sobre nós mesmos, quando as pronunciamos de maneira significativa. Nossa fragilidade se esquece ou desacredita da filiação. As palavras certas, na oração, ativam na nossa fé certa dimensão de honra, proximidade e (lateralmente) fraternidade.

Não sentimos a mesma coisa quando dizemos “O Senhor é meu pastor, e nada me faltará”? Não nos recordamos do seu cuidado? Não reafirmamos nossa fé em sua bondade? As palavras da oração reposicionam o coração.

Tudo isso se perde ou se enfraquece quando eu trato a oração como se fosse apenas dizer coisas a Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Como orar os Salmos?

Se Deus nos deu um livro de orações canônico, os Salmos, é porque ele quer que façamos uso dele. Na verdade, desde o princípio e ao longo dos séculos os cristãos sempre usaram os salmos, enriquecendo sua vida de oração em geral.

De certo modo, a resposta é: simplesmente leia (ou recite) os salmos com fé e esperança. A oração dos Salmos não deve ser um grande desafio na vida pessoal e particular, ou também comunitária, então as orientações dadas aqui são maneiras de melhorar a leitura. No fundo, você já sabe como fazer.

O corpo: Você pode orar os salmos de várias maneiras, mas uma particularmente apropriada é de pé, com o livro em mãos. Você também pode fazê-lo de joelhos (como vários salmos convocam a fazer). Com o tempo, você vai notar a diferença que faz a posição do corpo. Pessoas desacostumadas a orar de olhos abertos, geralmente pelo hábito de se limitar à oração extemporânea (“espontânea”), encontrarão algum desafio, mas o novo hábito vence, no médio prazo.

A voz: Ore os Salmos em voz alta. Usar a sua voz é uma maneira de concentrar a atenção, e de louvor a Deus com o corpo. Não se apresse demais, “deguste” cada verso, cada sentença. (Os versos dos salmos geralmente são divididos em duas partes paralelas.) E lembre-se: seja reverente, mas mostre vigor. Os salmos são cânticos de guerra.

A história: Cada salmo tem sua história, seu processo de formação, mas colocá-los em uma coleção, dentro do cânon, é dar forma a uma nova obra. Os salmos são a história de um povo em oração. São peregrinos em busca (e com saudade) da Cidade Santa, com espírito sedento pela presença divina e pelos tabernáculos do Senhor. São soldados e generais em guerra, procurando a proteção do Senhor contra os seus inimigos. São pecadores afligidos e contritos, penitentes. São adoradores manifestando louvor alegre e convocando toda a criação, na terra e nos céus, a adorar o Senhor. É um povo sofredor com a esperança do reino universal de Deus sobre todos os povos. Ao orar os salmos, nós nos colocamos como parte dessa história. Esteja consciente disso.

O espírito: os salmos devem ser orados com espírito de devoção e fé, não de estudo. É possível estudar os salmos, é importante fazê-lo, mas orar os salmos não é ficar procurando detalhes para satisfazer a curiosidade intelectual, mas encontrar neles aquilo que enriquece a nossa fé. Deixe o estudo dos salmos para um outro momento.

A contrição: Os salmos penitenciais são os salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Esses sete salmos são particularmente importantes para confessarmos ao Senhor os nossos pecados. Quando algo que você fez lhe pesar à consciência, recite esses salmos (agora de joelhos), pedindo perdão ao Senhor. Como sempre pecados, esses salmos devem ser nossos companheiros de caminhada.

Há outros blocos que seria importante conhecer e usar em conjunto, como os salmos de entronização (especialmente 95-100) e o Halel (113 a 118), que são ótimos para adoração.

A apropriação: Como dito acima, nós somos parte dessa história que os salmos contam. Assim como Pedro em Atos 4:24-30, aproprie-se das palavras dos salmos nas suas próprias orações. O sentimento deve ser: o Deus dos salmos é o mesmo Deus que nós adoramos. Um exemplo de como fazer isso diz respeito à nossa batalha espiritual. Os salmos foram, vários deles, escritos em situação de guerra ou conflito com os inimigos. Mas, como aprendemos no Novo Testamento (Ef 6), nossos inimigos são espirituais, são os poderes das trevas, e é principalmente contra eles que devemos direcionar as armas dos Salmos. Essa batalha é mais óbvia no Salmo 91, mas os “salmos imprecatórios” devem ser usados assim também. Pense, por exemplo, nas palavras do Salmo 35:1-5, que, particularmente, me trazem bastante conforto. O Salmo 5 é uma bela oração matutina que pode ser empregada assim. Assim como os nossos maiores inimigos são espirituais, nosso maior aliado é Cristo, que ora conosco nessa batalha.

As aspirações: Versos isolados dos salmos são muito apropriados como orações breves, chamadas “aspirações”, que podem ser usadas ao longo do dia repetidas vezes, ou em momentos específicos, como no começo de alguma oração, antes da leitura da Bíblia etc. Alguns exemplos comuns:

  • “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor , rocha minha e redentor meu!” (19:14)
  • “Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.” (28:9)
  • “Praza-te, Senhor, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” (40:13)
  • “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos.” (43:3)
  • “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (51:10)
  • “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca manifestará os teus louvores.” (51:15)
  • “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.” (57:5)
  • “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, e concede-nos a tua salvação.” (85:7)
  • “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.” (119:18)

• A frequência: Use ao menos um salmo por dia, no começo. Depois que o hábito estiver firme, dois salmos (um pela manhã e outro à noite). Você pode usar o Salmo 95:1-7 (seguido do Salmo 96:9,13) pela manhã e o Salmo 141 à tarde/noite.

A constância: Use os salmos em todas as situações, mesmo quando nossos sentimentos não estão no lugar. Vários Salmos foram escritos em momento de intensa angústia (como o Salmo 88), mas eles são orações, ainda assim, e mostram como a oração deve ser feita mesmo quando não estamos em paz.

A conclusão: Costumamos terminar as orações dizendo apenas “Amém”, mas uma maneira de terminar os salmos é com alguma doxologia breve (como o “Glória ao Pai”). Uma forma fácil é, após finalizar o salmo, repetir algum verso que chame mais à sua atenção ou seja mais coerente com a sua situação. Aliás, os cinco blocos de salmos bíblicos são separados por quatro transições que são doxologias, e que podem ser usadas (de memória) quando concluímos algum salmo: Sl 41:13; 72:19; 89:52; 106:48. Depois, como sempre: Amém!

• A memorização: Todo cristão deveria conhecer alguns salmos de memória. Alguns salmos que seria interessante considerar memorizar: 23 (segurança), 24, 42-43, 46, 67, 91 (batalha espiritual), 95, 100, 113, 116 (gratidão), 130 (penitência).

• O compromisso: Os salmos apresentam uma forma de oração que não é natural para muitos cristãos, os “atos de fé”, “atos de confiança” e outros, orações geralmente breves nas quais, em vez de apenas pedir algo a Deus, nós nos posicionamos diante dele e afirmamos a nossa fé, nossa esperança, nosso amor, nossa devoção, nosso compromisso e outras coisas. Esse tipo de atitude exigirá, em algumas situações, certa ousadia, mas também serão uma forma de avivar nossa fé e reafirmar nossa lealdade ao Senhor, portanto são uma forma importante de adoração. Alguns exemplos:

  • “No tocante a mim, confio na tua graça;” (13:5a)
  • “Eu te amo, ó Senhor , força minha.” (18:1)
  • “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” (23:6)
  • Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes.” (27:13)
  • Aguardo o Senhor , a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra.” (130:5)

• A defesa: Os Salmos não são apenas deprecação, mas também defesa. Neles, não apenas afirmamos nossa culpa, mas também nossa inocência (“Lavo as minhas mãos na inocência”, 26:6), e, com isso, pedimos que Deus faça justiça diante da nossa situação (“Faze-me justiça, ó Deus”, 43:1). Essa ousadia é necessária numa vida espiritual equilibrada.

Experimente orar os salmos. Encontre nele uma história que, passando por montes e por vales, encontra ao fim sempre motivo de gratidão e para um cântico novo, um motivo para dizer: Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo pôs fim à limitação dos sacrifícios?

Existe uma maneira incorreta de contar a história do Antigo Testamento ao Novo, quanto ao tema do sacrifício. Algumas pessoas pensam a coisa assim: no Antigo Testamento havia os sacrifícios de animais, como maneira de receber o perdão de Deus, e o Novo Testamento veio e aboliu a coisa com o sacrifício de Jesus.

Esse equívoco é comum em pessoas que só leem a Bíblia e o fazem de uma maneira mais desatenta e particularmente “pactual”. (Não me refiro à “teologia do pacto” reformada.) É como se o sacrifício de animais fosse a maneira única de receber perdão na Antiga Aliança e isso termina com o sacrifício de Cristo. Isso leva a vários enganos tanto no entendimento da natureza dos antigos sacrifícios quanto na da obra da Redenção.

É verdade que, de uma perspectiva cristã, o sacrifício de Cristo torna sem sentido os antigos sacrifícios (como em Hebreus). Mas uma coisa é explicar uma relação teológica e simbólica, outra coisa é contar uma história. No mundo concreto dos fatos humanos, há sempre uma imensidão de fatores em jogo. A história não é tão simples.

Na verdade, os sacrifícios continuaram sendo realizados depois que Cristo morreu — e os apóstolos aparentemente continuaram envolvidos nesse sistema simbólico por um tempo —, e muito antes dele nascer as pessoas já sabiam que os sacrifícios não eram a única maneira de receber perdão. Outras ações eram equiparadas.

Quando a maior parte do Antigo Testamento foi escrita, várias religiões do mundo antigo (inclusive a israelita) haviam passado por um processo de espiritualização e interiorização do sacrifício: o rito exterior passou a ser visto como uma “corporificação” (em forma de dom) das intenções interiores dos adoradores, assim como uma maneira de tornar visíveis a comunhão entre os adoradores e (no caso dos sacrifícios expiatórios) o perdão divino. Embora a ideia já tenha sido criticada sob várias frentes, e muitas vezes a crítica seja legítima, ela continua existindo nos estudos da área, sob o nome, popularizado por Jaspers, de “Era Axial”.

Ademais, por fatores de sua própria história, a religião oficial passou por um tempo sem seu próprio Templo. Assim como no judaísmo contemporâneo, que encontra perdão sem o oferecimento de animais, assim também foi em tempos anteriores. Por isso, nós nos deparamos, tanto em trechos do Antigo Testamento e na literatura posterior, a equiparação de várias ações religiosas não-sacrificiais ao sacrifício. Por exemplo:

• O sacrifício agradável a Deus é o do coração (Sl 51:16-17).

• Diversas ações são tratadas como sacrificiais (Sir 35:1-5).

• Pede-se que a oração seja tratada como incenso e sacrifício (Sl 141:2; cf. Pv 15:8). Assim também o cântico (Sl 27:6; 50:14,23; 54:6; 107:22; 116:17).

• O temor é maior que os sacrifícios (Jud 16:16).

• A esmola e misericórdia expia pecados (Pv 10:2; 11:4; 16:6; 21:3; Tob 4:7-11; 12:8-9; Sir 3:33; cf. Os 6:6).

• A honra aos pais expia pecados (Sir 3:3,14).

• Mudança das más obras para as boas, na prática da justiça, é suficiente (Ez 18).

• Os mártires faziam expiação pelos pecados da nação (Dn 3:40 LXX; 2Mc; 4Mc).

Por isso, quando Hebreus 13 fala do sacrifício da beneficência e do louvor, ou quando Romanos 12 fala do sacrifício dos nossos corpos, não diz coisa nova. Essa doutrina cristã já estava lá, bem assentada, no Antigo Testamento e nas religiões próximas. Afinal, ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”, Cristo citou o Antigo Testamento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Contemptus mundi: o que significa carregar a Cruz?

Uma pessoa perguntou o que significa tomar diariamente a cruz.

Uma porta para entender esse significado é saber o que a cruz representava na época de Jesus. Era um instrumento de morte do Império Romano, com o propósito de ser público, doloroso e humilhante, castigo exemplar que convidava à execração. Era símbolo punitivo do poder imperial.

Num primeiro nível, carregar a cruz significa estar pronto a aceitar sofrimentos públicos, dolorosos e humilhantes, como os de Jesus, como consequência de o seguirmos num mundo que o odeia. Devemos sofrer com alegria, como os apóstolos de Jesus, que se sentiam alegres em serem perseguidos, aceitando rejeições sem reclamar, antes com gratidão.

Essa dimensão de carregar a cruz naturalmente se abre para um universo mais amplo, pois a única maneira de aceitarmos esses sofrimentos e rejeição é se a nossa vida interior estiver arraigada numa alegria celestial, e não naquilo que diabo e o mundo oferecem em termos de prazer e aceitação.

Então essa aceitação de sofrimento imperial cede muito facilmente àquela ampliação pela qual, aparentemente, o responsável foi São Paulo. Pois nele vemos não apenas um crucicentrismo insistente, mas uma imagem da transfiguração cristã como repetição da vida de Cristo: padecemos com ele, morremos com ele, somos sepultados com ele, revivemos com ele.

Então, para Paulo, estar crucificado significa morrer para o pecado (Rm 6:6), para as paixões (Gl 5:24) e para o mundo (Gl 6:14), três esferas interligadas pela doutrina apocalíptica. Cristo se entregou (na cruz) para nos livrar do presente século mau.

Isso se liga à imagem mais ampla do “mundo” no Novo Testamento, enquanto uma era maligna. Morrer para o mundo significa não ser guiado pelas preocupações e promessas do mundo, como a fama, a glória do mundo, a riqueza do mundo. Os discípulos de Jesus não pertencem ao mundo e não devem amar o mundo ou ser amigos dele, ou conformados a ele.

O mundo é a esfera de atuação diabólica. Satanás “engana todo o mundo”, é o “príncipe deste mundo”. O mundo “jaz no maligno”. Os que andam segundo o curso do mundo andam debaixo desses poderes espirituais tenebrosos e enganadores, as forças espirituais da maldade.

Em razão disso, o mundo envolve ilusões que nos prendem aos pecados: cuidados, enganos, ambições, corrupção, paixões, soberba, ódio. A única maneira de se livrar delas é não seguir “o curso do mundo”, antes desprezá-lo, por amor a Cristo.

O mundo é, em suma, a cidade dos homens, que vive para si mesma, para este tempo, para glórias passageiras. Mas a aparência do mundo passa, o mundo passa, e nossos pensamentos devem se dirigir às realidades celestiais e eternas. Tudo o que é o que é passageiro deve ser visto à luz do eterno. O mundo é a criação sujeita à vaidade, ao amor àquilo que não é importante. Santo Agostinho é, nisso, filho de São Paulo e dos apocalipses.

Embora o desprezo pelo mundo (contemptus mundi) seja costumeiramente associado aos celibatários e monásticos, que, por um cumprimento estrito das palavras paulinas, evitam se prender às “coisas do mundo” para se dedicarem às “coisas do Senhor” — significando, portanto, que à maioria dos cristãos é necessária certa lida com o mundo (tolerada ou aceita?) —, o fato é que, no sentido apocalíptico, nenhum cristão deve amar o mundo. E carregar a cruz é sofrer as consequências de não amar o mundo.

Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?” (Marcos 8:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Lava-Pés: Quatro Sentidos

Podemos ver quatro sentidos (não exaustivos e não exclusivos) no ato de Cristo de lavar os pés dos seus discípulos.

☩ Sentido Literal: Ao lavar os pés dos discípulos, Cristo coloca diante deles um exemplo a ser seguido. Eles deveriam estar dispostos a ter seus pés lavados e lavar os pés mutuamente, mostrando, com isso, um compromisso de humildade, serviço, reciprocidade, fidelidade a Cristo. No ambiente semítico e oriental de Jesus, o gesto de lavar os pés de outra pessoa era desonroso e inaceitável, que dirá se feito por um mestre, mas esse amor extremo de Jesus deve iluminar todas as nossas práticas e toda a nossa vida.

☩ Sentido Alegórico: O lava-pés é um ato profético (“compreendê-lo-ás depois”) que aponta, no contexto do Quarto Evangelho, para a missão do próprio Cristo, que foi despido em sua Paixão e verteu água quando ferido. Seu sacrifício traz transformação e pureza para os seus discípulos, uma pureza da qual eles precisam continuamente se limpar. Eles devem confiar em Jesus, e confiar que a humildade dele na cruz não é uma derrota, mas o meio pelo qual ele os purificaria. Ao dizer “Se eu não te lavar, não tens parte comigo“, Cristo mostra que não há salvação fora do seu sacrifício. Pedro, resistente à mensagem, representa aqui a Igreja na sua dimensão mais humana, frágil, que tantas vezes resiste ao plano do Senhor. Os discípulos, seguindo o modelo de Jesus, levam a pureza de Jesus para outras pessoas; eles limpam outras pessoas com a graça de Jesus, mas só o fazem plenamente se eles mesmos tiverem sido limpos.

☩ Sentido Moral: O texto aponta para duas dimensões da nossa alma, aquela que mais profundamente está ligada a Jesus (e portanto já está limpa) e aquela mais baixa, que continuamente se suja pelo contato com o mundo. Embora já tenhamos sido purificados por Jesus uma vez, não temos parte com ele a menos que ele limpe os nossos pés. Por isso, para termos plena comunhão com ele, precisamos de que ele nos limpe. A graça de Cristo nos livra mais facilmente dos pecados maiores e visíveis, mas há sempre uma sujeira por baixo que necessita de purificação. “Já lavei os pés, tornarei a sujá-los?” (Cânticos 5:3)

☩ Sentido Anagógico: Esse texto aponta para a pureza plena e definitiva que Cristo trará a nós e a este mundo. Embora ainda enfrentemos o pecado, um dia ele nos purificará por completo, limpará os nossos pés para que estejamos com ele para sempre em Terra Santa, na Nova Jerusalém. Ficarão de fora os impuros, mas, se já tivermos sido purificados pela lavagem do corpo, restará apenas uma limpeza menor, que ele fará por sua graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Caminho do Meio

O diabo é tanto acusador quanto tentador, e nossas lutas com ele devem levar isso em conta. Ele não só nos oferece liberdade para pecar, mas também usa a condenação da lei para nos enfraquecer. Ele nos seduz a cair e nos prende quando caímos.

Ele trabalha nos extremos e nos confunde sobre eles. Quando alguém deixa um extremo, ele trabalha para que aceleremos na direção contrária. Para ele, estarmos tristes demais ou alegres demais são tentações igualmente úteis, ambas capazes de nos cegar. Libertinos e legalistas, o diabo os ama.

Devemos trilhar o caminho do meio com confiança, não ouvindo as vozes de quem nos oferece uma fé mais radical — seja mais radical na liberdade ou no rigor. Liberdade e rigor só fazem sentido em função do amor, da caridade derramada pelo Espírito Santo, na unidade do Corpo de Cristo.

Para quem está com o coração em Deus, até as porretadas do diabo, de um lado e de outro, santificam. Por isso também, como ensina São Gregório Magno, grande parte do ministério pastoral é oferecer o remédio suficiente para levar ao equilíbrio.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Escuridão de Deus

“…Moisés, porém, se chegou à nuvem escura onde Deus estava.” Êx 20:21

Estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou…” Dt 5:22

“…O Senhor declarou que habitaria em trevas espessas.” 1Rs 8:12

Das trevas fez um manto em que se ocultou; escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.” Sl 18:11

Nuvens e escuridão o rodeiam...” Sl 97:2

A Escuridão é um lugar privilegiado de encontro com Deus. Se é verdade que encontrar Deus é encontrar a Luz — o querigma joanino é de que “Deus é Luz” —, e que a escuridão seja naturalmente encarada como ignorância e maldade, é igualmente verdade que há uma outra Escuridão, não a destruição da Luz, mas a transcendência da Luz, a Luz Inacessível e Invisível.

Como sabemos, o Mal é a privação do Bem, mas o Areopagita nos ensina que há outra privação do Bem, não abaixo do Bem, mas justamente acima dele, o Um acima de qualquer compreensão, tão supremo que não pode ser pensado ou dito. Não é a ausência, mas a plenitude infinita do Bem, que nos lança em outro tipo de ignorância — não a recusa da Verdade, mas a Verdade insuportável, inabarcável, insustentável, intolerável, incompreensível.

Por isso, a experiência da Escuridão e do Silêncio, na qual nós nos desapegamos de tudo o que é nosso, na qual abandonamos as criaturas, para atentarmos para o que está além da atenção, a experiência além de qualquer experiência, é o lugar de encontro com o Absoluto.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não seria melhor dar tudo aos pobres?

Quando uma igreja é destruída ou depredada por qualquer motivo, de maneira acidental ou intencional, é comum se ver grande comoção e tristeza. Pensemos, por exemplo, no incêndio da Notre-Dame de Paris em 2019, ou na destruição da Igreja Martin Luther (luterana) em 2018, aqui no Brasil. Ou pensemos também naquelas igrejas destruídas por bombardeios, como a Igreja Memorial Kaiser Wilhelm (em Berlim) ou a St Dunstan (em Londres), ambas atacadas por bombardeios na Segunda Guerra, há muito tempo.

Nós nos entristecemos pela beleza perdida e pela comunidade que ali realizava seus serviços religiosos, quando é o caso. A arquitetura sagrada dessas construções nos remete a algo que nos toca profundamente como seres humanos, como pessoas integrais, mesmo quando (normalmente) não somos capazes de interpretar conceitualmente o sentido de cada coisa. É um senso de totalidade e profundidade, de que esses lugares não são casas apenas para abrigar nossos corpos, mas também nossas almas inquietas. Esse tipo de construção se coloca diante de nós como um mundo saturado de sentido e significado, enquanto fora reina a confusão. Não me refiro apenas às catedrais góticas mais famosas, mas mesmo as construções pré-românicas mais simples e brutas, aquelas igrejas visigóticas de pedras irregulares (tão humanas!), se colocam ao nosso redor como uma muralha a nos proteger e a dirigir nossa atenção, sob luz de velas, à única coisa essencial. Estes me falam muito mais, na verdade, inclusive sobre uma vida mais simples.

A destruição ou depredação de igrejas nos diz algo sobre nós mesmos, tanto sobre nosso poder de destruição irrestrito e insano, como também nossa incapacidade de cuidar com atenção e zelo das coisas que afetam nossa alma. O tratamento dispensado às pessoas e às coisas ao nosso redor diz muito sobre nossa própria vida interior, sobre nossas prioridades e nosso tédio (no sentido existencial da palavra). Isso é especialmente verdade quando perdemos o senso de sagrado. Na Antiguidade, como a própria Bíblia testemunha, o espaço sagrado era o lugar de refúgio, onde o sangue não poderia ser derramado em nenhuma hipótese, para onde as pessoas corriam a agarrar as pontas do altar. Foi assim que aprendemos que, no fundo, não devemos derramar o sangue de ninguém.

Nós nos surpreendemos quando ouvimos alguém dizer, diante dessas destruições, que essas coisas não têm importância. Mas não é uma surpresa completa. Não é segredo que muita gente se vê incapaz de reconhecer um valor na beleza artística. Mesmo quando ainda está “pedra sobre pedra”, uma pergunta (legítima) é repetida: não era melhor dar tudo aos pobres? Eu perdi as contas de quantas vezes vi pessoas dizerem coisas assim, geralmente de ateus, cristãos secularizados e evangélicos menos tradicionais. Não haveria uma maneira melhor de investir nosso tempo, recursos e atenção? Não parece um grande desperdício investir em igrejas de pedra belas, ou em conservar as que já existem, quando há outros problemas no mundo?

O que devemos nos perguntar é o que está em jogo: se é não ver real valor nesse tipo de arquitetura, ou se a questão é mesmo com respeito a dirigir os recursos para pessoas pobres (ou outro propósito nobre). Uma pessoa pode achar que esse tipo de construção não tem valor (ou bem pouco), e aí, obviamente, qualquer outro investimento será melhor — o que está em jogo não é exatamente a questão da pobreza (que seria apenas ums forma de atrair atenção para a questão). Outra pessoa pode pensar, no entanto, que tudo deve ser investido na “questão social”, que nenhuma outra forma de direcionar recursos seja válida, mesmo que esse tipo de arquitetura tenha valor. São duas formas diferentes de pensar.

Não é difícil perceber que o cuidado com as pessoas mais pobres é uma questão de muita importância para Cristo, para os apóstolos e para os primeiros cristãos, segundo o testemunho do Novo Testamento. A primeira comunidade de Jerusalém mostra, no relato lucano, uma preocupação muito aguda com a distribuição para os pobres e viúvas, e o apóstolo Paulo, em particular, confere a isso importância considerável, no seu ministério — coisa que ele mesmo conecta a uma orientação dos apóstolos mais antigos. Como no Antigo Testamento, o Novo retrata as obras de misericórdia como sacrifícios a Deus, atraindo o seu favor. Não custa relembrar que Cristo retrata o modo de tratar os famintos, sedentos e nus como determinante no Juízo Final (Mt 25). Isso está continuidade com a maneira como os profetas antigos tratavam as questões morais; de nada adiantava o culto vocal e ritual a Deus se o coração estava longe dele e se as mãos praticavam injustiça. Os jejuns e orações não eram atendidos por Javé. A Igreja morre espiritualmente quando fecha seu coração para esses problemas.

Por isso mesmo, no entanto, é que a questão social se torna facilmente uma boa desculpa para negarmos qualquer outra necessidade dentro da missão da Igreja. “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” (Jo 12:5) — essas são as palavras de Judas, que, no fundo, queria o dinheiro para si. Para Cristo, receber o perfume caro, em vez de doar o valor aos pobres, é uma forma perfeitamente válida e exemplar de honra. Ele não precisava daquele perfume. Mas ai de nós se pensarmos que, porque ele não precisa do que os damos, não devemos lhes dar mais nada. Na verdade, assim, nós nos tornamos pessoas piores.

Essas coisas não são inimigas. Podemos atentar tanto para a melhoria do culto a Deus quanto para as necessidades das pessoas mais vulneráveis. O esplendor da adoração a Deus e o socorro dos necessitados não estão em oposição. Cristo predisse a destruição do Templo de Salomão, mas os próprios discípulos continuaram adorando lá — o livro de Atos tem, em seu programa, o propósito livrar os cristãos da acusação de que eram inimigos do Templo.

A pergunta que cada um de nós deve se fazer é: por que eu não doei aos pobres tudo o que recebi? Essa não é uma pergunta retórica piegas, uma maneira de individualizar uma questões social real. Tente respondê-la. Embora possa ter doado algo, você talvez tenha destinado alguma quantia (excedente) para outras coisas que julgou corretas — talvez com livros e com arte, por exemplo, com coisas que vão te ajudar como pessoa. Porque você sabe que há outras necessidades.

É mais ou menos o motivo pelo qual a Igreja não investe apenas em projetos sociais, mas também em outras coisas — que, por sua vez, devem nos inspirar a servir outras pessoas. Os fatores não são independentes. Então, ao tentar enriquecer o mundo com beleza explicitamente cristã — e não apenas aquela atematicamente cristã já presente no mundo —, com uma contemplação inspiradora e pública, a arte cristã nos dá algo de que todos nós somos indigentes, quanto às necessidades e valores da alma. Não é privilégio de uma elite capaz de viajar ou até de construir para si. Os pobres têm direito a pão e têm direito a beleza.

O Antigo Testamento exemplifica muito bem o modo como Deus atenta para essas nossas necessidades, no detalhamento da construção do Tabernáculo e das vestes dos sacerdotes “para glória e ornamento” — os construtores precisavam mesmo do Espírito profético para realizarem sua obra. A dignidade do lugar e do culto deveria refletir a dignidade de Deus, a “beleza da santidade”, de modo que Deus fosse contemplado no Templo. Por isso, os israelitas tratavam com carinho a dimensão física do culto. “Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste.” (Sl 26:8); “porque os teus servos amam até as pedras de Sião e se condoem do seu pó.” (Sl 102:14).

Esses salmos não são exemplos de um amor doentio pelas coisas ou de um apego infantil pelas realidades corporais. Eles expressam amor a Deus e ao próximo. Amamos as coisas por amor a Deus, porque elas foram consagradas a ele, pertencem a ele, remetem a ele. Por isso, o embelezamento do Templo é visto como um sinal divino (cf. Ed 7:27; Is 60:13).

Essas pedras e símbolos têm um estranho poder acolhedor que nossas construções modernas “puramente funcionais” (ao menos da perspectiva ideológica) não alcançam. Elas clamam e proclamam aquilo que as palavras não conseguem exprimir. Assim como nossas roupas não apenas nos protegem do frio e do olhar, mas nos dignificam e nos colocam acima da condição animal e objetificada — e grande parte da caridade de vestir o nu está aí —, nossas igrejas são como vestes que mostram que há num valor maior do que a nossa própria mesquinhez. Tudo aponta para cima, para fora, para dentro, para baixo, de maneiras diferentes e necessárias.

Essas antigas igrejas, que nós hoje, por priorizarmos mais o dinheiro, não construiríamos, nos falam de uma época em que os homens valorizavam a Deus mais do que nós, a ponto de investirem em construções que só estariam realmente prontas décadas depois de suas mortes, como um testemunho da transcendência do Eterno, e também da eternidade de nosso próprio espírito. Eles não precisavam ver, mas apenas crer, e começar a preparar um mundo melhor para as próximas gerações.

Rev. Gyordano M. Brasilino