Maria Madalena e Maria de Betânia são a mesma pessoa?

Maria Madalena é uma figura misteriosa. Ela é a primeira anunciadora da Ressurreição, mensageira e testemunha das boas novas. Os quatro evangelhos dão a Maria um papel tão importante e, ainda assim, não se preocupam em mostrar detalhadamente quem ela era; ela como que desaparece ante a imagem do Ressuscitado.

Aparentemente os primeiros leitores dos evangelhos sabiam muito bem de quem se tratava. Fora uma menção embaraçosa de possessão demoníaca em Lc. 8:2, os evangelhos só retratam Maria Madalena nos capítulos finais, na cruz e na ressurreição, sem introduzir seu aparecimento entre os seguidores de Jesus. Por estar associada a Magdala, podemos supor que ela se aproximou do Senhor durante a primeira parte do seu ministério, na Galiléa, e parece que os evangelhos o confirmam (Mt. 27:55-56). O mesmo texto de Lucas 8 parece indicar que ela era uma mulher rica.

Sem dúvida, não há nenhuma prova incontroversa de que Maria Madalena era Maria de Betânia, a mulher que, no Evangelho de João, ungiu Jesus (11:2; 12:1-8). Essa identificação é mais frágil do que a identificação entre Tiago de Jerusalém (irmão do Senhor) e Tiago de Alfeu, mas mais forte, por exemplo, que a identificação entre Timóteo e Tito. Já foi a opinião dominante no ocidente por um tempo, e é uma possibilidade interessante a considerar.

Seriam a Maria da unção e a Maria da ressurreição a mesma pessoa?

Sabemos que, por diversos motivos (justos), às vezes os evangelistas “escondiam” as identidades dos discípulos de Jesus (cf. Mt. 9:9; Mc. 2:14; Lc. 5:27), mas eles, especialmente João, parecem nos dar algumas pistas da identificação entre Maria de Magdala e Maria de Betânia. Os determinantes geográficos diferentes (Magdala da Galiléia, Betânia da Judeia) não devem ser um impedimento sério, já que o próprio Jesus é identificado tanto com Nazaré da Galiléia quanto com Belém da Judeia.

No Quarto Evangelho, a família de Maria era muito importante para o Senhor, pois Lázaro foi sobre quem Cristo realizou o último dos seus milagres-sinais, a ressurreição, que acabou sendo o motivo da sua própria crucificação (11:47-53; 12:9-11). Quando o Senhor foi ungido por Maria de Betânia, o Quarto Evangelho relata da boca de Cristo uma palavra especial, diferente da de Mateus e Marcos, sobre o perfume: “Que ela guarde isto para o dia em que me embalsamarem;” (Jo. 12:7). Era a vontade do Senhor que Maria de Betânia participasse do seu embalsamamento.

Quando vemos as mulheres que estavam aos pés da cruz, os evangelhos se referem, além da mãe do Senhor, a duas Marias: “Maria Madalena e a outra Maria” (Mt. 27:61; 28:1), “Maria Madalena, e Maria, mãe de Tiago” (Mc. 15:40,47; 16:1), “Maria, mulher de Clopas, e Maria Madalena” (Jo. 19:25). É importante notar que Mateus se refere à mãe de Tiago e esposa de Clopas como “a outra Maria”, não “uma outra Maria”, como se além de Maria Madalena houvesse apenas uma segunda Maria seguidora de Jesus. Lucas parece ser o evangelho que mais foge dessa identificação, mas ele reconhece que Maria de Betânia era discípula do Mestre (Lc. 10:39; cf. Jo. 11:28; 20:16).

Ora, se era da vontade do Senhor que Maria de Betânia participasse do seu embalsamamento e isso aconteceu, Maria de Betânia deveria ser Maria Madalena.

O Evangelho de João menciona apenas um perfume de Nicodemos (19:39), mas Maria Madalena, segundo o Evangelho de Marcos — que João possivelmente usou como fonte —, foi com as outras mulheres ao túmulo para embalsamá-lo (16:1), tornando-se, nos quatro evangelhos, a primeira testemunha da ressurreição, ela que, em sua própria família, já havia recebido o milagre da ressurreição de Lázaro em João 11. Por isso, nesse capítulo Maria é uma figura semioticamente dominante em relação à sua irmã Marta (11:1,32-33,45). Ela, que estava tão pronta a lançar-se aos pés do Senhor (Jo. 11:32; 12:3), estava também aos pés da cruz, e, por duas vezes, o Senhor a consolou de seu lamento.

O Quarto Evangelho parece presumir essa identidade entre Maria de Betânia e Maria Madalena, dada a continuidade das alusões ao Cântico dos Cânticos, tanto no perfume do rei em João 12 (Ct. 1:12), quanto no desaparecimento do amado em João 20 (Ct 3:1-4). Se elas não eram a mesma pessoa, eram, ao menos, simbolicamente gêmeas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos

 

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As obras de arte têm uma riqueza muito especial, uma certa transcendência natural: o significado da obra se lança sempre para além da intenção do autor. Ainda que seja danoso desprezar essa intenção do autor inteiramente, ela nunca expressa a totalidade da obra, é só uma janela para um mundo diferente. Quando, sob pressão, Varonese mudou o título da sua Última Ceia para Banquete na casa de Levi, ele condicionou significativamente leitura que fazemos da pintura, mas mesmo assim ele não a controla totalmente. Continue lendo “Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos”

A Voz de Cristo nos Evangelhos

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“Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.” (Marcos 13:31)

As palavras de Jesus são o tema de permanente reflexão da Igreja. Com razão a pregação da Igreja acentua os atos salvíficos de Jesus, especialmente sua Encarnação, Crucificação e Ressurreição, mas tudo isso permaneceria sem sentido, se não o recebesse da voz do próprio Senhor. As palavra do rabi da Galiléia alegram e entristecem, escandalizam e atraem, consolam e ameaçam,  condenam e salvam. Continue lendo “A Voz de Cristo nos Evangelhos”

Pecado para a morte

Descamps O SuicídioSe alguém vir a seu irmão cometer pecado não para morte, pedirá, e Deus lhe dará vida, aos que não pecam para morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que rogue. Toda injustiça é pecado, e há pecado não para morte.
(I João 5:16,17)

O que é o pecado para a morte? Por que não rogar pelo que comete esse pecado? Esse é um dos mistérios da Primeira Epístola de João. Há elementos ao longo da carta que, se lidos com atenção e dentro do contexto da tradição joanina, permitem identificar, com razoável probabilidade, o que seja esse pecado. Parece-me até que o “pecado para a morte” seja uma face do tema central da carta, ainda que a referência à intercessão seja uma digressão. Continue lendo “Pecado para a morte”