Jesus não estudou Hermenêutica

Jesus não era biblicista. Certamente ele reconhecia e afirmava a veracidade e a autoridade das Escrituras, referindo-se a eles em seus ensinos. Mas ele as usa com relativa liberdade, seguindo padrões conhecidos da halāḵâ judaica, encarando-as mais como janelas do que como destinos. Ele não esperava que os seus interlocutores usassem as Escrituras de modo restrita, antes traz mais cartas para a mesa.

No diálogo com o intérprete da lei em Lc 10:25ss, Cristo concorda em colocar dois mandamentos da lei acima de todos os demais, mas discorda de que o mandamento do amor ao próximo se limite aos compatriotas. O problema é: se lido de maneira puramente contextual, o mandamento se referia, sim, apenas ao amor entre os israelitas:

Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:18)

Por implicação do paralelismo, o “próximo” corresponde aos “filhos do teu povo”. Essa é a leitura mais natural do texto. Por isso mesmo, o capítulo contém um segundo mandamento equiparando os estrangeiros que vivessem entre os israelitas (Lv 19:33-34); o primeiro mandamento não dava conta. Isso é uma importante expressão de humanidade e empatia, mas não é, ainda, em termos de contexto estrito, um mandamento de amor universal e irrestrito.

Então Cristo usa o mandamento para além dos seus limites contextuais e da intenção do autor. Ele não traz aí um mandamento novo — não é uma questão de “antiga aliança e nova aliança” —, mas observa como deve ser aplicado o mandamento antigo, como a lei deve ser usada. O texto não é a regra última, mas uma expressão dela.

Assim também, nas discussões sobre o sábado. No dia santo, seus interlocutores circuncidavam (Jo 7:21-24) e sacrificavam (Mt 12:5), e isso encontra amparo na lei, de modo que Cristo apela a uma hierarquização implícita nela, que deve ser válida também em situações não prescritas, como naquela de curar no sábado ou alimentar pessoas.

Mas a argumentação vai além: no sábado, eles levavam seus animais para beber água e socorriam seus filhos e animais caídos numa vala (Lc 13:15; 14:5), e isso é um apelo ao senso moral (expresso na lei oral), não à própria lei escrita. O fermento dos fariseus, a hipocrisia (Lc 12:1), consistia precisamente em ocultar o senso moral, e julgar as coisas apenas através de uma prescrição fria da lei, quando ela lhes convém.

Em outras palavras, Cristo exige dos seus interlocutores uma leitura não biblicista, na qual seja válido o princípio da analogia legal através do senso moral. Ele foi além da intentio auctoris e reclamou com quem não fez o mesmo. Se a hermenêutica é a ciência do contexto, Cristo nunca estudou hermenêutica.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo, o Samaritano


Ao contar a Parábola do Bom Samaritano, Cristo reencenou e aprofundou criativamente um tema dos profetas de Israel. Em particular, a parábola provavelmente alude ao sexto capítulo do livro de Oseias. O escriba (real ou ficcional) conhecia essas imagens.

Em primeiro lugar, a essência da parábola pode ser resumida nas palavras célebres do profeta: “misericórdia quero, e não sacrifício” (6:6) — essa era a diferença entre o samaritano (que usou de misericórdia) e o sacerdote ou o levita, preocupados com seus ritos e sacrifícios, mas sem misericórdia. No caso do Cristo lucano, essa mensagem é agora reorientada a expandir o “amor ao proximo” além das fronteiras nacionais.

Em segundo lugar, o texto de Oseias carrega a crítica aos sacerdotes, tratados como perversos e corruptos. “Como bandos de assaltantes que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém…” (6:9). Na parábola, o que mata não é a ação dos sacerdotes, mas sua negligência, indiferença e incompaixão. Eles são como cúmplices, nesse sentido. A Siquém de Oseias, assim como a Jericó da Parábola, é o caminho do Norte, o caminho do Inimigo.

Em terceiro lugar, o próprio Deus se compromete a curar a nação (6:1), vivificando-os ao segundo e ao terceiro dias (6:2). No entanto, enquanto ali a ferida a ser curada é causada pelo próprio Deus, como castigo, na parábola a ferida é causada por ladrões.

Essa história profética agora é relida a partir da mensagem de Cristo sobre o amor para com o inimigo, não presente na crítica original, embora não também desconhecida de Israel (p. ex. Jonas; Jacó e Esaú). Mas aqui essa misericórdia não é reativa (ao arrependimento), mas iniciativa. Na narrativa de Lucas, Cristo havia sido “proscrito” da vila samaritana.

Ao ler a parábola em continuidade com essa crítica profética, ela assume uma aplicação mais ampla do que a óbvia, na misericórdia pessoal nas necessidades básicas — ela nos desafia a reavaliar a maneira como limitamos o nosso amor no trato para com os de fora. Essa misericórdia não é uma doutrina abstrata; ela é vista como um projeto divino no mundo, diferetamente ligado à restauração de Israel, e Deus aparece como aquele que cura. Cristo desafia o escriba a ler o mandamento (do amor ao próximo) para além do contexto original, que provavelmente falava do amor apenas entre israelitas e imigrantes.

Quanto ao seu núcleo se sentido, a parábola não é uma alegoria, mas uma história exemplar (Caird). No entanto, ela tem várias camadas, sendo construída a partir de imagens recebidas das tradições proféticas de Israel — como acontece de modo óbvio também na Parábola dos Lavradores Maus. E, nesse sentido, ela naturalmente se presta ao uso cristão posterior, como alegoria de Cristo como exemplar máximo de amor, como Divino Samaritano.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por eu amo o Evangelho de Lucas?

Dez Razões:

1. É o único evangelho que fala dos muitos evangelhos anteriores (1:1-4). Esse prólogo é bem precioso dentro da nossa compreensão da formação dos evangelhos.

2. É um evangelho mais dirigido a um público gentio, mas contém uma quantidade surpreendente de ditos de Jesus não interpretados, preservados numa forma semítica mais original que a de Mateus, como “Bem-aventurados [vós], os pobres” (6:20) ou o dito sobre odiar a todos (14:26).

3. Enquanto Mateus segue Marcos muito de perto, Lucas produz uma reorganização muito mais intensa. Com isso, ele se torna o evangelho mais longo. (Não deixe que o número de capítulos que usamos para dividir Mateus te iluda.)

4. É o único dos quatro evangelhos em que a mulher que ungiu Jesus foi uma “pecadora” (Lc 7), que Cristo acolhe. Nos demais evangelhos, a história se dá com uma mulher de Betânia (Maria de Betânia em João).

5. Dos quatro evangelhos, é o que enfatiza mais o lugar dos pobres e necessitados (anawim) e, com isso, tem uma ênfase na compaixão maior que os demais evangelhos. Também é um evangelho que fala mais sobre as mulheres em torno de Cristo. De fato, o Cristo lucano associa esse alcance dos pobres e perdidos à sua missão explicitamente (4:16-21; 19:10). (Mais sobre isso adiante.)

6. É o que tem mais parábolas exclusivas, como o Bom Samaritano, a Moeda Perdida, o Filho Pródigo, o Juiz Injusto, o Rico e Lázaro, o Fariseu e o Publicano. Naturalmente, muitas dessas parábolas tematizam a compaixão. Não são apenas parábolas exclusivas, mas também são parábolas que cativaram a imaginação dos cristãos ao longo dos séculos.

7. É evangelho que tem a maior narrativa natalina, com vários cânticos e anjos; Mateus tem algo, Marcos e João não têm nada. Por isso, é o evangelho que chama Maria de “mãe do meu Senhor”. Essa narrativa natalina exclusiva tem uma participação intensa do Espírito Santo, com diversas ações e revelações, um “pré-Pentecostes”.

8. É o evangelho que conecta mais explicitamente a mensagem apocalíptica de Cristo à destruição de Jerusalém pelos romanos (Lc 21).

9. É o evangelho que mais tematiza o custo de seguir Jesus.

10. O evangelho de Lucas não tem quase nenhuma explicação salvífica para a cruz de Cristo. (Mais sobre isso adiante.)

Lucas não é o mais impressionante, mas com certeza é o mais surpreendente dos evangelhos.

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Se os evangelhos sinóticos já manifestam interesse na compaixão, o Evangelho de Lucas é o que mais ressalta a preocupação de Jesus para com os pobres, pequenos e perdidos.

Alguns exemplos:

• As bem-aventuranças que em Mateus falam dos “pobres de espírito” e dos que “têm fome e sede de justiça” (5:4,6), em Lucas se referem aos “pobres” e que “têm fome“, contrapostos aos ricos e fartos (6:20-21a,24-25).

• Somente Lucas registra as palavras de Jesus sobre convidar os pobres e doentes, não os amigos e ricos, para um banquete (14:12-14).

• Somente Lucas registra parábolas sobre os perdidos que desejam se aproximar de Deus e são impedidos ou julgados por outras pessoas, como o Filho Pródigo, o Fariseu e o Publicano e, indiretamente, também o Bom Samaritano. Também só nesse evangelho aparece a parábola do Rico Tolo.

• Assim também, só nesse Evangelho aparece a história de Zaqueu, a versão da história da mulher que ungiu Jesus em a mulher é uma pecadora, e a ressurreição do filho da viúva em Naim.

Por isso, Lucas mostrou também em mostrar, no livro de Atos, a solidariedade dos discípulos para com os necessitados e viúvas. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;” (Lc 4:18a)

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Uma observação interessante, sobre o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos, é que seu autor, mais do que qualquer outro na Bíblia, trata o exorcismo como cura, dizendo que os possessos são curados.

Por exemplo:

Lucas 8:2 “…algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades…”

Atos 5:16 “…doentes e atormentados de espíritos imundos, e todos eram curados.”

Isso afeta a discussão sobre a relação entre o exorcismo e os carismas do Espírito santo, já que Paulo fala em “dons de curar”.

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Jesus morreu pelo perdão dos nossos pecados?

Um dos traços mais surpreendentes da obra de Lucas (Evangelho e Atos) é a ausência quase completa de uma explicação teológica da paixão e crucificação de Jesus. A morte de Cristo aparece muito mais como um martírio, nunca como um sacrifício expiatório explícito.

Mesmo na narrativa da instituição da Eucaristia, diz-se apenas que o sangue de Cristo é derramado “hyper hymōn” (por vós, em vosso benefício), sem uma conexão com a remissão dos pecados, que aparece em Mateus (cf. Mt 26:28; Lc 22:20).

No livro de Atos, nos momentos em que a graça e a remissão de pecados são mencionadas, não há ligação explícita com a paixão e crucificação. Para Lucas, é possível pregar o Evangelho, ao menos em sua forma mais primitiva e querigmática, sem referência à remissão dos pecados, mas não sem o milagre da ressurreição.

Por outro lado, em vários momentos se fala da paixão do Senhor e de como essa morte foi predeterminada nos planos divinos, de como Cristo tinha que sofrer, mas os sermões são marcados pela ênfase típica lucana sobre o milagre: agora, a ressurreição, a exaltação após o sofrimento. Cristo precisou padecer (At 3:18), é verdade, mas os discípulos também (5:41; 9:16).

Em toda a obra lucana, possivelmente a única referência significativa a uma interpretação teológica é At 20:28, que trata o sangue de Cristo como “compra”, não como expiação.

O Credo Apostólico, que não fala da crucificação e remissão de pecados no mesmo fôlego, preserva algo desse querigma lucano.

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A divindade de Jesus às vezes está implícita nas palavras do evangelho. Jesus é aquele que dá sabedoria, por exemplo:

Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem.” (Lucas 21:14-15)

Rev. Gyordano M Brasilino

Simul dignus et indignus

No Evangelho de Lucas, três personagens diferentes confessam sua indignidade diante de Deus: o maior dos profetas, João Batista (3:16); o centurião pagão e romano (7:6–7); o filho pródigo da parábola (15:19,21), que representa imediatamente os publicanos e pecadores israelitas (meio termo entre os outros dois).

Embora duas palavras gregas sejam usadas — hikanos (apto, qualificado) e axios (digno, merecedor) —, a correpondência entre elas é indicada na história do centurião, que usa ambas. Aliás, a versão lucana dessa história é enfática: enquanto Mateus narra o diálogo direto entre o centurião e Cristo, Lucas conta a distância mantida pelo centurião, que depende da intercessão de anciãos judeus e amigos para falar indiretamente com Cristo. Enquanto os anciãos dizem “ele é digno” (do milagre), ele mesmo diz “eu não sou digno… eu mesmo não me julguei digno” (de ver Jesus pessoalmente). Num evangelho tão preocupado em mostrar a aproximação de Cristo quanto aos pecadores — o único que contém o dito de Lc 19:10 —, a fé do centurião é a distância que ele mantém. Tanto a ousadia da aproximação quanto a ousadia da distância são louvadas.

O terceiro caso, a Parábola do Filho Indigno — ela deveria se chamar assim —, retrata um filho que, apesar do reconhecimento da indignidade da condição de filho, tem também a ousadia de retornar para implorar um lugar de servo. Ele é recebido como filho, mesmo indigno, contra os protestos moralistas do irmão, e é recebido na festa. Isso contrasta muito com a Parábola das Bodas (Mt 22:1–14), na qual os convidados indignos são trocados por outras pessoas, que honrem a festa, que venham a caráter, pois o que tem a veste coerente com a festa é expulso — traço ausente na versão lucana. Essa narrativa recorda, tematicamente, as maldições que São Paulo evoca sobre os que participam indignamente (anaxiōs) do corpo e do sangue do Senhor.

Por isso, um evangelho que enfatiza o amor de Deus pelos indignos também é capaz de falar sobre sermos “dignos de alcançar o mundo vindouro” (Lc 20:35) e “dignos de evitar todas estas coisas” (21:36), e fala de diferenças de dignidade (14:8). Essas palavras são exclusivas de Lucas (!), mas o Cristo mateano fala de sermos “dignos de mim” (Mt 10:37–38), isto é, dignos dele, o amando acima de outras pessoas e carregando a cruz com ele, ou de como algumas pessoas seriam dignas da benção apostólica (10:11,13).

Assim também, Paulo fala de sermos “dignos do reino de Deus” (2Ts 1:5,11), e o Apocalipse menciona a promessa divina para as pessoas que foram fiéis a Cristo, “pois são dignas disso” (Ap 3:4). Esse jogo de dignidade e indignidade, o abraço dos pecadores (iustificatio impii) e a congruência do destino último (iudicium operarum), atravessa os evangelhos e o Novo Testamento. Essa dualidade está na raiz da doutrina da dupla justificação.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Magnificat

O Cântico de Maria é um dos três belos cânticos que vemos no início do Evangelho de Lucas, aquele que conta mais detalhadamente sobre o nascimento de Jesus. Os três cânticos estão cheios de alegria e esperança messiânica.

O Magnificat tem quatro partes. A primeira é a adoração profunda e alegre de Maria. A segunda é a exaltação dela por Deus. A terceira é a reviravolta e inversão no mundo pela visitação de Deus: os pobres e pequenos são exaltados, os ricos e poderosos são rebaixados. A quarta é o fundamento de tudo, a lealdade de Deus a promessa feita aos antepassados da nação de Israel.

Assim, é em razão do juramento e da aliança que Deus cumpre agora sua promessa de trazer justiça ao mundo, alegrando o coração de Maria.

Entre a segunda e a terceira partes, há uma transição abrupta. Na segunda parte, Deus exalta a humilde Maria; na terceira, ela fala da mesma coisa acontecendo com o mundo. Mas essas coisas ainda não haviam acontecido; Maria fala no passado de coisas que se fariam no futuro. (Também o Cântico de Zacarias, o Benedictus, trata no passado coisas que se fariam no futuro.) Qual é a relação entre essas duas partes?

O que ocorre é que Maria vê, profeticamente, acontecer nela aquilo que aconteceria no mundo inteiro. Ela é o começo da salvação e redenção que Deus trouxe. A alegria de Maria é o início da alegria escatológica prometida a Israel na visitação de Deus: “Exulta, e alegra-te, ó filha de Sião, porque eis que venho, e habitarei no meio de ti, diz o Senhor.” (Zc 2:10).

É significativo que o cântico de Maria tenha sido entoado, dentro da narrativa do Evangelho de São Lucas, no momento em que Isabel e João Batista se alegram com a visitação de Jesus através de Maria. Assim como o início do Evangelho de Lucas é um pequeno Pentecostes, ele sinaliza o início da Nova Criação. Aquelas duas crianças e aquelas duas mulheres eram as pessoas mais aptas a, naquele momento, reconhecer os sinais dos tempos. Isabel e sua família eram a antiga aliança (ela era Sara), o antigo sacerdócio, o antigo profetismo, obedientes a todos os mandamentos da Lei. Jesus e Maria eram a Nova Aliança. O Antigo se alegra diante do Novo.

Ela, que não tinha filhos, teve um filho, o bendito fruto do seu ventre. Israel, que era infrutífero, agora produziria os frutos dignos do arrependimento.

O Magnificat contempla a misericórdia prometida aos ancestrais, portanto a dimensão de graça e promessa livre, assim como também a obediência de Maria e de Israel (“contemplou a humildade da sua serva”, “sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem”). Ela está em consonância com a mensagem de João Batista, segundo a qual os verdadeiros filhos de Abraão seriam aqueles que obedecessem a Deus.

A essência do cântico é Maria como um sinal profético da alegria escatológica pela visitação transformadora de Deus, como um cumprimento da aliança de Israel.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Parábola Mais Difícil da Bíblia (Explicada)

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A Parábola do Administrador Infiel é provavelmente a mais difícil de toda a Bíblia. Ela contrasta fortemente com a maioria das parábolas, geralmente fáceis de entender, ao menos para quem já é cristão. Sua dificuldade não reside numa dificuldade de tradução, num contexto ininteligível, numa gramática truncada ou num uso de conceitos estranhos. De fato, penso que não haja nada de ambíguo na parábola. Pelo contrário, sua dificuldade reside precisamente no fato de que, mesmo parecendo ser muito clara, ela coloca diante de nós uma linguagem realmente chocante. Como Cristo pode ter louvado um ato de desonestidade, particularmente quando quem o realiza pensa apenas em si mesmo? O que Cristo espera que nós façamos diante disso? Essas são as duas perguntas principais a se fazer. Parece que algo não faz sentido; parece que falta algo.

Pretendo dar ao leitor um vislumbre do que eu penso ser a leitura correta do propósito dessa parábola. Como se verá, a proposta dessa parábola não é coisa totalmente nova na Bíblia.

A maneira como eu imagino a “cena” da parábola é semelhante à famosa interpretação de Kenneth Bailey. O administrador de um senhor de terras (“um homem rico”) é acusado (diaballein) de defraudar seus bens e, por isso, será demitido. Exige-se que preste contas de sua administração. O drama gira em torno do que esse administrador fará para sobreviver depois que for posto para fora. Ainda de posse dos livros de contas, ele manda chamar os arrendatários das terras, que deveriam pagar àquele senhor certos valores em azeite e trigo. Então ele os faz adulterar os números das contas, diminuindo suas próprias dívidas. Se esse administrador reduz as contas, sua situação fica ainda pior; muito maior razão ele dá para ser demitido. Mas, como a demissão já é certa, não importa. Ele não pretende se defender. Ele precisa arriscar tudo. Então ele usa a situação em seu próprio favor. Os devedores do senhor agora devem, em segredo, um favor ao administrador; em público, o dono da propriedade aparece como um grande misericordioso. Quando o administrador for demitido, os devedores o receberão em suas próprias casas. Aquele “administrador infiel” ou “administrador de impiedade” (ho oikonomos tēs adikias) é louvado por ter usado de astúcia.

Logo após essa parábola, há alguns comentários importantes, que nos ajudam na interpretação. Essa parábola tem a ver com:

  1. Usar injustamente as riquezas (v. 10).
  2. Usa das “riquezas injustas” [en tō adikō mamōna] (v. 11), [ek tou mamōna tēs adikias] (v. 9).
  3. Receber a verdadeira riqueza [to alēthinon] (v. 11.). Isso corresponde a ser recebido “nos tabernáculos eternos” (v. 9). Os amigos feitos através das riquezas nos recebem nos tabernáculos eternos. Há aqui uma referência escatológica.
  4. Ser fiel no uso do que é alheio (v. 12).
  5. Servir apenas a Deus, não às riquezas (v. 13).
  6. A avareza dos fariseus (v. 14), pois “aquilo que é elevado entre homens é abominação diante de Deus” (v. 15).

Para entender a parábola, há dois requisitos. O primeiro é uma teologia correta da riqueza e da esmola, para além de qualquer convivência cômoda com as riquezas. O segundo é eliminar interpretações radicais do princípio “sola fide”; essa parábola não é compatível com elas. Uma lição da parábola é sobre fazer amigos para herdar a vida eterna.

O primeiro problema com o que nos deparamos diz respeito à desonestidade. Poderia Cristo usar um desonesto como exemplo? Existe uma discussão sobre se a palavra “senhor” em Lc 16:8 deve ser traduzida e entendida como o “senhor [da terra]” ou como o “Senhor” (Cristo). Para efeitos do problema da desonestidade, não faz diferença, pois, nas falas seguintes, Cristo toma o caso como exemplar.

Na verdade, o que ocorre é que nem sempre as parábolas têm o propósito de refletir a natureza divina. Na Parábola da Viúva Importuna (Lc 18:1-8), o lugar que deveria ser o de Deus é ocupado por um juíz iníquo. A perseverança na oração é exemplificada em uma viúva que insiste à porta de um juíz mau e finalmente é atendida. É preciso entender que, embora algumas parábola sejam alegorias, essas parábolas com as quais lidamos não o são. São exemplos vivos retirados da vida humana. Assim, nem todos os detalhes da parábola são aplicáveis para nós, inclusive a “desonestidade”. Há algo que Cristo quer que façamos, seguindo o exemplo do administrador desonesto. Cristo vê uma certa inteligência no modo como os filhos das trevas lidam entre si, e ele quer que seu discípulos aprendam isso (v. 8). Ou seja, Cristo que que seus discípulos (filhos da luz) aprendam a usar o que está em suas mãos para se safarem do que virá. Eles devem ser intencionais.

Mas como assim? O que está nas mãos dos discípulos? O que virá?

Essa parábola, como várias outras (inclusive a próxima parábola no mesmo capítulo), lida com o juízo final, com o destino dos homens. Noutra parábola lucana, Cristo trata seus discípulos como administradores no contexto da Parusia (Lc 12:42-48). A própria ideia de um acerto de contas é uma metáfora escatológica de juízo (Mt 12:36; 18:23; 25:19; Rm 14:12; Hb 13:17; 1Pe 4:5). Seremos julgados pelo modo como tratamos o que temos (como na parábola das minas/talentos). No caso do administrador injusto, ele já começa a história condenado, mas deve encontrar um jeito de se safar. O momento da demissão está perto de chegar; enquanto ainda é administrador, aproveita o tempo que tem para usar os “recursos” que tem em seu próprio benefício. Nós, como administradores das riquezas, sabemos que as perderemos um dia, isto é, elas faltarão (Lc 16:9). Mamom é passageiro (Mt 6:24 // Lc 16:13 [Q]). Como a tradição profética do Antigo Testamento assinala, nossas riquezas não nos livrarão no dia da ira (Pv 11:4; Ez 7:19; Sf 1:18).

O “susto” que o administrador tem diante da demissão que vem e do pouco tempo que resta coloca diante de nós a dimensão escatológica da conversão. Enquanto podia viver sem se preocupar com o amanhã, aquele homem foi um mau administrador. Mas sabendo que o dia do seu juízo chegaria, ele agiu, inclusive apressando os devedores. Ao fazê-lo, ele será recebido em suas casas. Nós, ao fazermos amigos usando das “riquezas da injustiça”, seremos recebidos nos “tabernáculos eternos” (linguagem escatológica, cf. 2Co 5:1).

Mas que relação há entre uma coisa e outra? Como ligar riquezas, amigos e vida eterna?

Essa é uma das parábolas exclusivas do Evangelho de Lucas. Lucas tem uma preocupação particular com a pobreza e com a esmola, desprezando as riquezas passageiras. Embora coisas assim sejam achadas nos demais evangelhos sinóticos, essa é uma ênfase particular de Lucas, é parte do seu traço redacional. Várias das parábolas exclusivas de Lucas lidam especificamente com a misericórdia. De fato, a parábola seguinte lida ainda com riqueza e pobreza (o Rico e Lázaro); ambas iniciam falando de um “homem rico” (Lc 16:1; 18:19). A tradição sinótica registra bem o dito de Cristo sobre a impossibilidade da salvação do rico (Mc 10:25 par.), diante do que Cristo assinala a possibilidade de salvação do rico. É possível para o rico, mas como? Penso que o propósito dessa parábola é, ao menos em parte, explicar como.

Se usamos riquezas para fazer amigos, é natural que esses amigos sejam pessoas necessitadas de dinheiro, os pobres tão enfatizados por Lucas, os miseráveis. A parábola lida com o modo como herdamos a vida eterna (somos recebidos nos tabernáculos eternos) ajudando os pobres. Não apenas entramos nos tabernáculos eternos em razão deles; eles nos recebem nos tabernáculos eternos. O Antigo Testamento conhece a intercessão (bênção) ou imprecação (maldição) do pobre em relação a quem lhe dá ou recusa socorro; isso aparece especialmente nas obras (como Deuteronômio e Provérbios) em que o cuidado com os pobres é mais acentuado. Por exemplo:

Êxodo 22:26,27 : “Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha restituirás antes do pôr do sol; porque é com ela que se cobre, é a veste do seu corpo; em que se deitaria? Será, pois, que, quando clamar a mim, eu o ouvirei, porque sou misericordioso.”

Deuteronômio 15:9,10 : “Guarda-te não haja pensamento vil no teu coração, nem digas: Está próximo o sétimo ano, o ano da remissão, de sorte que os teus olhos sejam malignos para com teu irmão pobre, e não lhe dês nada, e ele clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado. Livremente, lhe darás, e não seja maligno o teu coração, quando lho deres; pois, por isso, te abençoará o Senhor, teu Deus, em toda a tua obra e em tudo o que empreenderes.”

Deuteronômio 24:12-15 : “Porém, se for homem pobre, não usarás de noite o seu penhor; em se pondo o sol, restituir-lhe-ás, sem falta, o penhor para que durma no seu manto e te abençoe; isto te será justiça diante do Senhor, teu Deus. Não oprimirás o jornaleiro pobre e necessitado, seja ele teu irmão ou estrangeiro que está na tua terra e na tua cidade. No seu dia, lhe darás o seu salário, antes do pôr do sol, porquanto é pobre, e disso depende a sua vida; para que não clame contra ti ao Senhor, e haja em ti pecado.”

Jó 29:11-13 : “Ouvindo-me algum ouvido, esse me chamava feliz; vendo-me algum olho, dava testemunho de mim; porque eu livrava os pobres que clamavam e também o órfão que não tinha quem o socorresse. A bênção do que estava a perecer vinha sobre mim, e eu fazia rejubilar-se o coração da viúva.”

Jó 31:16-22 : “Se retive o que os pobres desejavam ou fiz desfalecer os olhos da viúva; ou, se sozinho comi o meu bocado, e o órfão dele não participou (Porque desde a minha mocidade cresceu comigo como se eu lhe fora o pai, e desde o ventre da minha mãe fui o guia da viúva.); se a alguém vi perecer por falta de roupa e ao necessitado, por não ter coberta; se os seus lombos não me abençoaram, se ele não se aquentava com a lã dos meus cordeiros; se eu levantei a mão contra o órfão, por me ver apoiado pelos juízes da porta, então, caia a omoplata do meu ombro, e seja arrancado o meu braço da articulação.

Esses textos aludem ao hábito imemorial de que o pedinte socorrido abençoe o que o ajuda. Deus é o defensor e vingador da causa do pobre (Pv 22:22-23; 23:10-11). Como Ben Sira evidencia, essa tradição de valorizar a oração do pobre continuou a existir (cf. Ecclo 4:1-1; 21:6). É relevante que essa ideia do clamor do pobre seja repetida, no Novo Testamento, por Tiago, que conhecia a tradição sinótica (Tg 5:4; cf. Ap Ap 6:9-10). Aí aparece uma linguagem de “justiça” como sendo um “crédito” que se tem com Deus através da obediência (cf. Dt 6:25). Assim, lemos em Pv 10:2; 11:4:

Provérbios 10:2 : “Os tesouros da impiedade de nada aproveitam, mas a justiça livra da morte.”

Provérbios 11:4 “As riquezas de nada aproveitam no dia da ira, mas a justiça livra da morte.”

A justiça livra da morte. Essa justiça (ṣᵊḏāqâ, LXX dikaiosynē), interpretada no contexto judaico como “esmola” (daí Mt 6:1-2), livra da morte. Por isso, textos como Pv 10:2; 11:4 foram interpretados, no judaísmo, como significando que a esmola livra da morte e leva à vida eterna (cf. Tb 12:8-9). O texto de Prv 10:2, em particular, se conecta de modo interessante a Lc 16:9, porque vemos falar aqui dos “tesouros da impiedade” assim como ali se fala das “riquezas da injustiça”. O que esses textos nos ensinam é a doar o que temos, e não reter. Cristo havia condenado o que ajunta tesouros para si e não é rico para com Deus (cf. Lc 12:21,33). Assim, uma riqueza que guardamos para nós mesmos é, naturalmente, uma riqueza injusta.

Em suma, a lição da parábola é fundamentalmente sobre ser misericordioso para alcançar misericórdia. O administrador iníquo foi “misericordioso” (com intenção desonesta) para com os devedores, e por isso eles lhe retribuíram. Assim também, devemos fazer amigos com nossas riquezas, com a boa intenção de que eles nos ajudem no caminho que precisamos seguir. Os misericordiosos alcançarão misericórdia. A retribuição iníqua se torna aí exemplo de como nós, filho da luz, devemos buscar uma retribuição benigna. Algumas pessoas têm dificuldade com a ideia de recompensa que Cristo liga à esmola (Mt 6), porque, pensam, tudo deve ser gracioso. A grande verdade é que mesmo essa retribuição é fruto da graça divina. A fato de que ela se dá através do clamor do pobre, e não por um merecimento nosso, é determinante. De fato, a esmola é um grande ato de fé. É confiança na retribuição divina futura.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que Maria é chamada “mãe do meu Senhor” em Lucas 1:43?

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O primeiro capítulo do Evangelho de Lucas é uma das partes mais encantadoras e fascinantes de toda a Sagrada Escritura, por muitos motivos: conta-nos da origem do cristianismo em termos tão íntimos e tão familiares, ao mesmo tempo tão imersos na religião e no messianismo hebreu, e tão únicos se comparados ao restante do Novo Testamento — como a narrativa tão mais abreviada em Mateus 1 —, fazendo, por alguns instantes, adentrar até mesmo a vida interior de Maria, a quem Isabel nomeia “mãe do meu Senhor” (Lc. 1:43). Essas palavras são surpreendentes em todos os sentidos. Continue lendo “Por que Maria é chamada “mãe do meu Senhor” em Lucas 1:43?”

Deus prefere os pobres?

Viúva pobre

Então, olhando ele para os seus discípulos, disse-lhes: Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus. Mas ai de vós, os ricos! Porque tendes a vossa consolação.
Lucas 6:20,24

Há, de fato, alguns ricos que são justos, humildes e detestam a impiedade; mas eles são poucos. João Calvino, Comentário à Epístola de Tiago

A idéia de que Deus possa preferir alguma pessoa, ou algum grupo de pessoas, é um escândalo para nossa mentalidade igualitária. Atinge, de fato, a nós mesmos — o que fazer se eu não estou entre os preferidos? É inaceitável. Ouvimos dizer que Deus não faz acepção de pessoas, e ao ouvi-lo entendemos que Deus preza a todos igualmente, não despreza a ninguém. Por isso, quando perguntamos se Deus prefere os pobres, a idéia de preferência pode nos chocar, a despeito de quais sejam as nossas intenções quanto a eles mesmo. Continue lendo “Deus prefere os pobres?”