O Amor e a Morte

Amor é ação e hábito. Quem ama procura o bem e a união com a pessoa amada. Quando paramos de agir, nosso amor morre. Isso é muito visível na maneira como lidamos com as pessoas ao nosso redor, mas não para aí.

Há vários anos, ouvi um importante pregador carismático — vocês não saberão quem é — dizer que não mais amava a sua falecida esposa. Não sei se, enquanto ela ainda vivia, ele chegou a lhe dizer que seu amor era “forte como a morte”. As palavras me pegaram desprevenido, mas, refletindo, percebi que isso fazia perfeito sentido, dentro daquilo que aquele pregador acredita sobre a vida após a morte.

O Novo Testamento recomenda a viuvez sem novo casamento — em 1Co como um conselho a todos os cristãos para maior bem-aventurança, e em 1Tm como uma orientação na seleção de bispos e para a ordem das viúvas, de modo que, em ambos os casos, só seria aceita pessoa que não tivesse casado mais de uma vez. Além de uma demonstração de continência e de entrega ao serviço no reino de Deus, a viuvez era, no mundo antigo, uma forma de honrar a memória da pessoa falecida. Com um novo matrimônio, o cônjuge que partiu não será mais lembrado com a mesma ênfase.

Assim como em vida, também após a morte, se não fazemos nada pela pessoa falecida, se deixamos que seu nome morra, nosso amor por essa pessoa morre também, aos poucos. Então damos o nome de falecidos a lugares (como ruas e instituições), fazemos memoriais públicos (como o do holocausto), usamos fotografias, colocamos estátuas em praças, para lembrar essas pessoas de algum modo, hornando a memória daquela pessoa. “A memória do justo é abençoada, mas o nome dos perversos cai em podridão.” (Pv 10:7)

Nós fazemos essas coisas para não nos perdermos, para não nos perdermos. Pois esquecer é amar menos, e amar menos é se perder.

Então práticas cristãs como lembrar os que faleceram e orar por eles é uma forma de vivenciar o amor — desejando o seu bem e desejando nossa união com eles, o que, no fundo, é a mesma coisa em Deus. Esse sentimento de dever para com os falecidos é tão antigo que, dentro da religião israelita, parece preceder historicamente qualquer noção clara sobre vida após a morte e comunhão dos santos.

Se nós nos impomos restrições sobre a memória deles e a oração por eles, é como proibir o exercício do amor — ele atrofia. O resultado é que com o tempo nós até perdemos a consciência de que os que partiram continuam existindo. É como se, após a morte, cada um de nós se tornasse apenas mais um personagem da imaginação. Você não tem mais o que amar, mesmo. O amor é sepultado.

“…para que Davi, meu servo, tenha sempre uma lâmpada diante de mim em Jerusalém…” (1Rs 11:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino