Graça? É isso que diferencia o cristianismo?

Às vezes você vê pessoas definirem a diferença da religião cristã como sendo o conceito de “graça”. A religião cristã seria religião de graça, as outras religiões seriam religiões de obras.

As pessoas geralmente o fazem sem saber que grande parte daquilo que chamamos de graça é encontrada, com o mesmo nome ou com outros nomes, em outras religiões — sobre as quais se tem um entendimento superficial e caricaturado —, e também sem considerar que a própria noção de graça é disputada entre os cristãos. Usando a tipologia de Barclay (2015), não existe acordo total sobre a superabundância, singularidade, prioridade, incongruência, eficácia e não-circularidade da graça. Praticamente nenhum cristão enfatiza essas seis dimensões ao mesmo tempo — eu diria até que tentar fazê-lo é um erro.

A diferença central da religião cristã não está na noção abstrata de graça, mas na maneira como essa graça se manifesta na história redentiva sinalizada no Credo. Como escreveu São Paulo, registrando uma fórmula primitiva da regra de fé:

Antes de tudo, vos entreguei o que também recebi: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e que foi sepultado e ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras.” (1Co 15:3–4)

A história do Deus-Homem que morre pelos nossos pecados, é sepultado e ressuscita ao terceiro dia, como um cumprimento da esperança das Escrituras de Israel, com todas as implicações (soteriológicas, eclesiológicas, escatológicas…), esse é o diferencial da religião cristã.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deserto, Acídia e Noite Escura da Alma

É importante não confundir três coisas: deserto, acídia e noite escura. (A confusão que envolve a segunda tem a ver com inexperiência, enquanto a confusão que envolve a terceira tem mais a ver com linguagens divergentes.)

(I) Deserto é período (dias, meses, anos) de provação no qual há maior aridez, diminuição do prazer imediato nas coisas espirituais e da recompensa instantânea. A obediência permanece, mas ela é mais difícil e custosa. Desejamos um rio, mas lutamos por uma gota. Tentações são mais explícitas, naquilo em que estamos fragilizados. O diabo procura lançar dúvidas e confusão espiritual. Todo cristão passa pelo deserto em algum momento. Não resulta de um pecado nosso específico (não é uma punição), embora seja importante para que conheçamos os nossos pecados e forças, pois o deserto nos ajuda a desnudar nossa condição espiritual, pois faz cessarem certas emoções que ocultam nossos problemas.

(II) Acídia não tem a ver principalmente com as circunstâncias que nos provam, mas com o nosso coração. Acontece todo o deserto em nosso redor, mas a acídia envolve certo desespero ou aceitação da distância em relação a Deus. Ela é uma paixão da carne sobre a alma, mas envolve também desobediência e consentimento, uma desistência de lutar no deserto, portanto com algum grau de rejeição à graça e abandono da continência do Caminho, em busca da comodidade. Na maior parte das vezes em que passamos pelo deserto, especialmente quando mais inexperientes, nós caímos em algum grau de acídia. Essa desistência é muito perigosa, porque pode levar à apostasia: você primeiro desiste do amor, depois desiste da esperança e, por fim, se não se arrepender, desiste da fé.

(III) A Noite Escura da Alma é uma forma de deserto, mas é mais profunda. Não é uma experiência de todos os cristãos, mas daqueles que já alcançaram um aprofundamento místico, certo grau de perfeição acima da maturidade, e que, por estarem mais livres das paixões comuns, sofrem uma provação mais severa, na qual devem simplesmente confiar em Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino