Parônimos criativos

Um dos indícios de que o livro do Gênesis não deve ser tomado literalmente como relato histórico está na própria gramática do texto. Há certos traços que desaparecem quando o texto é lido nas línguas modernas, mas que são parte da riqueza do texto na língua de origem.

Se você perguntar a um muçulmano qual língua Adão e Eva falavam, talvez você receba a resposta de que eles falavam árabe. Isso nos parecerá estranho, como uma cultura se colocando na raiz e no centro de todas as outras. Se você pergunta a um judeu, talvez ouça coisa semelhante: a língua original era o hebraico. Um dos motivos dessa lógica é a própria forma dos textos sagrados dessas religiões. O Gênesis usa vários trocadilhos em hebraico, dando a entender que a língua dos personagens ali é realmente o hebraico, já que os trocadilhos não se preservam em línguas suficientemente distantes. (Razão por que quem lê em português não faz ideia da existência dos trocadilhos na maioria dos casos.)

As línguas semíticas, em particular, favorecem muito o uso de trocadilhos, já que o principal processo de formação de palavras é através de raízes trinconsonantais, que preservam um mesmo sentido nuclear em palavras diferentes; então a semelhança sonora entre palavras diferentes tende a não ser apenas coincidência, mas uma etimologia comum. Ou seja, a estrutura gramatical do hebraico favorece a paronomásia. (Na prática, há muita pseudoetimologia, mas isso é irrelevante. O que importa é que os falantes pensem que a mesma raiz é usada.)

O uso da paronomásia no Antigo Testamento é tão importante que ele até inspira a forma de várias profecias e visões do Antigo Testamento – às vezes, a relação entre o que o profeta vê e o significado da visão se dá através da ligação das palavras.

Isso acontece várias vezes no livro do Gênesis. Os personagens recebem seus nomes a partir das suas origens ou daquilo que se origina deles:

• Adão é tirado do solo, porque ‘ādām (homem) e ‘ădāmâ (solo) têm (para os falantes) a mesma raiz.

• Eva é chamada de “mãe de todos os viventes”, porque “Ḥawwâ” (Eva, vivente) e ḥay (vida) parecem ter a mesma raiz.

• A mulher é assim chamada (‘îššâ) porque procede do homem (‘îš). É fácil ver como essa relação etimológica inexiste no português corrente ou na maioria das línguas. (Ela se preserva no português mais arcaico: varão, varoa.)

Isso não afeta só o nome dos personagens, mas o próprio enredo. Um caso famoso é a transição de Gn 2:25-3:1. Em Gn 2:25, lemos que Adão e Eva estavam “nus” (sg. ʿārôm) e, no versículo seguinte, aparece a serpente como “astuta” ou “inteligente” (ʿārûm). Não é muito coerente que a nudez (desproteção) de uma pessoa convide à astúcia de outra? O contraste entre as duas palavra, assim como a semelhança quase-etimológica, sugeriram a narrativa para o hebreu que escreveu essa história.

Isso significa que o texto é construído por um falante de hebraico que modela a história a partir de sua própria língua. Então das duas uma: ou a história realmente aconteceu em hebraico e todos os falantes (inclusive Deus) usavam essa língua; ou a história não aconteceu da maneira como está ali, e deve ser lida de maneira simbólica.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Como eu identifico um fundamentalista?

Como eu identifico um fundamentalista:

(1) Maximiza a literalidade e a historicidade do texto (e confunde as duas coisas). Isso inclui criacionismo exclusivo.

(2) Ignorância das múltiplas possibilidades de interpretação bíblica e do fato de que todos temos uma hermenêutica nos guiando. O fundamentalista acha que está lendo “apenas o texto”, enquanto outras pessoas são “infiéis” e “liberais”.

(3) Transformação de teologias particulares em dogmas inquestionáveis. Inclui o tratamento do inclusivismo soteriológico e de escatologias não-milenaristas como heresias.

(4) Fideísmo no trato das ciências (principalmente ciências naturais, psicologia e história). Isso cria uma muralha acadêmica, impossibilitando o diálogo (inclusive o diálogo ético).

(5) Reação emocional teatral diante de divergências.

(6) Desconhecimento da influência das circunstâncias históricas sobre o texto bíblico, como se fosse apenas Palavra de Deus e não também palavra dos homens. Inclui a ignorância do fundo comum entre a religião cristã e outras religiões.

(7) Biblicismo. Inclui a rejeição da Crítica Histórica moderada, e às vezes também a rejeição automática do que não estiver explícito no texto bíblico.

(8) Aplicação do texto bíblico sem consciência (pastoral) das circunstâncias reais diferentes.

(9) Uso frequente da falácia da ladeira escorregadia. O sentimento subjacente é o medo. Alguém já disse que o fundamentalista é alguém com raiva, mas vejo algo por trás: o fundamentalista é alguém com medo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Todo fundamentalista deve acreditar na terra plana

Ásia Europa África

A argumentação em favor da terra plana é um ótimo exemplo do que é Hermenêutica, e do que significa ter uma hermenêutica. A Hermenêutica não se preocupa apenas com o sentido do texto, ou mesmo com a vivência do texto compreendido. Ela está preocupada também, talvez muito mais, com o modo como nós encaramos o texto. Uma grande pergunta é: o que fazer com o texto? Continue lendo “Todo fundamentalista deve acreditar na terra plana”

Dois modos de ler as Escrituras — A Genealogia de São Mateus

Evangelista Mateus inspirado por um anjo (cortado)

Duas formas de ler a Escritura sempre se ofereceram aos cristãos. Há um modo mais sutil, atento ao mundo do texto e seu modo peculiar de comunicação, assim como atento à natureza transcendente daquilo que nele se desvela. Há, por outro lado, o modo mais “cru”, que encara o texto como um conjunto de verdades já expostas, já facilmente “à mão”, sem necessidade de um encontro e de uma meditação. O primeiro modo encara as narrativas bíblicas como instâncias de uma narrativa maior (a história da salvação), às quais se reportam em primeiro lugar, como testemunhos da Verdade; o segundo, vê no texto verdades particulares sobre Deus e sobre os fatos do mundo. Continue lendo “Dois modos de ler as Escrituras — A Genealogia de São Mateus”

Gênesis e o fundamentalismo

O Grande Dilúvio

“Aí, pôs uma tenda para o sol, o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho. Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor.”
(Salmos 19:4b-6)

Um dos usos da Hermenêutica é nos mostrar o quão freqüentemente certas leituras seletivas da Escritura se fazem passar por corretas por ignorância do leitor — ora ignorância das premissas de sua interpretação (aquilo que o leitor insere no texto sem saber), ora ignorância de detalhes e elementos do texto que, por lhe serem estranhos, não são tomados em conta. Continue lendo “Gênesis e o fundamentalismo”

O Evangelho e a Cultura (1): Cristo contra a Cultura

Flagellation of our Lord Jesus Christ - Bourguereau

“Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a mim.” (João 15:18)

Abraçar ou rejeitar a cultura, desde o início tem havido cristãos com uma dessas duas posturas. Clemente de Alexandria quis mostrar o cristianismo como culminação da sabedoria antiga, da filosofia grega, ao passo que seu contemporâneo Tertuliano via entre esses dois mundos uma contradição inconciliável. Continue lendo “O Evangelho e a Cultura (1): Cristo contra a Cultura”