Cristo, o Samaritano


Ao contar a Parábola do Bom Samaritano, Cristo reencenou e aprofundou criativamente um tema dos profetas de Israel. Em particular, a parábola provavelmente alude ao sexto capítulo do livro de Oseias. O escriba (real ou ficcional) conhecia essas imagens.

Em primeiro lugar, a essência da parábola pode ser resumida nas palavras célebres do profeta: “misericórdia quero, e não sacrifício” (6:6) — essa era a diferença entre o samaritano (que usou de misericórdia) e o sacerdote ou o levita, preocupados com seus ritos e sacrifícios, mas sem misericórdia. No caso do Cristo lucano, essa mensagem é agora reorientada a expandir o “amor ao proximo” além das fronteiras nacionais.

Em segundo lugar, o texto de Oseias carrega a crítica aos sacerdotes, tratados como perversos e corruptos. “Como bandos de assaltantes que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no caminho para Siquém…” (6:9). Na parábola, o que mata não é a ação dos sacerdotes, mas sua negligência, indiferença e incompaixão. Eles são como cúmplices, nesse sentido. A Siquém de Oseias, assim como a Jericó da Parábola, é o caminho do Norte, o caminho do Inimigo.

Em terceiro lugar, o próprio Deus se compromete a curar a nação (6:1), vivificando-os ao segundo e ao terceiro dias (6:2). No entanto, enquanto ali a ferida a ser curada é causada pelo próprio Deus, como castigo, na parábola a ferida é causada por ladrões.

Essa história profética agora é relida a partir da mensagem de Cristo sobre o amor para com o inimigo, não presente na crítica original, embora não também desconhecida de Israel (p. ex. Jonas; Jacó e Esaú). Mas aqui essa misericórdia não é reativa (ao arrependimento), mas iniciativa. Na narrativa de Lucas, Cristo havia sido “proscrito” da vila samaritana.

Ao ler a parábola em continuidade com essa crítica profética, ela assume uma aplicação mais ampla do que a óbvia, na misericórdia pessoal nas necessidades básicas — ela nos desafia a reavaliar a maneira como limitamos o nosso amor no trato para com os de fora. Essa misericórdia não é uma doutrina abstrata; ela é vista como um projeto divino no mundo, diferetamente ligado à restauração de Israel, e Deus aparece como aquele que cura. Cristo desafia o escriba a ler o mandamento (do amor ao próximo) para além do contexto original, que provavelmente falava do amor apenas entre israelitas e imigrantes.

Quanto ao seu núcleo se sentido, a parábola não é uma alegoria, mas uma história exemplar (Caird). No entanto, ela tem várias camadas, sendo construída a partir de imagens recebidas das tradições proféticas de Israel — como acontece de modo óbvio também na Parábola dos Lavradores Maus. E, nesse sentido, ela naturalmente se presta ao uso cristão posterior, como alegoria de Cristo como exemplar máximo de amor, como Divino Samaritano.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por eu amo o Evangelho de Lucas?

Dez Razões:

1. É o único evangelho que fala dos muitos evangelhos anteriores (1:1-4). Esse prólogo é bem precioso dentro da nossa compreensão da formação dos evangelhos.

2. É um evangelho mais dirigido a um público gentio, mas contém uma quantidade surpreendente de ditos de Jesus não interpretados, preservados numa forma semítica mais original que a de Mateus, como “Bem-aventurados [vós], os pobres” (6:20) ou o dito sobre odiar a todos (14:26).

3. Enquanto Mateus segue Marcos muito de perto, Lucas produz uma reorganização muito mais intensa. Com isso, ele se torna o evangelho mais longo. (Não deixe que o número de capítulos que usamos para dividir Mateus te iluda.)

4. É o único dos quatro evangelhos em que a mulher que ungiu Jesus foi uma “pecadora” (Lc 7), que Cristo acolhe. Nos demais evangelhos, a história se dá com uma mulher de Betânia (Maria de Betânia em João).

5. Dos quatro evangelhos, é o que enfatiza mais o lugar dos pobres e necessitados (anawim) e, com isso, tem uma ênfase na compaixão maior que os demais evangelhos. Também é um evangelho que fala mais sobre as mulheres em torno de Cristo. De fato, o Cristo lucano associa esse alcance dos pobres e perdidos à sua missão explicitamente (4:16-21; 19:10). (Mais sobre isso adiante.)

6. É o que tem mais parábolas exclusivas, como o Bom Samaritano, a Moeda Perdida, o Filho Pródigo, o Juiz Injusto, o Rico e Lázaro, o Fariseu e o Publicano. Naturalmente, muitas dessas parábolas tematizam a compaixão. Não são apenas parábolas exclusivas, mas também são parábolas que cativaram a imaginação dos cristãos ao longo dos séculos.

7. É evangelho que tem a maior narrativa natalina, com vários cânticos e anjos; Mateus tem algo, Marcos e João não têm nada. Por isso, é o evangelho que chama Maria de “mãe do meu Senhor”. Essa narrativa natalina exclusiva tem uma participação intensa do Espírito Santo, com diversas ações e revelações, um “pré-Pentecostes”.

8. É o evangelho que conecta mais explicitamente a mensagem apocalíptica de Cristo à destruição de Jerusalém pelos romanos (Lc 21).

9. É o evangelho que mais tematiza o custo de seguir Jesus.

10. O evangelho de Lucas não tem quase nenhuma explicação salvífica para a cruz de Cristo. (Mais sobre isso adiante.)

Lucas não é o mais impressionante, mas com certeza é o mais surpreendente dos evangelhos.

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Se os evangelhos sinóticos já manifestam interesse na compaixão, o Evangelho de Lucas é o que mais ressalta a preocupação de Jesus para com os pobres, pequenos e perdidos.

Alguns exemplos:

• As bem-aventuranças que em Mateus falam dos “pobres de espírito” e dos que “têm fome e sede de justiça” (5:4,6), em Lucas se referem aos “pobres” e que “têm fome“, contrapostos aos ricos e fartos (6:20-21a,24-25).

• Somente Lucas registra as palavras de Jesus sobre convidar os pobres e doentes, não os amigos e ricos, para um banquete (14:12-14).

• Somente Lucas registra parábolas sobre os perdidos que desejam se aproximar de Deus e são impedidos ou julgados por outras pessoas, como o Filho Pródigo, o Fariseu e o Publicano e, indiretamente, também o Bom Samaritano. Também só nesse evangelho aparece a parábola do Rico Tolo.

• Assim também, só nesse Evangelho aparece a história de Zaqueu, a versão da história da mulher que ungiu Jesus em a mulher é uma pecadora, e a ressurreição do filho da viúva em Naim.

Por isso, Lucas mostrou também em mostrar, no livro de Atos, a solidariedade dos discípulos para com os necessitados e viúvas. “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres;” (Lc 4:18a)

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Uma observação interessante, sobre o Evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos, é que seu autor, mais do que qualquer outro na Bíblia, trata o exorcismo como cura, dizendo que os possessos são curados.

Por exemplo:

Lucas 8:2 “…algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades…”

Atos 5:16 “…doentes e atormentados de espíritos imundos, e todos eram curados.”

Isso afeta a discussão sobre a relação entre o exorcismo e os carismas do Espírito santo, já que Paulo fala em “dons de curar”.

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Jesus morreu pelo perdão dos nossos pecados?

Um dos traços mais surpreendentes da obra de Lucas (Evangelho e Atos) é a ausência quase completa de uma explicação teológica da paixão e crucificação de Jesus. A morte de Cristo aparece muito mais como um martírio, nunca como um sacrifício expiatório explícito.

Mesmo na narrativa da instituição da Eucaristia, diz-se apenas que o sangue de Cristo é derramado “hyper hymōn” (por vós, em vosso benefício), sem uma conexão com a remissão dos pecados, que aparece em Mateus (cf. Mt 26:28; Lc 22:20).

No livro de Atos, nos momentos em que a graça e a remissão de pecados são mencionadas, não há ligação explícita com a paixão e crucificação. Para Lucas, é possível pregar o Evangelho, ao menos em sua forma mais primitiva e querigmática, sem referência à remissão dos pecados, mas não sem o milagre da ressurreição.

Por outro lado, em vários momentos se fala da paixão do Senhor e de como essa morte foi predeterminada nos planos divinos, de como Cristo tinha que sofrer, mas os sermões são marcados pela ênfase típica lucana sobre o milagre: agora, a ressurreição, a exaltação após o sofrimento. Cristo precisou padecer (At 3:18), é verdade, mas os discípulos também (5:41; 9:16).

Em toda a obra lucana, possivelmente a única referência significativa a uma interpretação teológica é At 20:28, que trata o sangue de Cristo como “compra”, não como expiação.

O Credo Apostólico, que não fala da crucificação e remissão de pecados no mesmo fôlego, preserva algo desse querigma lucano.

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A divindade de Jesus às vezes está implícita nas palavras do evangelho. Jesus é aquele que dá sabedoria, por exemplo:

Assentai, pois, em vosso coração de não vos preocupardes com o que haveis de responder; porque eu vos darei boca e sabedoria a que não poderão resistir, nem contradizer todos quantos se vos opuserem.” (Lucas 21:14-15)

Rev. Gyordano M Brasilino

A Epifania do Senhor e os Reis-Magos

Hoje, 6 de janeiro, é o dia da Epifania do Senhor, o momento em que “uns magos” foram honrar o menino Jesus, o Rei dos judeus, que havia nascido. O significado desse dia se torna mais forte quando entendemos por que, ao menos no Ocidente, eles foram identificados como reis e como três.

Na antiga profecia hebreia, reis gentios viriam trazendo presentes e tributos, inclusive ouro, incenso e adoração (Sl 68:28–29; 72:10—11; Is 49:7; 60:3,6). Eles vieram a Jerusalém “para adorá-lo” (Mt 2:2), isto é, para se curvarem diante dele como seus tributários. A chegada dos reis-magos sinaliza, por isso, a luz do mundo atraindo os gentios à salvação. Ela representa uma tardia hospitalidade ao Rei de Israel, enquanto, em sua própria nação, os sinais dos tempos não eram percebidos.

O Evangelho nos diz que eram “uns magos”, então eram, no mínimo, dois ou três, e, provavelmente, não muitos, já que os presentes foram apenas três — a menos que houvesse repetição nos presentes, seria desonroso que muitos levassem apenas alguns presentes. Mas esse número de três se liga tipologicamente a outras histórias do Antigo Testamento, como os três valentes de Davi que foram até Belém, quando ela estava sob o domínio estrangeiro, para buscar a água preciosa para o rei — água que depois é rejeitada pelo rei e derramada em sacrifício.

Tradicionalmente, os três magos aparecem como sendo de três nações diferentes, um um negro, um branco e um asiático, recordando os três filhos de Noé que, na narrativa do Gênesis, teriam dado origem a todos os povos do mundo. Nesse símbolismo está, ao mesmo tempo, a igualdade entre eles, sua grandeza comum, e também o reconhecimento comum do Rei dos reis.

Os reis da terra, no Salmo 2, se unem contra Cristo, como vemos acontecer no Apocalipse (19:9), mas ali eles são exortados a “beijarem o Filho”. No Apocalipse, o cenário muda e vemos que “os reis da terra trarão para ela a sua glória e honra” (Ap 21:24). A chegada dos reis magos é só um pequeno sinal dessa esperança final da paz universal sob o Ungido de Deus. Por isso, a Epifania é a festa da esperança da salvação para todos os povos. Ele é o Rei dos reis, “o Esperado das Nações” (Gn 49:10 LXX), “em seu nome os gentios confiarão” (Is 42:4).

Por isso, o mistério profundo da Epifania é, ao mesmo tempo, o cuidado de Deus para com todos os povos da terra, e o modo como todos os povos, sem saber, desejam e esperam o Cristo de Israel. Ele é a satisfação de todo o desejo.

“As nações se encaminham para a tua luz, e os reis, para o resplendor que te nasceu. A multidão de camelos te cobrirá, os dromedários de Midiã e de Efa; todos virão de Sabá; trarão ouro e incenso e publicarão os louvores do Senhor.”
Isaías 60:3,6

Rev. Gyordano M. Brasilino