Jesus foi ouvido — O Pai disse “Sim”

“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,” Hebreus 5:7

Quando estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Cristo fez uma oração que está profundamente gravada na consciência da primeira comunidade de cristãos, pedindo ao Pai pelo livramento. Essa oração agonizante aparece nos Evangelhos Sinóticos: “Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14:36 = Mt 26:39 // Lc 22:42); e depois é mencionada em Hb 5:7 e 1Pe 2:23, tendo talvez um eco nas palavras de Paulo (Rm 8:15; Gl 4:6).

Antes de ser levado para sua humilhação e morte, Cristo fez uma oração intensa, “com forte clamor e lágrimas”, àquele que “o podia livrar da morte”. Ele disse: “Minha alma está triste [perilypos] até à morte” (Mc 14:34). O evangelista usa palavras graves para descrever o estado da alma de Cristo: ele começou se impressionar e apavorar profundamente [ekthambeisthai] e se angustiar [adēmonein]. O tom é tão forte que é suavizado pelos evangelistas posteriores — o Cristo do Quarto Evangelho nos parece resoluto e determinado, mas mesmo Marcos conhecia a intenção do Filho do homem de doar sua vida (10:45) —, mas mesmo Lucas, na variante textual mais conhecida, fala da “agonia” de Cristo (Lc 22:44), isto é, da batalha que ele enfrentava. Na hora das trevas, Cristo batalhava contra os poderes obscuros que o cercavam e tentavam, e pedia ao Pais que o livrasse da morte. Diante da injustiça que sofreria, Cristo “entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2:23).

E Cristo foi ouvido. Isso surpreende a algumas pessoas, mas a oração de Cristo foi ouvida pelo Pai. Não poderia ser diferente, afinal, ele mesmo disse: “Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11:42). Assim como Cristo havia ensinado ao Pai que seus discípulos receberiam o que pedissem quando fossem obedientes (Jo 15), ele mesmo, estando na perfeita obediência (“por causa da sua piedade [eulabeia]”), recebia do Pai tudo o que pedia. Então Cristo foi ouvido pelo Pai!

Mas como pode ser, se ele morreu? Ele morreu, mas ressuscitou. Ao retornar à vida, ele foi livre daquilo que o prendia. Aqueles que acreditam que a paixão de Cristo foi um “não” do Pai ao Filho terão muita dificuldade em ligar o que está em Hb 5:7 à oração registrada nos Evangelhos, mas, de fato, o Pai passou o cálice. Cristo morreu, mas não morreu eternamente. Ele esteve morto por apenas um tempo. Ao ressuscitá-lo, o Pai dizia o “sim” ao Filho, passando dele o cálice. Como Jó, Cristo foi restituído após os seus sofrimentos injustos, provocados pelas forças das trevas.

Em 2Co 4 (o Evangelho de hoje), Paulo tinha em mente exatamente a mesma coisa. É por isso que ele podia dizer, juntamente, que “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus” (v. 14) e, então, que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (v. 17). Jó foi restituído, Cristo foi restituído, e Paulo sabia que o mesmo poder da ressurreição estava nele. A ressurreição é restituição e muito mais do que restituição.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Hebreus 9:22 não tem nada ver com Substituição Penal.

Embora o texto não nos diga nada sobre o assunto da Substituição Penal — ele não nos diz nada sobre substituição, nada sobre pena ou punição, nada sobre justiça retributiva —, Hebreus 9:22 é um dos favoritos entre os defensores daquela teoria, já que ele é um lugar perfeito para projetar essa doutrina. Leem que “sem derramamento de sangue não há remissão”, e supõem que “derramamento de sangue” significa punição, portanto o texto seria lido como “sem punição não há remissão”, de modo que o derramamento de sangue de Cristo seria essa punição que “autoriza” remissão. Supõem, ademais, que isso seja uma regra inviolável da justiça divina.

Não poderia estar mais longe da verdade. Um pouco de contexto, com certeza, ajuda. Vejamos o que nos dizem os textos em redor do versículo. A numeração inserida corresponde aos comentários em seguida.

Hebreus 9:18-24
Por isso, nem a primeira aliança foi estabelecida sem sangue.
Porque, havendo Moisés proclamado a todo o povo todos os mandamentos conforme a lei, pegou o sangue dos bezerros e dos bodes, com água, lã tingida de escarlate e hissopo e aspergiu não só o próprio livro, como também todo o povo, dizendo: “Este é o sangue da aliança que Deus ordenou para vocês.” [1]
Igualmente também aspergiu com sangue o tabernáculo e todos os utensílios do serviço sagrado [leitourgia] [2]. De fato, segundo a lei, quase todas as coisas são purificadas com sangue [3]; e sem derramamento de sangue [4] não há remissão.
Era necessário, portanto, que as figuras [hypodeigmata] das coisas que estão nos céus [5] fossem purificadas com tais sacrifícios, mas as próprias coisas celestiais [6] requerem sacrifícios superiores àqueles. Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos humanas, figura [antitypa] do verdadeiro Santuário, porém no próprio céu, para comparecer, agora, por nós, diante de Deus [7].

Observações necessárias:

[1] Um primeiro exemplo dado pela carta é o sangue aspergido sobre o livro e sobre o povo israelita, em Êxodo 24, para selar a aliança de Deus com aquele povo. Esse sangue aspergido não tem, ali em Êxodo, ligação com perdão de pecados, mas com selo da aliança (cf. Sl 50:5). Esse exemplo é relevante porque, na tradição sinótica, ele aparece ligado ao cálice da Eucaristia (Mt 26:27-28; Mc 14:24), na qual aparece tanto a aliança como o derramamento de sangue, agora definitivamente unido à remissão de pecados (cf. Jr 31:31-34).

[2] O segundo exemplo é a aspersão do sangue sobre o santuário, para santificá-lo.

[3] Observe-se a linguagem: “quase todas as coisas” são purificadas com sangue na Lei. É notório que havia outras formas de expiação nas Escrituras, sem derramamento de sangue, usando incenso, óleo, farinha, esmola, oração e outras coisas. Não se trata de uma regra da justiça punitiva divina, mas do regramento do funcionamento das purificações do Santuário. O verbo “purificar” é importante; a pureza, e não a culpa legal, está em vista.

[4] Ao dizer “derramamento de sangue”, a carta não se refere a punições, mãos ao sangue que era derramado ou aspergido no altar nos vários sacrifícios. Não se trata, portanto, da morte do animal especificamente, mas do que era feito com o seu sangue depois. Há exemplos abundantes desse derramamento de sangue Escrituras (Êx 24:6,8 [renovação da aliança]; 29:12; Lv 1:5,11; 3:2,8,13; Lv 4:6-7,17-18,25,30,34; 5:9; 7:2; 8:15 [santificação do altar], 19,24; 9:9,12,18; 16:14-15,19; 16:6; Nm 18:17; 19:14; Dt 12:27; 2Rs 16:13; Ez 43:18), que era feito inclusive sobre o sacerdote (Êx 29:21; Lv 8:30), o que era função particular dos sacerdotes, enquanto a morte poderia ser feita por outra pessoa (2Cr 30:16; 35:11). Isso é confirmado pelo fato de que, nos dois exemplos dados nos versículos anteriores ([1] e [2]), fala-se do sangue derramado sobre o livro, as pessoas e o Santuário. Não se trata do derramamento do sangue quando o animal morria, mas do ritual posterior. Era o ritual que fazia expiação com o sangue (cf. Lv 17:11). Hb 12:24, posteriormente, fala da salvação como “aspersão do sangue” de Jesus (cf. 1Pe 1:2).

(Algumas traduções inserem “ponto e vírgula”, o que pode dar a impressão de que não se fala mais de algo que acontece segundo a Lei (Torá). Como veremos, essa impressão é enganosa.)

[5] As “figuras das coisas que estão nos céus” são o Santuário terreno e seus rituais, que agem como figuras, imitações ou representações (hypodeigmata), uma vez que imitam o modelo mosaico (cf. Cl 2:16-17; Hb 8:5; 10:1). Tudo aquilo era uma “parábola para o tempo presente” (Hb 9:9), sinal tipológico [antitypa] da realidade celeste (Hb 9:24).

[6] Aqui começa-se a falar do sacrifício de Cristo. Tudo o que foi dito anteriormente, inclusive que “sem derramamento de sangue não há remissão”, refere-se aos sacrifícios inferiores da Lei. Cristo realiza a purificação das coisas celestiais, nos termos explicados no versículo seguinte.

[7] A finalidade de tudo é que, a partir do seu sacrifício, Cristo compareça diante do Pai por nós e interceda (cf. Rm 8:34; Hb 7:25). O texto usa a expressão “por nós” (hyper hēmōn), isto é, “em nosso benefício”. Como em todo o Novo Testamento, evita-se usar a expressão que poderia significar mais claramente “em nosso lugar” (anti hēmōn). Como se trata de uma intercessão, de fato, não faz sentido usar uma expressão diferente.

Em síntese: o contexto é uma comparação entre aquilo que é da lei e aquilo que é de Cristo. Cristo realizou um sacrifício superior ao da Lei. Os sacrifícios da lei faziam purificações no santuário. Para a Lei, não havia remissão sem derramamento de sangue sobre o altar e o “propiciatório” (kapporet), que anualmente era purificado com sangue. Esse derramamento de sangue não era o momento da morte; a morte era necessária para que, através do sangue, as pessoas e objetos fossem purificados.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Salmo 51 foi realmente escrito por Davi?

Rei Davi Tocando Harpa (cortado)

“Então, disse Davi a Natã: Pequei contra o SENHOR. Disse Natã a Davi: Também o SENHOR te perdoou o teu pecado; não morrerás.” (II Samuel 12:13)

O livro bíblico de cânticos e orações é conhecido como Salmos de Davi, mas não é segredo para o leitor atento que grande número deles indica outra autoria no seu título próprio. Muitos Salmos são acompanhados por títulos com alguma informação — o autor, ou a situação em que teria sido escrito, ou algo da melodia e instrumentação. O Novo Testamento acolhe essa tradição hebréia da autoria davídica dos Salmos. Continue lendo “O Salmo 51 foi realmente escrito por Davi?”