Moisés, o deus de Arão

Em dois textos bíblicos, Deus diz que Moisés é o Deus de Arão, e que Arão é o seu profeta. Os textos são:

☩ Êxodo 4:16
“Ele falará por ti ao povo;
ele te será por boca,
e tu lhe serás por Deus
[ĕlōhîm].”

☩ Êxodo 7:1
Então, disse o Senhor a Moisés:
Vê que te constituí como Deus
[ĕlōhîm] sobre Faraó,
e Arão, teu irmão, será teu profeta.

Quando lemos textos assim, nossa pergunta não deve ser apenas o pelo que as palavras significam imediatamente, mas também pelo mundo de significado ao qual elas pertencem. Nesses dois textos, temos parte da explicação da função do profeta, mas, indo além disso, temos a explicação de uma hierarquia funcional entre dois profetas, Moisés e Arão.

No primeiro caso, Moisés alega ser “pesado de língua”. Deus poderia ter escolhido, então, a Arão em seu lugar, mas ele coloca Arão como o profeta de Moisés, como alguém que o complementa em sua missão, falando às pessoas em seu lugar. Arão é o representante de Moisés, assim como Moisés é o representante de Deus. Assim como Deus é o Deus de Moisés, Moisés é o Deus de Arão.

A tradição eloísta, da qual esses textos participam, retrata Deus como distante, sem contato direto com os homens, aparecendo através de figuras que o simbolizam, como profetas e anjos, além de outros sinais. Deus está acima e além. É interessante que, nesse contexto, Moisés não seja representante de Deus apenas no que Deus fala, mas também em como Deus se comporta. Deus é difícil — a palavra para “pesado” (kāvēḏ) é da mesma raiz da palavra “glória” (kāvôḏ) —, então Moisés é difícil também, e é preciso um segundo profeta, um segundo intérprete, o sacerdote Arão. O profeta e o sacerdote são representantes-intérpretes, mas o profeta está mais perto de Deus, e o sacerdote, mais perto dos homens, numa relação fractal. Isso é consistente com a função do sacerdote de ser mensageiro de Javé (Ml 2:7). A “língua pesada” de Moisés não é gratuita, mas desempenha um papel simbólico no texto.

A subida ontológica têm seus ruídos, e o profeta o condutor.

Aí está uma cosmologia hierarquizada, na qual as ordens superiores são representadas pelas inferiores, pouco explorada explicitamente no Antigo Testamento, mas garantida em toda parte. Nesse sentido, Moisés é o ícone de Deus, e é assim também que depois o tema da representação reaparece no Novo Testamento, particularmente em Paulo, na literatura joanina e em Hebreus.

Em 2Co 3, em particular, essa relação é posta explicitamente com todo vigor: o apóstolo é o representante-intérprete que, por ter contato com a face de Cristo, resplandece a sua glória para os homens: “E todos nós, com o rosto desvendado, contemplando, como por espelho, a glória do Senhor, somos transformados, de glória em glória, na sua própria imagem, como pelo Senhor, o Espírito.” (2 Coríntios 3:18)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Duas maneiras de tratar a imaginação

A imaginação ou fantasia é a atividade de formação de representações no pensamento — seja de imagens “visuais”, seja também de sons, sensações, ideias, com todo o mundo afetivo em torno delas. A imaginação abre nosso pensamento para o possível, assim como para o real que transcende o corporal. Através da imaginação, podemos reorganizar nossas memórias e formar quimeras e monstros.

Ela é uma faculdade poderosa, mas não precisamos pensar muito para perceber como a imaginação pode ser muito perigosa. Afinal, imaginar envolve imaginar o mal, criar possibilidades destrutivas. O pecado é, em grande medida, sugerido pela imaginação. Nossa imaginação não se fixa naquilo que é mais racional e melhor, mas forma também possibilidades piores: ela planeja a vingança, arquiteta o crime, deleita-se previamente na crueldade, prepara a traição, fábrica a calúnia, cria o ídolo. Pensemos no quanto o pecado da curiosidade depende da imaginação. O mal que praticamos certamente emerge do nosso próprio coração (Mt 15:19). Vários textos nas Escrituras Sagradas falam de como a imaginação pode ser perversa.

Além dos pecados que praticamos intencionalmente, ao dar ouvidos às sugestões inferiores da imaginação, ela também coloca diante de nós várias prisões: ansiedades e medos se enraizam na imaginação. A imaginação não está sob o controle direto da vontade, então é possível racionalmente sugerir à imaginação alguma ideia — embora isso mesmo seja difícil quando estamos sob efeito de alguma emoção intensa —, mas é difícil simplesmente parar de imaginar alguma coisa. Não depende de um ato simples de vontade. Reordenar a nossa atenção dá trabalho.

Há duas possibilidades de enfrentamento do problema da imaginação, além de ignorá-lo. A primeira possibilidade é negar totalmente a imaginação, a iconoclastia do pensamento. Nessa possibilidade, o problema da imaginação é tratado como incurável, impossível de ser resolvido, então o que devemos fazer é fugir da imaginação tanto quanto pudermos.

Essa primeira possibilidade é irreal no objetivo e insatisfatória no processo. A imaginação não é uma coisa má, mas uma capacidade dada por Deus. Na verdade, a imaginação é fundamental para o amor e para a prática da virtude. Sem nossa capacidade de imaginar e de reconfigurar nossas experiências, somos incapazes de mostrar compaixão e empatia por pessoas diferentes de nós — pois essas coisas envolvem a capacidade de imaginar o sofrimento alheio. A ação moral não é possível sem a imaginação moral. Como vou chorar pelos que choram, sem sentir o que sentem?

Todas as nossas ações conscientes envolvem imaginação. Um missionário que sai de sua terra imagina a possibilidade de converter pessoas. Uma pessoa que inicia um trabalho social com pessoas pobres e estrangeiros imagina o bem que lhes pode ser feito. Essas pessoas imaginam fins possíveis e meios adequados para alcancá-los, assim como impedimentos previsíveis. Há sempre um “cálculo de futuro”, ou seja, imaginação.

Como escreveu Jonathan Edwards (Experiencing God), Deus nos deu a faculdade da imaginação e “nos fez de tal modo que não podemos pensar nas coisas espirituais e invisíveis sem algum exercício dessa faculdade”. Deus nos criou como seres imaginativos, e o processo de imaginação é parte da maneira como nós nos relacionamos com ele. Ele é impossível de ser imaginado, mas é impossível pensar nele sem imaginá-lo de alguma maneira, analogicamente. Isso envolve aquela realidade, ensinada pelo São Paulo, de que a natureza invisível de Deus é manifestada pelas coisas criadas (Rm 1:20). Como ensinou Calvino, Deus quer que nos demoremos nessa contemplação mediada pela criação visível.

O problema da imaginação é real, mas a solução de simplesmente suprimir a imaginação não funciona, ela vai contra o plano divino. Com o Grande Mandamento, aprendemos que Deus quer de nós, exige de nós, que o amemos com todo o coração, com toda a alma, com todo o entendimento, com todas as forças — o que significa que não podemos simplesmente tentar suprimir uma dimensão da nossa vida interior, pois isso seria negar a Deus o que é seu. Assim como o desejo não é destruído e anulado, mas dirigido a Deus, também a cura da nossa imaginação está em se centrar nele. Nossa obediência a esse mandamento não se deve a uma necessidade de Deus, pois ele não ganha nada com nosso amor, mas a uma necessidade de nossa, à necessidade que temos de ser curados. Só no Infinito há a cura da nossa imaginação. Uma vez que os atributos divinos estão sempre acima e além de qualquer coisa que conheçamos com nossa memória, é a nossa imaginação que os torna (minimamente) inteligíveis.

Diante disso, a segunda possibilidade é disciplinar a imaginação, dirigir a imaginação na direção correta. Um coração transformado envolve um pensamento renovado (Rm 12:2). É um processo, de modo que Paulo exorta àqueles cristãos em Roma a se renovarem no pensamento. Na mesma carta, ele fala do conflito interior entre as cogitações da carne e as do espírito (Rm 7–8).

Quando lemos as Escrituras, parte do que acontece é que repovoamos o nosso imaginário com os melhores objetos. Quando lemos o primeiro relato da Criação (Gn 1), e imaginamos a ordem por trás das diversas etapas; ou quando pensamos nas Dez Pragas e na abertura do Mar, no Êxodo; ou na batalha entre Davi e Golias; ou nas imagens tremendas do Salmo 18; ou talvez nos verdes pastos e águas tranquilas do Salmo 23, parte do processo de entender as histórias envolve lê-las imsginativamente. Um dos maiores deleites ao ler os evangelhos canônicos está em imaginar aquilo que o Senhor disse e fez, particularmente na sua Paixão e Crucificação, que, segundo São Tomás, são a inspiração principal da nossa devoção. O mesmo se dá com os Atos dos Apóstolos, ou, de modo muito óbvio, com o Apocalipse de São João, um livro que só pode ser lido se usarmos bem a imaginação. As imagens apresentadas e sugeridas pela Sagrada Escritura devem ter um lugar dominante no nosso pensamento, tornando-nos capazes de imaginar o inimaginável, através de representações menores e abertas.

No caso do Apocalipse, em particular, há algo importante a dizer. Num texto anterior, eu me referi a um erro muito comum na leitura do livro, cometido especialmente por pessoas que iniciam no estudo da Teologia: a ideia de que o livro foi escrito em código para que os perseguidores romanos não entendessem que a mensagem dizia respeito a eles. Isso não faz nenhum sentido; se o Apocalipse tivesse sido escrito como um código assim, seria um código muito bobo, pois os romanos poderiam facilmente entendê-lo. Na verdade, a Meretiz assentada sobre a Basta não é um código para se referir a Roma. A verdade é o contrário: a Roma pagã é um código que se refere à Meretriz. Deus nos dá a imagem porque quer que vejamos Roma de certa maneira, quer que imaginemos Roma de certo modo. A Roma que os apóstolos viam com os olhos é um símbolo que se remete a uma realidade espiritual mais profunda e monstruosa. Usamos símbolos porque eles se reportam a realidades mais profundas que o uso comum das palavras. É por isso que a Escritura Sagrada é cheia de símbolos, e não apenas linguagem denotativa simples; ela fala de realidades muito profundas. A leitura alegórica das narrativas bíblicas, mesmo as não claramente alegóricas, depende disso.

Quando oramos, um dos nossos maiores inimigos é a imaginação, que se perde a transitar em vários mundos e foge da realidade invisível e inimaginável do Deus Inefável. Esse é um dos motivos pelos quais, seja na época dos apóstolos, seja séculos depois, a cultura religiosa cristã — herdeira do simbolismo judaico antigo —, desenvolveu através das artes elementos para fortalecer nossa devoção e atenção às coisas de Deus: teatro, música, pintura, arquitetura, liturgia, cerimônia, vestimenta e outras artes que atraem nossa atenção e espírito de reverência. O Rev. Jeremy Taylor escreveu, em seu livro Vida Santa:

Por esse propósito é bom transplantarmos os instrumentos da imaginação para a religião, e por essa razão a música foi trazida às igrejas, assim como ornamentos, e perfumes, e vestes dignas, e solenidades, e cerimônias decentes, para que a imaginação muito ativa e menos discenente, sendo atraída aos seus objetos próprios, possa ser instrumental para um amor mais celestial e espiritual.

Nesse jogo, a imaginação defeituosa é vencida pela inteligência; ela procura o corporal e, como por um anzol, é dirigida ao espiritual. Todos nós sabemos sobre o efeito quase irresistível que a música excerce sobre nossos afetos — Hooker fala de como certas formas de música “levam como a êxtases, enchendo a mente com alegria celestial e, por um tempo, de certo modo separando-a do corpo” —, e podemos ver algo disso nas mais diversas artes. Não usamos “melodias bíblicas” — de fato, nem sequer a ideia do que seja uma melodia é bíblica. Mas precisamos dessas artes não-bíblicas para obedecer à Palavra de Deus escrita. A arte musical nos auxilia na oração, tornando nosso coração mais dócil diante de Deus.

Assim, todo o coração deve ser convertido a Deus, cativo a Cristo, e isso inclui a imaginação. Soterrar a imaginação não é uma conversão completa. A conversão completa é ocupar a imaginação com “tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe” (Fp 4:8).

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sobre iconoclastia

O livro do Gênesis tem, nos seus dois primeiros capítulos, duas famosas narrativas da criação. Eu vejo uma semelhança importante entre elas. Um traço comum óbvio é o relato da criação do homem, que ambas valorizam, mas há algo mais, que diz respeito a como o homem foi criado. Enquanto a primeira história diz que o homem é criado como “imagem” de Deus, a segunda mostra um processo semelhante à construção de um ídolo: Javé forma o homem do “pó da terra” (“barro” em outros textos) e sopra nele o fôlego divino.

Para os antigos, o ídolo não era apenas uma representação visual, antes continha, por força de transmutação ritual, o espírito da divindade, e é com esse espírito que os adoradores se relacionavam. Então o ser humano é criado como uma imagem de Javé. É possível que esteja aí a razão da justaposição das duas narrativas.

Mas não podemos dizer que o homem tenha sido criado como um ídolo. Há uma diferença metafísica importante entre o ídolo e a imagem. O ídolo é o receptáculo de um espírito limitado, portanto é uma realidade auto-contida, uma “prisão”, por assim dizer. Mas a imagem, enquanto símbolo genuíno, aponta para a realidade transcendente e incontida. O homem é criado, nesse segundo sentido, como um sinal da realidade superior — o que justifica seu governo sobre os animais. Ele é como o Templo, aquela grande imagem de Javé. O ídolo aponta para dentro de si, a imagem aponta para além de si, para a realidade superior da qual participa.

Não me refiro aqui à veneração de imagens artísticas, mas da relação com pessoas.

Nós não sabemos nos orientar no mundo sem essas figuras que apontem para além de si mesmas, essas pessoas de humanidade mais saudável. Particularmente na fé. Nós precismos de mestres, de doutores, de pessoas que nos orientem, que nos guiem. Confiar nessas pessoas não é idolatria, precisamente porque elas não apontam para si mesmas como realidades fechadas, mas mostram o caminho superior. Não aprisionam, antes libertam.

Certo tipo de iconoclastia tem dificuldade de ver as pessoas como sinais da realidade superior, e, por isso, tem medo das autoridades em geral. Tudo lhe parece idolatria, parecem tomar o lugar de Cristo aqueles que, no fundo, apontam para Cristo.

Há algumas semanas, vi o vídeo de um pastor famoso que dizia que não devemos obedecer a nenhum pastor, só à Bíblia — quando a Bíblia manda obedecer os pastores. Nesse exato momento, esse pastor se tornou um “ídolo”, fechando as pessoas para a real mensagem da Bíblia, e transmitindo, no lugar da Bíblia, sua própria mensagem. A iconoclastia pode se tornar um tipo muito estranho de idolatria.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Virgem e o Profeta: uma leitura simbólica

Os evangelhos sinóticos trazem o curioso relato do momento em que os apóstolos Tiago e João de Zebedeu (ou a mãe deles, em Mateus) pedem para se assentarem ao lado dele, um à direita e o outro à esquerda, no seu Reino, a que se segue um discurso de Jesus sobre a importância de servir e procurar ser o último, não o primeiro. Jesus diz, no entanto, que a posição de assentar-se ao lado deles “é para aqueles a quem está preparado” (Mc 10:40). Jesus dá a entender ali que há pessoas de fato predestinadas para essa posição. A pergunta é: quem são?

A direita e a esquerda são, ambas, posições de honra, já que significa assentar-se ao lado do rei, mas a mão direita é a de maior honra. (Até hoje, no mundo árabe, a mão direita é a mão de saudação e honra, enquanto a mão esquerda é a da higiene corporal mais baixa.) Na Parábola das Ovelhas e Bodes (Mt 25), Cristo ensina precisamente sobre o que acontecerá quando ele se assentar nos Reino: estabelecendo o Juízo Final, ele colocará suas ovelhas à sua direita e enviará os bodes para a esquerda, para a condenação eterna. A mão direita é salvação, a mão esquerda é condenação. O Filho do Homem é o juiz escatológico, aquele que recebeu do Pai a missão de executar todo o juízo (Jo 5:22,27). Nas palavras do Credo Apostólico, ele virá “a julgar os vivos e os mortos”.

A tradição artística e iconográfica (como na Deēsis, “oração”) dá o começo da resposta ao identificar a Virgem Maria e o profeta João Batista como as figuras mais próximas do Senhor majestoso assentado no trono da glória. Em primeiro lugar, a teologia histórica frequentemente os identifica como pessoas de santidade inigualável. (Na Suma, São Tomás trata de João Batista na mesma questão em que discute a santidade de Maria.) Ademais, nas palavras do Novo Testamento, João seria o maior e último dos antigos profetas, cheio do Espírito Santo desde o ventre, e um profeta de juízo e condenação (separação, dualidade). Por isso, o discurso de João Batista é precisamente o do discernimento escatológico entre bons e maus: ele é o profeta da Gehenna (Mt 3:7-12). Maria seria a primeira do Reino de Deus e da nova aliança, e, enquanto mãe, uma figura de misericórdia e compaixão (união, unidade). Na língua hebraica, compaixão (raḥam) significa, literalmente, útero, o órgão materno. São as “entranhas de misericórdia” (Cl 3:12). Ter compaixão é acolher como filho, no útero, e proteger, nutrir, amar.

João é o precursor de Cristo e Maria é a primeira a vivenciar Cristo. João ainda estava em Moisés, mas Maria está em Cristo e Cristo está nela. Eles representam a Lei (o “ministério da condenação e da morte”) e a Graça (o “ministério da justiça e do Espírito”), e é por isso que Maria, símbolo da graça — de fato, como sacramentum da graça —, está à mão direita, a de maior honra, enquanto a Lei, mesmo sendo honrada, está na segunda posição. Na linguagem de Lutero, Maria é o opus proprium de Deus, e João é o opus alienum. Se Cristo é o Paraíso, então a Virgem e o Profeta significam, respectivamente, a Árvore da Vida (a Graça) e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal (a Lei). Não há possibilidade de uma rejeição maniqueia da história do Antigo Testamento, mas algo realmente novo acontece.

Mas vale observar que, na imagem (detalhe do Juízo Final de V. Vasnetsov), mesmo João Batista está compadecido, o que mostra a tendência de Deus para a misericórdia. É o diabo, e não João, quem acumula acusações contra a alma ré. Assim, a imagem não é a de uma vitória de João sobre Maria, mas de uma reconciliação final entre a dualidade e a unidade. Maria não apenas está à mão direita, mas também é mãe (portanto está mais perto que o primo) e suas mãos estão sobre Cristo, enquanto João Batista, algo mais distante, se limita a suplicar com as mãos. A Lei é conquistada pela Graça. João reconhece a Graça, mas Maria também reconhece o Juízo (em Cristo). Numa comparação mais grosseria com o yin-yang taoísta, a Lei e a Graça não são inimigas, mas intimamente ligadas e conciliadas.

Podemos ver aí, também, que a face de Maria está voltada (através de Cristo) para os perdidos, enquanto a face de João (através de Cristo) está voltada para os santos, os mártires mortos ao longo dos séculos, cujo sangue exige uma resposta divina. No final, antecipa-se a vitória da misericórdia. Maria e João são duas possibilidades tensionais: a salvação para todos e a condenação dos ímpios.

PS: Não é curioso que Deus coloque nessa posição de tanta honra aqueles que são família de Jesus, isto é, sua mãe e seu primo? Deus começa a constituir uma nova família, pela graça, a partir da família natural.

Rev. Gyordano M. Brasilino