Jesus não estudou Hermenêutica

Jesus não era biblicista. Certamente ele reconhecia e afirmava a veracidade e a autoridade das Escrituras, referindo-se a eles em seus ensinos. Mas ele as usa com relativa liberdade, seguindo padrões conhecidos da halāḵâ judaica, encarando-as mais como janelas do que como destinos. Ele não esperava que os seus interlocutores usassem as Escrituras de modo restrita, antes traz mais cartas para a mesa.

No diálogo com o intérprete da lei em Lc 10:25ss, Cristo concorda em colocar dois mandamentos da lei acima de todos os demais, mas discorda de que o mandamento do amor ao próximo se limite aos compatriotas. O problema é: se lido de maneira puramente contextual, o mandamento se referia, sim, apenas ao amor entre os israelitas:

Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:18)

Por implicação do paralelismo, o “próximo” corresponde aos “filhos do teu povo”. Essa é a leitura mais natural do texto. Por isso mesmo, o capítulo contém um segundo mandamento equiparando os estrangeiros que vivessem entre os israelitas (Lv 19:33-34); o primeiro mandamento não dava conta. Isso é uma importante expressão de humanidade e empatia, mas não é, ainda, em termos de contexto estrito, um mandamento de amor universal e irrestrito.

Então Cristo usa o mandamento para além dos seus limites contextuais e da intenção do autor. Ele não traz aí um mandamento novo — não é uma questão de “antiga aliança e nova aliança” —, mas observa como deve ser aplicado o mandamento antigo, como a lei deve ser usada. O texto não é a regra última, mas uma expressão dela.

Assim também, nas discussões sobre o sábado. No dia santo, seus interlocutores circuncidavam (Jo 7:21-24) e sacrificavam (Mt 12:5), e isso encontra amparo na lei, de modo que Cristo apela a uma hierarquização implícita nela, que deve ser válida também em situações não prescritas, como naquela de curar no sábado ou alimentar pessoas.

Mas a argumentação vai além: no sábado, eles levavam seus animais para beber água e socorriam seus filhos e animais caídos numa vala (Lc 13:15; 14:5), e isso é um apelo ao senso moral (expresso na lei oral), não à própria lei escrita. O fermento dos fariseus, a hipocrisia (Lc 12:1), consistia precisamente em ocultar o senso moral, e julgar as coisas apenas através de uma prescrição fria da lei, quando ela lhes convém.

Em outras palavras, Cristo exige dos seus interlocutores uma leitura não biblicista, na qual seja válido o princípio da analogia legal através do senso moral. Ele foi além da intentio auctoris e reclamou com quem não fez o mesmo. Se a hermenêutica é a ciência do contexto, Cristo nunca estudou hermenêutica.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Como eu identifico um fundamentalista?

Como eu identifico um fundamentalista:

(1) Maximiza a literalidade e a historicidade do texto (e confunde as duas coisas). Isso inclui criacionismo exclusivo.

(2) Ignorância das múltiplas possibilidades de interpretação bíblica e do fato de que todos temos uma hermenêutica nos guiando. O fundamentalista acha que está lendo “apenas o texto”, enquanto outras pessoas são “infiéis” e “liberais”.

(3) Transformação de teologias particulares em dogmas inquestionáveis. Inclui o tratamento do inclusivismo soteriológico e de escatologias não-milenaristas como heresias.

(4) Fideísmo no trato das ciências (principalmente ciências naturais, psicologia e história). Isso cria uma muralha acadêmica, impossibilitando o diálogo (inclusive o diálogo ético).

(5) Reação emocional teatral diante de divergências.

(6) Desconhecimento da influência das circunstâncias históricas sobre o texto bíblico, como se fosse apenas Palavra de Deus e não também palavra dos homens. Inclui a ignorância do fundo comum entre a religião cristã e outras religiões.

(7) Biblicismo. Inclui a rejeição da Crítica Histórica moderada, e às vezes também a rejeição automática do que não estiver explícito no texto bíblico.

(8) Aplicação do texto bíblico sem consciência (pastoral) das circunstâncias reais diferentes.

(9) Uso frequente da falácia da ladeira escorregadia. O sentimento subjacente é o medo. Alguém já disse que o fundamentalista é alguém com raiva, mas vejo algo por trás: o fundamentalista é alguém com medo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos

 

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As obras de arte têm uma riqueza muito especial, uma certa transcendência natural: o significado da obra se lança sempre para além da intenção do autor. Ainda que seja danoso desprezar essa intenção do autor inteiramente, ela nunca expressa a totalidade da obra, é só uma janela para um mundo diferente. Quando, sob pressão, Varonese mudou o título da sua Última Ceia para Banquete na casa de Levi, ele condicionou significativamente leitura que fazemos da pintura, mas mesmo assim ele não a controla totalmente. Continue lendo “Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos”

Os Ramos e a Multidão

Domingo de Ramos
Este é o dia que o SENHOR fez;
regozijemo-nos e alegremo-nos nele.
Bendito o que vem em nome do SENHOR.

A vós outros da Casa do SENHOR, nós vos abençoamos.
O SENHOR é Deus, ele é a nossa luz;
adornai a festa com ramos até às pontas do altar.
(Salmos 118:24,26-27)

Ao contrário do mito popular, a multidão que gritava “Hosana!” não é a mesma que pediu a crucificação de Jesus. A multidão que preparou a entrada de Jesus em Jerusalém foi aquela que, na frente e atrás dele, ia para a festa da Páscoa (Mt. 21:9; Jo. 12:12-13), enquanto o povo de Jerusalém não fazia idéia do que estava acontecendo (Mt. 21:10-11). No Evangelho de Lucas, a multidão é chamada de “multidão dos discípulos” que louvava a Deus “por todos os milagres que tinham visto” (Lc. 19:37), o que, no Evangelho de João, era a ressurreição de Lázaro, atraindo a atenção do povo de Jerusalém e o ódio dos fariseus (Jo. 12:17-19). Continue lendo “Os Ramos e a Multidão”

Trapo de Imundícia ou Linho Fino?

Judas

“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.” (Isaías 64:6)

“Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.” (Apocalipse 19:7-8)

Na interpretação evangélica popular de Is. 64:6, ocorre um erro bastante comum, que é o de atribuir a esse texto uma abrangência universal: o “nossas” de Isaías se torna o “nossas” do leitor e do restante da humanidade, de modo que toda as nossas boas obras (“justiças”) passam a ser vistas como más, sujas, imundas, pecaminosas. Trapo de imundícia são os panos sujos que cobrem coisas que, pela lei mosaica, são julgadas como imundas, como a pele dos leprosos. Continue lendo “Trapo de Imundícia ou Linho Fino?”

Per modum exempli: Tomás de Aquino sobre Cl. 1:24

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“Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja;” (Colossenses 1:24)

Colossenses 1:24 é um texto recorrente nos debates entre católicos romanos e protestantes acerca da intercessão dos santos e do tesouro de mérito. O texto nos diz que Paulo preenche, em sua própria carne e em favor da Igreja, o que falta das aflições de Cristo. O que quer que isso signifique, não é algo que se possa ignorar. Continue lendo “Per modum exempli: Tomás de Aquino sobre Cl. 1:24”

Agostinho e a Igreja invisível

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“Deixai-os crescer juntos até à colheita,
e, no tempo da colheita, direi aos ceifeiros:
ajuntai primeiro o joio, atai-o em feixes para ser queimado;
mas o trigo, recolhei-o no meu celeiro.”
(Mateus 13:30)

Agostinho ensinava a noção de Igreja invisível? Como expliquei num texto anterior (leia aqui), a noção de Igreja invisível pode ser tomada em direções diferentes, uma mais moderada e outra mais radical: pode-ser ver mais unidade ou mais tensão entre o visível (a instituição, a hierarquia, a membresia, o rito) e o invisível (o destino eterno). Por isso, antes de que pergunte se o Doutor da Graça apoiou ou mesmo originou a noção de Igreja invisível, é preciso afastar noções mais populares e menos elaboradas desse conceito. Trata-se de um teólogo — o maior da Igreja antiga. Continue lendo “Agostinho e a Igreja invisível”

Quatro coisas que Jesus nunca te disse

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Em várias situações, Jesus se dirigiu especificamente aos Doze quando falou, como quando ele disse que os colocaria em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel (Mt. 19:28 par.). Mas em outros momentos, embora Jesus tenha também falado diretamente aos Doze, o leitor moderno pode se sentir tentado a se imaginar como o destinatário original das palavras de Jesus, por qualquer motivo que seja, mas sempre por desatenção para com o próprio texto. Continue lendo “Quatro coisas que Jesus nunca te disse”

Um só Batismo

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“Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz; há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos.” (Efésios 4:1-6)

Um só Batismo. São três palavras (duas em grego) com um potencial incrível. Considerando Efésios como carta paulina, esse texto aponta para perspectiva interpretativa correta acerca dos diversos outros textos paulinos sobre o Batismo e os sacramentos. Continue lendo “Um só Batismo”

Vãs repetições? — Um erro de tradução em Mt. 6:7

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“Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras.” (Eclesiastes 5:2)

O que às vezes escandaliza no discurso de muitos evangélicos sobre oração é a falta de realismo. Enquanto se sabe e se afirma o “Orai sem cessar” (1Ts. 5:17), é comum que ele venha acompanhado de uma obrigação que o impossibilita: o dever da oração espontânea. Não é possível a um ser humano ser espontâneo sempre; há quem tenha maior facilidade, outros (como eu mesmo) têm maior dificuldade. Além disso, admita-se ou não, com o passar do tempo as orações ficam todas bastante iguais; você pode perceber que tipos de repetições certas pessoas sempre fazem, quando oram. Continue lendo “Vãs repetições? — Um erro de tradução em Mt. 6:7”