O Pai não julga a ninguém

Na cristologia bíblica, embora o título “Filho do Homem” sinalize, de certo modo, a humanidade de Jesus — o Filho do Homem (barnasha‘) é o Filho de Adão (benAdam) —, essa não é a conotação que essa expressão tem nos evangelhos.

Ela designa particularmente o papel de Cristo como juiz do mundo, escatológico e divino:

E o Pai a ninguém julga, mas ao Filho confiou todo julgamento… E lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do Homem.” João 5:22,27

Note bem:
(1) o Pai a ninguém julga.
(2) o Pai confiou ao Filho todo julgamento.

Essas duas declarações impõem dois importantes limites em qualquer entendimento dogmático da Obra de Redenção.

1) Essa obra não pode ser entendida como um julgamento do Pai sobre o Filho, ou de qualquer do Pai sobre qualquer outra pessoa em Cristo.

Se dizemos que o Pai julga o Filho, fazemos o próprio Filho mentiroso, o qual disse: “o Pai a ninguém julga”. Todo juízo está nas mãos do Filho — na verdade, tudo está nas mãos do Filho (Jo 13:3). Isso é bem visível em outros evangelhos, quando se fala do julgamento que o Filho do Homem exerce (cf. Mt 13:41; 16:27; 19:28; 25:31–32; Mc 8:38 etc.). João mostra, inclusive, que o Filho do Homem exerce juízo na Cruz contra o Príncipe das Trevas (Jo 12:31; 16:11). Mas a única coisa que o Pai faz, na cruz, é glorificar o Filho (12:23–24; 13:31; 17:1).

2) O juízo divino é obra sujeita à economia divina.

O que Cristo diz mostra que as pessoas divinas não são, por sua natureza, obrigadas a punir. O Pai não é obrigado a punir, já que ele a ninguém julga. Isso sinaliza aquela verdade mais profunda de que as criaturas não obrigam o Criador — o pecado de uma criatura não obriga a justiça divina a exigir uma satisfação punitiva. Como e quando Deus resolve o problema do pecado é uma questão que está dentro de sua própria determinação e sabedoria infinita.

Não é belo que o Pai tenha dado toda autoridade de julgamento justamente àquele que não veio para julgar e sim para salvar?

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Purgatório de C. S. Lewis: Uma Defesa Breve

 

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Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Mateus 5:8

A vida cristã é uma contínua reflexão sobre a morte, sobre o destino último do ser humano, na lembrança de que cada um terá de enfrentar o inimigo terrível (memento mori). Vivemos vidas piores quando não nos lembramos da seriedade do nosso destino. As distrações do tempo acabam por consumir e vencer nossos melhores ideais, enquanto a Eternidade nos dá o único parâmetro verdadeiro pelo qual devemos julgar o peso real das coisas. A grandeza e eternidade de Deus provocam a inquietante pergunta sobre o Para Onde. Continue lendo “O Purgatório de C. S. Lewis: Uma Defesa Breve”

Dez ensinamentos da Bíblia negligenciados no mundo evangélico


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A fidelidade dos evangélicos à Sagrada Escritura às vezes é frustrada por certa reticência em confessar aquilo que ela mesma ensina de modo claro e distinto sobre diferentes assuntos. Essas palavras não atingem a totalidade dos evangélicos, mas atingem em cheio certo tipo de evangelicalismo inculto de origem americana. Penso que a maioria dos evangélicos brasileiros, especialmente os de igrejas mais recentes, é atingida em ao menos um destes dez ensinamentos bíblicos.

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Não há salvação sem amor

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No texto anterior deste blog, eu escrevi sobre uma forma simples de conciliar as doutrinas da justificação pela fé e do juízo final segundo as obras, a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas: “fé” e “obras”, nos salvos, sinalizam uma mesma realidade, o amor divino que se entrega gratuitamente a nós e que habita em nós pelo Espírito Santo, de maneira que a fé justificante é uma fé que opera em amor, e as obras julgadas como dignas da vida eterna são também aquelas feitas em amor. Continue lendo “Não há salvação sem amor”

Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras

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“Igualmente, acerca da justificação, ensinamos que, falando propriamente, ela significa o perdão dos pecados e nossa aceitação ou reconciliação para a graça e favor de Deus, isto é, a verdadeira renovação em Cristo, e que os pecadores não podem obter essa justificação sem arrependimento e o movimento correto e próprio do coração para Deus e o próximo, que é obra do Espírito Santo.” — Abp. Thomas Cranmer, Treze Artigos de 1538 Continue lendo “Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras”

O pior do dispensacionalismo

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O dispensacionalismo é um sistema de interpretação, criado há menos de 200 anos, que encara a história da salvação a partir do conceito de “dispensações”, fases diferentes dessa história nas quais “alianças” diferentes de Deus com os homens marcam modos diferentes de relacionamento dos homens com Deus, com diferentes promessas e diferentes mandamentos. Essa história inclui eventos futuros, e por isso o grande apelo do dispensacionalismo é apresentar esses eventos em uma ordem e complexidade que nenhum outro sistema poderia ter. Continue lendo “O pior do dispensacionalismo”

Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas

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“Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.” (Romanos 14:10-12)

Embora as Sagradas Escrituras, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, repetidas vezes mencione o juízo escatológico, no qual os vivos e os mortos comparecerão ante o tribunal de Deus para serem julgados segundo as suas obras (cf. Mt. 16:24-27; Rm. 2:4-10; Ap. 20:12-15), recebendo por elas o seu destino eterno, esse tema perdeu vigor na linguagem teológica protestante no século XX, recuperando-se apenas através dos esforços renovados de biblistas. Continue lendo “Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas”

Sem Eternidade, sem Amor

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“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus,
e Deus, nele.” (I João. 4:16b)

Deus é amor. Sem Deus, sem amor. Sem amor, sem Deus. Uma ética do amor não é possível sem Deus, isto é, sem o Deus de Jesus de Nazaré, o Deus que é amor sacrificial. Sem Ele, não há qualquer motivo pelo qual o amor deva ser o princípio fundamental e triunfante no universo. Continue lendo “Sem Eternidade, sem Amor”