O senso de indignação salvará a Substituição Penal?



Ontem uma pessoa me trouxe uma pergunta-objeção de que eu gostei muito. Eu afirmo que Deus perdoa sem exigir punição, isto é, que Deus perdoa de fato perdoando, não num perdão fictício através de punição. A objeção foi a seguinte:

Imagine-se que alguém mata toda a minha família e agora estamos diante do juiz. O juiz chega à conclusão de que aquela pessoa realmente cometeu o assassinato, mas diz: “eu sou um juiz bondoso, e, por isso, vou perdoar o assassino.” Como eu me sentirei? Indignado, com certeza. Com isso, se quer dizer que o perdão não pode eliminar a punição. O senso de indignação seria um sinal da condição moral do comportamento do juiz em perdoar sem punir.

A pessoa que trouxe essa objeção disse que a ela foi posta por um pregador americano bastante popular. Por uma questão de ética, não direi que o pregador é Paulo Lavador.

Eu devo confessar que gosto muito dessa objeção, por um motivo óbvio: ela não é uma objeção bíblica. O que se tenta provar não pode ser fundamentado nas Escrituras, e o objetor (conscientemente ou não) sai do terreno bíblico para o da lei natural e do senso moral. Calvino faz mais ou menos o mesmo nas Institutas, apelando para a consciência incapaz de aceitar perdão sem punição (e isso abre uma janela interessante para os problemas de consciência do próprio Calvino). Eu não tenho nenhum problema com argumentar a partir da lei natural — parte da ética cristã depende de certos juízos não bíblicos —, mas quem coloca essa objeção precisa reconhecer que saímos do terreno bíblico.

O senso de indignação diante da situação inicial é, ao menos em parte, uma coisa importante. Envolve uma busca pela justiça, e a justiça envolve que o mal seja reconhecido. Se, diante do mal, nada acontece, não há diferença entre o mal e o bem.

Como eu responderia a essa objeção? De dois modos:

Primeiro, eu faria a seguinte proposta: vamos aplicar a Substituição Penal a essa situação, e vejamos o que acontece. Imagine-se que, na mesma situação, o juiz diz algo diferente: “realmente ele cometeu esse crime terrível, mas vou permitir que outra pessoa, um inocente, sofra a punição, enquanto ele pode sair ileso”. Como nos sentiremos nessa situação? Será que o senso de indignação ficou satisfeito? Na verdade, se formos pessoas moralmente sensatas, e não apenas preocupadas com nossa própria família, a nossa indignação agora triplicou: primeiro, porque o problema inicial não foi resolvido; segundo, porque agora ele está ainda mais longe de ser resolvido; terceiro, porque um inocente vai sofrer, sem culpa.

Então, em vez de solucionar o problema, a Substituição Penal o agrava. E, diferentemente da experiência imaginativa inicial, nesse caso podemos provar, a partir das Escrituras, a infâmia que é atribuir ao Justo Juiz a punição do inocente.

Segundo, ainda resta a situação colocada. Como eu a resolveria?

Nosso senso de indignação tem, em grande parte, a ver com um valor imenso (a vida) que foi perdido irremediavelmente. Não temos o mesmo senso de indignação com uma obra de arte destruída (mesmo que não possa ser reconstruída). Temos uma indignação ainda menor com a destruição de um objeto que pode ser restituído.

Então, mudando um pouco a situação, imagine que um ladrão, arrependido, devolve o que roubou e paga uma multa (já que o apenas devolver não resolve a situação). Numa situação assim, ninguém dirá que ele precisa receber punição total, ou que alguém precisa receber no lugar dele. O senso de indignação fica satisfeito, porque o ladrão foi capaz de fazer certa restituição. Nessa situação, ele não precisa ser punido (preso, mutilado, morto etc.), apenas restaurar o que foi destruído, mediante um arrependimento genuíno (que não somos capazes de julgar com perfeição).

Nós temos um senso de indignação violado porque perdemos nossa família e não há como a recuperar. Mas se fosse possível fazê-lo (e para Deus é possível), não seria uma indignação tão grande. No caso da vida, a justiça humana não é capaz de aplicar nada semelhante, porque a vida não pode ser restituída. Mas na justiça de Deus, ela pode, sim. Não há nada que Deus não possa restituir, restaurar, reparar e compensar, vindicando as vítimas. O poder restaurativo da justiça divina acrescenta uma dimensão importante a qualquer necessidade de retribuição.

Mas é importante observar que, para Deus, esse tipo de problema simplesmente não existe, porque, embora nós percamos, Deus não perde nada. Não pode haver para Deus *o mesmo* senso de indignação que há para nós. Se é uma ofensa a Deus, ele pode sim simplesmente retirar a queixa, já que Deus nunca perde nada. Ele é o juiz e não precisa prestar contas.

Na verdade, essa é a diferença entre Deus e o homem. Veja o que a Bíblia diz: “Não executarei o furor da minha ira; não voltarei para destruir a Efraim, porque eu sou Deus e não homem, o Santo no meio de ti; eu não entrarei na cidade.” (Oséias 11:9)

É aí que está a diferença entre Deus e o homem, justamente a capacidade de perdoar com liberdade. Ele é Deus e não homem. É por isso que ele progressivamente ensina o seu povo a fazer o mesmo. A não procurar vingança, a oferecer a outra face.

O melhor juiz não é o que faz a aplicação inflexível da lei, mas o que promove a realização da justiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Justiça e Misericórdia

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A ti também, Senhor, pertence a misericórdia;
pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.
Salmos 62:12

Deus é absolutamente simples, sem corpo, partes ou paixões. A essência divina é o que é, nada podendo se lhe acrescentar ou subtrair. Deus nada recebe de suas próprias criaturas; antes, ele mesmo é o Princípio Absoluto de tudo o que há e é — não um ser entre outros, mas o Ser em si mesmo, e, portanto, absolutamente imutável. Enquanto nós, seres humanos, juntamente com todas as criaturas, somos compostos, uma mistura em contínuo fluxo, em integração e desintegração, em presença e ausência, em necessidade e contingência, em ato e potência, Deus é absolutamente puro, absolutamente intocável na Luz Inacessível. Enquanto nós somos nós mesmos e nossas circunstâncias, em Deus não há circunstância: Deus é o que é.

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C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron

C S Lewis

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.  Filipenses 4:8

A vontade de Deus é central para o modo como os cristãos encaram o sentido último de todas as coisas. Na Oração, o Filho de Deus ensinou os homens a pedir ao Pai Celeste dizendo que “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, não muito diferente do que pediria no seu sofrimento: “não seja como eu quero, mas como tu queres”. Com isso não convencemos Deus a fazer Sua vontade, como se de outro modo Ele não a fizesse — Ele a fará —, mas apenas nos colocamos diante do mistério que ela encerra e a aceitamos com resignação e com fé, seja qual for. Pois, seja qual for, a vontade de Deus será sempre boa, ainda que vivenciá-la como boa exija a renovação da nossa própria mente.  A oração cristã, por si mesma, exige fé na bondade absoluta da vontade de Deus. Continue lendo “C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron”

Trapo de Imundícia ou Linho Fino?

Judas

“Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento, nos arrebatam.” (Isaías 64:6)

“Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos.” (Apocalipse 19:7-8)

Na interpretação evangélica popular de Is. 64:6, ocorre um erro bastante comum, que é o de atribuir a esse texto uma abrangência universal: o “nossas” de Isaías se torna o “nossas” do leitor e do restante da humanidade, de modo que toda as nossas boas obras (“justiças”) passam a ser vistas como más, sujas, imundas, pecaminosas. Trapo de imundícia são os panos sujos que cobrem coisas que, pela lei mosaica, são julgadas como imundas, como a pele dos leprosos. Continue lendo “Trapo de Imundícia ou Linho Fino?”

O Massacre dos Canaanitas

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“O SENHOR é misericordioso e compassivo;
longânimo e assaz benigno.
Não repreende perpetuamente,
nem conserva para sempre a sua ira.
Não nos trata segundo os nossos pecados,
nem nos retribui consoante as nossas iniqüidades.”
(Salmos 103:8-10)

A sombra da heresia de Marcião se faz presente quando o Antigo Testamento é nomeado. Fala-se com horror do “Deus do Antigo Testamento”. Com isso, quer-se dizer um que seja furioso, exigente e severo, em oposição ao amoroso e terno do Novo Testamento; um Deus distante e ritualista contra um Deus próximo e sentimental; um Deus que usa os seres humanos em oposição a um Deus que se doa aos seres humanos. Essa é uma das piores caricaturas da Sagrada Escritura. Continue lendo “O Massacre dos Canaanitas”

Torna-te o que tu és

luthertotle“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”  (Colossenses 3:3)

É famosa a polêmica de Lutero contra Aristóteles. Se, por um lado, Lutero representava uma reação agostiniana extremada (até disparatada) à absorção da filosofia aristotélica pelos escolásticos, ele estava bem consciente da incompatibilidade entre diversos elementos da Ética de Aristóteles e a teologia da graça. Muito de Aristóteles precisava morrer para que ele fosse batizado. Continue lendo “Torna-te o que tu és”