Simul Justus et Peccator? Uma leitura apocalíptica.

A Redenção, assim como a Criação, é realizada pela Palavra criativa de Deus. Uma das contribuições mais importantes da Escola Apocalíptica — inspirada em Käsemann e pouco conhecida além dos círculos protestantes de estudos bíblicos — é a noção de que a “justificação” (pela fé) em Paulo deve ser entendida como “retificação”: Deus agindo para endireitar o que está errado no homem e no mundo.

Quando Deus encontra o homem ímpio e o “conta” como justo, a Palavra divina não apenas aceita a condição do pecador através de uma ficção legal, nem age como como contabilista de méritos humanos, mas, como ação criativa, ela gera uma realidade nova que não existia até então. Nos espíritos, Deus diz, mais uma vez: “Haja luz”.

Fleming Rutledge ilumina a questão com o exemplo de Gideão, herói do Antigo Testamento que já deve ter figurado em muitos sermões pentecostais e carismáticos por aí, mas que nem sempre aparece ligado ao tema da justificação. (Ele aparece em Hb 11:32-33 entre os que “pela fé venceram reinos” e “praticaram a justiça”).

A palavra do anjo do Senhor a Gideão foi “O Senhor é contigo, homem valente.” (Jz 6:12). Gideão não era, até então, um homem valente, mas essa palavra, de caráter profético, é uma palavra de envio e, portanto, aponta para um novo futuro que Deus inicia, e não para o passado do próprio Gideão. A explicação de Deus é: “Vai nesta tua força, e livrarás a Israel das mãos dos midianitas; porventura não te enviei eu?”. Deus chama à existência aquilo que ainda não é, mas que então começa a surgir. Ao dar um novo destino a Gideão e colocar-se ao seu lado na batalha — uma batalha que seria vencida por Deus —, Deus gera um novo Gideão.

De fato, a palavra sobre o “homem de valor” tem um sabor irônico, mas temos já aí a ironia de Deus, que manifesta sua força através da fraqueza de Gideão, mostra sua grandeza através do pequeno, transformando a realidade pela fé.

Como no Evangelho de João, caracterizado por uma escatologia já realizada, que trata o futuro como já presente — “consumei” (17:4-5) antes de já estar “consumado” (19:28,30), ou “está julgado” (16:11) antes de ser julgado (12:31), ou “tem a vida eterna” (6:47) antes da “ressurreição da vida” (5:29), e tantos outros exemplos —, os olhos da fé veem, no presente, o começo do futuro e, com isso, veem já o futuro inteiro, como por uma janela. Como Santo Agostinho no De Trinitate, a justiça começa como um poder interior, ainda por frutificar. É o poder dos “novos céus e nova terra, onde habita a justiça”, que irrompe no presente como signum praedestinationis, gerando pelo Espírito, em prolepse, a identidade escatológica.

É nesse sentido, e talvez só nele, que se pode falar do remido como simul justus et peccator (simultaneamente justo e pecador) — ainda é um coração que produz o pecado, mas que também é alvo do agir salvador de Deus (“justiça”). Essa condição é uma dádiva, mas o dom é um poder na guerra: na luta contra as paixões dos pecados, contra principados e potestades. Como na reviravolta do livro de Ester, o povo judeu recebe, do rei, o presente que lhes dará vida, mas o presente não é a anulação da sentença de morte por instigação de Hamã (Satanás), mas a capacidade de se defenderem, através de uma nova lei. Essa é sua vindicação.

Por isso, é uma condição da qual alguém deve se alegrar, até gloriar-se na cruz — como escreveu Paulo com certo exagero poético, mas também com uma verdade visceral —, mas não simplesmente descansar. É uma nova posição no “grande conflito”: não como escravos dos poderes das trevas e sujeitos à morte, mas como membros alistados das hostes celestes, lutando com armas poderosas em Deus para a destruição de fortalezas, pois o inimigo mais poderoso já foi vencido e desarmado.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não há salvação sem amor

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No texto anterior deste blog, eu escrevi sobre uma forma simples de conciliar as doutrinas da justificação pela fé e do juízo final segundo as obras, a doutrina da salvação e a doutrina das últimas coisas: “fé” e “obras”, nos salvos, sinalizam uma mesma realidade, o amor divino que se entrega gratuitamente a nós e que habita em nós pelo Espírito Santo, de maneira que a fé justificante é uma fé que opera em amor, e as obras julgadas como dignas da vida eterna são também aquelas feitas em amor. Continue lendo “Não há salvação sem amor”

Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras

Autun, Kath. Saint Lazare, Tympanon - Autun, Cath. Saint Lazare, tympanum -

“Igualmente, acerca da justificação, ensinamos que, falando propriamente, ela significa o perdão dos pecados e nossa aceitação ou reconciliação para a graça e favor de Deus, isto é, a verdadeira renovação em Cristo, e que os pecadores não podem obter essa justificação sem arrependimento e o movimento correto e próprio do coração para Deus e o próximo, que é obra do Espírito Santo.” — Abp. Thomas Cranmer, Treze Artigos de 1538 Continue lendo “Justificação pela fé e Juízo Final segundo as obras”

Unidade entre Justificação e Santificação

Rembrandt Batismo do Eunuco

“…mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.” — I Coríntios 6:11

“Essa justiça, portanto, é dada aos homens no batismo e sempre que eles verdadeiramente se arrependem.” — Martinho Lutero, Sermão sobre dois tipos de justiça

A doutrina da justificação é central para a compreensão da natureza e propósitos da Reforma Protestante. Tal doutrina não apenas sinaliza diferenças cruciais entre o catolicismo tridentino e o protestantismo, como também diferenças — não inconciliáveis, talvez — dentro do próprio protestantismo, entre Lutero e Calvino, entre as tradições que os seguiram, e sobre as quais penso que cada lado acertou e errou em alguma medida. Pois a doutrina da justificação não é sem ambigüidades e dificuldades, que refletem a unidade com que justificação e santificação aparecem nas Sagradas Escrituras. O uno é descrito com mais dificuldade que o múltiplo. Continue lendo “Unidade entre Justificação e Santificação”

Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)

Rembrandt Ressurreição de Cristo

ὃς παρεδόθη διὰ τὰ παραπτώματα ἡμῶν
καὶ ἠγέρθη διὰ τὴν δικαίωσιν ἡμῶν.
“Ele foi entregue à morte por nossos pecados
e ressuscitado para nossa justificação.”

(Romanos 4:25)

Que relação existe entre a Justificação e a Ressurreição? Se se fizer essa pergunta a um defensor da Substituição Penal e da Justiça Imputada, talvez não se obtenha nenhuma resposta satisfatória. Nessa teologia, a Ressurreição de Cristo não tem nenhum papel salvífico a desempenhar, mas somente a Cruz, por meio da qual a justiça de Cristo é atribuída (imputada) a nós, e nossos pecados atribuídos (imputados) a ele. Justificação seria apenas o projeto divino de matar alguém para que possa perdoar os “verdadeiros” culpados. Não resta nada para a Ressurreição, que assume função apologética: mostrar que realmente Jesus era o filho de Deus, e que seu sacrifício no Calvário foi aceito pelo Pai. É esse o ensino da Sagrada Escritura? Continue lendo “Ressuscitou para nossa justificação (Rm. 4:25)”

Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas

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“Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas o teu? Pois todos compareceremos perante o tribunal de Deus. Como está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus. Assim, pois, cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus.” (Romanos 14:10-12)

Embora as Sagradas Escrituras, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, repetidas vezes mencione o juízo escatológico, no qual os vivos e os mortos comparecerão ante o tribunal de Deus para serem julgados segundo as suas obras (cf. Mt. 16:24-27; Rm. 2:4-10; Ap. 20:12-15), recebendo por elas o seu destino eterno, esse tema perdeu vigor na linguagem teológica protestante no século XX, recuperando-se apenas através dos esforços renovados de biblistas. Continue lendo “Juízo Final, segundo as obras, nas Confissões Reformadas”