Lei Moral? Lei Cerimonial? Lei Civil?

Alguém perguntou sobre a distinção tradicional entre as diferentes leis, no Antigo Testamento. Alguns comentários:

1. Essa distinção é útil quando queremos ensinar as pessoas a ler os mandamentos do Antigo Testamento e identificar o que elas devem ou não aplicar em suas próprias vidas: devem focar nos princípios enraizados na natureza divina e na natureza humana (“lei moral”), e não nas circunstâncias político-sociais (“lei civil”) e simbólico-cultuais (“lei cerimonial”) da nação israelita. O próprio AT não coloca tudo no mesmo nível, mas dá mais importância a algumas coisas.

2. Isso não significa que as leis consideradas civis e cerimoniais são inúteis. Há sempre princípios morais por trás delas. Por exemplo, São Paulo usa alegoricamente a lei “cerimonial” sobre fermento (1Co 5:7-8). Há sempre a possibilidade de uma leitura cristológica e eclesiológica dessas leis, de modo que toda a Escritura seja útil.

3. Por outro lado, embora essa distinção seja muito antiga, os escritores do Novo Testamento não dão nenhum indício de conhecê-la. Assim, não podemos presumir que eles a conheciam. Não podemos ler as referências à “lei” nas epístolas paulinas como se Paulo tivesse em mente apenas as leis cerimoniais. Ele fala da lei, apenas da lei.

4. Existem maneiras, na exegese contemporânea, de chegar a algo próximo dessas distinções, mas sem o toque da teologia sistemática. Um exemplo é a proposta de James Dunn de encarar as “obras da lei” como significando os prefeitos religiosos que distinguiam o judaísmo num ambiente pagão (circuncisão, sábados, leis de pureza). Isso eu parecido (mas não exatamente igual) à “lei cerimonial”. Não se trata de uma doutrina sobre distinções teológicas na lei, e sim observação sobre a sociologia de certas práticas religiosas.

Quanto ao tópico 1: O Antigo Testamento (e depois a literatura deuterocanônica) tem muitos exemplos de como certas práticas são mais valorizadas por Deus do que outras. Por exemplo:

“Porém Samuel disse: Tem, porventura, o Senhor tanto prazer em holocaustos e sacrifícios quanto em que se obedeça à sua palavra? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrificar, e o atender, melhor do que a gordura de carneiros.” 1Sm 15:22

“Fazer justiça e julgar com retidão é mais aceitável ao Senhor do que oferecer sacrifícios.” Pv 21:3

“Pois quero misericórdia, e não sacrifício; conhecimento de Deus, mais do que holocaustos.” Os 6:6

Nesses e noutros casos, vemos que as práticas de sacrifícios (“lei cerimonial”) não tinham valor absoluto. De fato, elas poderiam se tornar abomináveis a Deus quando conduzidas por corações maus, e é daí que procede a “crítica profética” ao culto israelita. Essa crítica não era uma rejeição do culto, pois a negligência também era culpável, como lembra Malaquias.

De todo modo, há uma hierarquização nos mandamentos que era conhecida do Judaísmo do Segundo Templo e presumida por várias palavras de Jesus, como quando ele coloca os dois mandamentos do amor acima dos demais, ou quando ensina que o mais importante na lei é o juízo, a misericórdia e a fidelidade.

É por isso que certos pecados (como idolatria e opressão dos pequenos) são condenados com maior severidade e frequência nos profetas. Essas observações estão na raiz na distinção posterior entre os tipos de leis.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Antigo Testamento continua lindo?

Moses-with-the-tablets
Desde o princípio da Igreja, os cristãos precisaram lidar com a interpretação e aplicação do Antigo Testamento. Foi a partir de certas interpretações das Escrituras Sagradas dos hebreus que os primeiros apóstolos e discípulos de Jesus defenderam sua prerrogativa messiânica e, portanto, a necessidade da conversão à nova fé, ainda alguns anos antes do surgimento dos escritos que comporiam o Novo Testamento. Continue lendo “O Antigo Testamento continua lindo?”

C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron

C S Lewis

Quanto ao mais, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é honesto, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se há alguma virtude, e se há algum louvor, nisso pensai.  Filipenses 4:8

A vontade de Deus é central para o modo como os cristãos encaram o sentido último de todas as coisas. Na Oração, o Filho de Deus ensinou os homens a pedir ao Pai Celeste dizendo que “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu”, não muito diferente do que pediria no seu sofrimento: “não seja como eu quero, mas como tu queres”. Com isso não convencemos Deus a fazer Sua vontade, como se de outro modo Ele não a fizesse — Ele a fará —, mas apenas nos colocamos diante do mistério que ela encerra e a aceitamos com resignação e com fé, seja qual for. Pois, seja qual for, a vontade de Deus será sempre boa, ainda que vivenciá-la como boa exija a renovação da nossa própria mente.  A oração cristã, por si mesma, exige fé na bondade absoluta da vontade de Deus. Continue lendo “C. S. Lewis e o Dilema de Eutífron”

Sem Eternidade, sem Amor

triscel

“Deus é amor, e aquele que permanece no amor permanece em Deus,
e Deus, nele.” (I João. 4:16b)

Deus é amor. Sem Deus, sem amor. Sem amor, sem Deus. Uma ética do amor não é possível sem Deus, isto é, sem o Deus de Jesus de Nazaré, o Deus que é amor sacrificial. Sem Ele, não há qualquer motivo pelo qual o amor deva ser o princípio fundamental e triunfante no universo. Continue lendo “Sem Eternidade, sem Amor”