A Páscoa livra do medo

Algumas pessoas têm um medo profundo da Sexta-Feira Santa e do Sábado Santo. Têm medo do Cristo Crucificado e Sepultado. Elas se sentem profundamente aflitas com esses momentos, e sentem a necessidade de falar logo da Ressurreição. Sentem a necessidade de se livrar do pesar da Cruz, do peso do luto, que sempre iluminou e inspirou a espiritualidade dos cristãos.

Não é de hoje. Poucos foram os discípulos aos pés do Crucificado.

Em alguns casos, o motivo é que elas veem a Paixão e Morte como algo que Cristo passou no lugar delas, e não com elas e por elas. É algo de que Deus as livrou — Deus nos livrou de si mesmo, dizem —, então não veem sentido em abraçar e participar do sofrimento de Cristo. Não entendem que devemos, sim, beber do amargo cálice da Paixão. Isso empobrece a vida de discípulo, que é carregar a Cruz com Jesus. Com Jesus! Com Jesus.

Amaldiçoar o Crucificado dos nossos corações é negligenciar nossa própria santificação. É o gérmen de uma espiritualidade burguesa e amante da comodidade, e que vê Deus como provedor da nossa comodidade. São Paulo ensina, com todo o Novo Testamento: preciso participar dos seus sofrimentos para participar da sua Ressureição. A fraqueza leva ao maior poder. Por isso aprendemos durante toda a Quaresma: o amor da comodidade é um grande engano. O deserto nos prepara para a Paixão.

Assim como o Crucificado venceu o Pecado, o Sepultado levou o Evangelho até a profundidade do Cativeiro humano, espoliando o forte pela força maior da sua Graça.

Mas é sofrer com Jesus na Sexta e no Sábado o que prepara o nosso coração para a alegria do Domingo de Páscoa, para a exultação do Senhor Triunfante que rompeu os grilhões da morte e aniquilou a força do Inimigo. Hoje não é dia de luto, mas de alegria, de júbilo, de cânticos alegres nos céus e na terra.

Não tenham medo da Sexta-Feira e do Sábado, da Paixão e do Sepultamento. Deus não é o Inimigo. Ele é o teu Libertador. Ele te faz vencer o medo. Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Não seria melhor dar tudo aos pobres?

Quando uma igreja é destruída ou depredada por qualquer motivo, de maneira acidental ou intencional, é comum se ver grande comoção e tristeza. Pensemos, por exemplo, no incêndio da Notre-Dame de Paris em 2019, ou na destruição da Igreja Martin Luther (luterana) em 2018, aqui no Brasil. Ou pensemos também naquelas igrejas destruídas por bombardeios, como a Igreja Memorial Kaiser Wilhelm (em Berlim) ou a St Dunstan (em Londres), ambas atacadas por bombardeios na Segunda Guerra, há muito tempo.

Nós nos entristecemos pela beleza perdida e pela comunidade que ali realizava seus serviços religiosos, quando é o caso. A arquitetura sagrada dessas construções nos remete a algo que nos toca profundamente como seres humanos, como pessoas integrais, mesmo quando (normalmente) não somos capazes de interpretar conceitualmente o sentido de cada coisa. É um senso de totalidade e profundidade, de que esses lugares não são casas apenas para abrigar nossos corpos, mas também nossas almas inquietas. Esse tipo de construção se coloca diante de nós como um mundo saturado de sentido e significado, enquanto fora reina a confusão. Não me refiro apenas às catedrais góticas mais famosas, mas mesmo as construções pré-românicas mais simples e brutas, aquelas igrejas visigóticas de pedras irregulares (tão humanas!), se colocam ao nosso redor como uma muralha a nos proteger e a dirigir nossa atenção, sob luz de velas, à única coisa essencial. Estes me falam muito mais, na verdade, inclusive sobre uma vida mais simples.

A destruição ou depredação de igrejas nos diz algo sobre nós mesmos, tanto sobre nosso poder de destruição irrestrito e insano, como também nossa incapacidade de cuidar com atenção e zelo das coisas que afetam nossa alma. O tratamento dispensado às pessoas e às coisas ao nosso redor diz muito sobre nossa própria vida interior, sobre nossas prioridades e nosso tédio (no sentido existencial da palavra). Isso é especialmente verdade quando perdemos o senso de sagrado. Na Antiguidade, como a própria Bíblia testemunha, o espaço sagrado era o lugar de refúgio, onde o sangue não poderia ser derramado em nenhuma hipótese, para onde as pessoas corriam a agarrar as pontas do altar. Foi assim que aprendemos que, no fundo, não devemos derramar o sangue de ninguém.

Nós nos surpreendemos quando ouvimos alguém dizer, diante dessas destruições, que essas coisas não têm importância. Mas não é uma surpresa completa. Não é segredo que muita gente se vê incapaz de reconhecer um valor na beleza artística. Mesmo quando ainda está “pedra sobre pedra”, uma pergunta (legítima) é repetida: não era melhor dar tudo aos pobres? Eu perdi as contas de quantas vezes vi pessoas dizerem coisas assim, geralmente de ateus, cristãos secularizados e evangélicos menos tradicionais. Não haveria uma maneira melhor de investir nosso tempo, recursos e atenção? Não parece um grande desperdício investir em igrejas de pedra belas, ou em conservar as que já existem, quando há outros problemas no mundo?

O que devemos nos perguntar é o que está em jogo: se é não ver real valor nesse tipo de arquitetura, ou se a questão é mesmo com respeito a dirigir os recursos para pessoas pobres (ou outro propósito nobre). Uma pessoa pode achar que esse tipo de construção não tem valor (ou bem pouco), e aí, obviamente, qualquer outro investimento será melhor — o que está em jogo não é exatamente a questão da pobreza (que seria apenas ums forma de atrair atenção para a questão). Outra pessoa pode pensar, no entanto, que tudo deve ser investido na “questão social”, que nenhuma outra forma de direcionar recursos seja válida, mesmo que esse tipo de arquitetura tenha valor. São duas formas diferentes de pensar.

Não é difícil perceber que o cuidado com as pessoas mais pobres é uma questão de muita importância para Cristo, para os apóstolos e para os primeiros cristãos, segundo o testemunho do Novo Testamento. A primeira comunidade de Jerusalém mostra, no relato lucano, uma preocupação muito aguda com a distribuição para os pobres e viúvas, e o apóstolo Paulo, em particular, confere a isso importância considerável, no seu ministério — coisa que ele mesmo conecta a uma orientação dos apóstolos mais antigos. Como no Antigo Testamento, o Novo retrata as obras de misericórdia como sacrifícios a Deus, atraindo o seu favor. Não custa relembrar que Cristo retrata o modo de tratar os famintos, sedentos e nus como determinante no Juízo Final (Mt 25). Isso está continuidade com a maneira como os profetas antigos tratavam as questões morais; de nada adiantava o culto vocal e ritual a Deus se o coração estava longe dele e se as mãos praticavam injustiça. Os jejuns e orações não eram atendidos por Javé. A Igreja morre espiritualmente quando fecha seu coração para esses problemas.

Por isso mesmo, no entanto, é que a questão social se torna facilmente uma boa desculpa para negarmos qualquer outra necessidade dentro da missão da Igreja. “Por que não se vendeu este perfume por trezentos denários e não se deu aos pobres?” (Jo 12:5) — essas são as palavras de Judas, que, no fundo, queria o dinheiro para si. Para Cristo, receber o perfume caro, em vez de doar o valor aos pobres, é uma forma perfeitamente válida e exemplar de honra. Ele não precisava daquele perfume. Mas ai de nós se pensarmos que, porque ele não precisa do que os damos, não devemos lhes dar mais nada. Na verdade, assim, nós nos tornamos pessoas piores.

Essas coisas não são inimigas. Podemos atentar tanto para a melhoria do culto a Deus quanto para as necessidades das pessoas mais vulneráveis. O esplendor da adoração a Deus e o socorro dos necessitados não estão em oposição. Cristo predisse a destruição do Templo de Salomão, mas os próprios discípulos continuaram adorando lá — o livro de Atos tem, em seu programa, o propósito livrar os cristãos da acusação de que eram inimigos do Templo.

A pergunta que cada um de nós deve se fazer é: por que eu não doei aos pobres tudo o que recebi? Essa não é uma pergunta retórica piegas, uma maneira de individualizar uma questões social real. Tente respondê-la. Embora possa ter doado algo, você talvez tenha destinado alguma quantia (excedente) para outras coisas que julgou corretas — talvez com livros e com arte, por exemplo, com coisas que vão te ajudar como pessoa. Porque você sabe que há outras necessidades.

É mais ou menos o motivo pelo qual a Igreja não investe apenas em projetos sociais, mas também em outras coisas — que, por sua vez, devem nos inspirar a servir outras pessoas. Os fatores não são independentes. Então, ao tentar enriquecer o mundo com beleza explicitamente cristã — e não apenas aquela atematicamente cristã já presente no mundo —, com uma contemplação inspiradora e pública, a arte cristã nos dá algo de que todos nós somos indigentes, quanto às necessidades e valores da alma. Não é privilégio de uma elite capaz de viajar ou até de construir para si. Os pobres têm direito a pão e têm direito a beleza.

O Antigo Testamento exemplifica muito bem o modo como Deus atenta para essas nossas necessidades, no detalhamento da construção do Tabernáculo e das vestes dos sacerdotes “para glória e ornamento” — os construtores precisavam mesmo do Espírito profético para realizarem sua obra. A dignidade do lugar e do culto deveria refletir a dignidade de Deus, a “beleza da santidade”, de modo que Deus fosse contemplado no Templo. Por isso, os israelitas tratavam com carinho a dimensão física do culto. “Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste.” (Sl 26:8); “porque os teus servos amam até as pedras de Sião e se condoem do seu pó.” (Sl 102:14).

Esses salmos não são exemplos de um amor doentio pelas coisas ou de um apego infantil pelas realidades corporais. Eles expressam amor a Deus e ao próximo. Amamos as coisas por amor a Deus, porque elas foram consagradas a ele, pertencem a ele, remetem a ele. Por isso, o embelezamento do Templo é visto como um sinal divino (cf. Ed 7:27; Is 60:13).

Essas pedras e símbolos têm um estranho poder acolhedor que nossas construções modernas “puramente funcionais” (ao menos da perspectiva ideológica) não alcançam. Elas clamam e proclamam aquilo que as palavras não conseguem exprimir. Assim como nossas roupas não apenas nos protegem do frio e do olhar, mas nos dignificam e nos colocam acima da condição animal e objetificada — e grande parte da caridade de vestir o nu está aí —, nossas igrejas são como vestes que mostram que há num valor maior do que a nossa própria mesquinhez. Tudo aponta para cima, para fora, para dentro, para baixo, de maneiras diferentes e necessárias.

Essas antigas igrejas, que nós hoje, por priorizarmos mais o dinheiro, não construiríamos, nos falam de uma época em que os homens valorizavam a Deus mais do que nós, a ponto de investirem em construções que só estariam realmente prontas décadas depois de suas mortes, como um testemunho da transcendência do Eterno, e também da eternidade de nosso próprio espírito. Eles não precisavam ver, mas apenas crer, e começar a preparar um mundo melhor para as próximas gerações.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Quaresma não é um produto

“…esta noite te pedirão a tua alma…” Lc 12:20

Uma tentação constante, para os cristãos da nossa época, é a de tratar a igreja e a vida cristã como um lugar que nos livra dos nossos problemas. Nossa cultura incentiva essa maneira de viver, e muitos cristãos são tentados até mesmo a apresentar o evangelho assim. Em alguns casos, tentam mostrar a sua religião como uma solução para problemas que as pessoas enfrentam; em outro, tentam apresentar às pessoas problemas que elas nem imaginam que têm (“o pecado”) para em seguida mostrarem a solução.

Nem tudo isso é necessariamente errado. Não me levem a mal: os sofrimentos que há no mundo são sérios, e a Igreja tem sim responsabilidade de mostrar onde encontrar alívio e inclusive de mudar o que precisa e pode ser mudado. Nossas vida são todas entrelaçadas, não podemos nos fechar em nossa tendas na montanha. Devemos descer a montanha para enfrentar os demônios que oprimem outras pessoas.

No entanto, e talvez por isso mesmo, a Igreja também nos chama a sofrimentos, porque Deus também nos chama a sofrimentos. Cristo era muito direto: quem quiser me seguir, carregue sua cruz, e eu não ofereço travesseiro. Esses sofrimentos do evangelho não são buscados como fins em si mesmos — não há um amor à dor —, mas eles são parte de um processo pelo qual nós nos tornamos como Cristo. A Quaresma não é um solução para os nossos problemas, ela é um problema para as nossas soluções, um pequeno incômodo para quem está cômodo.

O projeto de vida de de algumas pessoas é alcançar algum tipo de comodidade. Mas a terra que mana leite e mel não é um destino último, é o ponto de partida para uma missão ao mundo inteiro.

A Quaresma é a lembrança de que somos chamados ao sofrimento, a abraçar o deserto, a participar do sofrimento do mundo, e não apenas combatê-lo. Oramos em silêncio e em segredo, nós nos abstemos de comer e doamos o que é nosso — esses desafios que o Senhor coloca diante de nós são parte do processo de colocar a nossa dependência no lugar certo. Estar no deserto é se libertar da cultura de consumo que nos anestesia contra a realidade do sofrimento no mundo.

Então a Quaresma não é mais um produto para solucionar nossos problemas momentâneos. Ela é um problema. Ela é o reconhecimento de um problema que está aí, em primeiro lugar. Ela é a aceitação da realidade. Ela é o convite para aqueles que estão, como Jesus, cheios do Espírito Santo (ou ao menos acham que estão), para entrar no sofrimento.

Não há maturidade enquanto queremos que tudo seja cômodo, que tudo seja muito “à vontade”. Por isso, a Quaresma é um chamado ao amadurecimento, à responsabilidade. A cada ano, a cada Quaresma, é uma oportunidade de amadurecer um pouco mais e assumir responsabilidades mais profundas.

A lógica do produto é gerar comodidade de algum tipo. A Quaresma nos tira da comodidade momentânea. Frequentemente a vida se enche de comodidades, de conforto que toma nossa atenção, nos cega e nos torna dependentes. Nós não somos feitos para desfrutar de comodidade neste mundo. Estamos cada vez mais cercados de coisas que atraem nossa atenção com maior força e, ao mesmo tempo, merecem cada vez menos atenção, uma superficialidade cada vez mais poderosa.

Ao reduzir o consumo e aumentar a partilha, pedimos que o Senhor transforme nosso desejo em amor. O deserto rompe vínculos, muda o foco da nossa atenção, muda a velocidade do tempo, muda o tempo do tempo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Epifania é uma mistagogia

O tempo da Epifania (Tempo Comum I), entre o Natal e a Quaresma, não é simplesmente uma zona neutra verde, como um “sorbet” para limpar o paladar. Por estar entre a Encarnação e a Ressurreição, entre a chegada do Rei e sua vitória definitiva, esse tempo nos coloca como discípulos, no meio do caminho, sendo formados por Jesus, acompanhando o seu ministério e seus atos.

Por isso, na forma atual, a Epifania começa com Cristo sendo manifestado aos três reis-magos (pagãos que chegaram a ele através da sabedoria da contemplação dos céus), a João Batista (o maior profeta dos judeus vendo o milagre descer dos céus à terra) e aos seus discípulos (através do milagre Caná provocado pelo pedido perseverante de Maria). Essa tripla epifania revela Cristo como Filho aos representantes dos três povos. “Tu és o meu Filho amado” (Lc 3:22); “manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.” (Jo 2:11).

Aos reis, ele se revela como Rei. Ao profeta, ele se revela como o Profeta. A quem ele se revela como o Sacerdote, senão àqueles que ele transforma em sacerdotes?

Neste ano C (Lucas), no meio do caminho entre a Epifania e a Transfiguração, Cristo se coloca como cumprimento das profecias antigas e é rejeitado em Nazaré. Antes mesmo de formar sua primeira comunidade, ele já diz a que veio, já coloca o programa da sua missão para os pobres e oprimidos, trazendo a justiça do Deus de Israel, tão esperada. Ele mostra, com isso, a necessidade de avançar para além da sinagoga de sua época, restrita ao ensino da Lei, e de como Deus, ao ser rejeitado, leva seus milagres aos estrangeiros e rejeitados.

Então Jesus sobe o monte, escolhe seus doze apóstolos, desce à multidão dos discípulos e, para essa nova comunidade, traz sua mensagem de esperança para os pobres, famintos, sofredores e perseguidos — a esperança do Reino de Deus, que traz reviravolta ao mundo — e, contudo, uma mensagem de amor aos inimigos, amor radical, amor reconciliador, uma mensagem de misericórdia que nos ancora na misericórdia transformadora do Pai, e que nos tira da lógica das recompensas meramente humanas e passageiras.

São os discípulos que primeiro aprenderam essas coisas que agora podem subir o monte para contemplar o Reino de Deus vindo com poder, e então descer para enfrentar os poderes das trevas que atacam os pequeninos, a confusão do mundo. Eles precisavam primeiro ter o coração purificado em sua esperança e em seu amor.

Esse tempo termina com a manifestação máxima: a Transfiguração, na qual os três discípulos de Cristo (como os três magos) têm uma visão de Cristo transfigurado em vestes brancas (as roupas místicas dos anjos e sumo-sacerdotes com acesso à Visão Divina). Repetindo a tripla Epifania, eles “viram a sua glória” (Lc 9:32) e ouviram: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi.” (Lc 9:35). Os discípulos escolhidos, o círculo íntimo, têm acesso ao Mistério, ao Segredo.

A seguir vem, então, a Quaresma, na qual saímos a enfrentar o demônio, e, tendo em nós a memória da Glória, caminhamos para carregar a Cruz. Enquanto a Epifania nos eleva, a Quaresma nos reduz.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Três Epifanias

As Três Epifanias (revelações) são:

A da Natividade, com os magos, em Belém, diante dos pagãos, pela estrela no céu.

A do Batismo, com João Batista, no Jordão, diante dos judeus, pelo Espírito que desce sobre a água.

A das Bodas, com Maria, em Caná, diante dos discípulos, pela água que vira vinho.

A primeira é 6 de Janeiro. A segunda é a terceira são os dois domingos seguintes.

Há um vínculo teológico entre as três epifanias. A primeira é a luz da razão (o conhecimento dos magos), a segunda é a revelação do Antigo Testamento (João Batista é o ápice da Antiga Aliança), a terceira é o Novo Testamento. Por isso: gentios, judeus, cristãos (os três povos).

A luz da razão apenas contempla os céus (estrela). A Antiga Aliança traz o céu à terra (como a chama que desceu para o altar). Mas somente a Nova Aliança tem o milagre na terra.

Os magos trazem os presentes do casamento. João Batista é o amigo do noivo (ele é o “amado” do Cântico dos Cânticos). Maria é a mãe do noivo (que faz simbolicamente as vezes da noiva).

As três epifanias são três eras: a origem, a maturidade e a consumação.

A sequência é também a da cristã iniciação. Na primeira epifania, o ensino e a doutrina. Já segunda epifania, o Batismo. Na terceira epifania, a Eucaristia.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deus, O Rei da Montanha: uma teologia da adoração

“Vi o Senhor, que estava em pé sobre o altar…” Amós 9:1

“Moisés, tendo descido do monte ao povo, consagrou o povo; e lavaram as suas vestes. Todo o monte Sinai fumegava, porque o Senhor descera sobre ele em fogo…” Êxodo 19:14,18

A entrada em uma igreja normalmente é uma experiência de elevação. É comum que haja ao menos quatro planos paralelos, quatro níveis numa subida contínua. O primeiro nível é o nível exterior, o nível do mundo, com suas regularidades e irregularidades, o palco dos homens, do trabalho, do mercado, da guerra.

Ao entrarmos, subimos ao nível comum dos cristãos, numa diferença de, ao menos, um degrau em relação ao exterior. Esse é o nível do santuário. Nós nos deparamos com um nível diferente à frente, o presbitério, o espaço dos “anciãos”, do clero. Esses três livres são os níveis das pessoas humanas.

Quando Cristo subiu para pregar o seu famoso Sermão da Montanha, ele não se colocou numa posição acusticamente ótima. As pessoas daquela época sabiam que o anfiteatro, como o de Epidauro (fechado por Teodósio II) — ou seja, ou buraco, não uma montanha —, permitia que a voz fosse melhor ouvida. Ele não subiu principalmente para ser bem ouvido por todos, mas para ser visto e contemplado por todos, colocando-se como o novo Moisés que trazia a revelação da Lei desde os céus. Mesmo em igrejas com estrutura de um anfiteatro, como a famosa “igreja da caverna” do Mosteiro de São Simão, no Cairo, ainda haverá uma elevação central, um pequeno monte que se ergue.

Há, contudo, um quarto plano, que costumamos esquecer porque não é um lugar em que possamos colocar os nossos pés. Esse nível é a mesa-altar, o nível em que Deus pisa, de tal maneira que os nossos olhos se voltem para os seus pés. A mesa é o estrado dos pés de Deus (“…adoremos ante o estrado dos seus pés.”).

Essa estrutura geométrica, que envolve a subida em níveis cada vez mais delimitados, é a forma aperfeiçoada de uma montanha, a transposição arquitetônica velada da geografia sagrada. É a contínua conversão da multiplicidade da terra na unidade dos céus. Quando entramos numa igreja, subimos uma montanha. Deus é o rei dessa montanha.

Na profecia de Daniel 2, lemos que a estátua constituída dos reis e reinos deste mundo é destruída por uma pedra que cresce e se torna uma montanha, e que se expande para o mundo inteiro. Essa profecia do reino da montanha não é a única ocorrência de uma montanha nos oráculos divinos, muito pelo contrário. Os montes são vistos como fonte simbólica de bênção e prosperidade (cf. Sl 72:3; Is 30:25; Jl 3:18; Am 9:13), como no Salmo 121. Na profecia que igualmente aparece em Isaías 2:2–4 e Miqueias 4:1-3, os povos da terra são vistos subindo ao elevado monte do Senhor para adorá-lo no lugar de onde procede a sua lei para o mundo inteiro. A montanha que invade o mundo inteiro é o lugar da adoração das nações.

No Antigo Testamento, o monte de Sião foi o centro de adoração da nação israelita por bastante tempo, o lugar onde Deus estava, em seu Templo, e de onde procedia sua benção para o mundo (“O Senhor te abençoe desde Sião”). A subida ao Monte Santo e à Cidade Santa era uma peregrinação espiritual, que exigia purificação das mãos e do coração, como se canta nos Salmos 15 e 24. O povo israelita ia a Jerusalém levando os frutos do seu trabalho e retornava tendo a bênção, a justiça e o favor do Senhor.

Assim, não apenas as profecias veem o cumprimento messiânico de um dos propósitos do Templo na Oração de Dedicação de Salomão, quando as nações do mundo se converter ao Senhor e vão ao Monte Santo para cultuá-lo, mas o próprio Monte se expandiria para o mundo inteiro. A montanha vai, definitivamente, até Maomé.

Momentos marcantes da vida de Cristo se deram em montanhas e regiões montanhosas, como a visitação a Isabel no ventre de Maria (revelação da divindade), o Sermão, várias orações, a Transfiguração no Tabor, a Agonia no Monte das Oliveiras (revelação da tristeza), a Crucificação no Gólgota e a Ascensão. Assim como os discípulos viram Cristo subir, João vê, sobre uma montanha, descer dos céus a Nova Jerusalém. Isso não apenas é uma repetição dos padrões, onipresentes do AT, de culto a Javé e (por rebeldia) a outros deuses em montes — maximamente gravado em nossa consciência simbólica pela Aqedah, o oferecimento de Isaque no Monte Moriá — mas um sinal profético de que nele se cumpriam todos aqueles antigos propósitos.

Exaltando a Nova Aliança diante da Antiga, o texto de Hb 12:18–24 ensina que os cristãos chegaram ao Monte Sião espiritual, à Jerusalém Celestial, à qual mesmo os antigos santos hebreus não tiveram acesso. Os cristãos entraram em uma “assembleia festiva” (panēgyris), o Culto da Montanha, o Culto do Éden.

Quando nós nos reunimos em adoração, entramos espiritualmente no Monte do Senhor. O domingo, o dia em que repousando de nossas preocupações comuns (shabat), é o pico do monte, onde a elevação nós separa das coisas comuns, que a agora nos parecem pequenas, e nos dirige às extraordinárias. Por isso, é um lugar de visão, de revelação, exigindo nossa consagração pessoal. Embora o monte possa ter muitos caminhos, há um pico no qual nós nos reunimos em unidade.

A subida da montanha é difícil, arriscada, dolorosa, exige disciplina, exercícios — razão porque o Purgatório de Dante é uma montanha. E por que tudo isso, se nós não somos capazes de chegar no céu? Porque tanto esforço, se Deus ainda está infinitamente acima de nós? No entanto, ele promete que o encontrarão os que o buscarem de todo o coração. Não precisamos focar o céu. Precisamos apenas subir a montanha. Ele prometeu descer sobre nós, sobre o cume do monte. Ele nos indicou o lugar onde o milagre da graça acontecerá.

Chegar ao domingo é chegar ao cume da montanha, carregando conosco toda a semana que passou, para adorarmos a Deus. Sair do domingo é descer a montanha, levando a benção do Senhor para a nossa vida no mundo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Litúrgico e o Contemporâneo

Eu sei, esses nomes são ruins. Todo culto é litúrgico, toda forma de adoração, especialmente adoração em comunidade, envolve liturgia. Assim também, todo culto que é feito hoje é contemporâneo. Ninguém está livre de tradições e ninguém simplesmente vive o passado.

Mas claramente há dois “estilos” que marcam ramos diferentes da fé cristã, que se identificam através de conceitos como esses. Valores diferentes estão em circulação, maneiras diferentes de medir se o culto cristão cumpre o seu papel ou não.

São estilos muito diferentes, de fato, de modo que aqueles que se identificam com um estilo podem ter, para dizer o mínimo, certa antipatia pelo outro. Como alguém que transita bem entre estilos diferentes e que, na verdade, foca em outras coisas, eu vejo que esses dois estilos têm, em meio às muitas diferenças, certas semelhanças conceituais. Há algumas coisas que são buscadas em comum, e que servem de ponte para quem faz a travessia de um tipo para o outro. Servem de ponte também para quem, ingressando na fé cristã, vem de uma cultura pós-moderna que valoriza algumas dessas mesmas coisas.

Alguns exemplos que podem ser encontrados em comunidades com esses estilos:

1. O USO DA ESCRITURA. Um traço comum mais óbvio é que os praticantes desses estilos de adoração, embora usem as Escrituras Sagradas, e não se vejam como as contradizendo, geralmente também não as usam como se fossem manuais completos e suficientes de liturgia e culto — não esperam estar limitados àquilo que as Escrituras prescrevem. Aquilo que há nelas em termos de exemplos e valores é incorporado na vida da comunidade de maneira mais criativa.

2. O GUIAMENTO DO ESPÍRITO. Os praticantes desses estilos, embora não limitem o culto às prescrições das Escrituras, não obstante veem suas celebrações como sendo guiadas pelo Espírito Santo, num tipo de ordem que transcende a capacidade imaginativa meramente humana. De um lado, esse guiamento é visto no cuidado histórico que o Espírito Santo teve para com a Igreja. Do outro, ele aparece na orientação do Espírito aqui e agora. Mas, nos dois casos, a convicção de que, embora o conteúdo substancial da Revelação esteja completo no testemunho dos primeiros apóstolos e cristãos (“depósito da fé”), ainda assim o Espírito continua ativo para conduzir, ordenar e orientar a Igreja hoje.

3. A PRESENÇA DIVINA. Por isso mesmo, os dois estilos de adoração veem a celebração cristã como uma coisa sobrenatural. Não é apenas uma palestra de um bom professor bem preparado, ou música bem ensaiada. Existe um desejo místico pela Presença Divina. Seja através de sacramentos e cerimônias, seja unções e palavras proféticas, o milagre é central nesses dois estilos. A depender da comunidade, nos dois casos pode haver ênfase na presença de anjos e na batalha espiritual. Embora ambos os estilos tenham grandes pregadores, se pode dizer que em nenhum deles a pregação é um fim em so, mas um meio para a Presença — embora provavelmente os litúrgicos sejam mais rápidos em reconhecê-lo. A ênfase não está na formação doutrinal.

4. ADORAÇÃO HOLÍSTICA. Em conexão com essas coisas, ambos os estilos são fortemente imagéticos — você o vê pelo modo como ambos fazem uso da fotografia. Neles há uma clara preocupação com a imagem, com o movimento e com a beleza. Seja com incenso ou gelo seco, velas ou LED, os responsáveis por esses estilos têm um senso nítido de que ajudam as pessoas a participarem se houver o “clima” adequado — de que nossa vida interior não está desligada dessas coisas, não é independente. Por isso, não são estilos tão fáceis de reproduzir bem em qualquer ambiente. Eles têm um custo, um “equipamento”. O culto envolve a pessoa por completo, inclusive seus olhos e narizes, mãos e joelhos. São celebrações que movem os afetos e os corpos, numa dada direção.

Nessas quatro dimensões, ambos os estilos têm consciência de que Deus transcende nossas capacidades racionais, e de que o nosso culto deve levar essas coisas em conta. Esse terreno comum se fortalece ainda mais quando essas comunidades têm uma vida carismática mais intensa.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Mesa ou Altar?

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Celebratio autem huius sacramenti… imago est quaedam repraesentativa passionis Christi, quae est vera immolatio. ST III, q83, a1, co.

A fala é um presente maravilhoso de Deus. O primeiro capítulo do Gênesis, o mesmo que nos conta sobre a Criação do Homem à imagem de Deus, apresenta a Deus trazendo a existência uma diversidade de coisas no universo com sua Palavra Criadora. Nos capítulos seguintes, a narrativa da Queda do Homem nos surpreende com uma serpente que não apenas fala, mas também usa as palavras para enganar e confundir, levando o homem à ruína. Bênção e maldição, nossas palavras podem criar um mundo fictício no qual nos prendemos. A Sagrada Escritura nos adverte, clara e distintamente, contra “contendas de palavras” e “porfias” (Gl. 5:20; 1Tm. 6:4). Continue lendo “Mesa ou Altar?”

Contra o Princípio Regulador do Culto

Aliança

Portanto, já que estamos recebendo um Reino inabalável, sejamos agradecidos e, assim, adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor, pois o nosso “Deus é fogo consumidor!” (Hebreus 12:28,29)

Todos os cristãos concordam que somente Deus deve ser adorado, e que somente deve ser adorado como sua Palavra estabelece. Existe um modo aceitável (euarestōs) de se adorar a Deus — o que quer dizer que há também um modo inaceitável. Todas as tradições cristãs vêem em Hb. 12:28,29 uma clara afirmação da seriedade com que se deve tratar os limites do culto comum. Mas entre os cristãos protestantes, há um debate sobre o que constitui de fato uma liturgia obediente à Palavra. Significa que devemos fazer apenas o que a Escritura não proíbe, ou que devemos fazer apenas aquilo que ela manda? Há graus distintos de liberdade. Continue lendo “Contra o Princípio Regulador do Culto”