Divórcio e Segundo Matrimônio: Minha Posição

De vez em quando alguém me pede para falar desse assunto. Confesso um certo receio de tratar de um tema que envolve tantas situações diferentes, que toca nas dores e nos sofrimentos de muita gente, cujas condições não podem ser adequadamente abordadas em um texto que queira ser simples. Seis considerações são necessárias:

(1) Pessoas casadas considerando o divórcio ou segundo matrimônio como uma possibilidade devem ser aconselhados pastoralmente, em suas igrejas, e não simplesmente se guiar por algum texto que encontraram na Internet. O propósito deste texto não é dar orientações pastorais, é ajudar a entender como a Igreja deve lidar com esse assunto, e mostrar um pouco de como eu lido com essa questão. Este texto provavelmente só será útil em igrejas que sigam a mesma perspectiva, como esclarecimento dela.

(2) É possível que minha posição seja vista, por um “tradicionalista” — como os católicos romanos e reformados que defendem indissolubilidade absoluta —, como uma abertura exagerada e incontrolável que levará (ou já levou) ao caos matrimonial. A mesma posição talvez seja vista, pelo partido oposto, talvez mais “progressista”, como rigorosa, retrógrada, incompassiva, reacionária, incoerente. Aconteça o que acontecer, minha posição não será “em cima do muro”. Direi exatamente o que penso sobre assunto.

(3) É importante notar que, como consideraremos a interpretação de textos bíblicos, devemos fazê-lo sem impor a linguagem histórica com a qual, séculos depois, os cristãos passaram a tratar do assunto: distinções entre “anulação”, “divórcio” e “separação”, ou entre “matrimônio sacramental” e “casamento natural”. Essas distinções são importantes e úteis e devem fazer parte da discussão, mas devemos tomar cuidado na maneira como nós as vemos nos textos. As tradução que há se veem forçadas a escolher traduzir por “divórcio” ou “separação” textos que, no grego, usam a mesma palavra. Sem detrimento do mérito dos tradutores, não devemos colocar peso demais quando as encontramos num dado texto. Essas distinções têm uma história, e em alguns momentos elas simplesmente não existiam. Os cristãos de hoje talvez ficassem chocados com a maneira como, na época dos Pais da Igreja, os cristãos eram tolerantes com o concubinato (e como as pessoas em concubinato comungavam na Igreja).

(4) Não devemos temer que o ensinamento de Cristo seja visto como rigoroso (desde que não desumano). Ele disse: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20). O ensinamento de Cristo sobre o divórcio e segundo matrimônio foi, em particular, visto como difícil pelos seus discípulos (Mt 19:10). Um ensinamento que nos pareça muito fácil talvez seja uma construção de nossa própria imaginação.

(5) Não imaginei este texto como um ataque a nenhuma posição diferente da minha, ou a pessoas cujas condições de vida estejam (aparentemente) desalinhadas para com o que eu digo aqui. Pessoas divorciadas não devem ser destratadas ou desprezadas, muito pelo contrário; a Igreja deve sempre procurar uma maneira de reintegrá-las, e não simplesmente puni-las eternamente. Os divórcios já acarretam danos enormes sobre os casais e sobre os filhos, a Igreja não deve contribuir com isso, mas ser um lugar de cura.

(6) Eu creio que o ensinamento de Cristo sobre esse assunto é perene, é permanente, e deve ser seguido por nós até o fim dos tempos. Existem mudanças na cultura, e essas mudanças na cultura nos levam a considerar de maneira diferente certos fatores que serão mencionados abaixo. Mas, aconteça o que acontecer, eles não devem mudar os mandamentos de Jesus.

Pois bem, o tema do divórcio e a possibilidade (ou não) de segundo matrimônio é um dos assuntos mais difíceis para os cristãos. Nós convivemos num mundo em que o casamento é tratado como uma forma de satisfação pessoal, podendo ser permanente ou provisório a depender da vontade das partes; é reduzido a um contrato. Ao tocarmos nesse assunto, tocamos na maneira como as pessoas planejam suas próprias vidas, e a coisa mais comum é que as pessoas que se tornam cristãs ou retornam à igreja carreguem consigo bastante da mentalidade da cultura em redor. Numa época em que tudo é descartável, por que o casamento não poderia ser também?

Mas como comparar a situação de um casal que simplesmente desiste da convivência porque idealiza um romance melhor àquela de uma mulher violentada (física e psicologicamente) pelo esposo narcisista?

O primeiro fator a considerar, na construção desse assunto, é o que eu chamarei “a Regra”. Essa regra aparece tanto na epístolas de São Paulo quanto, depois, nos evangelhos sinóticos. Ela pode ser descrita assim:

“Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal. De sorte que será considerada adúltera se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro homem; porém, se morrer o marido, estará livre da lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.” (Romanos 7:2-3)

“Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher… A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor.” (1 Coríntios 7:10-11,39)

Essas palavras estão em contextos bem diferentes. Enquanto a primeira é parte de uma discussão sobre a lei, na qual o casamento aparece como uma analogia incidental para o ensinamento de Paulo, a segunda é parte de uma discussão mais ampla sobre o casamento em si, assim como sobre celibato e viuvez. Apesar dessas diferenças de contexto, os dois trechos, além de concordarem na doutrina, têm duas semelhanças: em primeiro lugar, a linguagem assimétrica (falam mais da mulher); em segundo lugar, têm um fraseado muito semelhante: a mulher está ligada ao marido enquanto ele vive, ficando livre/desobrigada caso ele morra. O trecho de Romanos 7 acrescenta o pecado do adultério para a mulher que se unir a outro esposo enquanto o primeiro vive.

No contexto de 1Coríntios 7, Paulo discute várias situações diferentes e usa as palavras de Cristo e sua sabedoria pastoral para orientar os casados. Nos versículos citados, ele é claro em dizer que não se trata de uma ideia sua, mas uma ordem do Senhor. Essa “ordem” do Senhor é retratada também no evangelho canônico julgado o mais antigo, o de São Marcos, no qual foi registrado o célebre diálogo de Cristo com os fariseus acerca da aplicação da lei mosaica do divórcio. Segundo Cristo, a possibilidade de divórcio que havia na lei era uma concessão mosaica à “dureza de coração” dos homens. A lei permitia a carta de divórcio, mas Cristo toma uma postura diferente. Ele resume seu ensinamento sobre isso dizendo:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem [anthrōpos]… Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera.” (Marcos 10:9,11-12)

Essas palavra concordam, em essência, com o que foi escrito por Paulo num contexto diferente, e elas não fazem nenhuma restrição a um caso específico. As palavras são colocadas de maneira bem genérica, e se pautam na essência da relação matrimonial: se Deus uniu o homem e a mulher, não devemos separá-los. Eu concordo, em parte, com aqueles que dizem que a preocupação de Cristo aqui é em proteger a mulher da arbitrariedade do marido, pois ela seria lançada à miséria caso ele se divorciasse dela. Sim, certamente a compaixão era um dos fatores principais na pregação e doutrina moral de Cristo. Mas o texto não nos dá indicação de se limitar a essa situação; Cristo radica o caso “no princípio”, na ligação entre homem e mulher. Cristo deixa a coisa em termos bem gerais.

Essa ligação entre os cônjuges é fortalecida por vários fatores de origem bíblica, como a relação “matrimonial” entre Cristo e a Igreja (Ef 5) ou os ensinos de Cristo sobre perdão. Muito pode ser dito em favor disso, particularmente quando vemos o que vários pais da Igreja (como Santo Agostinho) disseram sobre esse assunto. Essa regra rigorosa só é compreensível à luz do ensinamento, visto tanto em Cristo quanto (principalmente) em Paulo, que valoriza o celibato acima do matrimônio. Quando entendemos que o matrimônio não é a finalidade de nossa vida terrena, torna-se um pouco mais fácil entender por que a existência fora do matrimônio (para alguém que tenha se separado do cônjuge) não é uma punição, mas o retorno à condição maior.

De todo modo, tomando por base os textos bíblicos lidos até aqui, a Regra é aquela vista amiúde nos votos matrimonias: “até que a morte nos separe”. Aparentemente não deve haver segundo matrimônio quando haja um primeiro matrimônio válido. Essa é a Regra.

Agora, a boa hermenêutica nos pede que nos perguntemos: há algo mais, nas palavras de Jesus e nos ensinos dos apóstolos, ou na Bíblia como um todo, que indiquem uma direção distinta sobre esse assunto? Há algum outro princípio a considerar, na aplicação da lei? Essa pergunta é necessária porque é muito comum, na discussão de qualquer assunto moral, que nós tenhamos, na Escritura, testemunhos em direções diferentes, e o entendimento mais completo do assunto exige que nós levemos em conta todos os fatores. Mesmo princípios como misericórdia e compaixão devem ser levados em conta. Todas as cartas devem estar na mesa.

Nesse sentido, há duas circunstâncias que, creio, ajudam bastante na lida com pessoas com certos problemas matrimoniais. A primeira circunstância é desconsiderar o casamento civil. Diversas pessoas estão casadas civilmente, se divorciam civilmente e, por ignorância sobre o assunto, pensam que não podem casar “novamente”. Ocorre que o casamento civil é uma instituição relativamente recente, e, diferentemente do matrimônio cristão, não indica intenção de perpetuidade. Não se faz votos “até que a morte nos separe”. Então, em tese, uma pessoa que contraiu apenas o casamento civil não estaria impedida. Não se trata de desconsiderar totalmente o casamento civil, pois ele tem uma importância legal e social, e a ausência do casamento civil pode indicar desinteresse matrimonial (embora a presença não indique automaticamente interesse). Todos os casais devem contrair, além do matrimônio cristão, o casamento civil. Isso não é o mesmo que dizer que pessoas civilmente casadas devam ser encorajadas a se separar; elas devem ser encorajadas a fazer os votos do matrimônio cristão. No entanto, em situações particularmente difíceis, esse fardo não precisa ser suportado e o casamento civil pode ser desfeito em benefício de um novo relacionamento. (As pessoas que querem tratar o casamento civil como igual ao matrimônio cristão só aumentam o problema.)

Nessa circunstância está o caso de pessoas que se divorciaram antes de se tornarem cristãs. (Note bem: cristãs, não evangélicas ou participantes da igreja A ou B.) É um dos casos mencionados por Paulo em 1Co 7:24-28, sobre os quais ele diz “se te casares, não pecas”. É um divórcio prévio. Semelhante também é o caso de 1Co 7:12-16, quando, num casamento entre dois pagãos, um deles se converte à fé cristã e o outro o abandona.

A segunda circunstância é o erro em relação à pessoa. Nós fazemos os votos matrimoniais não apenas para com o rosto que está diante dos nossos olhos, ou para com o nome que está no papel, mas para com a totalidade da pessoa. Isso significa que, para assumirmos o matrimônio, nós precisamos estar suficientemente informados de quem seja a pessoa com quem casamos. Isso não significa conhecer profundamente os segredos e meandros do coração; significa saber o que se precisa saber para casar. Em alguns casos, as pessoas casam enganadas, porque seus cônjuges fingiram algo que não eram. Não se trata, mais uma vez, de alguém que mudou com o tempo, mas de alguém que não tinha interesse real de casar. Embora nos votos façamos compromissos sérios e isso envolva uma certa “aposta” de que a outra pessoa será boa, essa aposta não inclui casar com um psicopata, por exemplo. Então, se uma pessoa casa com alguém assim, ela pode, dentro de um contexto eclesiástico que o permita, ter o seu “vínculo” matrimonial terminado (o que alguns chamarão de “anulação”, não “divórcio”). Considerando a maneira como as pessoas se casam hoje, isso é algo bem comum.

Levando isso esses fatores, há uma última situação, a chamada “cláusula fornicationem“, que aparece no Evangelho de São Mateus:

“Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus 5:32)

Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério].” (Mateus 19:9)

A leitura mais natural desses textos é de que, se uma pessoa se divorcia, por motivo de relações sexuais ilícitas, e casa com outra não comete adultério. Ou seja, esses textos parecem colocar uma exceção na Regra. Não é difícil mostrar que houve ampla repercussão dessa clásusula na Tradição cristã durante séculos, não só entre os Pai da Igreja — que não eram unânimes nesse assunto —, mas principalmente na vida da Igreja através dos cânones conciliares. Para exemplos fáceis (em inglês), veja aqui, aqui e aqui. É muito comum que as pessoas que defendem a indissolubilidade absoluta ignorem essa história de séculos. Vários dos exemplos repetem a clásulula fornicationem e lhe dão a interpretação mais natural. Existem outras leituras desse texto, mas normalmente elas são tão constrangedoras que o próprio proponente parece perceber que força a barra.

É importante dizer: essa cláusula não derroga o caráter sacramental do matrimônio. O matrimônio é, essencialmente, finito e limitado: ninguém estará casado para sempre, na eternidade, antes o matrimônio tem fim com a morte. O que se considera é que haja outras situações, além da morte, que rompam o vínculo. (Sobre a cláusula em particular, considero boa a consideração de que, sendo a fornicação pecado mortal, ela legalmente levaria à morte do cônjuge, naqueles tempos.)

Diante disso, minha posição é de que, considerados todos os fatores acima (a restrição ao matrimônio cristão, o erro de pessoa, a cláusula fornicationem), provavelmente na maioria dos casos as pessoas não deveriam procurar um novo matrimônio. Primeiramente, ninguém deve se divorciar apenas porque quer; caso se separe, não deve casar novamente de maneira nenhuma, em tempo nenhum, enquanto o primeiro cônjuge viver, ou caso não se evidenciem as situações acima. A subjetividade dos envolvidos não deve ser desconsiderada, mas as circunstâncias e exceções colocadas não devem ser julgadas apenas subjetivamente. Ademais, a ideia de que um segundo matrimônio simplesmente salvará aquela pessoa do sofrimento do primeiro é loucura.

Caso a convivência no primeiro matrimônio seja impossível ou até perigosa, devem se distanciar os seus cônjuges, mas não procurar um novo matrimônio, e sim viverem o ideal da fé cristã, que é a dedicação total a Cristo e o casamento com ele. Nesse caso, é inteira responsabilidade da Igreja lutar pela reconciliação sempre que é possível, e lutar pela pessoa caso não seja possível. Existem situações em que a reconciliação não é possível. É uma imensa irresponsabilidade e até crueldade enviar para junto do seu esposo a mulher que foi violentada por ele. Mas nos dois casos a Igreja deve lutar pelas pessoas e apoiá-las. Se alguém não encontra apoio e amparo da Igreja e faz o contrário do que Cristo diz, em grande parte a Igreja é responsável. É muito fácil colocar na conta de Jesus. A lei do amor ainda é a maior de todas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Dom Escatológico do Celibato

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Não vivemos para o sexo. Eu lembro que, na época da escola, tive uma conversa com um colega sobre isso. Por algum motivo, falamos sobre planos para o futuro e esse colega me disse que pensava, como objetivo de vida, em casar e fazer sexo, “pois é para isso que nós vivemos”.

Eu não era cristão, não acreditava em Deus, então não fazia nenhuma ideia sobre um propósito para a vida. Nunca tinha pensado seriamente sobre aquilo, e tinha muita dificuldade de responder qual era o propósito da vida. Foi a primeira vez que alguém colocou um propósito. Mas eu fiquei chocado em pensar que a vida se resumiria, de fato, a alguns momentos de prazer. Parecia pouco.

A fé cristã ensina muito claramente que esse não é o propósito da vida. Cristo era celibatário. Paulo e tanto outros discípulos seguiram a mesma rota. Se eles nos ensinam algo nessa área, é a moderação, o domínio próprio. Assim, o mesmo Paulo não só recomenda o celibato, como recomenda que os viúvos permaneçam como viúvos (1Co 7:8), embora não proíba totalmente um segundo casamento. Ainda assim, os ministros e as viúvas consagradas ao serviço na Igreja (e que dela dependem) não devem ter um segundo casamento, como ensina 1Tm 3:2; 5:9.

Aqui vemos claramente como a fé cristã se distingue do judaísmo ou do islamismo. A despeito de como seja interpretada (e alegorizada), é famosa a concepção muçulmana de que o prazer sexual é parte da nossa realização celestial última. Na religião cristã, o sexo, embora seja bom se vivido como “leito sem mácula”, é coisa apenas desta vida.

Embora nem todos tenham a vocação do celibato, uma coisa não é opcional para os cristãos: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.” (Gl 5:24). Então nossa vida não é dominada por desejos e necessidades humanas, mas pela sede que só é saciada no Deus Vivo. O que se esconde na mentalidade de cristãos que consideram inferior o celibato (a condição de Cristo!) talvez possa ser, em alguns casos, uma vida dominada pelas paixões, tão dominada que essas paixões passam a controlar a maneira como julgamos as coisas.


O Novo Testamento dá um lugar especial ao voto do celibato. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente como essa condição é recebida por Deus. Essas palavras indicam que se trata, ao menos, de uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia, para todos nós, a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária, acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62), um escândalo para os padrões da época. Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. No Reino de Deus, os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.


Se o matrimônio fosse superior ao celibato, como querem algumas pessoas, isso significaria que Deus nos levaria do estado superior (casados hoje) para o inferior (castos na eternidade), e que Cristo estava numa condição familiar inferior à de Abraão ou Moisés. Isso não faz sentido.

Nesse aspecto, é bem óbvio o motivo pelo qual o celibato é superior: é dedicação maior de tempo e energia a Deus, maior liberdade para se entregar e sacrificar. Qualquer pessoa com família sabe disso. É puro realismo pastoral do Apóstolo.

Existe um motivo pelo qual uma pessoa pode resistir a isso: a maioria de nós, que fomos ensinados sobre o quanto somos especiais e temos direito a igual felicidade, nos sentimos desprezados se imaginamos que há uma vocação com consagração superior à nossa. Mas é precisamente por reconhecermos nossa fraqueza — de que precisamos de cônjuges e família, e por não sermos capazes de resistir às tentações da castidade —, ou seja, por reconhecermos nossa condição real, que temos a possibilidade de que nossa condição seja exaltada, não pelo matrimônio, mas pela humildade. Pois, no corpo de Cristo, quando um é honrado, todos são honrados, e, nesse caso, Deus deu “muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24). Quando tentamos furtar a dignidade maior do celibato, perdemos a humildade. A humildade começa quando reconhecemos nossa própria condição real e concreta. Deus dá graça aos humildes.

O que Paulo queria, ao ensinar sobre o celibato?

“O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa, e assim está dividido. Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito; a que se casou, porém, se preocupa com as coisas do mundo, de como agradar ao marido.” (1Co 7:32–34)

O propósito bíblico do celibato é este: por causa do reino dos céus, para que “vos facilite consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor” (1Co. 7:35). Lançando as bases para o espírito do monasticismo, o apóstolo Paulo procurava uma vida sem distrações (aperispastōs).


No capítulo famoso de 1Coríntios 7, São Paulo ensina que o casamento é bom, o celibato é melhor e a viuvez é um meio termo. A parte da viuvez parece piada moderna, mas Paulo diz mesmo isso (“será mais feliz [makariōtera] se permanecer viúva”). Não se trata de demonizar nenhuma situação, mas de reconhecer a superioridade. Para Paulo, a pergunta que devemos fazer não é “devo mesmo ser celibatário?”, mas “preciso mesmo casar?”.

Ambas as situações são dons de Deus, segundo o apóstolo, mas, por algum motivo, algumas pessoas recebem um dom superior, outras recebem um dom inferior. Veja que escândalo! Minha inveja não tolera que alguém tenha recebido algo melhor. Preciso diminuí-la, devo anulá-lo.

E não é só inveja, mas são escatologias diferentes. O cristão visualiza a vida eterna como uma realidade na qual o casamento e a vida sexual deixaram de existir, não por serem maus, mas por serem inferiores. Então todos nós estamos destinados a termos apenas alguns anos de casados, uma gota na imensidão eterna de uma vida sem casamento. O mundo, por outro lado, só conhece esta vida, então o celibatário está perdendo tempo precioso, deixando de aproveitar.

Às vezes, pessoas tão dispostas a dizer que Deus concede salvação a uns e não a outros, não são capazes de ver que, entre os salvos, alguns recebem posição superior.


É normal que o Antigo Testamento exalte a vida matrimonial. A expectativa dos obedientes à Torá, em seu sentido histórico e literal, é de uma vida longa, portanto de um sucesso natural: uma descendência numerosa e próspera que preservasse o nome. São abundantes, no Deuteronômio, exortações como esta: “Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir.” (Dt 30:16)

O Novo Testamento coloca um fim mais elevado: a vida angélica (“são iguais aos anjos”, Lc 20:36). A mudança de fim implica mudança na maneira como as coisas são priorizadas hoje.

Se a melhor vida a se alcançar, no AT, era vida longa com com muitos filhos naturais (como no Salmo 128), então o matrimônio era a melhor forma de vida, e tanto os eunucos quanto os inférteis tinham uma condição social de desonra e inferioridade, como amaldiçoados. O Novo Testamento vê mais longe do que aquilo que está explícito no Antigo. Então aqueles que eram desonrados foram elevados por Deus, “concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24).

A Antiga Aliança toma como referência a Primeira Criação, passada. A Nova Aliança, sem desprezar a Primeira Criação (portanto sem desprezar o matrimônio), toma como referência maior a Nova Criação. Por isso, o milagre de Isabel (que cuja família significa o ápice da Antiga Aliança) foi o milagre de ter um filho mesmo sendo infértil, como Sara. Sua vergonha foi convertida em alegria: “Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbrio perante os homens.” (Lc 1:25). Mas o milagre de Maria (cuja família significa o ápice da Nova Aliança) foi o da maternidade sobrenatural, preservada sua virgindade.


O texto de 1Co 7 trata, em parte, da “opinião” do apóstolo Paulo sobre qual deveria ser o destino de todos os cristãos, mas a superioridade do matrimônio não é matéria de opinião. Se fosse opinião, já seria bastante coisa, pois era a opinião de um apóstolo de Cristo, de alguém que tinha uma mente muito mais espiritual que a nossa, que tinha um “conhecimento tácito” das coisas divinas e das realidades humanas que nós não alcançamos. A opinião (isolada?) de um apóstolo não é mera opinião.

Mas o que o apóstolo Paulo trata como “opinião” é que todos deveriam ser celibatários (“Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto…”, 7:7). A superioridade do celibato não é tratada como opinião no texto: “quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor.” (7:38).

Algumas pessoas tentam fugir dessa superioridade do celibato alegando que havia algum motivo particular para a preferência do celibato, motivo que estaria ligado, talvez, à perseguição que os cristãos sofriam. A particularização é a primeira estratégia de quem quer fugir de qualquer texto bíblico, alegando que o texto trata de certas condições que, curiosamente, não estão em parte alguma do texto. Não há qualquer menção à perseguição. Esses leitores veem Paulo falar da “angustiosa situação presente” ou “instante necessidade” (7:26) e presumem que Paulo fala aí de perseguição. Paulo procura ali poupar os cristãos de “tribulações na carne” (7:28), mas essas tribulações não estão diretamente ligadas, no contexto, a nenhuma perseguição, mas às necessidades do mundo que nos impedem, como casados, de alcançar a consagração total, sem distrações (7:32-35).

Isso se percebe no motivo pelo qual os cristãos são autorizados a casar (como coisa boa): “por causa da impureza” (7:2), ou seja, porque, para os que não são capazes de se dominar (manter a continência da castidade), “é melhor casar do que viver abrasado” (7:9). O que isso tem a ver com perseguição? Coisa nenhuma. Ora, se estão autorizados a casar aqueles que não se dominam, como pode ser coisa superior o matrimônio? Se o celibato tem o propósito de dedicação completa, como ele pode ser inferior ao matrimônio? É como dizer que se dominar é inferior a não se dominar, ou se consagrar é inferior a não se consagrar. É absurdo. Prefiro concordar com o apóstolo. E com o Espírito Santo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Até Deus faz votos de casamento

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“Eu, N., recebo-te, N., por minha esposa, de hoje em diante: para o melhor e o pior, na riqueza e na pobreza, na doença e na saúde, para amar-te e honrar-te, até que a morte nos separe, segundo a santa lei de Deus. Este é o meu voto solene.” (LOCb, Rito de Matrimônio II)

Eu considero os votos a parte mais bonita de uma celebração de casamento. Ainda que haja símbolos muito bonitos nas diversas tradições de ritos matrimoniais, como a troca de alianças, as coroas, as bênçãos e orações, os votos de casamento são a razão por trás de toda a celebração, de certa maneira. Eles expressam o compromisso perene que um casal assume de viver o casamento como Deus o quis, em amor e fidelidade. Continue lendo “Até Deus faz votos de casamento”

O Matrimônio é um dom

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“Gostaria que todos os homens fossem como eu;
mas cada um tem o seu próprio dom da parte de Deus;
um de um modo, outro de outro.”
(1 Coríntios 7:7)

Freqüentemente se olha para 1 Coríntios 7 na perspectiva do celibato “por causa do reino dos céus” (Mt. 19:12). É mais incomum que se deixe de observar as conseqüências fascinantes da declaração paulina de que o casamento também é um dom da parte de Deus. Ao contrário do que ocorre na ordem civil moderna, o matrimônio cristão não é um direito, mas algo recebido gratuitamente. Afinal, ninguém pode exigir coisa alguma de Deus. É uma vocação. Continue lendo “O Matrimônio é um dom”

Sacramento e Escatologia

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Então se abrirão os olhos dos cegos
e se destaparão os ouvidos dos surdos.
Então os coxos saltarão como o cervo,
e a língua do mudo cantará de alegria.
Águas irromperão no ermo
e riachos no deserto.
(Isaías 35:5,6)

Quando Jesus iniciou seu ministério terreno, atraiu a atenção dos discípulos de João Batista. Os judeus aguardavam a vinda do Messias, o libertador que lhes traria paz, plenitude e salvação. Então João Batista envia seus discípulos a perguntar se Jesus seria esse libertador aguardado. A resposta de Jesus não é um sim ou um não; ele lhes mostra o seu ministério: “os cegos vêem, os aleijados andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados e as boas novas são pregadas aos pobres;” (Lucas 7:22). Continue lendo “Sacramento e Escatologia”

Amor Impassível

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“Confiai no Senhor perpetuamente;
porque o Senhor Deus é uma rocha eterna.”
(Isaías 26:4)

Deus não muda. Por toda eternidade, desde sempre e para sempre, Deus é o mesmo. Nada há que o possa mover em qualquer direção. Não obstante, quando olhamos para o Gólgota, não vemos essa impassibilidade; vemos o Deus Crucificado que, entre o sangue e o vinagre, sofre injustamente nas mãos dos que o laceravam. Seria isso mesmo possível? Continue lendo “Amor Impassível”

Contra o Princípio Regulador do Culto

Aliança

Portanto, já que estamos recebendo um Reino inabalável, sejamos agradecidos e, assim, adoremos a Deus de modo aceitável, com reverência e temor, pois o nosso “Deus é fogo consumidor!” (Hebreus 12:28,29)

Todos os cristãos concordam que somente Deus deve ser adorado, e que somente deve ser adorado como sua Palavra estabelece. Existe um modo aceitável (euarestōs) de se adorar a Deus — o que quer dizer que há também um modo inaceitável. Todas as tradições cristãs vêem em Hb. 12:28,29 uma clara afirmação da seriedade com que se deve tratar os limites do culto comum. Mas entre os cristãos protestantes, há um debate sobre o que constitui de fato uma liturgia obediente à Palavra. Significa que devemos fazer apenas o que a Escritura não proíbe, ou que devemos fazer apenas aquilo que ela manda? Há graus distintos de liberdade. Continue lendo “Contra o Princípio Regulador do Culto”