Mulheres cristãs devem usar o véu?

Por que Paulo ensinou que as mulheres devem usar véu? Uma das Escrituras mais surpreendentes e diferentes da mentalidade moderna é o texto em que Paulo ensina que as mulheres devem orar e profetizar sempre com cabeça coberta, e os homens, com cabeça descoberta.

Tanto na cultura grega quanto na judaica — ambas estão em jogo nas palavras de Paulo —, o véu feminino expressava modéstia, e o apóstolo Paulo parece aludir a isso quando diz que, para a mulher, o cabelo crescido é glória (1Co. 11:14-15), de modo que usar o véu seria esconder essa glória.

Diferentemente do homem moderno, Paulo vê no mundo uma ordem natural das coisas, uma diferença entre homens e mulheres: o homem é a glória de Deus e a mulher, a glória do homem. Por isso, ele não tratava apenas de costumes e tradições, mas da própria natureza. Mesmo um costume que sabemos não ser universal, e que ele queria que os coríntios aprendessem, podia ser visto como uma expressão da natureza humana.

Surpreende a justificativa, porém: a mulher deveria usar o véu “por causa dos anjos”. A interpretação mais comum é de que a, na celebração cristã, existe uma unidade entre o céu e a terra, de maneira que os anjos estão presentes entre os homens, o que exigira a devida reverência. Sem dúvida, os primeiros cristãos tinham um senso claro da companhia dos anjos.

A fé cristã tem obrigações e proibições? Alguém perguntou se as mulheres cristãs ainda devem usar o véu quando oram, como o apóstolo Paulo ensinou. A resposta é a seguinte: o cumprimento da lei é o amor, quem ama cumpriu a lei, e do amor dependem todos os mandamentos.

Para Cristo, era melhor salvar um perdido no sábado que guardar o sábado, e isso deve nos impressionar tanto quanto impressionou os fariseus, pois o sábado é um mandamento para com Deus, e Deus tem prioridade em relação ao homem. Para Cristo, o amor está radicalmente acima de toda a lei. Os fariseus quase tratavam a lei como se os mandamentos tivessem todos a mesma importância; para Cristo, há uma hierarquia, há o mais importante e o menos importante. O menos importante depende do mais importante, e deve ser deixado de lado quando for preciso, para cumprir o mais importante.

O problema das “Testemunhas de Jeová”, por exemplo, não é impor aos cristãos a proibição judaica do sangue, ou confundir transfusão com ingestão, mas ler a Escritura como uma lei chapada que tem de ser aplicada em todas as situações, a todo custo, e como se não “comer” sangue fosse tão importante quanto salvar uma vida.

O texto paulino que determina o uso feminino do véu é perpétuo, porque a Escritura é perpétua, é a voz do Espírito em palavras humanas. Qualquer tentativa de transformar o véu em mera prática cultural ultrapassada é inteiramente danosa à interpretação da Escritura, porque não tem limites; qualquer mandamento pode ser visto como cultura ultrapassada, e, assim, a moral cristã vem abaixo. O véu não deixou de ser usado porque ele era apenas um “costume cultural”; deixou de ser usado por causa dos nossos “costumes”.

Entretanto, isso não significa que as mulheres cristãs estejam automaticamente obrigadas a usá-lo. Cabe à Igreja disciplinar essa questão, observando o que é melhor para cada época e lugar, de acordo com a única lei da Igreja, a lei do amor.

Por isso, a religião cristã é, sem dúvida, a religião do coração e a religião do amor. Só há uma coisa proibida na fé cristã: não amar. Ame e faça o que quiser. Todos os outros “nãos” são maneiras de ensinar e preservar o amor. O amor divino é o maior dom, o maior fruto, o maior mandamento, a maior missão, o maior sacrifício, é o sacramento da vida, é a força do perdão, é a unidade da Igreja, é o motivação da Cruz, é a infusão do Espírito, é a essência sublime e inefável de Deus, porque Deus é amor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Epifania é uma mistagogia

O tempo da Epifania (Tempo Comum I), entre o Natal e a Quaresma, não é simplesmente uma zona neutra verde, como um “sorbet” para limpar o paladar. Por estar entre a Encarnação e a Ressurreição, entre a chegada do Rei e sua vitória definitiva, esse tempo nos coloca como discípulos, no meio do caminho, sendo formados por Jesus, acompanhando o seu ministério e seus atos.

Por isso, na forma atual, a Epifania começa com Cristo sendo manifestado aos três reis-magos (pagãos que chegaram a ele através da sabedoria da contemplação dos céus), a João Batista (o maior profeta dos judeus vendo o milagre descer dos céus à terra) e aos seus discípulos (através do milagre Caná provocado pelo pedido perseverante de Maria). Essa tripla epifania revela Cristo como Filho aos representantes dos três povos. “Tu és o meu Filho amado” (Lc 3:22); “manifestou a sua glória, e os seus discípulos creram nele.” (Jo 2:11).

Aos reis, ele se revela como Rei. Ao profeta, ele se revela como o Profeta. A quem ele se revela como o Sacerdote, senão àqueles que ele transforma em sacerdotes?

Neste ano C (Lucas), no meio do caminho entre a Epifania e a Transfiguração, Cristo se coloca como cumprimento das profecias antigas e é rejeitado em Nazaré. Antes mesmo de formar sua primeira comunidade, ele já diz a que veio, já coloca o programa da sua missão para os pobres e oprimidos, trazendo a justiça do Deus de Israel, tão esperada. Ele mostra, com isso, a necessidade de avançar para além da sinagoga de sua época, restrita ao ensino da Lei, e de como Deus, ao ser rejeitado, leva seus milagres aos estrangeiros e rejeitados.

Então Jesus sobe o monte, escolhe seus doze apóstolos, desce à multidão dos discípulos e, para essa nova comunidade, traz sua mensagem de esperança para os pobres, famintos, sofredores e perseguidos — a esperança do Reino de Deus, que traz reviravolta ao mundo — e, contudo, uma mensagem de amor aos inimigos, amor radical, amor reconciliador, uma mensagem de misericórdia que nos ancora na misericórdia transformadora do Pai, e que nos tira da lógica das recompensas meramente humanas e passageiras.

São os discípulos que primeiro aprenderam essas coisas que agora podem subir o monte para contemplar o Reino de Deus vindo com poder, e então descer para enfrentar os poderes das trevas que atacam os pequeninos, a confusão do mundo. Eles precisavam primeiro ter o coração purificado em sua esperança e em seu amor.

Esse tempo termina com a manifestação máxima: a Transfiguração, na qual os três discípulos de Cristo (como os três magos) têm uma visão de Cristo transfigurado em vestes brancas (as roupas místicas dos anjos e sumo-sacerdotes com acesso à Visão Divina). Repetindo a tripla Epifania, eles “viram a sua glória” (Lc 9:32) e ouviram: “Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi.” (Lc 9:35). Os discípulos escolhidos, o círculo íntimo, têm acesso ao Mistério, ao Segredo.

A seguir vem, então, a Quaresma, na qual saímos a enfrentar o demônio, e, tendo em nós a memória da Glória, caminhamos para carregar a Cruz. Enquanto a Epifania nos eleva, a Quaresma nos reduz.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sobre o Inferno

La Barca di Caronte

Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque, se em Tiro e em Sidom, se tivessem operado os milagres que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido, assentadas em pano de saco e cinza. Contudo, no Juízo, haverá menos rigor para Tiro e Sidom do que para vós outras. Tu, Cafarnaum, elevar-te-ás, porventura, até ao céu? Descerás até ao inferno.” (Lucas 10:13-15)

“Assim como o coração do animal está no meio, assim também o inferno considera-se estar no meio da terra.” (Isidoro de Sevilha, Etimologias, XIV, 9, 11)

Em Teologia, grande é a tentação é de querer que as coisas sejam simples demais. Nós ficamos mais tranqüilos quando aquilo em que cremos cede, de algum modo, à nossa compreensão, e não é fácil vencer a inqüietação causada pelo que a excede.  Se isso é mais ou menos verdade sobre cada doutrina cristã, agrava-se quando o tema é a mais terrível delas, a doutrina do Inferno. Quando não podem esquecê-la, as pessoas abraçam mais facilmente as interpretações que de algum modo facilitam as coisas. Continue lendo “Sobre o Inferno”

O Mistério de Deus

Paradiso

La gloria di colui che tutto move
Per l’universo penetra, e risplende
in una parte più e meno altrove.
(Paradiso, Canto Primo)

Deus é o mistério maior. Não há qualquer mistério que não encontre em Deus sua resposta — assim como sua pergunta —, mas que resposta misteriosa! A Escritura nos diz que [o]s céus declaram a glória de Deus” (Sl. 19:1), mas nós os compreendemos? Continue lendo “O Mistério de Deus”

Reverência

orar

“A este eu estimo: ao humilde e contrito de espírito, que treme diante da minha palavra.” (Is. 66:2b)

Deus é santo. Como Walter Brueggemann diz em sua Teologia do Antigo Testamento, provavelmente a única expressão literal no A.T. para caracterizar a Deus é essa palavra: santo. Todas as outras palavras aplicam-se a outras coisas; se dissermos que Deus é poderoso, ou que é grande, ou que é pai, dizemos a verdade, mas apenas como semelhança. Deus é poderoso, o rei é poderoso, mas ambos não no mesmo sentido. Deus é grande, a montanha é grande, mas não no mesmo sentido. Há aí uma relação de semelhança. Continue lendo “Reverência”