Monergismo ou Sinergismo?

Há certas linguagens teológicas que não servem para nada. Se o sujeito pergunta se eu sou “monergista” ou “sinergista”, o certo é orar por ele.

A salvação se dá por inciativa e providência de Deus, mas não acontece sem cooperação humana. A salvação final exige santificação, e a santificação envolve cooperação. Quando eu digo algo assim, o jovem não iniciado me julgará como sinergista, mas os grandes teólogos tidos por monergistas concordam. De fato, meu grande modelo nessa área é Santo Agostinho de Hipona, que eles acham que era monergista.

Se você simplesmente abandonar esses nomes, fica tudo bem. O mar continua no seu lugar, nenhum terremoto é provocado, nenhuma praga se alastra sobre a terra, e os poderes dos céu não são abalados. (Alguns poderes da terra talvez o sejam, mas nada mais imponente do que síndico de prédio.)

A cooperação é mais profunda do que parece à primeira vista, pois envolve a dinâmica entre a vontade divina e a vontade humana no próprio Cristo. Ele é o exemplo supremo de cooperação, pois a impecabilidade divina flui para a sua natureza humana como graça. Por um lado, a vontade humana coopera sem possibilidade de queda ou hesitação; por outro lado, ela o faz sem que sua liberdade seja eliminada (muito pelo contrário). Tomando emprestada a imagem que São Tomás usa em outro contexto, é como a cooperação entre o ferreiro e o martelo (mas sem sugestão de apolinarismo ou monotelismo). A cristologia ortodoxa exige uma soteriologia suficientemente ampla. Monergismo extremo é uma forma de monoenergismo, a heresia cristológica mais esquisita de todas.

De fato, a própria obra da Redenção envolveu cooperação humana. Deus podia fazer de outro modo, mas quis adentrar na esfera humana e estar entrelaçado nela, e se doar através dela. Por isso, falar da redenção como “extra nos” ou “in nobis” também não me ajuda muito.

De Maria a Judas, o homem cooperou com Deus na realização do sacrifício de Cristo. Maria, com o “sim” máximo (causa salutis); Judas, com o “não” máximo; e Jesus usou o “não” para realizar o “sim”, usou o “sim” para curar o “não”. A Paixão foi realizada pelo homem, em cujas mãos Cristo foi entregue. E não há em Cristo nenhum sofrimento além daquele que o homem e o diabo lhe provocam, e que é maximizado por sua compaixão. Não há um terceiro sofrimento invisível provocado por Deus Pai. Nós, criaturas, o fizemos.

Somente a sua Ressurreição se deu principalmente sem cooperação de outros homens. (Isso nos fiz muito sobre a centralidade da Ressurreição na Redenção.)

Depois de realizada a obra da redenção, Cristo enviou ao mundo os seus discípulos como “cooperadores de Deus”, nas palavras do apóstolo.

Rev. Gyordano M. Brasilino