O que é escândalo?

Normalmente tratamos “escândalo” como algum tipo de história chocante envolvendo uma falha moral de impacto social muito grave. Falamos muito de escândalos políticos. Escandalizar seria o mesmo que chocar. Embora a noção bíblica de “escândalo” envolva essa gravidade e seriedade, além de poder ter um impacto social, ela indica algo um pouco diferente.

O substantivo e o verbo correspondentes, na Bíblia, significam um tipo de pedra colocada com o “armadilha” para fazer alguém tropeçar (literalmente), ou seja, pecar (figurativamente). Escandalizar é provocar a queda espiritual de outras pessoas, ou de nós mesmos (como em Mt 5:29-30; 18:8-9). Às vezes queremos escandalizar, e às vezes queremos algo que causa escândalo. Assim, tentar outras pessoas é uma forma de escandalizá-las (Mt 16:22-23). Escandalizar é fazer tropeçar, é enfraquecer outras pessoas (Rm 14:21).

Como a perseguição é uma tentação (de negar o nome de Cristo), ela é uma forma de escândalo para os fracos (Mc 4:17), e Cristo prepara seus discípulos para esse escândalo (Jo 16:1-2).

É óbvio que, se escandalizar é fazer outros caírem, isto é, fazer perecer aquele por quem Cristo morreu, segue-se que escandalizar normalmente é pecado. O que causa escândalo será removido do reino e condenado (Mt 13:41; 18:6-8), de modo que nosso propósito deve ser sempre o de não escandalizar ninguém (Rm 14:13; 1Co 8:9; 2Co 6:3), permanecendo “sem escândalo algum até ao dia de Cristo” (Fp 1:10). Paulo tem uma preocupação constante de que o evangelho não seja censurado (2Co 6:3; cf. 1Tm 5:14; 6:1; Tt 2:5,8), para que não haja obstáculo a ele (1Co 9:12).

Mas é preciso entender bem: escandalizar não é o mesmo que chatear outras pessoas, embora isso possa se escandaloso quando praticado por certas pessoas, especialmente pelos que representam Cristo, que devem ter como propósito agradar tantos quanto for possível, desde que isso não tire de Cristo o primeiro lugar (cf. 1Co 10:33; Gl 1:10). Ainda assim, o próprio Cristo, pregando e vivendo a Palavra, escandalizou pessoas em alguns momentos (cf. Mt 11:6; 13:54-58; 15:12-13; Jo 6:60-61; Rm 9:33), e uma das coisas que chocavam as pessoas em redor era certamente o modo como Cristo andava, comia e bebia com “pecadores”. Mas ele evitava escandalizar desnecessariamente (Mt 17:27).

O próprio evangelho é um escândalo para os judeus (1Co 1:23), o escândalo da cruz (Gl 5:11), a história de um rei crucificado por seu próprio povo, o que colocava cada judeu evangelizado diante de uma escolha muito difícil. Ser cristão é carregar esse escândalo, pois cada cristão deve carregar a cruz. Paradoxalmente, Paulo que que não causemos escândalo aos judeus (1Co 10:32).

Assim, por lealdade à verdade, e não por mera insensibilidade, eventualmente iremos escandalizar as pessoas, porque cremos numa mensagem que escandaliza, uma mensagem que, num dado momento, fará com que pessoas se afastem, como se afastaram de Jesus. Isso se dá porque, embora devamos procurar agradar tanto quanto puder, evitando afastar desnecessariamente, Paulo nos ensina também que não devemos nos tornar escravos de ninguém, e o discurso do escândalo pode se tornar numa prisão. É perigoso que nosso evangelho se torne escravo das conveniências sociais, refém da hipocrisia. Contra isso, o Apóstolo protesta: não se tornem escravos dos homens!

A regra deve ser sempre o amor, como lemos em 1João 2:10: “Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo.”

A Eficácia Cristocêntrica dos Sacramentos

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Qualquer pergunta que fizermos sobre os sacramentos leva, em algum momento, à questão da sua eficácia — sua capacidade de produzir certos efeitos reais e espirituais, de cumprir certas promessa feitas por Cristo. A eficácia está lá quando tratamos do batismo de crianças  e é impossível ter uma postura correta sobre essa prática sem que primeiro a eficácia sacramental seja esclarecida , quando discutimos sobre a unidade visível dos membros Igreja, quando perguntamos se é possível salvação sem os sacramentos, ou se todos os que os recebem são salvos. Quando alguém percebe a importância e sutileza do ensino das Sagradas Escrituras sobre os sacramentos, essa questão emerge. Continue lendo “A Eficácia Cristocêntrica dos Sacramentos”

Lutero foi a Roma — e gostou

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O filme Lutero (2003) mostra o monge agostiniano e futuro reformador incomodado com a prostituição e a superstição que encontra em Roma, assim como incapaz de encontrar paz na prática religiosa da cidade eterna. Essa é uma noção bastante difundida. Lutero teria começado a compreender “a necessidade de uma reforma” depois de ver “um pouco da corrupção e da luxúria da Igreja Romana”, como escreve Earle E. Cairns em seu livro de história da Igreja. Continue lendo “Lutero foi a Roma — e gostou”

Regnum gratiae: Sobre a santidade da Igreja

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“Desposar-te-ei comigo para sempre; desposar-te-ei comigo em justiça, e em juízo, e em benignidade, e em misericórdias; desposar-te-ei comigo em fidelidade, e conhecerás ao SENHOR.” (Oséias 2:19,20)

Segundo o livro de Gênesis, quando Deus celebrou sua aliança com Abraão e sua descendência, ele lhes conferiu como sinal a marca da circuncisão, de maneira que todos os circuncisos e somente os circuncisos estariam em aliança com Deus (Gn. 17:10-14). As novas gerações já nasciam dentro da aliança de Deus antes mesmo de serem capazes de compreendê-la. Continue lendo “Regnum gratiae: Sobre a santidade da Igreja”