Espírito e espírito

As traduções bíblicas não são neutras! Você sempre recebe a doutrina do tradutor junto.

Uma questão que é discutida há bastante tempo pelos tradutores da Bíblia e exegetas, mas que é praticamente desconhecida da maioria dos leitores, é o modo como traduzimos “espírito” ou “Espírito” no Novo Testamento e particularmente nas cartas de São Paulo.

Eu colocaria o problema da seguinte maneira: o texto bíblico grego não nos dá, em todos os casos, razões gramaticais suficientes para distinguir entre “espírito” (um espírito humano ou qualidade sua) e “Espírito” (o Espírito Divino). Ademais, a maneira como vertemos o texto normalmente é guiada por preocupações dogmáticas que não estavam em relevo na época, quanto à Santíssima Trindade.

Um trecho particularmente significativo é Romanos 8, onde encontramos, lado a lado, momentos que não podem ser vertidos como “espírito” (humano) e outros que não podem ser vertidos como “Espírito” (divino), e vários, entre eles, que podem ser vertidos das duas maneiras, mudando a maneira como lemos o capítulo. Paulo não parecia particularmente preocupado em deixar clara a diferença, inclusive porque ele não presumia nossas discussões sobre natureza e graça.

Um exemplo significativo de texto gramaticalmente ambíguo (vv. 5–6):

☩ “Porque os que são conforme a carne cogitam (phronousin) das coisas da carne; mas os que são conforme o espírito, cogitam das coisas do espírito. Porque a cogitação (phronēma) da carne é morte, mas a do espírito é vida e paz.

Se vertermos como “o Espírito”, a dicotomia do texto é entre o humano e o divino, mas, se vertermos como “espírito”, a dicotomia é entre duas dimensões da própria pessoa humana. Exatamente o mesmo aparece em Gl 5:17, texto que apresenta esse conflito entre carne e E/espírito.

Assim, se escolhemos “Espírito”, temos uma leitura mais agostiniana; se escolhemos “espírito”, uma leitura mais platônica — e curiosamente mais judaica também. Na segunda leitura, o Espírito Divino vem (no contexto) para solucionar uma cisão entre duas partes da natureza humana. Um dos motivos pelos quais essa leitura é particularmente interessante é o modo como ela se mostra como perfeita continuidade para a cisão que aparece no capítulo anterior (vv. 21–23):

☩ “Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Monergismo ou Sinergismo?

Há certas linguagens teológicas que não servem para nada. Se o sujeito pergunta se eu sou “monergista” ou “sinergista”, o certo é orar por ele.

A salvação se dá por inciativa e providência de Deus, mas não acontece sem cooperação humana. A salvação final exige santificação, e a santificação envolve cooperação. Quando eu digo algo assim, o jovem não iniciado me julgará como sinergista, mas os grandes teólogos tidos por monergistas concordam. De fato, meu grande modelo nessa área é Santo Agostinho de Hipona, que eles acham que era monergista.

Se você simplesmente abandonar esses nomes, fica tudo bem. O mar continua no seu lugar, nenhum terremoto é provocado, nenhuma praga se alastra sobre a terra, e os poderes dos céu não são abalados. (Alguns poderes da terra talvez o sejam, mas nada mais imponente do que síndico de prédio.)

A cooperação é mais profunda do que parece à primeira vista, pois envolve a dinâmica entre a vontade divina e a vontade humana no próprio Cristo. Ele é o exemplo supremo de cooperação, pois a impecabilidade divina flui para a sua natureza humana como graça. Por um lado, a vontade humana coopera sem possibilidade de queda ou hesitação; por outro lado, ela o faz sem que sua liberdade seja eliminada (muito pelo contrário). Tomando emprestada a imagem que São Tomás usa em outro contexto, é como a cooperação entre o ferreiro e o martelo (mas sem sugestão de apolinarismo ou monotelismo). A cristologia ortodoxa exige uma soteriologia suficientemente ampla. Monergismo extremo é uma forma de monoenergismo, a heresia cristológica mais esquisita de todas.

De fato, a própria obra da Redenção envolveu cooperação humana. Deus podia fazer de outro modo, mas quis adentrar na esfera humana e estar entrelaçado nela, e se doar através dela. Por isso, falar da redenção como “extra nos” ou “in nobis” também não me ajuda muito.

De Maria a Judas, o homem cooperou com Deus na realização do sacrifício de Cristo. Maria, com o “sim” máximo (causa salutis); Judas, com o “não” máximo; e Jesus usou o “não” para realizar o “sim”, usou o “sim” para curar o “não”. A Paixão foi realizada pelo homem, em cujas mãos Cristo foi entregue. E não há em Cristo nenhum sofrimento além daquele que o homem e o diabo lhe provocam, e que é maximizado por sua compaixão. Não há um terceiro sofrimento invisível provocado por Deus Pai. Nós, criaturas, o fizemos.

Somente a sua Ressurreição se deu principalmente sem cooperação de outros homens. (Isso nos fiz muito sobre a centralidade da Ressurreição na Redenção.)

Depois de realizada a obra da redenção, Cristo enviou ao mundo os seus discípulos como “cooperadores de Deus”, nas palavras do apóstolo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Predestinação em Sto. Agostinho

agostinho-de-hipona

Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,” (Efésios 1:3-5)
Indelével. A marca que Sto. Agostinho deixou na cristandade ocidental é indelével. Ele está envolvido em todos os grandes debates da Igreja antiga, e em todos eles ele deixou alguma contribuição importante. Polêmica em muitos casos, mas sempre importante, e talvez mesmo a mais importante seja também a mais polêmica, que é a teologia da graça, gestada nos conflitos do africano contra as tendências moralistas e paganizantes de Pelágio e seus seguidores. Mas antes disso, especialmente no debate contra o rigorismo donatista, a doutrina da graça de Agostinho já estava em preparação, na sua reflexão sobre os sacramentos. A doutrina da predestinação é uma conseqüência da doutrina da graça.

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O Mistério de Deus

Paradiso

La gloria di colui che tutto move
Per l’universo penetra, e risplende
in una parte più e meno altrove.
(Paradiso, Canto Primo)

Deus é o mistério maior. Não há qualquer mistério que não encontre em Deus sua resposta — assim como sua pergunta —, mas que resposta misteriosa! A Escritura nos diz que [o]s céus declaram a glória de Deus” (Sl. 19:1), mas nós os compreendemos? Continue lendo “O Mistério de Deus”