A Escuridão de Deus

“…Moisés, porém, se chegou à nuvem escura onde Deus estava.” Êx 20:21

Estas palavras falou o Senhor a toda a vossa congregação no monte, do meio do fogo, da nuvem e da escuridade, com grande voz, e nada acrescentou…” Dt 5:22

“…O Senhor declarou que habitaria em trevas espessas.” 1Rs 8:12

Das trevas fez um manto em que se ocultou; escuridade de águas e espessas nuvens dos céus eram o seu pavilhão.” Sl 18:11

Nuvens e escuridão o rodeiam...” Sl 97:2

A Escuridão é um lugar privilegiado de encontro com Deus. Se é verdade que encontrar Deus é encontrar a Luz — o querigma joanino é de que “Deus é Luz” —, e que a escuridão seja naturalmente encarada como ignorância e maldade, é igualmente verdade que há uma outra Escuridão, não a destruição da Luz, mas a transcendência da Luz, a Luz Inacessível e Invisível.

Como sabemos, o Mal é a privação do Bem, mas o Areopagita nos ensina que há outra privação do Bem, não abaixo do Bem, mas justamente acima dele, o Um acima de qualquer compreensão, tão supremo que não pode ser pensado ou dito. Não é a ausência, mas a plenitude infinita do Bem, que nos lança em outro tipo de ignorância — não a recusa da Verdade, mas a Verdade insuportável, inabarcável, insustentável, intolerável, incompreensível.

Por isso, a experiência da Escuridão e do Silêncio, na qual nós nos desapegamos de tudo o que é nosso, na qual abandonamos as criaturas, para atentarmos para o que está além da atenção, a experiência além de qualquer experiência, é o lugar de encontro com o Absoluto.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deserto, Acídia e Noite Escura da Alma

É importante não confundir três coisas: deserto, acídia e noite escura. (A confusão que envolve a segunda tem a ver com inexperiência, enquanto a confusão que envolve a terceira tem mais a ver com linguagens divergentes.)

(I) Deserto é período (dias, meses, anos) de provação no qual há maior aridez, diminuição do prazer imediato nas coisas espirituais e da recompensa instantânea. A obediência permanece, mas ela é mais difícil e custosa. Desejamos um rio, mas lutamos por uma gota. Tentações são mais explícitas, naquilo em que estamos fragilizados. O diabo procura lançar dúvidas e confusão espiritual. Todo cristão passa pelo deserto em algum momento. Não resulta de um pecado nosso específico (não é uma punição), embora seja importante para que conheçamos os nossos pecados e forças, pois o deserto nos ajuda a desnudar nossa condição espiritual, pois faz cessarem certas emoções que ocultam nossos problemas.

(II) Acídia não tem a ver principalmente com as circunstâncias que nos provam, mas com o nosso coração. Acontece todo o deserto em nosso redor, mas a acídia envolve certo desespero ou aceitação da distância em relação a Deus. Ela é uma paixão da carne sobre a alma, mas envolve também desobediência e consentimento, uma desistência de lutar no deserto, portanto com algum grau de rejeição à graça e abandono da continência do Caminho, em busca da comodidade. Na maior parte das vezes em que passamos pelo deserto, especialmente quando mais inexperientes, nós caímos em algum grau de acídia. Essa desistência é muito perigosa, porque pode levar à apostasia: você primeiro desiste do amor, depois desiste da esperança e, por fim, se não se arrepender, desiste da fé.

(III) A Noite Escura da Alma é uma forma de deserto, mas é mais profunda. Não é uma experiência de todos os cristãos, mas daqueles que já alcançaram um aprofundamento místico, certo grau de perfeição acima da maturidade, e que, por estarem mais livres das paixões comuns, sofrem uma provação mais severa, na qual devem simplesmente confiar em Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino