Dois modos de ler as Escrituras — A Genealogia de São Mateus

Evangelista Mateus inspirado por um anjo (cortado)

Duas formas de ler a Escritura sempre se ofereceram aos cristãos. Há um modo mais sutil, atento ao mundo do texto e seu modo peculiar de comunicação, assim como atento à natureza transcendente daquilo que nele se desvela. Há, por outro lado, o modo mais “cru”, que encara o texto como um conjunto de verdades já expostas, já facilmente “à mão”, sem necessidade de um encontro e de uma meditação. O primeiro modo encara as narrativas bíblicas como instâncias de uma narrativa maior (a história da salvação), às quais se reportam em primeiro lugar, como testemunhos da Verdade; o segundo, vê no texto verdades particulares sobre Deus e sobre os fatos do mundo. Continue lendo “Dois modos de ler as Escrituras — A Genealogia de São Mateus”

A Serpente não é Satanás (e outras alegorias)

Leão e Serpente

A interpretação literalista da Bíblia é um fenômeno essencialmente moderno. Toda interpretação séria da Sagrada Escritura leva em conta o sentido literal do texto. Que o sentido literal deva ser preferido sempre que possível, é algo com que qualquer hermenêutica pode concordar. Orígenes, grande campeão da interpretação alegórica, podia perfeitamente concordar com essa tese. A diferença é a extensão do “sempre que possível”, havendo quem o queria alargar ou limitar. Para o mesmo Orígenes (De principiis), uma interpretação que fosse contraditória ou incompatível com o que se sabe sobre o mundo deveria ser descartada; ela não seria “possível”. Por isso, nosso conhecimento do mundo real independente do texto seria uma medida de literalidade. Continue lendo “A Serpente não é Satanás (e outras alegorias)”