Minhas diferenças com o Catolicismo e a Ortodoxia

Patriarca Atenágoras de Constantinopla e Papa Paulo VI

“Maridos, amai vossa mulher, como também Cristo amou a igreja e a si mesmo se entregou por ela, para que a santificasse, tendo-a purificado por meio da lavagem de água pela palavra, para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito.” Efésios 5:25-27

Algumas pessoas já me pediram para falar sobre quais são as minhas diferenças com o Catolicismo (romano) e com a Ortodoxia. Eu confesso que prefiro conversar essas questões em privado do que em público, porque elas tendem a gerar certas formas de debate e discussão que, francamente, tenho muita dificuldade de ver como edificantes ou espirituais, e, mesmo em privado, esse tipo de assunto me parece desinteressante. Sobre vários assuntos, eu não estou preparado para falar das diferenças simplesmente pelo fato de que não tenho interesse de saber o que os latinos ou os orientais pensam. Isso não significa que eu não haja lido nada a respeito ou conversado com eles, mas apenas que eu estudei teologia o suficiente para saber que cada doutrina só faz sentido no todo da fé, e que, por isso, é muito difícil entender o que uma doutrina significa sem crer no todo do qual ela emerge e participar de sua vivência concreta, existencial, comunitária e cúltica. Cada afirmação de fé pode ter o sentido mudado em conjunto com outras afirmações. Ou seja, eu acredito que a maioria das coisas que católicos, ortodoxos e protestantes dizem uns dos outros quando se atacam é de suma leviandade.

Mas eu entendo que, para aqueles que estão explorando as diferentes formas da religião cristã em busca de respostas, o tipo de esclarecimento que pretendo fazer pode ser importante, pode ajudar de alguma maneira. Preocupo-me principalmente com os que ficam mais ansiosos com essas questões, os que legitimamente estão em busca da verdade, mas sem orientação. Se o que eu digo aqui servir de algum préstimo quem está nessa condição, creio que cumpri meu propósito. É para esses que eu escrevo. Por isso, eu me norteio pelos temas mais questionados. É perfeitamente possível que as semelhanças ou diferenças incluam outros temas não mencionados aqui. Quanto a algum católico ou ortodoxo que porventura leia este texto, deve entender que eu não pretendo oferecer aqui os argumentos necessários para defender o que defendo ou refutar o que não defendo, mas apenas uma descrição inicial da minha posição.

Principalmente para os protestantes, com quem eu tenho maior proximidade. Em momentos anteriores, já compartilhei a minha opinião de que a Reforma Protestante terminou em 1529, no Colóquio de Marburgo, e que, a partir disso, não há qualquer expectativa para uma reforma geral da Igreja em termos de doutrina, mas apenas um caminho de diálogo honesto e pacífico no qual nossas diferenças possam ser mitigadas e nosso escândalo, curado. Através desse diálogo, vemos católicos reconhecerem que a Reforma Protestante os ajudou a recuperarem e esclarecerem elementos de sua própria fé e tradição que estavam dormentes, assim como vemos protestantes vislumbrarem uma maior catolicidade da Escritura Sagrada. Não defendo a manutenção do status quo de desunião entre comunidades cristãs; defendo, antes, que façamos nossa parte para, pedindo a luz do Espírito Santo, eliminar nossa distância tanto quanto possível, sem criar barreiras desnecessárias, mais fruto da antipatia mútua. Não pretendo ser capaz de resolver essa questão, então procuro manter, o quanto posso, a política da boa vizinhança com os católicos e com os ortodoxos, e falo aos protestantes, que estão mais perto.

Pois bem, pretendo falar o que penso sobre os tópicos que me aproximam e me distanciam do catolicismo e da ortodoxia. Cada uma dessas diferenças mereceria uma discussão detalhada e uma argumentação mais precisa e rigorosa, o que exigiria o espaço de um livro que eu não pretendo escrever nunca. (Daqui em diante, quando digo “católico” ou “catolicismo”, refiro-me ao maior grupo a usar essa designação, aquele sujeito ao Bispo de Roma. Quando digo “ortodoxo” ou “ortodoxia”, refiro-me também ao maior grupo a usar essa designação. Digo isso porque às vezes diferentes grupos disputam esses nomes, e é óbvio que qualquer cristão sensato quererá se considerar católico e ortodoxo, se souber o que essas palavras designam.)

Eu creio que a Escritura Sagrada contém, quanto à fé, todas as coisas necessárias para a nossa salvação, desde que lida e interpretada no contexto da Tradição, isto é, conforme o sentido histórico que se desenha ao longo dos séculos, no testemunho cristão. Nenhum texto tem sentindo independente da interpretação que pode receber a partir de uma comunidade ligada a ele (cultural e linguisticamente). Por isso, não há qualquer sentido, por exemplo, em ler as Escrituras sem doutrinas históricas como a Santíssima Trindade ou o teísmo clássico. Eu sou inteiramente a favor de uma análise científica da Escritura através da Crítica Histórica, mas essa análise não nos diz qual é nossa fé, não nos diz a mensagem que a Escritura veicula como um cânon, como testemunho conjunto. Por isso, há a necessidade de uma estrutura dogmática que nos norteie no modo como observamos, não só a Escritura, mas aquilo a que a Escritura se refere.

Por isso, afirmo que a Igreja tem, usando a expressão dos 39 Artigos, o papel de “protetora” ou “guardiã” (keeper, conservatrix) da Escritura Sagrada. A Igreja, e não a Bíblia, é a “coluna e baluarte da verdade” (1Tm 3:15). Assim, o testemunho histórico da Igreja em favor da Bíblia, não só acerca de sua existência, mas também acerca do seu sentido, deve ser ouvido. Quando digo que a Escritura contém todas as coisas necessárias para a nossa salvação, desde que lida à luz da Tradição, identifico-me com aquilo que alguns chamam de Sola Scriptura e outros chamam de Prima Scriptura. Eu não me importo com o nome, que não aparece nos documentos confessionais anglicanos. Decididamente estou contra quem afirme que a Tradição contenha validamente elementos desligados das Escrituras, ou que a Escritura deve ser lida sem qualquer auxílio da voz da Igreja. O Espírito Santo guiou a Igreja. Por acreditar nessas coisas, e afirmá-las com otimismo, em vários pontos eu defendo, de uma perspectiva anglicana — portanto com certas nuances —, traços da fé cristã em comum com o Catolicismo e a Ortodoxia.

Algumas diferenças óbvias dizem respeito à Santíssima Trindade, já mencionada, e também à União Hipostática, a necessidade geral dos Sacramentos para a salvação, a importância da sucessão apostólica e do governo episcopal (com as três ordens), a distinção entre o sacerdócio geral e o ministerial, a importância do exemplo e honra aos santos na vida da Igreja (particularmente a sempre virgem e pura Mãe de Deus), orações pelos falecidos, a possibilidade do uso devocional de imagens (ícones ou estátuas) de Deus ou dos santos (na adoração a Deus) — embora eu pense que dou menos importância a esse assunto do que os católicos ou ortodoxos — , na necessidade do guiamento do consenso dos Pais da Igreja na doutrina cristã, na descida de Cristo ao Abismo, na concepção da Eucaristia como o sacrifício de Cristo (não repetido) recebido pelo “sacrifício de louvor e ação de graças” da Igreja (repetido), no batismo (e comunhão) de crianças, na necessidade da santificação para se chegar à vida eterna, na importância da contemplação mística. Esses temas não excluem o protestantismo, mas são os que mais aparecem em conflitos entre os dois grupos.

Vários desses assuntos são motivos centrais pelos quais algumas pessoas são protestantes e não católicas ou ortodoxas. Nesse caso, penso que essas pessoas são protestantes pelos motivos errados. Da minha perspectiva, que não pretendo impor a ninguém, é natural que elas abandonem o protestantismo quando deixam de lado os motivos errados e ignoram os certos. Quantos evangélicos conhecemos que têm como crítica principal ao catolicismo a posição elevada dada a Maria, por exemplo? Com certeza, eu não trato Maria como o catolicismo popular a trata, mas creio que essa seja a perspectiva errada. É preferível ser um protestante como Lutero, que amava Maria.

Mesmo dentro dessas semelhanças, há já diferenças. Eu leio a filioque (a afirmação de que “o Espírito Santo procede do Pai e do Filho“) como significando per filium (“o Espírito Santo procede do Pai através do Filho”), o que me parece ser uma posição inteiramente satisfatória, com a concordância de alguns católicos/ortodoxos e discordância de outros. Sobre Maria, concordo que ela foi livre de pecado atual (“a minha imaculada”, Ct 6:9), sempre Virgem e mãe de Deus. Eu não tenho qualquer problema grave com a Assunção de Maria (dos católicos) ou a Dormição de Maria (dos ortodoxos), embora a segunda opção me pareça mais bela e relevante; mas não acredito que é necessário ter uma posição sobre isso e, nesse ponto, divirjo dos dois grupos. Quanto à honra ao santos, creio que eles intercedem por nós (oram a Deus em nosso favor) e que a Escritura dá indícios suficientes de que eles sabem o que se passa entre nós, então considero razoável ou defensável a posição de quem pede a intercessão deles como pedimos daqueles que estão entre nós (ora pro nobis), mas não a de quem os invoca como se fossem poderosos e capazes de conceder bênçãos. Quanto à sucessão apostólica, eu afirmo sua importância e a necessidade de preservá-la a todo custo, mas não nego que Deus conceda graça nas comunidades protestantes privadas dela.

Há outras áreas em que eu estou mais próximo de um lado ou de outro. O catolicismo romano me parece mais tendente a falar e explicar sua doutrina em detalhes, e quem fala mais está mais propício a errar, mas também a dizer coisas belas e corretas, se o fizer com sabedoria. Por isso, a maioria das diferenças e semelhanças de que tenho ciência estão do lado do catolicismo. O catolicismo é mais aberto a certos temas que são importantes para mim, como o movimento carismático e a Crítica Histórica, e essas são duas áreas em que há bastante diálogo, intercâmbio e amizade entre católicos e protestantes.

Quando me perguntam qual é minha maior divergência com o catolicismo, a resposta óbvia é a Supremacia Papal. Parece-me bem óbvio que Simão Pedro, segundo a apresentação do Novo Testamento, detinha uma forma de primazia sobre os demais apóstolos, e que a continuidade dessa primazia está sumamente em conformidade com a realização dos planos de Cristo. Assim como a maioria das comunidades protestantes terá, em algum momento, um líder principal, é natural que a Igreja Una tenha um líder terreno principal. Então a primazia petrina, entendida de certo modo, é uma doutrina perfeitamente razoável, não só da perspectiva de como o Novo Testamento retrata o Pescador, mas também do modo como qualquer comunidade global deveria funcionar, tendo em vista harmonia e ordem. Precisamos de um líder que fale hoje, mesmo que seja um humano falho. Embora essa primazia não exija necessariamente que o líder máximo detenha o tipo de jurisdição que o catolicismo lhe dá (coisa historicamente construída), isso não é impossível, também. (Se é desejável, é outra história.)

Mas eu não posso concordar com a infalibilidade papal, ou com a infalibilidade da doutrina romana como um todo. Minha impressão é que essa doutrina se contradiz em alguns momentos, como no modo como o inclusivismo soteriológico hoje dominante e “aceitável” substituiu as posições mais severas e exclusivistas de Florença ou da Unam Sanctam (que toca a infalibilidade papal). As tentativas de harmonização não me convencem; e as pessoas que as defendem não me convencem de que realmente são capazes de crer no que me dizem. As defesas do dogma da infalibilidade papal, em particular, me parecem sempre muito arbitrárias e vagas. Dão sempre a impressão de raciocínio circular. Além disso, as controvérsias em torno do Papa Francisco dão a impressão de que a doutrina romana muda mesmo, e que a infalibilidade, mesmo que seja verdadeira, não ajuda em nada, já que é perfeitamente possível que o Papa infalível guie os católicos na direção errada, apenas tomando decisões pastorais e fazendo discursos desastrosos e ambíguos. (Digo isso levando em conta os críticos de Francisco. A coisa é diferente se pensarmos que os corretos são os seus defensores.)

Há outras diferenças com o catolicismo, como o dogma da Transubstanciação — a Presença Real do corpo e do sangue de Cristo me parecem tão certas quanto a remanência dos elementos (pão e vinho), e me parece que os católicos não se importam muito com o testemunho bíblico e patrístico nessa segunda direção — , a indissolubilidade absoluta do matrimônio — posições ortodoxas me parecem mais corretas, sensatas e mais em linha com a totalidade da Tradição (particularmente a tradição conciliar) —, e o celibato clerical. Eu estou realmente convencido de que a o celibato clerical obrigatório não é só uma disciplina canônica, mas que toca, sim, na doutrina, porque afeta o modo como a Igreja vê a vocação; de que essa obrigatoriedade esconde um erro de doutrina, como se a Igreja pudesse exigir legitimamente sem levar em conta o modo como Deus concede dons (o matrimônio e o celibato), assim como estão errados em doutrina os protestantes mais esquisitos que acreditam que Deus não concede esses dons. Há outras questões, como a rejeição mais ampla ao universalismo e o tema do purgatório. Eu não sou universalista, mas a postura dos ortodoxos, de relativa abertura quanto a essa questão, me parece mais sensata. Como já mostrei num texto anterior, se a linguagem do Purgatório for equivalente a um processo de purificação e aperfeiçoamento após a morte, continuando e (de certo modo) completando o que aconteceu em vida (resguardada a epektasis), eu a afirmo; mas se isso é visto em termos mais penais, como aquela rejeitada pelos reformadores, não me parece nada aceitável, mas apenas brutal.

Por fim, acho que o catolicismo tem muita beleza mas também muita feiura em sua estética, mesmo nas versões mais tradicionais e cuidadosas. Muita coisa brega, relativamente recente (em termos de dois mil anos de história). Nesse ponto, a ortodoxia tem uma aparência, de fato, muito mais celestial e, estranhamente, menos “pesada”. Eu o digo, é óbvio, da perspectiva de quem não é membro de nenhum desses dois grupos e que, por isso, não sei qual é a experiência de quem está realmente dentro.

Quanto aos ortodoxos, que eu conheço menos, os problemas são menores em número, tanto pela razão dita acima como pela distância cultural. Tratar a doutrina da Eucaristia mais como mistério, sem precisar recorrer a explicações como a transubstanciação (ainda que pareça ser aceitável entre eles), é algo com que eu tenho muita afinidade. A ênfase na deificação do homem (theosis) no processo de salvação é bem-vinda, mas o modo como os neopalamitas atrelam argumentativamente isso à distinção essência-energias me parece bizarro (mesmo que a distinção seja correta). Além disso, embora haja vozes em contrário entre os ortodoxos (como o Padre Georges Florovsky), parece que a maioria deles tem um fechamento sacramental absoluto, só vendo validade sacramental entre eles mesmos. Em termos gerais, a eclesiologia ortodoxa é menos agostiniana e mais cipriânica. Assim também é sua soteriologia, que parece ser absolutamente fechada a certas concepções que, entre nós ocidentais, são mais aceitáveis. Para mim, embora no cômputo geral a Ortodoxia seja mais aceitável, quando ela erra, ela me parece mais inaceitável.

Não me amolem mais. Deus vos abençoe.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Inferno é separação? — Um erro de tradução em 2Ts. 1:9

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É freqüente na pregação popular a imagem do Inferno como um “afastamento” em relação a Deus. Tanto entre católicos romanos quanto entre protestantes, essa idéia encontra aceitação quase universal no Ocidente. O afresco do Juízo Final, de Michelangelo, captura essa concepção ocidental: o Senhor advindo sobre as nuvens executa seu juízo por meio de anjos, reunindo para a si os salvos e lançando na condenação os perdidos. Os únicos a rir, de fato, são os demônios, no canto inferior direito (a esquerda de Cristo). Eles parecem ser castigadores, não castigados. Continue lendo “O Inferno é separação? — Um erro de tradução em 2Ts. 1:9”

Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino

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“Alguns novos teólogos negam o pegado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada. Alguns dos seguidores do Reverendo R. J. Campbell, em sua espiritualidade quase exagerada, admitem a impecabilidade divina, que eles não são capazes de ver nem em seus sonhos. Mas eles essencialmente negam o pecado humano, que eles podem ver na rua.” (G. K. Chesterton)

A noção de Pecado Original é uma das doutrinas mais polêmicas na história da Igreja, especialmente quando foi primeiramente formulada por Agostinho de Hipona (354–430), mas também no princípio da Reforma Protestante — com formulações radicais pela maioria dos reformadores e, do lado Romano, o estabelecimento de um dogma “completo” do Pecado Original no Concílio de Trento (mas recuperando o Concílio de Orange de 529) —, assim como na teologia racionalista entre os séculos XIX e XX, que assumia uma opinião bastante otimista sobre a natureza humana. Continue lendo “Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino”