Cristo bebeu mesmo o cálice da ira de Deus?

Poucos momentos antes de ser entregue nas mãos dos homens, Jesus orava: “Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.” (Marcos 14:36)

Segundo os defensores da Substituição Penal, esse cálice, a que Cristo se refere, é o cálice da ira de Deus, que Cristo teria bebido substitutivamente, ou seja, ele teria bebido o cálice da ira de Deus no lugar dos homens, livrando-os dessa ira. Tais palavras de Jesus, como as de João 18:11 (“não beberei, porventura, o cálice que o Pai me deu?”), seriam uma confirmação da teoria. Isso é correto?

Na verdade, as Escrituras usam a imagem do cálice para significar vários destinos diferentes, bons ou maus (cf. Sl 16:5; 75:8; 116:13). Os profetas bíblicos várias vezes mencionam o cálice da ira de Deus, mas é impossível que, nas palavras de Cristo, esse seja o cálice da ira, por um motivo simples: o Senhor ensina com clareza que os discípulos beberiam do mesmo cálice que ele.

Mateus 20:22–23: Mas Jesus respondeu: Não sabeis o que pedis. Podeis vós beber o cálice que eu estou para beber? Responderam-lhe: Podemos. Então, lhes disse: Bebereis o meu cálice; mas o assentar-se à minha direita e à minha esquerda não me compete concedê-lo; é, porém, para aqueles a quem está preparado por meu Pai.

É relevante que aí seja o cálice do Senhor (“o meu cálice”); jamais se diz, em qualquer lugar, que Cristo toma o nosso cálice (cf. Ez 23:31-33), mas nós somos chamados a tomar o dele. O “cálice” da oração indica, é óbvio, os sofrimentos que o aguardavam. Usar como prova de que Jesus recebeu a ira de Deus é petição de princípio.

O Senhor não fala aqui de um sofrimento substitutivo, mas de um sofrimento representativo, participativo, no qual os próprios apóstolos deveriam se inserir. Então, longe de provar que Cristo suportou a ira de Deus substitutivamente, esgotando-a, na verdade, o tratar os seus sofrimentos como um cálice do qual os discípulos também beberiam, Cristo ensina que nós precisamos passar pelo mesmo com ele.

Ao usar o símbolo do cálice (e do batismo), Cristo visualiza uma comunhão de sofrimentos, uma partilha de aflições. Diante disso, são plenamente compreensíveis as palavras de Paulo: “preencho o que resta das aflições de Cristo” (Cl 1:24). Os discípulos de esejavam glória, mas teriam cruz. O banquete do reino de Deus é diferente.

Rev. Gyordano M. Brasilino