Confissão de Inocência

Em nenhum lugar a Escritura Sagrada incentiva a atitude de autoflagelação psicológica. Existe, sim, a necessidade urgente da confissão de pecados, da penitência, do arrependimento, da contrição, mas não devemos ter medo de reconhecer nossa própria inocência quando não estamos culpados. A caça pseudofreudiana por más intenções, sob pretexto de uma “depravação total”, é um veneno.

Talvez alguém seja tentado a pensar que Jó foi arrogante, ou se excedeu em alguns momentos, mas, no geral, ele estava em linha com a espiritualidade dos salmos. Alguém poderia dizer que Paulo foi arrogante no trecho abaixo?

Os meus pés seguiram as suas pisadas; guardei o seu caminho e não me desviei dele. Do mandamento de seus lábios nunca me apartei, escondi no meu íntimo as palavras da sua boca.” Jó 23:11–12

Daí retribuir-me o Senhor, segundo a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, na sua presença.” Salmo 18:24

Faze-me justiça, Senhor , pois tenho andado na minha integridade e confio no Senhor, sem vacilar. Lavo as mãos na inocência e, assim, andarei, Senhor , ao redor do teu altar,” Salmo 26:1,6

Tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança. Não tornou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos dos teus caminhos,” Salmo 44:17–18

São muitos os meus perseguidores e os meus adversários; não me desvio, porém, dos teus testemunhos.” Salmo 119:157

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar…” Salmo 131:1

Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes.” 1Tessalonicenses 2:10

Rev Gyordano M. Brasilino

A teoria de Santo Anselmo funciona?

O que eu acho da teoria da satisfação de Santo Anselmo? De vez em quando, alguém pergunta sobre essa teoria, geralmente algum evangélico instatisfeito com a teologia da Substituição Penal que, pelo hábito, não quer largá-la de todo, procurando refúgio na lógica mais próxima. A teoria de Santo Anselmo preparou o caminho para a Substituição Penal.

Basicamente, essa teoria da satisfação explica a obra redentora como uma “reparação” (satisfação) da honra de Deus, que foi violada pelo pecado (de Adão e depois o nosso). Embora a honra de Deus propriamente dita não seja afetada, a ordem do mundo (ordo universi) o foi, e há a necessidade de uma reparação para que a humanidade possa ser perdoada. A redenção é explicada em termos dessa “habilitação” do perdão divino: a obediência de Cristo repara (satisfaz) a desobediência da humanidade, que esta não seria capazes de satisfazer, já que todo bem que a humanidade faz estaria já dentro de sua própria obrigação, nunca havendo “crédito” para compensar os deméritos.

Eu vejo vários méritos e vários problemas sérios na teoria anselmiana. Vou mencionar três prós e quatro contras:

P1. A teoria concorda muito bem com nossas experiências em torno de crimes graves. Diante de algo como o apartheid, por exemplo, ninguém espera que os criminosos sejam simplesmente perdoados e a coisa seja esquecida. Há a necessidade de uma reparação. Embora a teoria anselmiana seja frequentemente acusada de refletir o sistema feudal de lealdades, penso que isso diz respeito apenas à linguagem que Anselmo usa, e não à substância de sua doutrina, que pode ser exemplificada tanto na Idade do Ferro como hoje. De fato, quando os primeiros pais da Igreja usaram a noção de “satisfação”, muito antes de Anselmo, eles tinham em mente, em primeiro lugar, não tanto a obra de Cristo, mas o tipo de reparação penitencial que nós fazemos quando pedimos perdão a Deus. Eu penso que a teoria anselmiana tem esse mérito, que diz mais respeito à psicologia do penitente/perdoado e à sociologia da honra.

P2. Um segundo mérito na teoria anselmiana é fazer a pergunta correta: por que Deus se fez homem? Essa era a pergunta que os seus interlocutores judeus e muçulmanos (reais ou imaginários) fariam. Na modernidade, nós frequentemente fazemos a pergunta errada: por que Jesus morreu? Embora exista um “propósito” nessa morte, a pergunta correta deve ser em termos de encarnação, e é isso o que nos permite ressaltar corretamente diversas dimensões da obra redentora (não apenas a morte): a obediência, a doutrina, os milagres e exorcismos, o sofrimento, a descida aos infernos, a ressurreição, a ascensão. Tudo isso é parte da obra redentora, e nós falhamos em entendê-la quando perguntamos de maneira muito restrita.

P3. Um terceiro mérito na teoria anselmiana é preservar o pano de fundo de todas as grandes teologias da redenção: a recapitulação adâmica. Cristo recupera e supera, por sua obediência, aquilo que foi perdido em Adão, por sua desobediência (sob instigação demoníaca). O Novo Testamento tem coisas importantes a dizer sobre a centralidade da obediência de Cristo, coisa nem sempre ressaltada nos debates sobre a redenção.

C1. Embora faça uso das Escrituras, a teoria anselmiana, por se dirigir à instrução de cristãos que debateriam com judeus e muçulmanos, faz uso de uma premissa metodológica arriscada: o argumento racionalista (sola ratione). Isso nos leva a um problema sério que vicia toda a lógica da teologia redentiva de Santo Anselmo no “Cur Deus Homo”: ele vê o pecado como uma transgressão da honra divina, já que ele precisaria de uma noção de pecado com a qual judeus e muçulmanos de boa vontade pudessem concordar. Esse entendimento limitado e superficial do pecado, que minimiza dimensões mais importantes (o pecado como corrupção mortal e escravidão espiritual), coloca o alvo na direção errada.

C2. Como todo o problema a ser solucionado é a transgressão da honra divina, a teoria de Anselmo não explica como o sangue de Cristo nos traz santidade (como em Hebreus). Se o pecado não é visualizado como corrupção, a conexão entre redenção e santificação é esquecida. Esse problema é herdado pela Substituição Penal.

C3. Com um enfoque na obediência de Cristo (o que é um mérito), Anselmo não foi capaz de explicar satisfatoriamente o motivo teológico de sua morte. Embora a obediência seja vista como coisa necessária à salvação, a lógica anselmiana realiza a salvação já no primeiro ato de obediência de Cristo. Assim como a Substituição Penal não é capaz de explicar por que um sofrimento mínimo já não seria satisfação penal suficiente, a teoria anselmiana não é capaz de explicar por que o primeiro ato de obediência de Cristo já não seria suficientemente meritório para cobrir todos os pecados dos homens, sem sua morte.

C4. Nessas teologias, o perdão e a reconciliação divinos deixam de ser gratuitos para Deus. São, de certo modo, gratuitos para quem os recebe, mas não para Deus. Isso impõe efetivamente uma limitação nos atos de Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Idolatria não é o que você está pensando

Há dois erros comuns quanto ao pecado da idolatria. Os dois envolvem algum tipo de generalização ou desliteralização desse pecado.

O primeiro erro é confundir qualquer amor ou desejo excessivo com idolatria. Uma pessoa valoriza os bens, a comida, a bebida, o sexo ou outras pessoas de maneira excessiva ou doentia, e alguém conclui que isso seja idolatria. Não chamamos os famosos de “ídolos”? Não falamos do “alcoólatra”? É uma identificação comum.

Esses excessos são pecaminosos, mas eles não são idolatria, e identificá-los com a idolatria é perder o que cada um tem de característico, a maneira própria de cada um nos atrair e afetar nossa alma. Alguns deles podem ser equiparados à idolatria, como é o caso da avareza (Ef 5:5; Cl 3:5); mas note-se que, numa lista de pecados, só um é equiparado à idolatria, o que não é irrelevante.

A idolatria é um tipo de adoração, e nem todo amor excessivo é assim. Por exemplo, a adoração envolve um reconhecimento (gratuito ou interessado) da grandeza do objeto adorado; nem todo amor excessivo é assim.

O segundo erro consiste em tratar a idolatria como “colocar qualquer coisa no lugar de Deus”, ou coisa semelhante. Isso é comum e, em situações normais, nas quais não se exija uma definição precisa, é aceitável.

Mas não é uma explicação exata. Na verdade, não é possível colocar outras coisas no lugar de Deus, porque não é possível amar qualquer outro objeto com todo o coração, alma, entendimento e forças — não é possível dar a qualquer outro objeto o mesmo culto de que Deus é digno, na mesma intensidade.

O amor com que nos dirigimos a Deus só é possível pela graça, não pelas forças naturais — só é possível pelo poder infinito de Deus. Por isso também, não é possível amar qualquer outra coisa com esse mesmo amor, porque nada, por mais sedutor que seja, é capaz de atrair nossa atenção com a mesma força.

As criaturas esgotam nossas forças e não são capazes de nos dar a satisfação infinita que Deus dá, por isso jamais são igualmente amáveis. A idolatria, o culto a ídolos, envolve sempre um amor parcial, pois os ídolos têm sempre defeitos e parcialidade, eles não têm completude, e a lida com eles é sempre a lida com objetos finitos, limitados.

A melhor maneira de definir a idolatria é como o oferecimento do culto divino às criaturas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ansiedade é pecado?

As pessoas perguntam se a ansiedade é pecado. Existe muita confusão nesse assunto.

É falso o raciocínio do tipo “quem tem fé não tem ansiedade ”. Isso presume um vislumbre muito simplista da natureza humana, e não tem nada a ver com a Bíblia. A maneira como a Bíblia ensina a lidar com a ansiedade — por exemplo, através da oração — prova que não basta ter fé. Ansiedade não é só falta de confiança em Deus.

Na verdade, a ansiedade e a fé se alojam em dimensões diferentes da natureza humana. A ansiedade ocupa a carne (finitude, corporeidade, fragilidade, mortalidade, animalidade, instinto), a fé ocupa o espírito; não há contradição na coexistência delas.

Podemos falar, de um ponto de vista teológico filosófico, de três formas de ansiedade: a ansiedade como impulso, ansiedade como hábito, ansiedade como transtorno. Nem o impulso nem o transtorno são pecados, mas somente o hábito, resultante de um consentimento com o impulso.

Na verdade, o impulso da ansiedade, embora possa adoecer, é necessário para nossa sobrevivência, porque ele é o instinto de que nós não contornamos o futuro — o que é total verdade. Essa informação precisa ser completada pelo espírito, pois só ele sabe que, embora não controlemos o futuro, Deus controla.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deserto, Acídia e Noite Escura da Alma

É importante não confundir três coisas: deserto, acídia e noite escura. (A confusão que envolve a segunda tem a ver com inexperiência, enquanto a confusão que envolve a terceira tem mais a ver com linguagens divergentes.)

(I) Deserto é período (dias, meses, anos) de provação no qual há maior aridez, diminuição do prazer imediato nas coisas espirituais e da recompensa instantânea. A obediência permanece, mas ela é mais difícil e custosa. Desejamos um rio, mas lutamos por uma gota. Tentações são mais explícitas, naquilo em que estamos fragilizados. O diabo procura lançar dúvidas e confusão espiritual. Todo cristão passa pelo deserto em algum momento. Não resulta de um pecado nosso específico (não é uma punição), embora seja importante para que conheçamos os nossos pecados e forças, pois o deserto nos ajuda a desnudar nossa condição espiritual, pois faz cessarem certas emoções que ocultam nossos problemas.

(II) Acídia não tem a ver principalmente com as circunstâncias que nos provam, mas com o nosso coração. Acontece todo o deserto em nosso redor, mas a acídia envolve certo desespero ou aceitação da distância em relação a Deus. Ela é uma paixão da carne sobre a alma, mas envolve também desobediência e consentimento, uma desistência de lutar no deserto, portanto com algum grau de rejeição à graça e abandono da continência do Caminho, em busca da comodidade. Na maior parte das vezes em que passamos pelo deserto, especialmente quando mais inexperientes, nós caímos em algum grau de acídia. Essa desistência é muito perigosa, porque pode levar à apostasia: você primeiro desiste do amor, depois desiste da esperança e, por fim, se não se arrepender, desiste da fé.

(III) A Noite Escura da Alma é uma forma de deserto, mas é mais profunda. Não é uma experiência de todos os cristãos, mas daqueles que já alcançaram um aprofundamento místico, certo grau de perfeição acima da maturidade, e que, por estarem mais livres das paixões comuns, sofrem uma provação mais severa, na qual devem simplesmente confiar em Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O que é blasfêmia contra o Espírito Santo?

Uma pessoa perguntou (1) o que é blasfêmia contra o Espírito Santo, (2) por que (supostamente) o sangue de Cristo não seria suficiente para nos limpar dela, e (3) por que é especificamente dirigida ao Espírito Santo (não ao Pai ou ao Filho).

Blasfemar contra o Espírito Santo é aquilo que a expressão indica, e que a versão mateana comunica: “falar contra o Espírito Santo” (Mt 12:32). Blasfemar é insultar algo sagrado (especialmente Deus) — é um sacrilégio de palavras. Falou contra o Espírito Santo? Blasfemou contra ele. Foi o que fizeram os fariseus quando deram (indiretamente) ao Espírito Santo o nome de Belzebu. Isso se enquadra na regra mais ampla de que somos julgados conforme o que falamos (Mt 12:36– 37; cf. Mt 5:22). Parece, então, um pecado relativamente fácil de cometer, embora haja mais a considerar.

O sangue de Cristo é suficiente para nos purificar de todo pecado, se o confessarmos e andarmos na luz (deixando o pecado), como lemos em 1João 1. Ali em Mt 12, Cristo não fala de pecados confessados — do contrário, Paulo jamais poderia ter se convertido, pois, enquanto perseguidor dos cristãos, provavelmente blasfemou muitas vezes (cf. At 26:11) —, mas apenas de pecados cometidos. Com exceção desse, todo tipo de pecado cometido pode ser perdoado ou desculpado (sem referência explícita a confissão) — não digo que ele necessariamente será perdoado, embora Cristo use palavras bem fortes, talvez hiperbólicas (“todo aquele que disser uma palavra contra o Filho do homem ser-lhe-á perdoada”, Lc 12:10).

A condenação extrema desse pecado envolve o fato de que a gravidade da nossa culpa por um pecado cometido é, dentre outros fatores, proporcional à clareza que temos da verdade que o envolve. Quando o Espírito Santo se mostra presente através de um sinal (Mt 12:28), é impossível alegar ignorância. Então é um pecado maximamente consciente, contra Deus, no exato momento em que ele nos dá um presente claro e sinal de sua presença, e nós o rejeitamos publicamente, contaminando outras pessoas — que, no texto bíblico, começavam a se interessar por Jesus e se perguntar se ele não seria o Cristo. É uma ofensa imensa, então não adianta dizer que os fariseus não sabiam que ali agia o Espírito Santo. Sua “ignorância” não é desculpável. A blasfêmia contra o Espírito Santo é, nesse contexto, um anti-evangelho que nega ação do Espirito.

É importante distinguir a linguagem bíblica da linguagem dogmática posterior. Quando Cristo disse tais palavras, ele não estava diante de pessoas que conheciam o dogma da Trindade e que soubessem distinguir hipóstase e “ousia” com rigor capadócio. Quando ele usa palavras como “Filho do Homem” e “Espírito Santo”, não se refere necessariamente à Segunda e à Terceira Pessoas da Trindade, embora suas palavras (assim como o restante do Novo Testamento) tenham servido de base para as definições posteriores. Os biblistas sabem como é complicada essa questão de traduzir “Espírito Santo” no grego do NT.

Há vários outros textos, como Mt 24:36, que geram problemas se presumirmos que Cristo falava a pessoas que conheciam o dogma da Trindade, mas que desaparecem se não tivermos essa premissa anacrônica.

Se Cristo tivesse falado de Pessoas Divinas específicas, o texto estaria um pouco desalinhado com o contexto, já que a blasfêmia dos fariseus foi principalmente contra a Segunda Pessoa, contra o próprio Cristo ali realizando milagre (pelo Espírito Santo). Na verdade, em razão da unidade das Pessoas Divinas, ainda que nossa intenção possa ser repartida, toda blasfêmia contra uma delas é blasfêmia contra as três.

Então não é uma questão de dizer que a uma blasfêmia é tratada de maneira diferente a depender da pessoa a quem se dirige, pois isso seria muito arbitrário e inexplicável. Naquele momento, o que parece é que Cristo usa a expressão “Filho do Homem” no sentido usual que tinha para os seus ouvintes, isto é, “ser humano”, e “Espírito Santo” também no sentido usual, ou seja, a “presença do poder divino”, sem especificar hipóstases. Então ele dizia algo como: quem blasfema contra mim — enquanto homem, sem saber quem eu sou — pode até ser desculpável, mas quem testemunhou meu poder e, mesmo assim, se endureceu, é indesculpável.

A parte mais amável dessas palavras de Cristo é que elas dão a entender que certos pecados têm perdão no mundo vindouro. Do contrário, não faria muito sentido Cristo dizer: “não tem perdão nem neste mundo nem no vindouro“. Não que isso fosse segredo para os judeus, é claro.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Simul dignus et indignus

No Evangelho de Lucas, três personagens diferentes confessam sua indignidade diante de Deus: o maior dos profetas, João Batista (3:16); o centurião pagão e romano (7:6–7); o filho pródigo da parábola (15:19,21), que representa imediatamente os publicanos e pecadores israelitas (meio termo entre os outros dois).

Embora duas palavras gregas sejam usadas — hikanos (apto, qualificado) e axios (digno, merecedor) —, a correpondência entre elas é indicada na história do centurião, que usa ambas. Aliás, a versão lucana dessa história é enfática: enquanto Mateus narra o diálogo direto entre o centurião e Cristo, Lucas conta a distância mantida pelo centurião, que depende da intercessão de anciãos judeus e amigos para falar indiretamente com Cristo. Enquanto os anciãos dizem “ele é digno” (do milagre), ele mesmo diz “eu não sou digno… eu mesmo não me julguei digno” (de ver Jesus pessoalmente). Num evangelho tão preocupado em mostrar a aproximação de Cristo quanto aos pecadores — o único que contém o dito de Lc 19:10 —, a fé do centurião é a distância que ele mantém. Tanto a ousadia da aproximação quanto a ousadia da distância são louvadas.

O terceiro caso, a Parábola do Filho Indigno — ela deveria se chamar assim —, retrata um filho que, apesar do reconhecimento da indignidade da condição de filho, tem também a ousadia de retornar para implorar um lugar de servo. Ele é recebido como filho, mesmo indigno, contra os protestos moralistas do irmão, e é recebido na festa. Isso contrasta muito com a Parábola das Bodas (Mt 22:1–14), na qual os convidados indignos são trocados por outras pessoas, que honrem a festa, que venham a caráter, pois o que tem a veste coerente com a festa é expulso — traço ausente na versão lucana. Essa narrativa recorda, tematicamente, as maldições que São Paulo evoca sobre os que participam indignamente (anaxiōs) do corpo e do sangue do Senhor.

Por isso, um evangelho que enfatiza o amor de Deus pelos indignos também é capaz de falar sobre sermos “dignos de alcançar o mundo vindouro” (Lc 20:35) e “dignos de evitar todas estas coisas” (21:36), e fala de diferenças de dignidade (14:8). Essas palavras são exclusivas de Lucas (!), mas o Cristo mateano fala de sermos “dignos de mim” (Mt 10:37–38), isto é, dignos dele, o amando acima de outras pessoas e carregando a cruz com ele, ou de como algumas pessoas seriam dignas da benção apostólica (10:11,13).

Assim também, Paulo fala de sermos “dignos do reino de Deus” (2Ts 1:5,11), e o Apocalipse menciona a promessa divina para as pessoas que foram fiéis a Cristo, “pois são dignas disso” (Ap 3:4). Esse jogo de dignidade e indignidade, o abraço dos pecadores (iustificatio impii) e a congruência do destino último (iudicium operarum), atravessa os evangelhos e o Novo Testamento. Essa dualidade está na raiz da doutrina da dupla justificação.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Culpa e a Morte

Madalena Penitente (1796), Canova

A culpa afeta toda a humanidade, mas não afeta cada pessoa igualmente. Existem pessoas, de fato, sem culpa, como crianças muito pequenas e deficientes mentais. Aquilo que chamamos de culpa (no sentido de ‘merecimento de punição’) é associado a certo envolvimento pessoal (conhecimento e vontade), e diminui quando há certa ignorância inocente (Jo 9:41; 15:22); assim, o conhecimento torna indesculpável (Rm 1:20), o que só faz sentido se a ignorância torna, em alguma medida, inculpável.

Diante disso, se achamos que o problema principal do homem for a culpa, entramos num dilema: ou dizemos que só algumas pessoas precisam de salvação (pois só alguns são culpados), e portanto minamos a necessidade de Cristo; ou damos algum jeito de dizer que todo ser humano é culpado mesmo (culpa herdada). A salvação, nesses termos, é fundamentalmente jurídica: a culpa jurídica (como ‘merecimento de punição’) provoca uma consequência jurídica (condenação), então Cristo aparece como solução jurídica.

Na verdade, a solução é diferente: a culpa não é o problema principal do homem, precisamente porque nem todos são culpados. A culpa é um sintoma de uma realidade espiritual mais profunda, de um desligamento do homem com Deus, de uma desordem e mortalidade que procuram afetar a todos nós. Só isso pode explicar a necessidade de salvação para todos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A morte é uma punição?

Dead Jesus Christ Art Print by Vivida Photo PC | Jesus christ art, Art  prints, Art

Se a morte é a punição do pecado, a morte de Cristo não foi uma punição que não era sua? Alguém fez essa pergunta. Eu gosto dela porque acredito que está quase na direção certa, visualizando o grande problema como sendo o problema da MORTE. Ou seja, a morte de Cristo está ligada à nossa morte, não à nossa condenação eterna (ainda). Cristo anulou o poder da morte e trouxe vida e imortalidade (2Tm 1:10).

Mas há vários problemas na pergunta:

1. Quando dizemos que a morte é punição do pecado, a única forma válida de dizê-lo é: a morte é punição (condenação) do pecado de Adão. Mesmo quem nunca cometeu um pecado atual pode morrer. Essa morte não está ligada aos nossos pecados individuais (“pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte”, Rm 5:17).

2. Essa morte adâmica é propagada por toda a humanidade. Ela não acontece “substitutivamente”. Todos nós participamos dela. Quanto maior a humanidade, mais gente participa dela. Ninguém toma o lugar de ninguém.

3. Quem foi redimido por Cristo ainda vai morrer. Portanto, se o propósito da obra de Cristo fosse receber sobre si a morte que nós deveríamos receber, sua obra teria falhado. Quase todos nós vamos morrer.

4. Geralmente o texto usado (e mal entendido) para indicar isso é Rm 6:23: “o salário do pecado é a morte”. Citando-o isoladamente, ignoramos tudo o que São Paulo elaborou desde Rm 5:12. A morte é o “salário” do pecado de Adão. Nesses capítulos de Romanos, “o pecado” (singular) não é o mesmo que as nossas transgressões individuais, e sim a “força destruidora” que Adão trouxe ao mundo.

5. Nesse mesmo contexto, Cristo morreu, não para receber uma morte que não era sua em nosso lugar, mas para romper o domínio da morte, de modo que possamos ressuscitar com ele (Rm 6:8-9), vencendo a morte em nós mesmos.

6. Não custa lembrar: nem todo pecado nosso leva à morte (espiritual), como aprendemos em 1Jo 5:17.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Dez ensinamentos da Bíblia negligenciados no mundo evangélico


Resultado de imagem para bible painting

A fidelidade dos evangélicos à Sagrada Escritura às vezes é frustrada por certa reticência em confessar aquilo que ela mesma ensina de modo claro e distinto sobre diferentes assuntos. Essas palavras não atingem a totalidade dos evangélicos, mas atingem em cheio certo tipo de evangelicalismo inculto de origem americana. Penso que a maioria dos evangélicos brasileiros, especialmente os de igrejas mais recentes, é atingida em ao menos um destes dez ensinamentos bíblicos.

Continue lendo “Dez ensinamentos da Bíblia negligenciados no mundo evangélico”