Por que sermão temático é melhor?

A centralidade da pregação temática, quando comparada a outras abordagens homiléticas, não deriva apenas do fato de ela ser, tanto quanto se sabe, o modelo apostólico de pregação, aquele usado por Jesus e pelos apóstolos nos sermões do Novo Testamento. Isso, por si só, só indicaria que alguma forma de pregação temática é correta e que devemos atentar para ela. A ausência de pregação expositiva entre os sermões apostólicos conhecidos, por exemplo, não significa que essa forma seja errada; o silêncio da Bíblia sobre um assunto não é reprovação, porque a Bíblia não foi escrita para ser suficiente sobre tudo.

Mais do que isso, a importância do sermão temático emerge de uma maneira de ver o Culto Divino, de ver a Santa Igreja e de ver as próprias Escrituras Sagradas. Essas coisas favorecem sempre a capacidade de ver a totalidade da Palavra, mais do que a atenção minuciosa para a explicação das palavras.

Quando um sermão é parte de uma celebração cristã, ele não cumpre um papel independente, autônomo. O ensino e instrução que houver devem se inserir dentro do propósito devocional de toda celebração cristã, portanto deve orientar os corações para o maior amor ao Senhor e ao próximo, e não satisfazer curiosidades intelectuais.

Quando isso ocorre segundo os padrões litúrgicos herdados na tradição cristã, a pregação da Igreja é naturalmente ordenada por um caminho narrativo: da Anunciação do Senhor ao Pentecostes, passando pela Natividade, pela Páscoa e por tantas outras festas. Nesse processo, qualquer explicação de qualquer texto bíblico só pode ser coerente com o tempo se o for através do tema que une o texto ao tempo e que propõe, no tempo, o texto. Como esse percurso litúrgico é sempre hipertextual, há sempre uma conexão proposta entre os escritos dos profetas e o Cristo vivo, entre a parênese apostólica e o cântico do Saltério, portanto sempre uma variedade de textos bíblicos exigindo nossa atenção (não meticulosa, mas devota).

Ocorre que a própria Escritura Sagrada, enquanto artefato da Igreja, não existe como mero amontoado de dizeres escritos. A Escritura não está, principalmente, nas palavras, mas no sentido por trás delas (non in legendo sed in intelligendo). O texto é uma representação física de certas chaves para certa orientação do espírito (o que inclui a reprodução pessoal e comunitária de certas experiências) — instrução, exultação, lamento, perplexidade, fascínio, êxtase, sentença, ameaça, promessa, gratidão, oração.

O sentido do texto não existe independentemente do seu modo próprio de uso (legítimo ou imposto) e do seu universo simbólico. Assim, a coisa principal, na lida com a Escritura, não é entender “os textos” — que estarão sempre sujeitos a um bom número de interpretações ortodoxas sobrepostas —, mas entender o panorama, agarrar o seu mundo de sentido. Daí a importância do Credo Apostólico como símbolo (trinitário e “dogmático”) da totalidade da Escritura.

É o que Santo Estêvão faz, quando narra parte da história da apostasia de Israel através do Antigo Testamento, ou quando a Carta aos Hebreus (ela mesma um sermão) faz breve relato dos registros antigos sobre o “descanso” (do repouso criacional e sabático à paz nas fronteiras de Israel), ou quando Pedro aduz textos, também do Antigo Testamento, para explicar a Ressurreição de Cristo, sua Ascensão e o envio do Espírito Santo como cumprimento das esperanças de Israel. De fato, o Novo Testamento dá muita evidência de que essa era a maneira como a “catequese bíblica” funcionava entre os primeiros cristãos: através de coleções (catenas) de textos bíblicos em que determinado tema ou expressão se repete.

Dez coisas a corrigir na evangelização evangélica

Nós costumamos de chamar “evangelização” a maneira como pregamos o “evangelho” ao mundo, especialmente entre as pessoas que não o abraçaram ainda. O modo como nós o fazemos, em nossa própria realidade brasileira, a depender da vertente da qual fazemos parte, pode padecer de certos vícios históricos. Aqui eu listo dez deles que eu considero relevantes. Falo disso como pastor, portanto como uma pessoa envolvida na missão da Igreja, e como alguém que já participou de evangelização em vários ambientes diferentes. O propósito é mostrar que nós podemos fazer melhor do que geralmente fazemos, quanto aos métodos e propósitos.

1. A ideia de que evangelizar signifique tirar pessoas do catolicismo para colocá-las em igrejas evangélicas.

Muitos evangélicos ainda reproduzem aquilo que era a realidade das igrejas há várias décadas, quando o catolicismo era a imensa maioria dos brasileiros, e crescer significava, portanto, converter católicos. A ideia é, basicamente, de que quem está no catolicismo está perdido e de que essas pessoas precisam ser salvas, e que isso significa que elas devem se tornar evangélicas, devem “aceitar Jesus” do jeito evangélico, como significando que os católicos não “aceitam Jesus”.

Dentro dessa mentalidade, alguns evangélicos fazem o que eu chamo de “contra-calendário”: adotam como estratégia (de evangelização) fazer o contrário do que o catolicismo e o resto do “mundo” fizerem. Se os católicos observam o dia de finados, evangélicos saem para falar de vida; se os católicos estão no Sábado Santo, quando Cristo está morto e sepultado, evangélicos saem a dizer a grande “novidade” de que ele já ressuscitou; se estamos na Quaresma a falar de jejum e penitência, falam de liberdade. A ideia é sobressair pela oposição.

Independentemente do fato de que muitos católicos não tenham tido uma relação sólida com sua própria religião — vista muito mais em termos do cumprimento de deveres e expectativas sociais ou, quando muito, da satisfação da afetividade das devoções santorais populares, do que propriamente de discipulado e amor a Cristo —, na realidade, hoje vivemos numa sociedade com parcela considerável sem qualquer filiação religiosa. Essas pessoas, e não a polêmica com o catolicismo, são nossa prioridade.

2. A ideia de que evangelização não tem relação com “ação social”.

Isso tem vários níveis. O mais básico e óbvio é o de que ninguém presta atenção às necessidades mais elevadas (“espirituais”) enquanto as mais básicas não forem atendidas (“corporais”), e de que nossa mensagem não é crível se não nos importamos com o que as pessoas enfrentam — de que elas não são apenas objetos do nosso projeto de expansão.

Ação social não é, é claro, feita apenas no sentido de converter pessoas ou colocá-las na sua igreja, mas por real amor e compaixão pelas pessoas nas condições reais em que se encontram. O fato é que, se entendemos que a Igreja é uma casa espiritual para oferecer sacrifícios espirituais (1Pe 2:5,9) — e que o serviço pelo próximo é sacrifício a Deus—, aquilo que fazemos pelas pessoas ao nosso redor não pode atentar para apenas parte de suas necessidades, mas para a totalidade delas, naquilo em que está em nosso poder. A Igreja de Cristo é um reino e, como tal, tem poder para transformar realidades sociais.

3. A ideia de que evangelização se dirige apenas aos “de fora” — de que os “de dentro” já foram evangelizados e não precisam sê-lo novamente.

Existe um erro muito frequentemente na maneira como grande parte do evangelicalismo popular usa a palavra a palavra “já”. Se algo “já” aconteceu, não deve acontecer de novo. Fulano é abençoado, então não faz sentido dizer “Deus te abençoe”, mas “Deus continue te abençoando” — contrariando a Bíblia. Cristo sofreu por mim, então eu não preciso sofrer. Existem mil exemplos disso. O problema não é a palavra em si, mas a maneira como ela revela certa maneira simplista de pensar as coisas.

O evangelho, no entanto, não é só uma mensagem sobre o que devemos crer — é também uma mensagem sobre o que devemos esperar e como devemos amar. Por isso, é uma mensagem que devemos sempre aprofundar em nossas próprias vidas, para uma maior conversão a Cristo. Se o tipo de mensagem que evangelizamos só faz sentido para os de fora, das duas uma: ou a mensagem está com algum problema, ou os de dentro estão. Provavelmente os dois.

4. A ideia de que conversão acontece apenas uma vez.

Isso tem a ver com o tópico anterior, e é uma das premissas por trás do programa de fazer pessoas “aceitarem Jesus”. Na Bíblia, se converter-se é se converter “dos maus caminhos”. Por isso, conversão é algo que acontece várias vezes, não só uma. Então a evangelização não pode se dirigir apenas àqueles que nunca ouviram a “mensagem”. Ela deve ser uma voz constante e profética chamando os homens à fé no evangelho, à esperança do evangelho e amor ensinado no evangelho — à vida plena com Deus —, coisa de que cada um de nós necessita repetidas vezes .

5. A ideia de que evangelização se dá apenas através de palavras, e não também através de práticas, artes, símbolos e presença física.

Isso exige mais paciência e maior abertura à cultura. Chamamos as pessoas a serem não apenas adoradoras, mas parte de uma comunidade de adoradores, a se engajarem em práticas coletivas de adoração. A vida de uma comunidade inevitavelmente transforma o espaço, e pode fazê-lo da melhor maneira, como um lugar de beleza que dirija o pensamento às realidades mais elevadas, que facilite a elevação do coração a Deus como satisfação de todos os nossos desejos. Não há uma inimizade ou oposição real entre isso e a pregação do evangelho fora dos espaços que não sejam explicitamente eclesiásticos. Assim, a ideia do espaço sagrado não é inimiga nem limitadora da evangelização; ao contrário, a evangelização é justamente o convite ao banquete, um chamado universal à casa de oração de todas as nações.

6. A ideia de que evangelização é, necessariamente, mostrar que as pessoas são pecadoras e precisam encontrar a solução do jeito que a igreja oferece — ou seja, de que evangelizar se limita a esse discurso.

Para algumas pessoas, isso é “o evangelho”, ou seja, apresentar a condenação e a saída — basicamente salvar as pessoas do Deus que as condenaria. Nessa lógica, Deus prometeu salvar os crentes e condenar os ímpios, e enviou os cristãos pelo mundo para garantir que o máximo de pessoas (ou os eleitos) estejam na condição certa. Então o discurso acaba sendo o de queda e redenção, como a única possibilidade.

Quando vemos a maneira como os cristãos “evangelizavam” nos Atos dos Apóstolos, e a maneira como eles o fizeram ao longo dos séculos, especialmente em missões em novos povos, encontramos muita variedade na abordagem. A apresentação do “querigma” fundamental, embora gire em torno daquilo que está no Credo Apostólico, varia muito de contexto a contexto. Não há qualquer necessidade de pensar que a pregação do evangelho pelo mundo seja necessariamente algo como mostrar o Inferno e depois a alternativa do Céu — não há indícios sólidos de que os apóstolos de Cristo tenham pregado assim, e não há qualquer garantia de que essa seja a melhor abordagem em todas as situações.

Em muitas situações, o problema do “pecado” é um que simplesmente não faz sentido para as pessoas. Elas não se veem naturalmente a partir de um prisma “legal”, como absolvidas pela lei ou condenadas pela lei. As pessoas do nosso tempo às vezes entendem melhor outros problemas: a solidão, o tédio, a necessidade de pertencimento, a volatilidade dos relacionamentos, a falta de uma âncora no coração, a perda de sentido para a vida e de esperança, a opressividade da cultura, a necessidade de forças para lutar por mudança, a insatisfação diante das comodidades que o mundo oferece, e outras coisas. Nós sabemos que tudo isso só encontra sentido em Cristo, e apresentar Cristo como o manancial de águas que sacia a nossa sede, costuma ser mais eficaz do que um discurso caricaturado sobre como podemos ser salvos da ira de Deus.

Alguns cristãos evangélicos estão tão presos a essa abordagem evangelística (como a das “Quatro Leis Espirituais”) que a mera sugestão de que se possa evangelizar de outras maneiras pode ser um choque, mesmo que, na prática, isso aconteça em todas as igrejas.

A maioria das pessoas abraça a fé cristã mais através de relacionamentos (inspiradores, amorosos, fiéis, atentos) do que por terem ouvido algum tipo de solução para o problema do pecado e da condenação. Por isso, contar nossa própria história, nosso “testemunho”, como uma maneira de conectar a mensagem à nossa própria experiência, sempre foi uma boa maneira de mostrar que aquilo que é pregado não é só mais um discurso — de que somos parte de uma história ainda se desenrolando.

De fato, há um problema sério vemos as pessoas “de fora” principalmente como “pecadoras” — quando o traço principal a defini-las é a de pessoas erradas.

7. A ideia de que evangelizar não tem a ver com colocar as pessoas na Igreja, mas apenas com a aceitação de uma “mensagem”.

Isso tem muito a ver com um equívoco sobre qual é a “mensagem” que a Igreja prega. Em muitos ambientes, a expectativa é pregar uma mensagem que leve as pessoas a “acejtar Jesus” — pois a salvação consistiria, em tese, de uma fé nessa mensagem, sem a necessidade de boas obras. Geralmente esse é um erro cometido por pessoas mais jovens, que às vezes perdem de vista a necessidade de conectar a evangelização ao discipulado — dentro de um processo de salvação — e, portanto, perdem de vista a necessidade da Igreja para a salvação.

O evangelho não só salva almas individuais, mas forma comunidades tocadas pela graça de Cristo, constituídas como ambientes de cura, restauração, reconciliação, serviço e esperança, como casas de adoração ao Deus Trino. A comunidade não é desnecessária. Como dito acima, o evangelho não é só uma mensagem sobre o que devemos crer, mas também uma mensagem sobre o que devemos esperar e como devemos amar.

8. A ideia de que evangelização pode dispensar os sinais do Reino de Deus, como milagres e libertação espiritual.

A maneira como Cristo e os apóstolos pregavam envolve um “evangelho de poder”. Eles sabiam que a pregação do evangelho, se acompanhada de milagres e sinais, dirigia a conversão a se fundamentar menos nas palavras de sabedoria humana e mais no poder divino. Por isso, a melhor evangelização é aquela em que há consciência da batalha espiritual, de que estamos envolvidos num conflito com as forças das trevas e sua ação opressora. Devemos abandonar a mentalidade burguesa que exige que tudo aconteça de modo muito comportado, fino, limpinho e respeitável — sem “coisas estranhas”. Isso é engano diabólico. A vitória na batalha começa com a expectativa certa e com a fé certa.

9. A ideia de que a evangelização não precisa de um envio e de uma conexão com a autoridade eclesiástica, já que supostamente todos são automaticamente enviados.

Embora o silêncio seja um testemunho melhor do que o erro, é muito melhor uma igreja que evangeliza, mesmo que às vezes falte sabedoria, do que uma absolutamente calada, que nunca compartilhe de sua fé e que queira apenas ficar fechada no conforto de sua tenda na montanha.

No entanto, existe algo ainda melhor. Alguns cristãos, lendo de maneira individual e unilateral os ensinamentos bíblicos sobre evangelização, se consideram automaticamente enviados por Deus, como se cada cristão tivesse autorização celestial para conduzir um trabalho de evangelização. Isso envolve uma maneira incorreta de ler a “Grande Comissão”, como se ela fosse simultaneamente (1) uma explicação completa ou resumo da missão da Igreja, (2) uma explicação da missão de cada cristão individualmente (generalização). As duas coisas são falsas.

Cada um de de nós pode e deve evangelizar no sentido de compartilhar sua fé com as pessoas ao nosso redor, mas deve fazê-lo sempre em comunhão e consonância com o trabalho que nossa própria comunidade desenvolve, nunca com independência. O evangelho só é correto se ele envolve a vida de discipulado, como disse acima — ora, isso necessita da comunidade concreta.

10. A ideia de que a evangelização pode evitar conflitos e confronto.

Aprendemos, nas Escrituras Apostólicas, que devemos ser sábios na maneira como tratamos os “de fora”, fazendo o possível para termos paz com todos, sem escândalos para gregos e judeus. Devemos, por isso, ter muita paciência e ser inimigos das contendas inúteis. Nós evangelizamos muito melhor quando nosso caráter manso, pacífico e temperante corroboram e exemplificam o poder do Espírito Santo que nos unge para testemunhar sobre Cristo. Em vários momentos das Escrituras, vemos Cristo e os apóstolos sendo respeitados e aprovados pelas pessoas da fora.

No entanto, não é possível fugir da hostilidade — todos os que forem fiéis a Cristo parecerão “perseguições” (mais ou menos intensas). Algo muito ruim acontece com a nossa mensagem quando tentamos, a todo custo, ser aprovados pelas pessoas — Deus abomina o que é aprovado pelos homens. Ai de nós quando falarem de nós apenas o bem. Por isso, vemos que os apóstolos inclusive usavam a argumentação e o debate como estratégias para converter pessoas. Não devemos impor a obediência ao evangelho, mas a lealdade ao nosso mandato missionário implica que, em alguns momentos, enfrentaremos hostilidades. Deus nos conceda a graça de o fazermos sempre em amor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Missão da Igreja não é a Grande Comissão

Eu não sei como isso aconteceu, mas, entre os evangélicos, existe essa ideia de que a missão da Igreja na terra é definida a partir da Grande Comissão (Mt 28:19–20). Isso me cheira fortemente à propaganda (necessária) do movimento missionário do século 19.

Esse provavelmente é o texto favorito de quem quer definir a missão da Igreja em termos de ensino e pregação — diminuindo a importância de outras dimensões como adoração, arte, misericórdia e taumaturgia. O texto é importante, e deve ser obedecido, mas ele justifica essa restrição?

Não há nada em Mt 28 indicando que ali haja uma definição completa da missão da Igreja. Outros textos, ainda sobre a Ressurreição de Cristo, insinuam uma concepção maior: ao dizer “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio.” (Jo 20:21), a missão da Igreja é vista como continuação da de Cristo, portanto continuação de tudo o que ele fez, inclusive exorcizar os possessos e alimentar os famintos.

Creio que o melhor texto bíblico para indicar essa missão é 1Pe 2:5: “…sois edificados casa espiritual para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais agradáveis a Deus por intermédio de Jesus Cristo.

Ao falar em sacrifícios espirituais como o propósito da casa espiritual (a Igreja), duas dimensões são unidas: a adoração e o serviço, e nelas nós encontramos a totalidade daquilo que a Igreja é chamada a ser e fazer no mundo. E isso quanto a toda a Comunhão dos Santos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Calvino: fora da Igreja não há salvação.

Para Calvino, não se deve esperar salvação fora da Igreja visível:

“Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos [Mt 22.30]. Porque nossa habilidade não permite que sejamos despedidos da escola até que tenhamos passado toda nossa vida como discípulos. Anotemos também que fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação… de sorte que
é sempre funesto o afastamento da Igreja.” Institutas IV, 1, 4

“A muitos os impele ou a soberba, ou o desdém, ou a inveja, de sorte que se persuadam de poder fruir de suficiente proveito lendo e meditando em particular, e com isso desprezam as reuniões públicas e consideram a pregação como sendo supérflua. Mas, uma vez que, quanto está em si, quebram ou rompem o sagrado vínculo da unidade, ninguém escapa à justa pena deste ímpio divórcio, sem que sedeixe enfeitiçar por erros pestíferos e por delírios os mais horríveis.” 1, 5

“…aos fiéis nada é de mais importância do que esta administração do culto público, através da qual Deus gradativamente eleva os seus ao alto.” 1, 5

“lgualmente, não é louvor vulgar dizer que a Igreja é eleita e separada por Cristo para ser sua esposa, que “fosse sem ruga e sem mácula” [Ef 5.27], “seu corpo e suaplenitude” [Ef 1.23]. Do quê se segue que o abandono da Igreja é negação de Deuse de Cristo, razão por que mais se deve guardar de tão celerado dissídio, porque, enquanto nos esforçamos, quanto está em nós, por fomentar a ruína da verdade de Deus, somos dignos de que ele dardeje seus raios com todo o ímpeto de sua ira, afim de fazer-nos em pedaços. Não se pode imaginar mais atroz qualquer crime do que o de violar com sacrílega perfídia o matrimônio que o Unigênito Filho de Deus se dignou contrair conosco.” 1, 10

“Portanto, permaneça fixado um e outro destes dois pontos: primeiro, que nenhuma escusa tem aquele que, deliberadamente, deserta a comunhão exterior da Igreja, onde é pregada a Palavra de Deus e são ministrados os sacramentos; segundo, que as faltas e pecados de outros, sejam poucos ou muitos, não nos impeçam de fazer profissão de nossa religião usando os sacramentos e os demais exercícios eclesiásticos juntamente com eles, porquanto uma consciência piedosa não é nem ferida pela indignidade de outrem, quer de pastor, quer de leigo; e os sacramentos do Senhor tampouco deixam de serpuros e santos para o homem limpo por ser recebidos em companhia dos impuros e perversos.” 1, 19

“Portanto, três coisas devemos aqui observar. Em primeiro lugar, por grande que seja a santidade em que os filhos de Deus se distingam, contudo, sempre que habitarem no corpo mortal nesta condição, não podem permanecer na presença de Deus sem a remissão dos pecados; em segundo lugar, este benefício é a tal ponto próprio da Igreja, que não usufruímos dele de outra sorte senão permanecendo na comunhão; em terceiro lugar, ele nos é dispensado por intermédio dos ministros e pastores da Igreja, seja pela pregação do evangelho, seja pela ministração dos sacramentos, eneste aspecto sobressai especialmente o poder das chaves que o Senhor conferiu à sociedade dos fiéis. Conseqüentemente, que cada um pense ser este seu dever: não buscar a remissão dos pecados noutro lugar senão onde o Senhor a colocou.” 1, 22

Rev. Gyordano M. Brasilino

Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17)

Para Paulo, o Batismo não salva?

Quem está informado dos debates em torno da eficácia do sacramento do Batismo e da literatura teológica relevante possivelmente já chegou à discussão em torno de 1Co 1:10-17, texto usado pelos que negam a eficácia do Batismo. Grosso modo, o argumento é de que Paulo (supostamente) dá ao Batismo uma importância inferior à pregação, o que ele não faria se o Batismo fosse meio de salvação. Entre os que veem os sacramentos como meros símbolos e desnecessários a salvação, Paulo mostra nesse capítulo como a pregação do evangelho é essencial e fundamental a salvação e o batismo é acessório e secundário.

É estranho que seja assim, diante de tudo o que Paulo diz sobre o Batismo, em outros textos. Seria uma clara contradição. Um problema nessa leitura é bem comum: ver no texto mais do que ele diz e não ver nele o que de fato ele diz. Não é uma leitura atenta ao texto, mas um uso polêmico do texto. Quando lemos os textos sagrados, devemos estar atentos aos porquês, às razões dadas pelos autores sagrados para suas próprias palavras, e não inventar razões nossas. Não podemos trocar as relações gramaticais do próprio texto pelas nossas próprias inferências (enviesadas teologicamente).

Mesmo exegetas competentes como James G. Dunn caem nesse erro. Veem que Paulo diz que não foi enviado “para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17) e “deduzem” daí que o motivo é que o Batismo é menos importante que a pregação. Leem “Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio;” (v. 14) e deduzem daí que Paulo dava pouca importância ao sacramento. Deduzem daí que isso significa que o batismo não tem uma necessidade salvífica. Mas essas coisas jamais são ditas no texto. Em nenhum momento Paulo diz que não foi enviado para batizar porque o Batismo é menos importante que a pregação, nem que ele agradece por não ter batizado muitos porque o Batismo não salva. Esses “porquês” são coisas que o leitor traz ao texto, não coisas que ele extrai do texto. O viés anti-sacramental do leitor dificulta ler o texto de outra maneira.

É claro, não podemos imputar a esses leitores desonestidade. Somos acostumados, de fato, a tratar aquilo que é essencial como prioridade, então podemos ver uma semelhança entre o que Paulo diz e nossa própria maneira de estabelecer uma hierarquia de valores. Mas ocorre que os porquês são dados no texto, então não precisamos imaginá-los! Nossa responsabilidade é perguntar ao texto qual é sua lógica interna. Paulo não está num debate teológico sobre a importância do Batismo, mas tratado pastoralmente uma situação bem diferente: falta de unidade na Igreja, e usa também o Batismo como marca dessa unidade.

O problema com o qual Paulo lida é dado nos primeiros versículos: “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer. Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo.” (1Co 1:10-12)

O que vemos aí? Um problema de desunião entre os cristãos coríntios. Entre eles, tornou-se comum (“cada um de vós”) se apegar a uma das figuras apostólicas (Paulo, Apolo, Cefas) ou ao próprio Cristo; o vínculo com essas figuras prejudicava a unidade naquela igreja. O tema não se esgota nesse capítulo, mas continua sendo tratado nos seguintes, como indicam as referências continuadas a essas mesmas figuras e ao seu papel da igreja (3:4-6,22; 4:6). É comum descrever esse problema como partidarismo.

Como Paulo começa a tratar do problema? Ele escreve: “Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?” (v. 13). As duas perguntas retóricas de Paulo mostram um tratamento inicial do problema: a unidade de Cristo, a unicidade da obra de Cristo e a uniformidade do Batismo, assunto a que ele retorna no capítulo 12. Cristo não está dividido, portanto a Igreja não pode estar. Paulo não foi crucificado em favor dos coríntios, ele não é salvador; Cristo é. Por isso mesmo, os coríntios não foram batizados em nome de Paulo, mas em nome de Cristo.

Note-se: Paulo coloca, ao lado de Cristo e de sua crucificação, o Batismo como fundamento da unidade dos coríntios. Eles foram lavados, santificados e justificados no mesmo nome (1Co 6:11). Quando se perguntam por sua identidade e, portanto, por sua unidade, os coríntios devem olhar para o Batismo e o fato de que foram batizados no mesmo nome, não no nome de Paulo ou de qualquer outra pessoa. Portanto, Paulo vê aqui, em algum sentido (esclarecido noutros textos), que o Batismo define a identidade cristã. Essa não é uma concepção “baixa” do sacramento, embora não esteja explícito o quão alta ela é.

Vemos, então, que o Batismo (como referencial) entra em cena como parte da solução para o problema de unidade entre os coríntios. Até aqui, a discussão não é sobre o papel ou importância do Batismo. Mas Paulo prossegue:

“Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo.” (vv. 14-17).

Como dito acima, em nenhuma parte do texto Paulo diz que o Batismo não tem importância ou valor salvífico. A intenção está no próprio texto. Quando Paulo diz que dá graças por não ter batizado (v. 14), o motivo não é uma ineficácia salvífica do Batismo, mas sim “para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome” (v. 15) e que “não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17). Quanto ao v. 15, Paulo é irônico quando diz que se alegra de não tê-los batizado; não por conta do Sacramento, mas pelo comportamento dos coríntios. Quanto ao v. 17, o leitor pode presumir que Cristo tenha orientado Paulo ao mais importante, mas o texto em si não diz que Paulo deveria pregar o evangelho por isso ser mais importante, ou mais necessário. Na verdade, Paulo não faz nenhuma oposição, nem estabelece nenhuma hierarquia de importância entre Pregação e Batismo.

Diante do texto como lemos até agora, poderíamos presumir que Paulo simplesmente tinha uma função e deixava o Batismo a outras pessoas. Assim, Cristo o teria direcionado a um ministério específico, para cumprir com maior excelência, só batizando excepcionalmente. Não há motivo para supor que seja algo além disso. Mas há algo mais, no texto: Paulo disse que foi enviado a pregar “não com sabedoria de palavra” (v. 17), e, com isso, dá início a uma longa teologia da cruz, na qual o próprio pregador da “palavra da cruz” é chamado a se esvaziar e ser crucificado. Assim, Paulo, que fora colocado como uma das preferências coríntias, agora humilha sua própria pregação como “loucura”. Por que Paulo traz esse tema logo em seguida, senão porque o auto-rebaixamento de Paulo seja, também, uma resposta ao partidarismo coríntios?

Assim, em vez de colocar sua própria pregação como sendo a coisa mais importante (o que o exaltaria diante dos coríntios), na verdade Paulo se coloca como aquele que faz coisa inferior, ainda que se glorie no Senhor. O que Paulo diz não é “eu sou um apóstolo e faço o mais importante”, mas “eu sou um apóstolo dedicado a essa missão que em nada me exalta”.

Sobre Pregação e Batismo, devemos reconhecer que tanto um quanto o outro são tratados como meios de salvação (de modos diferentes) nas Escrituras. Embora sejam necessários, em ambos os casos visualizamos exceções. Assim, crianças muito pequenas são salvas sem pregação; pessoas que morram antes do Batismo podem ser salvos sem eles. Mas essas situações não eliminam aquilo que o Espírito Santo faz ordinariamente através da Pregação e do Sacramento.

Rev. Gyordano M. Brasilino