Calvino: fora da Igreja não há salvação.

Para Calvino, não se deve esperar salvação fora da Igreja visível:

“Contudo, uma vez que agora nosso propósito é discorrer acerca da Igreja visível, aprendamos, mesmo do mero título mãe, quão útil, ainda mais, quão necessário nos é seu conhecimento, quando não outro nos é o ingresso à vida, a não ser que ela nos conceba no ventre, a não ser que nos dê à luz, a não ser que nos nutra em seus seios, enfim, sob sua guarda e governo nos retenha, até que, despojados da carne mortal, haveremos de ser semelhantes aos anjos [Mt 22.30]. Porque nossa habilidade não permite que sejamos despedidos da escola até que tenhamos passado toda nossa vida como discípulos. Anotemos também que fora de seu grêmio não há de esperar-se nenhuma remissão de pecados, nem qualquer salvação… de sorte que
é sempre funesto o afastamento da Igreja.” Institutas IV, 1, 4

“A muitos os impele ou a soberba, ou o desdém, ou a inveja, de sorte que se persuadam de poder fruir de suficiente proveito lendo e meditando em particular, e com isso desprezam as reuniões públicas e consideram a pregação como sendo supérflua. Mas, uma vez que, quanto está em si, quebram ou rompem o sagrado vínculo da unidade, ninguém escapa à justa pena deste ímpio divórcio, sem que sedeixe enfeitiçar por erros pestíferos e por delírios os mais horríveis.” 1, 5

“…aos fiéis nada é de mais importância do que esta administração do culto público, através da qual Deus gradativamente eleva os seus ao alto.” 1, 5

“lgualmente, não é louvor vulgar dizer que a Igreja é eleita e separada por Cristo para ser sua esposa, que “fosse sem ruga e sem mácula” [Ef 5.27], “seu corpo e suaplenitude” [Ef 1.23]. Do quê se segue que o abandono da Igreja é negação de Deuse de Cristo, razão por que mais se deve guardar de tão celerado dissídio, porque, enquanto nos esforçamos, quanto está em nós, por fomentar a ruína da verdade de Deus, somos dignos de que ele dardeje seus raios com todo o ímpeto de sua ira, afim de fazer-nos em pedaços. Não se pode imaginar mais atroz qualquer crime do que o de violar com sacrílega perfídia o matrimônio que o Unigênito Filho de Deus se dignou contrair conosco.” 1, 10

“Portanto, permaneça fixado um e outro destes dois pontos: primeiro, que nenhuma escusa tem aquele que, deliberadamente, deserta a comunhão exterior da Igreja, onde é pregada a Palavra de Deus e são ministrados os sacramentos; segundo, que as faltas e pecados de outros, sejam poucos ou muitos, não nos impeçam de fazer profissão de nossa religião usando os sacramentos e os demais exercícios eclesiásticos juntamente com eles, porquanto uma consciência piedosa não é nem ferida pela indignidade de outrem, quer de pastor, quer de leigo; e os sacramentos do Senhor tampouco deixam de serpuros e santos para o homem limpo por ser recebidos em companhia dos impuros e perversos.” 1, 19

“Portanto, três coisas devemos aqui observar. Em primeiro lugar, por grande que seja a santidade em que os filhos de Deus se distingam, contudo, sempre que habitarem no corpo mortal nesta condição, não podem permanecer na presença de Deus sem a remissão dos pecados; em segundo lugar, este benefício é a tal ponto próprio da Igreja, que não usufruímos dele de outra sorte senão permanecendo na comunhão; em terceiro lugar, ele nos é dispensado por intermédio dos ministros e pastores da Igreja, seja pela pregação do evangelho, seja pela ministração dos sacramentos, eneste aspecto sobressai especialmente o poder das chaves que o Senhor conferiu à sociedade dos fiéis. Conseqüentemente, que cada um pense ser este seu dever: não buscar a remissão dos pecados noutro lugar senão onde o Senhor a colocou.” 1, 22

Rev. Gyordano M. Brasilino

Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17)

Para Paulo, o Batismo não salva?

Quem está informado dos debates em torno da eficácia do sacramento do Batismo e da literatura teológica relevante possivelmente já chegou à discussão em torno de 1Co 1:10-17, texto usado pelos que negam a eficácia do Batismo. Grosso modo, o argumento é de que Paulo (supostamente) dá ao Batismo uma importância inferior à pregação, o que ele não faria se o Batismo fosse meio de salvação. Entre os que veem os sacramentos como meros símbolos e desnecessários a salvação, Paulo mostra nesse capítulo como a pregação do evangelho é essencial e fundamental a salvação e o batismo é acessório e secundário.

É estranho que seja assim, diante de tudo o que Paulo diz sobre o Batismo, em outros textos. Seria uma clara contradição. Um problema nessa leitura é bem comum: ver no texto mais do que ele diz e não ver nele o que de fato ele diz. Não é uma leitura atenta ao texto, mas um uso polêmico do texto. Quando lemos os textos sagrados, devemos estar atentos aos porquês, às razões dadas pelos autores sagrados para suas próprias palavras, e não inventar razões nossas. Não podemos trocar as relações gramaticais do próprio texto pelas nossas próprias inferências (enviesadas teologicamente).

Mesmo exegetas competentes como James G. Dunn caem nesse erro. Veem que Paulo diz que não foi enviado “para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17) e “deduzem” daí que o motivo é que o Batismo é menos importante que a pregação. Leem “Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio;” (v. 14) e deduzem daí que Paulo dava pouca importância ao sacramento. Deduzem daí que isso significa que o batismo não tem uma necessidade salvífica. Mas essas coisas jamais são ditas no texto. Em nenhum momento Paulo diz que não foi enviado para batizar porque o Batismo é menos importante que a pregação, nem que ele agradece por não ter batizado muitos porque o Batismo não salva. Esses “porquês” são coisas que o leitor traz ao texto, não coisas que ele extrai do texto. O viés anti-sacramental do leitor dificulta ler o texto de outra maneira.

É claro, não podemos imputar a esses leitores desonestidade. Somos acostumados, de fato, a tratar aquilo que é essencial como prioridade, então podemos ver uma semelhança entre o que Paulo diz e nossa própria maneira de estabelecer uma hierarquia de valores. Mas ocorre que os porquês são dados no texto, então não precisamos imaginá-los! Nossa responsabilidade é perguntar ao texto qual é sua lógica interna. Paulo não está num debate teológico sobre a importância do Batismo, mas tratado pastoralmente uma situação bem diferente: falta de unidade na Igreja, e usa também o Batismo como marca dessa unidade.

O problema com o qual Paulo lida é dado nos primeiros versículos: “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer. Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo.” (1Co 1:10-12)

O que vemos aí? Um problema de desunião entre os cristãos coríntios. Entre eles, tornou-se comum (“cada um de vós”) se apegar a uma das figuras apostólicas (Paulo, Apolo, Cefas) ou ao próprio Cristo; o vínculo com essas figuras prejudicava a unidade naquela igreja. O tema não se esgota nesse capítulo, mas continua sendo tratado nos seguintes, como indicam as referências continuadas a essas mesmas figuras e ao seu papel da igreja (3:4-6,22; 4:6). É comum descrever esse problema como partidarismo.

Como Paulo começa a tratar do problema? Ele escreve: “Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?” (v. 13). As duas perguntas retóricas de Paulo mostram um tratamento inicial do problema: a unidade de Cristo, a unicidade da obra de Cristo e a uniformidade do Batismo, assunto a que ele retorna no capítulo 12. Cristo não está dividido, portanto a Igreja não pode estar. Paulo não foi crucificado em favor dos coríntios, ele não é salvador; Cristo é. Por isso mesmo, os coríntios não foram batizados em nome de Paulo, mas em nome de Cristo.

Note-se: Paulo coloca, ao lado de Cristo e de sua crucificação, o Batismo como fundamento da unidade dos coríntios. Eles foram lavados, santificados e justificados no mesmo nome (1Co 6:11). Quando se perguntam por sua identidade e, portanto, por sua unidade, os coríntios devem olhar para o Batismo e o fato de que foram batizados no mesmo nome, não no nome de Paulo ou de qualquer outra pessoa. Portanto, Paulo vê aqui, em algum sentido (esclarecido noutros textos), que o Batismo define a identidade cristã. Essa não é uma concepção “baixa” do sacramento, embora não esteja explícito o quão alta ela é.

Vemos, então, que o Batismo (como referencial) entra em cena como parte da solução para o problema de unidade entre os coríntios. Até aqui, a discussão não é sobre o papel ou importância do Batismo. Mas Paulo prossegue:

“Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo.” (vv. 14-17).

Como dito acima, em nenhuma parte do texto Paulo diz que o Batismo não tem importância ou valor salvífico. A intenção está no próprio texto. Quando Paulo diz que dá graças por não ter batizado (v. 14), o motivo não é uma ineficácia salvífica do Batismo, mas sim “para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome” (v. 15) e que “não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17). Quanto ao v. 15, Paulo é irônico quando diz que se alegra de não tê-los batizado; não por conta do Sacramento, mas pelo comportamento dos coríntios. Quanto ao v. 17, o leitor pode presumir que Cristo tenha orientado Paulo ao mais importante, mas o texto em si não diz que Paulo deveria pregar o evangelho por isso ser mais importante, ou mais necessário. Na verdade, Paulo não faz nenhuma oposição, nem estabelece nenhuma hierarquia de importância entre Pregação e Batismo.

Diante do texto como lemos até agora, poderíamos presumir que Paulo simplesmente tinha uma função e deixava o Batismo a outras pessoas. Assim, Cristo o teria direcionado a um ministério específico, para cumprir com maior excelência, só batizando excepcionalmente. Não há motivo para supor que seja algo além disso. Mas há algo mais, no texto: Paulo disse que foi enviado a pregar “não com sabedoria de palavra” (v. 17), e, com isso, dá início a uma longa teologia da cruz, na qual o próprio pregador da “palavra da cruz” é chamado a se esvaziar e ser crucificado. Assim, Paulo, que fora colocado como uma das preferências coríntias, agora humilha sua própria pregação como “loucura”. Por que Paulo traz esse tema logo em seguida, senão porque o auto-rebaixamento de Paulo seja, também, uma resposta ao partidarismo coríntios?

Assim, em vez de colocar sua própria pregação como sendo a coisa mais importante (o que o exaltaria diante dos coríntios), na verdade Paulo se coloca como aquele que faz coisa inferior, ainda que se glorie no Senhor. O que Paulo diz não é “eu sou um apóstolo e faço o mais importante”, mas “eu sou um apóstolo dedicado a essa missão que em nada me exalta”.

Sobre Pregação e Batismo, devemos reconhecer que tanto um quanto o outro são tratados como meios de salvação (de modos diferentes) nas Escrituras. Embora sejam necessários, em ambos os casos visualizamos exceções. Assim, crianças muito pequenas são salvas sem pregação; pessoas que morram antes do Batismo podem ser salvos sem eles. Mas essas situações não eliminam aquilo que o Espírito Santo faz ordinariamente através da Pregação e do Sacramento.

Rev. Gyordano M. Brasilino