Cristo na Arca

A leitura alegórica nos permite incorporar na leitura do Antigo Testamento textos que nos pareceriam hoje meras curiosidades.

Um caso é o da Arca da Aliança. Num dado momento, a arca faz uma movimentação de “três dias” (Nm 10:33) em busca de repouso. O interessante é que, de acordo com a movimentação, Moisés fazia certas orações. Quando a arca levantava, Moisés dizia (v. 35):

“Levanta-te [qûm], Senhor,
e dissipados sejam os teus inimigos,
e fujam diante de ti os que te odeiam.”

Quando a arca parava, ele dizia (v. 36):

“Volta [šûḇ], ó Senhor,
para os milhares de milhares de Israel.”

Essas orações ecoam no Antigo Testamento (cf. 2Cr 6:41; Sl 68:1; 132:8), e levam em conta que a Arca carrega a Presença Divina. A movimentação da arca é a movimentação de Deus.

Pois bem, as orações de Moisés indicam dois movimentos: a Arca se levanta (contra os inimigos) e repousa (para o povo). Quando se fala de levantar-se, o texto hebraico, bastante limitado em palavras — daí vem sua riqueza —, usa o verbo “qûm”, o mesmo usado para indicar o “ressuscitar” (como no aramaico de Mc 5:41).

Pois bem, essa é a chave para a leitura cristológica (alegórica) do texto. A movimentação da arca indica a ressurreição de Cristo, e ele ressuscita para vencer os seus inimigos. Mas ele também repousa (morre) e se encontra com os milhares de Israel.

Como os movimentos da vida de Cristo são de dois níveis — ele desce do céu à terra dos viventes (encarnação) e da terra ao abismo (morte), sobe do abismo à terra dos viventes (ressurreição), e da terra dos viventes ao céu (ascensão) —, há também um segundo sentido, no que a terra simboliza o céu. Cristo primeiramente desce do céu à terra, para se encontrar com Israel, e então desce mais uma vez para se encontrar com os antepassados. Ele sobe uma vez, do abismo à terra, para vencer seus inimigos, e então ascende aos céus, para reinar até colocar seus inimigos por estrado dos seus pés.

O verbo de retorno (šûḇ) é o mesmo usado para indicar o retorno do Senhor a Sião na profecia de Is 52:8 (texto messiânico na leitura cristã).

É interessante que um dos salmos que mencionam a ascensão da Arca, o Salmo 68, é usado alegoricamente no Novo Testamento justamente para falar da ressurreição e da ascensão (cf. Sl 68:18; Ef 4:8). Ou seja, essa é uma leitura apostólica, a de que os movimentos da Arca indicam os movimentos (anábase e catábase) de Cristo.

Alguns elementos cristológicos na Arca: ela carregava as Tábuas da Lei, a vara de Arão (autoridade sacerdotal) e o Maná (pão do céu).

Lembra dos três dias? Pois é.

Rev. Gyordano Montenegro Brasilino

A irrelevância dos debates sobre a Ceia do Senhor

Lutero na dieta de Worms

“E, comendo eles, tomou Jesus pão e, abençoando-o, o partiu e deu-lho, e disse: Tomai, comei, isto é o meu corpo.” (Marcos 14:22)

A experiência de ver duas pessoas brigarem por palavras — pessoas que na realidade pensam do mesmo modo, mas não se dão conta disso — é bastante comum. Só quem está fora do debate percebe a frivolidade da discussão. A incompreensão se dá quando os principais termos da discussão são usados analogamente — quando as duas pessoas usam as mesmas palavras para falarem duas línguas diferentes, mas com alguma semelhança. Continue lendo “A irrelevância dos debates sobre a Ceia do Senhor”

Não discernindo o Corpo do Senhor

pano

“Pois quem come e bebe sem discernir o corpo do Senhor, come e bebe para sua própria condenação.” (1 Coríntios 11:29)

Uma das mensagens mais presentes no Antigo Testamento é a de que a presença de Deus e a maldade humana não podem conviver. Deus escolheu lugares para neles fazer habitar sua santidade. A terra de Israel é santa. A capital de Israel, Jerusalém, é santa. O Templo em Jerusalém é santo. Por conta disso, Deus não toleraria a prática do pecado nesses lugares. A imoralidade (Lv. 18:24-30), homicídio (Nm. 35:33,34), idolatria (Jr. 16:18) ou pecado em geral (Is. 24:5) profanariam a terra que Deus quis que fosse santa. Continue lendo “Não discernindo o Corpo do Senhor”