O Fogo Purificador (Santa Macrina e São Gregório de Nissa)

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade.” (Atos 3:19–21)

A despeito do fato de que nós hoje — corretamente — nos preocupemos com uma imagem de violência divina que sirva para justificar e inflamar a violência humana, ainda assim devemos procurar aquela verdade profunda subjacente às palavras de que o Senhor “açoita a todo filho a quem recebe… a fim de sermos participantes da sua santidade”. A imagem é de uma sociedade em que o castigo físico como expiação e reforma era comum — como vemos no livro de Provérbios —, mas não precisamos nos deter nela. Embora nem todo sofrimento seja, a priori, imediatamente benéfico, deve haver um lugar para o sofrimento na nossa própria transformação.

São Gregório de Nissa, guiado por sua mestra e irmã, Santa Macrina, é levado a contemplar os mistérios da salvação e da condenação, da bondade e da severidade de Deus, numa perspectiva escatológica. Como é bem sabido, eles acreditavam na salvação última de todas as pessoas, a apocatástase. Essa doutrina parte de várias premissas, dentre as quais está a teoria restaurativa e transformadora da pena — que não apenas crê que Deus açoita a todos a quem recebe como filhos, mas recebe como filhos a todos a quem açoita, e cuja dor é intrínseca (causada pelo pecado) e não extrínseca (causada por Deus) —, assim como uma metafísica mística que, por colocar Deus na raiz de todas as criaturas, não consegue não conceber o fim como um retorno de tudo à origem e, portanto, o fim do mal, quando Deus será “tudo em todos”. Nessa concepção, Deus, por ser Deus, não pode eternizar a “existência” do mal. Os místicos universalistas, como Juliana de Norwich e William Law, têm muito em comum.

Não é preciso concordar de todo com a tese da salvação universal para admirar a beleza do modo como Santa Macrina e São Gregório descrevem a resolução última do drama universal. Mas é claro que somente aqueles que acreditam em algum tipo de purificação após a morte — seja num purgatório mais modesto ou mais guloso — serão capazes de aceitar algo assim. Nesse caso, há muitas semelhanças com o purgatório de Santa Catarina de Gênova e de C. S. Lewis. Em nível último, sem algum tipo de pena purificadora (ao menos para parte dos pecadores), o que temos é a prevalência da punição pena punição.

“Uma vez que toda natureza atrai para si aquilo que lhe é afim, e o homem é em certo sentido afim a Deus já que tem em si a imitação do arquétipo, a alma não pode não ser arrastada em direção ao divino por aquilo que lhe é afim; com efeito, é preciso que seja inteira e absolutamente reservado para Deus aquilo que lhe pertence. Se, portanto, a alma é leve e pura, sem nenhum fardo corporal que pede sobre ela, a sua ascensão em direção Àquele que a atrai é agradável e fácil. Mas levantamos a hipótese de que esta seja trespassada pelos pregos da afeição pelas coisas materiais. Nos desastres provocados por terremotos, os corpos esmagados pelos escombros são destinados a sofrer uma semelhante sorte. Suponhamos que esses não somente sejam sufocados pelas ruínas, mas que sejam também trespassados pelos pais e pelos pedaços de madeira que se encontram nos escombros. É fácil intuir os sofrimentos que tocam aos corpos que se encontram nesse estado, quando os seus próximos os retiram das ruínas para sepultá-los santamente: esses são todos pesados e reduzidos a pedaços e sofrem as penas mais atrozes, laceradas pelos escombros e pelos pregos sob o efeito de uma tração violenta. Parece-me que análogo sofrimentos prove também a alma, quando a potência Divina, impelida pelo seu amor em favor dos homens, deseja extrair aquilo que lhe pertence dos escombros representados pela irracionalidade e pela matéria. Na minha opinião, Deus, que exige em restituição e atrai para si tudo aquilo que nasceu graças a ele, não inflige aos pecadores as dores porque os odeia ou queira puni-los pela sua má vida: ele se limita a atrair a alma para si, a fonte de toda bem-aventurança, em vista de um bem superior; mas aquele que é arrastado não pode não tocar a dor.
Como quem deseja eliminar com o fogo o material que se encontra misturado com ouro não pode limitar-se a fundir este material espúrio, mas é constrangido a fundir juntamente também o ouro puro, que permanece enquanto o primeiro se consuma, assim, enquanto mal é consumido pelo fogo inextinguível, a alma também, unida ele, está necessariamente no fogo, até que os elementos espúrios e materiais que foram semeadas nela sejam eliminados e consumados pelo fogo eterno…
…O mal deve ser de fato de todo eliminado do ser: como se disse antes, o não-ser não pode existir. Uma vez que o mal não pode, por natureza, existir fora do livre arbítrio, quando o livre arbítrio se encontra em Deus, o mal irá ao encontro da total destruição porque não lhe resta mais nenhum receptáculo.” — A Alma e a Ressurreição IV

“… Quanto à diferença entre uma vida segunda virtude e uma vida segundo vício, ela aparecerá sobretudo na vida futura, onde a participação na felicidade esperada será mais rápida ou mais tardia. Com efeito, a medida do mal sobrevindo em cada um corresponderá perfeitamente a duração mesmo da cura. A cura da alma consiste na purificação do mal; e esta, como se provou precedentemente, não poderá realizar-se sem um estado de sofrimento…
Mas a vida virtuosa conhecerá em razão do mal as seguintes diferenças: aqueles que nesta vida se cultivaram por meio da virtude se tornam logo uma espiga perfeita; mas aqueles em que o mal tornou débil e exposta aos danos do vento nesta vida a potência contida na semente psíquica — isto, segundo sábios nesses assuntos, costuma acontecer às chamadas sementes duras — mesmo se [um dia] ressurgirem, serão tratados pelo juiz com grande severidade, porque não tiveram força para reencontrar a forma da espiga e se tornarem o que precisamente éramos antes da queda sobre a terra… Quando todas as ervas bastardas e estranhas forem separadas da planta genuína e levadas a destruição pelo fogo que consome o elemento exterior à natureza, então a natureza desses seres também prosperará e produzirá os seus frutos maduros reassumindo, depois de um longo período, a forma comum a todos os homens, que Deus imprimira em nós no início… As paixões produzidas pelo mal se a bola hein dificilmente da alma, uma vez que se encontram misturadas com ela em sua totalidade, tendo crescido com ela e formado uma só coisa com ela ponto quando, portanto, Os seres desse gênero foram eliminados e destruídos pela cura do fogo, cada uma dessas realidades cuja noção tem um conteúdo positivo vir a tomar o lugar: a incorruptibilidade, a vida, a honra e a Graça, a glória, a potência, e toda a outra realidade desse gênero que, segundo nossas conjecturas, se possa contemplar ao mesmo tempo em Deus mesmo e em sua imagem, que é a natureza humana.” — A Alma e a Ressurreição VI

“Entretanto, como para o corpo há diferentes enfermidades, das quais algumas se prestam mais facilmente à cura e outras com maior dificuldade, e para essas últimas se recorre às incisões, às cauterizações, às porções amargas para eliminar os males que se abateram sobre o corpo, do mesmo modo tratamentos análogos nos são anunciados pelo juízo futuro para cura das enfermidades da alma, e isto, para os mais frívolos, é ameaça e método de correção severos, a fim de que o temor de uma expiação dolorosa nos faça tornar-se sábios e nos leve a fugir do mal; mas para aqueles que são mais sensatos, a fé assegura que é uma cura e um tratamento salutar da parte de Deus que deseja reconduzir a sua criatura à graça originária.

Com efeito, aqueles que eliminam com incisões ou mediante cauterização assistências e as verrugas que se formaram no corpo contra a natureza, não conseguem uma cura sem dores ao beneficiário do tratamento; mas, ao menos, não praticam a incisão para causar um dano ao paciente; assim também todas as excrescências materiais que se formaram em nossas almas tornando-as canais sobre efeito de sua participação nas mais de exposições do corpo, são, no tempo oportuno daquele juízo, cortadas e eliminadas por aquela inefável sabedoria e pela potência daquele que, segundo Evangelho, é médico dos pecadores: ‘Não são de fato, diz ele, os sãos, que têm necessidade do médico, mas os doentes.’” — A Grande Catequese VIII, 10–11


“Quando o ouro se mistura a uma matéria menos valiosa, os ourives eliminam com a ação do fogo o elemento estranho e sem valor, devolvendo à matéria mais nobre seu esplendor natural. Todavia, esta separação não sucede sem labor, pois o fogo, com sua força de consumação, necessita de tempo para fazer desaparecer o elemento impuro; aliás, é uma espécie de tratamento aplicado ao ouro, o fato de fundir o elemento que está contido no outro e que altera sua beleza.
Pois da mesma maneira, visto que a morte, a corrupção, as trevas e tudo o que é engendrado pelo mal estão estreitamente unidos ao inventor do mal, a aproximação da potência divina provoca, como o fogo, a destruição do elemento contrário a natureza e, graças a esta purificação, mostra-se salutar para a natureza, por mais penosa que seja a separação. Por conseguinte, tampouco o adversário poderia duvidar de que se trata de um processo justo e salvífico, se chegasse a compreender o benefício que disto resulta.
Ora, precisamente, como aqueles que suportam a terapia a base de cortes e de cauterizações se irritam contra os médicos em razão da dor aguda provocada pelo corte, mas, quando, graças a esses meios, recuperam a saúde e desaparece a dor da cauterização, então terão gratidão por quem os curou; da mesma maneira, uma vez que, após o longo transcorrer dos tempos a natureza foi libertada do mal (do mesmo modo que agora está mesclado e cresceu com ela), quando se cumprir o retorno à condição originária daqueles que agora estão sujeitos ao mal, se erguerá uma sinfonia de ação de graças de toda a criação, seja daqueles que foram castigados com essa purificação, seja da parte de quem não tiver necessidade de purificação.
Esses ensinamentos e outros do mesmo gênero nos transmitem o grande mistério da Encarnação divina. Graças a sua mescla com a humanidade, assumindo todas as particularidades próprias da natureza humana, o nascimento, a educação e o crescimento, e atravessando inclusive a prova da morte, Deus cumpriu tudo o que foi dito anteriormente, libertando o homem da maldade e curando o próprio autor da maldade. Com efeito, curar uma enfermidade é fazer desaparecer a doença, ainda que à custa de sofrimento.” — A Grande Catequese XXVI, 6–9

“…constituindo toda a natureza como um só ser vivo, a ressureição de um membro se estende a todo o conjunto, e da parte se comunica ao todo em razão da continuidade e unidade da natureza.” — A Grande Catequese XXXI, 4

“Ora, o que corresponde ao ouro impuro é o forno de fundição; assim, uma vez fundida toda a maldade que se tinha misturado a esses pecadores, sua natureza, já purificada depois de longos séculos, será reconduzida a Deus sã e salva. Por conseguinte, visto que há certa força purificadora no fogo e na água, aqueles que lavaram a mancha da maldade mediante a água sacramental não necessitam de outra forma de purificação; aqueles, ao contrário, que não são foram iniciados nessa purificação, necessariamente deverão ser purificados pelo fogo.” — A Grande Catequese XXXV, 15

Rev. Gyordano M. Brasilino

Fundamentos bíblicos da oração pelos mortos

The Victorian Era & the Art of Mourning - SevenPonds BlogSevenPonds Blog

“Eu acredito que a oração pelos Fiéis Falecidos
é um dever a se observar.” John Wesley

Há um grande mistério da morte. Ela se levanta contra nós com um poder terrível e incontrolável. Pessoas que amamos nos deixam, colocando-se além de nossas forças. A mortalha se coloca entre nós e os que partiram, levando algo de nós mesmos, de nossos pensamentos, lembranças, sentimentos.

Parte desses sentimentos inclui o de que os falecidos estejam bem, estejam em paz, desfrutem da luz divina. Não sabemos como eles estão, mas só desejamos que estejam melhor do que nós. É nesse amor pelos falecidos (amor que nunca falha), que o bispo Aulén encontra o fundamento para a oração pelos mortos. O amor espera além de toda esperança.

Com toda a evidência, desde muito cedo os cristãos oraram pelos mortos, como exemplificam a Inscrição de Abércio (séc. II) e as referências de Tertuliano (séc. III). As indicações que temos são também de que os judeus do período do Segundo Templo oravam pelos mortos e de que ele necessitavam de expiação (2Mc 12:44-45; Testamento de Abraão 15; Sifre Deverarim 210 etc.). Então a fé cristã se desenvolveu num ambiente em que a oração pelos mortos era uma prática aceitável, não rejeitada.

A prática de interceder pelos cristãos falecidos, durante a liturgia eucarística, é unânime nas liturgias antigas, dos mais diversos lugares, e abundam as referências patrísticas em seu favor. Mas os desenvolvimentos da Reforma Protestante, especialmente na tendência calvinista, levaram a uma rejeição da oração pelos mortos. Ainda assim, vemos a oração pelos mortos ser aprovada e, às vezes, ensinada e praticada por figuras como Lutero, Zuínglio, além de anglicanos como Lancelot Andrewes, John Cosin e John Wesley.

Como uma prática assim pode ter se tornado tão universal até o período da Reforma? Há um fundamento bíblico para ela? Há uma utilidade?

A intercessão pelos mortos é bíblica?

É importante dizer primeiramente que, para que uma prática seja aceita na fé cristã, não é necessário ela seja exigida, exemplificada, ensinada ou autorizada nas Escrituras Sagradas. Nada do que fazemos pode contradizer as Santas Palavras, mas nenhum texto da Escritura jamais foi escrito com o propósito de elencar tudo o que podemos fazer na religião cristã.

A suficiência da Escritura não diz respeito à liturgia, por exemplo. Ninguém pergunta se pode orar por emprego, por exemplo, mesmo que não haja nenhuma oração por emprego na Bíblia. O que perguntamos não é se a Bíblia autoriza a orar por emprego, mas se esse tipo de oração é compatível com os princípios que vemos nas Escrituras. Felizmente, a Escritura nos dá mais do que apenas princípios, como veremos.

Vemos ao longo das Escrituras um costume universal: o luto através do pranto e jejum (de vários dias) pelos falecidos, como por Arão, Moisés, Saul e seus filhos, por Estêvão e tantos outros, mas são o ambiente adequado em que essas orações podem começar a surgir, dados os bons desejos dos vivos pelos mortos.

Primeiramente, sabemos que a Escritura nos ensina a orar “por todos os homens” (1Tm 2:1) e “por todos os santos” (Ef 6:18), isto é, por todos os cristãos. Os contextos jamais limitam essas obrigações aos vivos. Em ambos os casos, há referência a pessoas vivas em redor, mas isso não constitui uma limitação. Afinal, se devemos orar por todos, obviamente os vivos são incluídos! O que procuramos não é uma referência aos vivos, mas uma exclusão dos mortos. Não encontramos essa exclusão, e isso, recordemos, num ambiente judaico e pagão em que a oração pelos mortos era conhecida e aceita. A responsabilidade de não apenas alegar, mas provar que esses “todos os homens” não incluem todos, mas apenas os vivos, é de quem é acredita nessa limitação. Do jeito que está, lido da maneira mais natural, o texto inclui mesmo a todos. A única coisa que impede de perceber essa leitura natural é o preconceito do leitor contra a oração pelos mortos.

Segundamente, vemos que a intercessão pelos mortos era bem conhecida de Paulo e dos cristãos de Corinto. O texto de 1Co 15:29 faz referência a um tipo de intercessão pelos mortos:

Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?

1 Coríntios 15:29

Nesse trecho de difícil interpretação, Paulo usa o “batizar-se” pelos mortos como um argumento em favor da ressurreição, como indicando que, de algum modo, a premissa por trás dessa prática é a de que os mortos seria, de algum modo, beneficiados por essa intercessão quando ressuscitassem. Não é possível decidir com segurança o que seria esse batismo pelos mortos, mas sem dúvida era uma prática intercessória, que beneficiaria os mortos. O fato de que Paulo usa a prática como argumento, sem condená-la, mostra que ele via a intercessão pelos mortos como, no mínimo, possível. De modo interessante, vemos nesse texto, assim como em 2Mc 12:40-46 (texto desconsiderado pela maioria dos protestantes), a intercessão pelos mortos aparecer na perspectiva da ressurreição.

Terceiramente, Paulo intercedeu por misericórdia sobre Onesíforo no dia do juízo.

Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas; antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou solicitamente até me encontrar. O Senhor lhe conceda, naquele Dia, achar misericórdia da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

2 Timóteo 1:16-18

Esse texto nos ensina algo muito importante, que afeta diretamente o modo como vemos a oração pelos mortos. Paulo ora por misericórdia do Senhor sobre Onesíforo, no dia do juízo (“naquele Dia”). Com isso, aprendemos com muita naturalidade que podemos orar por misericórdia no juízo final, que é possível Deus realizar misericórdia (cf. Tg 2:13). Isso, por si só, já justifica a oração pelos mortos, uma vez que podemos orar por um dia que chegará quando a maioria de nós já estivermos mortos.

Mas o argumento vai além: Onesíforo provavelmente já havia falecido quando Paulo fez essa oração. O texto faz pouco sentido se Onesíforo ainda estivesse vivo. Os motivos são simples: 1. Paulo pede misericórdia pela família de Onesíforo, mas por Onesíforo ele pede misericórdia apenas no dia do juízo; 2. Onesíforo é mencionado no passado, pelo que fez anteriormente; 3. Em 2Tm 4:19, a família de Onesíforo é mencionava novamente, num contexto de saudação a diversos indivíduos, e essa família recebe uma saudação, mas Onesíforo não recebe diretamente. Assim, os indícios apontam na direção de que esse texto de 2Tm 1:18 seja uma oração pelos mortos. Bem no Novo Testamento.

Por fim, há o exemplo já mencionado de 2Mc 12:40-46. Esse texto não é usado como referência pela maioria dos protestantes, embora faça parte da tradição anglicana (e luterana), não sendo usado para estabelecer uma doutrina, mas apenas para instrução, significando que seu ensinamento não é herético.

Do que foi dito, se segue que: 1. é nosso dever orar por todos os homens, sem distinção (portanto também pelos mortos); 2. a intercessão pelos mortos era conhecida dos primeiros cristãos, não sendo condenada; 3. é possível interceder por misericórdia de Deus no juízo final, independentemente de se estar morto ou não. Assim, no fim das contas, há muito mais fundamento nas Escrituras para orar pelos mortos do que pelos desempregados.

A intercessão pelos mortos é útil?

Que utilidade pode haver na oração pelos mortos? Esse é o questionamento natural de quem não estudou a questão, especialmente se criado num ambiente em que essas orações não existem ou são condenadas. Para quem não refletiu sobre nossa condição após a morte, realmente não há como vislumbrar utilidade nessas orações.

No nosso ambiente ocidental, as orações pelos mortos frequentemente são tratadas em termos de Purgatório, como se dependessem dele. Mas é fato que as primeiras orações pelos mortos que conhecemos apareceram antes do surgimento e popularização da teologia so Purgatório. Até hoje, as comunidades orientais que não acreditam em Purgatório (como ortodoxos e miafisitas) oram pelos mortos. Primeiro vieram as orações pelos mortos; só depois, uma concepção de Purgatório. As explicações dadas aqui são independentes dessa noção.

Já vimos uma das utilidades que a oração pelos mortos tem: misericórdia no juízo. Nós somos julgados por Deus por tudo o que fizemos nesta vida (2Co 5:4), e cabe a Deus realizar a misericórdia pela qual Paulo orou. Essa misericórdia no juízo se enquadra perfeitamente bem na intercessão pelos mortos vista em 1Co 15:29, que diz respeito à ressurreição. É particularmente importante lembrar que nós também somos julgados por Deus após a morte (Hb 9:27), sendo essa outra possibilidade de misericórdia no juízo divino.

O que essa misericórdia significa? No caso de Onesíforo, falamos de uma oração feita em favor de um (provável) cristão, de alguém que pode ter morrido em plena comunhão com a Igreja. Nesse sentido, essa oração se pareceria com as que aparecem nas liturgias antigas. Não se trata de uma oração por alguém sem fé, mas, possivelmente, com fé, ainda que seja uma fé que não se sabe se é totalmente viva. A questão da oração por um “incrédulo” (ninguém é incrédulo depois da morte) seria mais complicada, mas, de toda forma, como há diferentes graus de condenação, a misericórdia ainda seria possível, mas parece desrecomendada (1Jo 5:16-17). Como não sabemos o destino de ninguém, podemos orar. Nada está perdido, porque Deus atende nossas orações desde a eternidade, e não limitado ao momento em que oramos.

Mas há algo mais, além disso. Pois, mesmo os salvos que já estão na luz divina, em Cristo, ainda podem crescer infinitamente no conhecimento e no amor (epektasis), portanto também na felicidade, mesmo depois que o pecado for completamente extirpado. Assim como, oramos pelos que estão vivos, para sua santificação e crescimento em Deus, oramos pelos que faleceram, para que cresçam cada vez mais em Deus, porque para Deus nada é impossível. Nossas orações são meios pelos quais Deus cumpre seus propósitos eternos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Purgatório de C. S. Lewis: Uma Defesa Breve

 

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Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus. Mateus 5:8

A vida cristã é uma contínua reflexão sobre a morte, sobre o destino último do ser humano, na lembrança de que cada um terá de enfrentar o inimigo terrível (memento mori). Vivemos vidas piores quando não nos lembramos da seriedade do nosso destino. As distrações do tempo acabam por consumir e vencer nossos melhores ideais, enquanto a Eternidade nos dá o único parâmetro verdadeiro pelo qual devemos julgar o peso real das coisas. A grandeza e eternidade de Deus provocam a inquietante pergunta sobre o Para Onde. Continue lendo “O Purgatório de C. S. Lewis: Uma Defesa Breve”