Por que eu amo a Quaresma?

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A Quaresma é o período do ano cristão que eu mais amo. Geralmente as pessoas amam o Natal, pela beleza que traz ao mundo, pela celebração da Encarnação, pela alegria do nascimento do Deus menino. Amam a Páscoa, pelo sacrifício de amor, pela vitória sobre a morte, pelo chocolate. Amam o Pentecostes, pelo derramamento do Espírito, pelo envio da Igreja, pelo crescimento do Reino de Deus.

Eu amo essas festas também, elas são a coisa principal. Mas eu amo a Quaresma. A Quaresma é um período de espera pela Páscoa, mas eu espero pela Quaresma. Na verdade, para mim a Quaresma é uma grande oportunidade de fazer coisas estranhas, de abrir mão de várias coisas, com a desculpa de que estamos na Quaresma. Eu não pretendo passar a vida inteira sem comer carne vermelha, ou fazer uma série de outras coisas, especialmente quando estou na residência de outras pessoas; mas, enquanto, noutros tempos, pode ser até falta de educação rejeitar algumas coisas, na Quaresma eu tenho uma boa desculpa para me privar dessas coisas sem precisar ser chato, já que não é puramente decisão minha. É um costume da Igreja. Isso vale para muitas outros votos e abstinências durante esse período do ano. Esse é o primeiro motivo pelo qual eu amo a Quaresma.

O segundo motivo pelo qual eu amo a Quaresma está nos benefícios que ela traz. Ela é uma disciplina obrigatória, e seu maior benefício tem a ver com isso. É um jejum proclamado pela autoridade do povo, como vemos nas Escrituras (2Cr 20:3; Ed 8:21-23; Jr 36:9; Jl 1:14; 2:1; 2:15). Ela coloca diante da fraqueza de nossa carne uma grande seriedade. O jejum individual, feito por minha própria escolha, é uma disciplina importante, mas é algo submetido à minha própria decisão. O jejum apregoado pela autoridade excede minha escolha e me coloca diante de algo muito maior. É normal que membros de comunidades que não jejuam coletivamente também não jejuem individualmente. Falta o estímulo e o desenvolvimento do hábito.

Na verdade, sem uma disciplina de abstinência, oscilamos, ao longo da vida, entre a moderação justa e o excesso. Com o jejum, nossa oscilação se dá entre a abstinência e o excesso, centrada na moderação justa. Nesse tempo, podemos nos forçar a ver que não dependemos dos nossos desejos por dinheiro (através da esmola), por comida (através do jejum) e por tempo livre (através da oração). Isso nos faz um profundo bem, porque nos livramos de coisas que trazem preocupações tremendas, como os três espinhos que nos impedem de ser frutíferos (Lc 8:14): os cuidados (através da oração), as riquezas (através da esmola), os deleites da vida (através do jejum). Essas três disciplinas espirituais regulam nossos amores: a Deus (através da oração), ao próximo (através da esmola), a nós mesmos (através do jejum). As três disciplinas espirituais aparecem juntas em textos como Mt 6 e em At 10; no judaísmo da época, estavam conectadas (cf. Tb 12:8), e isso tem raízes profundas na religião israelita (cf. Is 58).

O terceiro motivo pelo qual eu amo a Quaresma é o de entender como ela é bíblica e como ela me conecta, juntamente com toda a história da Igreja, a certos temas das Escrituras Sagradas. Toda uma herança, todo um tesouro é colocado diante de mim, toda uma nuvem de testemunhas ao longo dos séculos, que celebraram esse tempo litúrgico. Para algumas pessoas, perguntar se a Quaresma é bíblica é perguntar se a Bíblia manda guardar a Quaresma (ou a proíbe). Mas esse tipo de pergunta não nos leva a lugar nenhum, porque a Bíblia não trata dessa questão diretamente. Para ver a Quaresma na Bíblia, é preciso fazer as perguntas certas, e não apenas ler a Bíblia, mas lê-la com a mentalidade bíblica.

Como isso funciona? A direção nos é indicada pelo apóstolo Paulo. Quando ele escreveu a Primeira Carta aos Coríntios, estava antes da festa anual de Pentecostes (1Co 16:8; cf. At 20:16). A grande festa que antecede o Pentecostes é a Páscoa. A esse respeito, sem mais nem menos, Paulo escreve, tratando no contexto de disciplina e impureza na Igreja, que:

“Joguem fora o velho fermento, para que vocês sejam nova massa, como, de fato, já são, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento do mal e da maldade, mas com o pão sem fermento, o pão da sinceridade e da verdade.” (1 Coríntios 5:7-8)

Paulo quer que os coríntios celebrem a festa (heortázōmen) pascal centrada em Cristo, o cordeiro imolado, e para fazê-lo devem se abster do fermento, isto é, das impurezas no meio da igreja, dos ímpios que se fazem de cristãos. Somente purificados podemos participar desse momento. Paulo usa aqui uma leitura alegórica do rito pascal israelita, que determinava retirar o fermento dos pães (Êx 12:15). O pão eclesiástico deve ser um pão sem fermento, isto é, sem a mistura do pecado. A Páscoa é festa dos puros, dos libertos, é festa do Êxodo. Já no Antigo Testamento, havia uma abstinência: o pão fermentado. Um Êxodo espiritual (não mais terreno) indicará uma vitória espiritual, uma libertação espiritual em relação aos poderes dominadores das trevas, o que nos levará aos 40 dias de Cristo no deserto.

Essa leitura alegórica de Paulo parte de uma teologia da preparação, muito comum em toda a Bíblia, e que pode ser resumida nas palavras de Js 3:5: “Santifiquem-se, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vocês.”. Esse tipo de preparação exige tirar do meio do povo de Deus os anátemas (Js 7:13) e envolve todo o povo (Jl 2:16). É assim antes de participar de um sacrifício (1Sm 16:5). Deus mesmo exige essa preparação (Êx 19:10-11). Por vezes, essa preparação inclui abstinência sexual (Êx 19:15; 1Sm 21:4; 1Co 7:5). Os apóstolos jejuavam antes de ordenar pessoas (At 13:2-3; 14:23). Purificação e preparação estão ligadas em 2Tm 2:21. O ministério de João Batista consistiu em conduzir o povo a preparar o caminho do Senhor através do arrependimento. Se eu entendo que amanhã Deus fará grandes coisas, devo estar pronto hoje. Não posso tratar as coisas de Deus de todo modo.

Essa teologia da preparação é fundamental para entender a Quaresma. Os primeiros cristãos sabiam perfeitamente da necessidade de preparação. Assim, houve, desde muito cedo, um período de preparação em jejum para o Batismo, como evidencia a Didaquê, e tudo isso seguindo a direção que Paulo indicou. Assim, quando os primeiros cristãos olhavam para a festa da Páscoa, deveriam pensar: como podemos nos preparar para esse momento tão importante, para a festa que celebra o Senhor Ressuscitado e, com isso, toda a nossa Redenção? Essa é a primeira pergunta bíblica para fazer. A resposta começou a ser dada por Paulo: removendo as impurezas. No contexto de 1Co 5, essas impurezas eram os devassos, avarentos, idólatras, maldizentes, bêbados, ladrões (v. 11).

Então se celebraremos a Páscoa, a próxima pergunta que temos de nos fazer é: eu sou alguma dessas coisas? Sou devasso, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou ladrão? Há em mim alguma dessas impurezas? Se sim, como deixar essas coisas? Uma reflexão sobre nossa própria condição é necessária, e cada um de nós descobrirá que há ainda pecados e impurezas em sua própria vida, dos quais deve se purificar pela graça de Deus (2Co 7:1; 2Tm 2:21; Tg 4:6-10). É aqui que começa a Quaresma.

A resposta bíblica que esses primeiros cristãos encontraram foi imitar o exemplo de Cristo e de outras figuras bíblicas, que prepararam-se através do jejum. Em primeiro lugar, o jejum é um modo típico de arrependimento penitencial bíblico, como forma de “humilhação” (1Rs 21:27; Ne 1:4; 9:1; Dn 9:3; Jl 2:12; Jn 3:5-10). O jejum era uma forma de castigar a própria alma (Sl 69:10). O jejum é uma abstinência de alimentos (e outros prazeres) durante um tempo (cf. Dn 10:3). Ele provoca em nós uma tristeza que é benéfica (cf. Ec 7:3; 2Co 7:10), e, como abstinência, é coerente com quem quer vencer a corrida (1Co 9:25-27). Isso, na linguagem cristã, é indicado por uma palavra: mortificação, subjugação do corpo (Rm 8:13; Gl 6:8; Cl 3:5). O resultado da mortificação é manifestar Cristo em nosso próprio corpo (2Co 4:10).

Ora, se o jejum é uma forma tão propícia de preparação, arrependimento e purificação, a próxima pergunta bíblica a fazer é: por quanto tempo devemos jejuar?

O número dos 40 dias naturalmente aparece como referência bíblica. Esse número está ligado ao Êxodo pascal: o povo israelita passou quarenta anos no deserto antes de chegar à Terra Santa (Êx 16:35). Era o tempo necessário para morrer a geração ímpia (que não poderia entrar na Terra); isso corresponde aos quarenta dias em que eles espiaram a terra prometida (Nm 14:34-35; cf. Ez 4:6). Durante esse tempo, “conhecereis o meu afastamento” (Nm 14:34), num curioso paradoxo com a promessa de que Deus não se afastaria daquele povo durante os quarenta anos (Dt 2:7). Os quarenta anos eram um tempo de afastamento, provação e humilhação, mas também de suficiência, cuidado e provisão (Dt 8:2-4).

O próprio Moisés havia, em dois momentos, jejuado por quarenta dias em preparação para receber a Lei (Êx 24:18; 34:28; Dt 9:9-11,18,25), e, durante o segundo tempo, ele intercede penitencialmente pelo povo (Dt 9:25; 10:10). Seguindo o mesmo modelo, Elias jejuou quarenta dias a caminho de Horebe (1Rs 19:8). Assim, há duas referências importantes aqui: Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas).

Na Bíblia, quarenta dias são o tempo de chuva do dilúvio (Gn 7:4,12,17), isto é, o tempo em que o antigo mundo morre para surgir o novo mundo. Quarenta anos era a idade dos gêmeos Isaque e Esaú quando se casaram com suas respectivas esposas, a arameia Rebeca e a hitita Judite (Gn 25:20; 26:34). Quarenta era o limite de açoites que se julgava que uma pessoa poderia suportar antes da desumanização (Dt 25:3). Quarenta dias foi o tempo em que Golias afrontou os israelitas (1Sm 17:16). Quarenta anos, representados por quarenta anos foi o tempo de juízo prometido ao Egito (Ez 29:11-13). O juízo foi prometido aos ninivitas dentro de quarenta dias (Jn 3:4).

Sem entrar em muitos detalhes, podemos observar que a história de Israel tem ciclos de quarenta anos, exemplificados por vários períodos de paz de quarenta anos (Jz 3:11; 5:32; 8:28), ou quarenta anos de punição (13:1), os quarenta anos de ministério de Eli (1Sm 4:18), quarenta anos do reinado de Davi (2Sm 5:4; 1Rs 2:11), do de Salomão (1Rs 11:42), do de Joás (2Rs 12:1).

Assim, quando Cristo jejuou por quarenta dias no deserto em preparação para o seu ministério (Mt 4:2; Mc 1:13; Lc 4:2), vindo depois a passar 40 dias de preparação para a Ascensão (At 1:13), havia um grande precedente para a importância desse número. Cristo é um novo Moisés, um novo Elias, o novo rei de Israel, o novo Êxodo, o novo espia (primeiro a entrar) da Terra Prometida, ele suporta o Exílio pelo seu povo (num novo Êxodo), ele enfrenta por quarenta dias o Golias espiritual (Satanás), ele é quem prepara a “nova terra” pós o “Dilúvio”, ele se prepara para o casamento com sua noiva.

Então, quando alguns dos primeiros cristãos se perguntaram por quanto tempo jejuariam para a Páscoa, a resposta veio facilmente: imitaremos Cristo, jejuaremos por quarenta dias em preparação para a Páscoa. Nesse sentido, a prática do jejum da Quaresma surge muito tranquilamente ao fazer as perguntas certas à Escritura, numa mentalidade bíblica. Isso não significa que essas perguntas tenham sido todas feitas simultaneamente; levou um tempo para que o atual costume eclesiástico se transformasse de uma pequena semente numa grande árvore, seguindo uma lógica apostólica.

Uma narrativa comum e muito coerente é a de que o jejum da Quaresma é um desenvolvimento do antiquíssimo jejum pré-Batismo, já que o Batismo era feito comumente na Páscoa. Mas não é impossível que a ordem tenha sido inversa, e que dois costumes de origens diferentes tenham se unido. Os teólogos anglicanos, conhecendo as diferentes referências patrísticas nessa área, atribuem o jejum da Quaresma a uma tradição apostólica e, ao mesmo tempo, sabem que houve um desenvolvimento do costume, preservando uma raiz apostólica. O Revmo. John Bramhall (1594–1663), arcebispo anglicano, escreveu:

“Não recebemos vossas tradições espúrias inovadoras, nem fundamentos não escritos; mas admitimos as Tradições genuínas, universais e apostólicas, como o Credo dos Apóstolos, a Perpétua Virgindade da Mãe de Deus, os festivais anuais da Igreja, o Jejum Quaresmal. Ainda que saibamos que tanto a duração quanto a maneira de observá-lo era bem diferente nos primeiros tempos.”

Answer to de la Militière

“Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias.” Marcos 2:20

Rev. Gyordano M. Brasilino

Esmolas e Tesouros

Mendigo

“Quem primeiro me deu a mim, para que eu haja de retribuir-lhe?
Pois o que está debaixo de todos os céus é meu.”
(Jó 41:11)

“Quem se compadece do pobre ao SENHOR empresta,
e este lhe paga o seu benefício.”
(Provérbios 19:17)

Um dos motivos pelos quais as traduções bíblicas mudam é que a própria língua muda. Às vezes palavras poderosas perdem sua força relativa. A sonoridade muda, a ligação com outras se dissipa na consciência das gerações mais recentes. O uso reiterado em algumas situações, o desuso paulatino em outras, as freqüentes metonímias e analogias, tudo pode obrigar o sentido a migrar. Continue lendo “Esmolas e Tesouros”

Sobre a palavra “penitência”

Profeta Jeremias

“Quando o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse “Arrependei-vos [Penitentiam agite] etc.”, quis que toda a vida dos crentes fosse penitência. (Martinho Lutero, 95 Teses)

“Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2Coríntios 7:10)

A vida cristã é uma vida entre dois mundos. Somos atacados pelo pecado e pela tentação, pelos cuidados deste mundo e pelo engano do diabo, pela fraqueza e pela ignorância, pela dor e pela morte, pela desesperança e descrença, pelo esfriamento do amor. Ainda assim, somos alvos do chamado celestial, participantes da natureza divina, filhos de Deus Pai, formados à imagem do seu Filho, habitados pelo Espírito Santo, receptáculos da misericórdia excelsa e herdeiros eternidade. Herdeiros da alegria eterna só herdada através da tristeza. Continue lendo “Sobre a palavra “penitência””