O Perdão segundo Jesus

As parábolas de Jesus nos dão uma imagem magnífica do perdão divino.

Na mais famosa, a do Filho Pródigo, o perdão escandaloso do pai vence toda a vergonha pública e se lança sobre filho, mesmo antes que ele confesse o seu pecado, e o chama à alegria do banquete escatológico. Bastou o retorno do filho. É o perdão doado sem reservas, sobre um filho que havia desonrado o pai, pela felicidade do retorno. O perdão é a reconciliação, é reviver, é ser encontrado.

Na parábola do Credor Incompassivo, o perdão é exigente quanto ao nosso comportamento futuro, mas sua compaixão diante da humilhação penitente é tamanha que toda a dívida é perdoada — nenhum centavo resta a pagar.

Repetindo o tema, a Parábola dos Dois Devedores fala da motivação do perdão: os dois devedores não têm com o que pagar, e o resultado é que aquele que foi mais perdoado amou mais.

Na parábola mais próxima da realidade humana (parábola exemplar), a do Fariseu e do Publicano, novamente bastou confissão penitente e contrita do publicano diante do altar divino, sem o desejo de parecer melhor do que ninguém, e ele retornou para casa justificado.

Essas lindas parábolas estão em continuidade com as narrativas patriarcais de perdão gratuito — de como Esaú e Jacó se reconciliam, ou de como José perdoa os seus irmãos —, e se inserem no Pai Nosso, no qual o perdão divino sobre nós e o perdão humano sobre os nossos devedores se vinculam tanto em natureza (perdoamos do medo modo) como em dependência (somos perdoados porque perdoamos).

A imagem que essas parábolas transmitem não é a de um Pai exigente que só perdoa quando é satisfeito, quando tem sua honra reparada (Sto Anselmo) ou quando tem sua ira satisfeita com violência (Calvino). Deus é maior que a mesquinharia humana.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Mártires Expiadores

A chamada “teologia dos mártires” é um dos elementos do judaísmo do Segundo Templo que provavelmente influenciaram o cristianismo. Em síntese, essa doutrina ensina que aqueles que morriam zelosos da Lei, num tempo em que Israel estava sob a ira divina pela desobediência à Lei, por sua obediência extraordinária de entregar a própria vida, expiavam o pecado da nação.

A lógica às vezes parece ser de que, quando o castigo nacional e coletivo (a opressão pagã e idólatra) recai sobre os mártires inocentes, sua condição suscita a compaixão divina, seguindo aquela lógica, bem assentada no Antigo Testamento, de que nosso sofrimentos são instrumentais na misericórdia de Deus (“Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa todos os meus pecados.“, Sl 25:18), mas agora segundo uma aplicação nacional. Assim como a punição da nação recai sobre eles, a misericórdia lançada sobre eles cobre a nação. Assim também, a nação estrangeira, ao se exceder na execução do juízo divino, atrai para si esse juízo.

2 Macabeus 7:30-38 | 30 …Eu não obedeço ao mandamento do rei! Ao mandamento da Lei, porém, que foi dada aos nossos pais por meio de Moisés, a esse eu obedeço. 31 Quanto a ti, que te fizeste o inventor de toda a maldade que se abate sobre os hebreus, não escaparás às mãos de Deus. 32 Porquanto nós, é por causa dos nossos pecados que padecemos. 33 E se agora, a escopo de castigo e correção, o Senhor, que vive, está momentaneamente irritado contra nós, ele novamente se reconciliará com os seus servos. 34 Mas tu, ó ímpio e mais celerado de todos os homens, não te eleves estultamente, agitando-te em vãs esperanças, enquanto levantas a mão contra os seus servos, 35 pois ainda não escapaste ao julgamento de Deus todo-poderoso, que tudo vê. 36 Nossos irmãos, agora, depois de terem suportado uma aflição momentânea por uma vida imperecível, morreram pela Aliança de Deus. Tu, porém, pelo julgamento de Deus, hás de receber os justos castigos por tua soberba. 37 Quanto a mim, como meus irmãos, entrego o corpo e a vida pelas leis de nossos pais, suplicando a Deus que se mostre logo misericordioso para com a nação e que, mediante provas e flagelos, te obrigue a reconhecer que só ele é Deus. 38 Possa afinal deter-se, em mim e nos meus irmãos, a ira do Todo-poderoso, que se abateu com justiça por sobre todo o nosso povo!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Quatro enganos sobre Perdão

Quatro enganos frequentes envolvem o perdão.

O primeiro é o de que perdoar significa esquecer. Isso é falso, se tomarmos a palavra “esquecer” no sentido mais comum. Pessoas que sofreram profundamente carregam danos por anos, sem conseguir esquecer o que passaram. Você pode dizer que perdoar implica esquecer apenas se usar o sentido qualificado da palavra — não alimentar a lembrança dolorosa, não dar a ela uma atenção aprisionadora, não se entregar à amargura.

Quando alguém diz “eu não consigo perdoar”, o mais comum é que signifique “eu não consigo esquecer” — e, portanto, que a memória continua trazendo dor. Mas somente feridas superficiais são esquecidas facilmente. Embora ser capaz de respirar sem o fantasma da memória má, encontrando “resolução”, seja muito bom e parte do nosso crescimento, perdoar não significa esquecer.

(Talvez venha daí o mito de que, no Paraíso, as pessoas não lembrariam do que aconteceu nesta vida. É claro que elas lembram, mas lembram com Amor desimpedido.)

O segundo engano é o de que perdoar significa conviver. Esse é um pouco mais complicado. O Amor Divino envolve desejar o bem e desejar a união mesmo com nossos inimigos. Se amo uma pessoa, eu não só desejo que ela fique bem, eu desejo união com ela em Deus. Mas, num mundo marcado pelo pecado e por mil dificuldades das relações humanas e da comunicação, nem sempre a união (ou sua busca) significa presença física, proximidade e convívio. Em alguns casos, o convívio pode ser mau, não só para quem sofre, mas também para quem pratica o mal, porque pode reforçar o hábito do pecado já cometido. (Isso exige atenção pastoral.)

O terceiro engano diferente e quase oposto dos anteriores, é de que perdoar é apenas uma decisão. Querer perdoar já é o começo do perdão, mas ele precisa ser consumado: perdoar é uma ação e se dá no contexto de relação concreta, ao longo do tempo. Por isso, Cristo ensina no evangelho: “se o teu irmão vier a ti…”. Eu entendo as pessoas que dizem que perdoar é uma decisão; querem dizer que perdoar não é só um sentimento ou impulso, e isso é muito verdadeiro — nós perdoamos mesmo quando não sentimos desejo de perdoar. Mas o perdão é um processo e pode levar um tempo.

O quarto engano é de que perdoar significa não punir ou não denunciar algo que nos foi feito. Quando se trata de alguém que habitualmente pratica o mal, permitir que a pessoa saia impune é permitir que ela cometa o mesmo mal contra outras pessoas, o que significa lhe dar oportunidade para ferir a si mesma e a outras pessoas — portanto, é contribuir com o mal, mesmo que numa medida menor.

Rev. Gyordano M. Brasilino