Redenção sem Substituição?

Como ensinar a Redenção de maneira simples, sem Substituição Penal?

Geralmente as pessoas fazem essa pergunta porque, tendo sido ensinados a pensar a salvação nos termos da Substituição Penal, não conseguem pensar o assunto de outro modo, então ficam sem saber como “evangelizar” ou “pregar”.

É importante entender: pregar o Evangelho NÃO é explicar a teologia da expiação. Pregar o Evangelho é contar a história da Redenção, aquilo que está no Credo, o querigma dos apóstolos nos Atos.

A salvação não tem a ver com as ideias que você tem na cabeça quando pensa sobre a expiação. Tem a ver com confessar com a boca que Jesus Cristo é Senhor, crer no coração que Deus o ressuscitou dos mortos, com todas as consequências. A afirmação de que “Cristo morreu por nossos pecados” (1Co 15:3) é essencial para esse querigma, mas jamais isso é convertido pelos apóstolos numa teoria penal (morreu como réu substituto, punido por Deus).

Todas as pessoas que acrescentam a esse depósito apostólico uma teologia da expiação como parte da essência do evangelho incorrem no anátema paulino.

Há algumas rotas bem simples para explicar a Redenção. Todas essas rotas levam a explicações complicadas, mas isso é da essência da verdade. Quem quer uma doutrina que seja inteiramente simples procura uma mentira.

Sete boas rotas (todas conectadas):

VITÓRIA SOBRE O PECADO (Prêmio e Recapitulação). “…tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira…” (Fp 2:8–9).
— Não a morte apenas, mas a obediência (amor) até a morte mereceu o senhorio de Cristo dentro da ordem cósmica. Cristo mereceu a Ressurreição e o envio do Espírito Santo. A essência do sacrifício é essa oferta do coração, através da qual Cristo continua intercedendo por nós. Essa obediência de Cristo substitui a desobediência de Adão.

VITÓRIA SOBRE O DIABO (Libertação). “…para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo,” (Hb 2:14).
— Há várias maneiras de explicar a maneira pela qual o diabo perdeu sua “autoridade” (abusada). Uma delas é a ideia de que, ao atacar Cristo, ele se excedeu em extremo, e por isso foi punido. Com isso, Cristo libertou os que estavam debaixo do poder do inimigo.

VITÓRIA SOBRE A MORTE (Ressurreição). “ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte…” (Atos 2:24).
— Ao entrar na morte, Cristo desfez desde dentro todas as barreiras que havia para a vida eterna. Unidos misticamente a ele, nós temos o mesmo destino.

SACRAMENTO. “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue tem a vida eterna…” (Jo 6:54).
— Cristo sofreu ali para disponibilizar seu poder vital divino através do sacramento.

EXEMPLO e ENSINO. “…Cristo padeceu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigais as suas pisadas,” (1Pe 2:21).
— Embora o exemplo e ensino de Cristo não sejam suficientes para explicar o propósito de missão, ele ensina como muita clareza que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade”. Deus poderia ter salvado a humanidade só com um ato de poder, sem sofrimento; mas seguiu o caminho do sofrimento porque neste nós podemos imitá-lo em sua humildade.

IDENTIFICAÇÃO. “Por isso mesmo, convinha que, em todas as coisas, se tornasse semelhante aos irmãos, para ser misericordioso e fiel sumo sacerdote nas coisas referentes a Deus e para fazer propiciação pelos pecados do povo.” (Hb 2:17).
— Ao assumir a condição humana, sem detrimento da sua pureza perfeita, Cristo recebeu sobre si todas as suas mazelas, incluindo a mortalidade. Então Cristo sofre as consequências do pecado humano (não como substituição, mas como empatia) sem merecê-las, e isso, a um só tempo, ressalta o mérito de sua paixão (pois a justiça exige sua vindicação) e, portanto, o seu prêmio, e se torna o meio pelo qual ele cura e eleva a humanidade desde dentro (deificação). Isso inclui a identificação com o sofrimento de Israel (Isaías 53).

ALIANÇA. Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós, porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro; para que a bênção de Abraão chegasse aos gentios…” (Gl 3:13-14).
— Ao ser amaldiçoado pelos detentores da aliança, Deus está efetivamente fora dela e, portanto, acessível ao mundo inteiro, fora da limitação temporária da Lei.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A teoria de Santo Anselmo funciona?

O que eu acho da teoria da satisfação de Santo Anselmo? De vez em quando, alguém pergunta sobre essa teoria, geralmente algum evangélico instatisfeito com a teologia da Substituição Penal que, pelo hábito, não quer largá-la de todo, procurando refúgio na lógica mais próxima. A teoria de Santo Anselmo preparou o caminho para a Substituição Penal.

Basicamente, essa teoria da satisfação explica a obra redentora como uma “reparação” (satisfação) da honra de Deus, que foi violada pelo pecado (de Adão e depois o nosso). Embora a honra de Deus propriamente dita não seja afetada, a ordem do mundo (ordo universi) o foi, e há a necessidade de uma reparação para que a humanidade possa ser perdoada. A redenção é explicada em termos dessa “habilitação” do perdão divino: a obediência de Cristo repara (satisfaz) a desobediência da humanidade, que esta não seria capazes de satisfazer, já que todo bem que a humanidade faz estaria já dentro de sua própria obrigação, nunca havendo “crédito” para compensar os deméritos.

Eu vejo vários méritos e vários problemas sérios na teoria anselmiana. Vou mencionar três prós e quatro contras:

P1. A teoria concorda muito bem com nossas experiências em torno de crimes graves. Diante de algo como o apartheid, por exemplo, ninguém espera que os criminosos sejam simplesmente perdoados e a coisa seja esquecida. Há a necessidade de uma reparação. Embora a teoria anselmiana seja frequentemente acusada de refletir o sistema feudal de lealdades, penso que isso diz respeito apenas à linguagem que Anselmo usa, e não à substância de sua doutrina, que pode ser exemplificada tanto na Idade do Ferro como hoje. De fato, quando os primeiros pais da Igreja usaram a noção de “satisfação”, muito antes de Anselmo, eles tinham em mente, em primeiro lugar, não tanto a obra de Cristo, mas o tipo de reparação penitencial que nós fazemos quando pedimos perdão a Deus. Eu penso que a teoria anselmiana tem esse mérito, que diz mais respeito à psicologia do penitente/perdoado e à sociologia da honra.

P2. Um segundo mérito na teoria anselmiana é fazer a pergunta correta: por que Deus se fez homem? Essa era a pergunta que os seus interlocutores judeus e muçulmanos (reais ou imaginários) fariam. Na modernidade, nós frequentemente fazemos a pergunta errada: por que Jesus morreu? Embora exista um “propósito” nessa morte, a pergunta correta deve ser em termos de encarnação, e é isso o que nos permite ressaltar corretamente diversas dimensões da obra redentora (não apenas a morte): a obediência, a doutrina, os milagres e exorcismos, o sofrimento, a descida aos infernos, a ressurreição, a ascensão. Tudo isso é parte da obra redentora, e nós falhamos em entendê-la quando perguntamos de maneira muito restrita.

P3. Um terceiro mérito na teoria anselmiana é preservar o pano de fundo de todas as grandes teologias da redenção: a recapitulação adâmica. Cristo recupera e supera, por sua obediência, aquilo que foi perdido em Adão, por sua desobediência (sob instigação demoníaca). O Novo Testamento tem coisas importantes a dizer sobre a centralidade da obediência de Cristo, coisa nem sempre ressaltada nos debates sobre a redenção.

C1. Embora faça uso das Escrituras, a teoria anselmiana, por se dirigir à instrução de cristãos que debateriam com judeus e muçulmanos, faz uso de uma premissa metodológica arriscada: o argumento racionalista (sola ratione). Isso nos leva a um problema sério que vicia toda a lógica da teologia redentiva de Santo Anselmo no “Cur Deus Homo”: ele vê o pecado como uma transgressão da honra divina, já que ele precisaria de uma noção de pecado com a qual judeus e muçulmanos de boa vontade pudessem concordar. Esse entendimento limitado e superficial do pecado, que minimiza dimensões mais importantes (o pecado como corrupção mortal e escravidão espiritual), coloca o alvo na direção errada.

C2. Como todo o problema a ser solucionado é a transgressão da honra divina, a teoria de Anselmo não explica como o sangue de Cristo nos traz santidade (como em Hebreus). Se o pecado não é visualizado como corrupção, a conexão entre redenção e santificação é esquecida. Esse problema é herdado pela Substituição Penal.

C3. Com um enfoque na obediência de Cristo (o que é um mérito), Anselmo não foi capaz de explicar satisfatoriamente o motivo teológico de sua morte. Embora a obediência seja vista como coisa necessária à salvação, a lógica anselmiana realiza a salvação já no primeiro ato de obediência de Cristo. Assim como a Substituição Penal não é capaz de explicar por que um sofrimento mínimo já não seria satisfação penal suficiente, a teoria anselmiana não é capaz de explicar por que o primeiro ato de obediência de Cristo já não seria suficientemente meritório para cobrir todos os pecados dos homens, sem sua morte.

C4. Nessas teologias, o perdão e a reconciliação divinos deixam de ser gratuitos para Deus. São, de certo modo, gratuitos para quem os recebe, mas não para Deus. Isso impõe efetivamente uma limitação nos atos de Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino