A Conversão de Roma

A breve história do encontro entre Jesus e um centurião romano (Mateus 8:5-13) se convita o leitor a uma leitura espiritual e alegórica. Esse encontro é mais do que uma história de milagres como tantas outras.

O centurião é um representante da autoridade romana e do poder romano, que avançava pelo mundo fazendo províncias pelo poder militar, e esse mesmo centurião faz referênica à cadeia de comando da qual era parte (“eu sou homem sob autoridade, e tenho soldados às minhas ordens”). Para o centurião, Jesus tem sua própria cadeia de comando, capaz de curar.

Essa história tem um paralelo intencional em outra história de milagre no mesmo Evangelho: o exorcismo da filha de mulher canaanita (15:21-28). Essas histórias têm sete elementos principais em comum:

1. Não sabemos os nomes dos personagens, mas eram ambos pagãos.

2. O personagem que encontra Jesus procura um milagre para outra pessoa: o centurião, para o seu escravo; a mulher canaanita, para a sua filha.

3. Jesus elogia a fé dessas pessoas. No caso de Mateus, Cristo é explícito em dizer que essa fé está acima da dos israelitas; no caso da mulher canaanita, ele não o diz explicitamente, mas essa fé é vista como suficiente para romper a separação entre os filhos (puros) e os cachorrinhos (impuros).

4. A versão mateana, em ambos os casos, amplia a resposta final de Jesus. Marcos conhece a história da sirofenícia e Lucas conhece a história da cura do servo do centurião, mas a versão de Mateus é, em ambos os casos, bem mais significativa na resposta final.

5. Ambas as histórias lidam com hierarquia.

6. Em ambos os casos, Jesus não vai até o lugar para curar, mas cura à distância. (Veja-se a diferença do caso da cura da filha de Jairo, em que Jesus é chamado a curar e vai fisicamente até o lugar, gerando um “atraso” significativo.)

7. Em ambos os casos, há uma linguagem escatológica em jogo: ambas falam do banquete escatológico. Em um caso, é o banquete já inaugurado; no outro, é o banquete aguardado.

Essas semelhanças dão a entender que a maneira de contar a narrativa do centurião é intencional. Certo retrato simbólico é consturído, e as palavras do próprio Cristo indicam essa direção (“eu vos digo que muitos virão do oriente e do ocidente”), significando que aquele acontecimento tinha um sentido mais profundo.

Esse retrato é o da conversão de Roma. O centurião, cuja função é realmente representar uma parcela da autoridade romana, encontra-se ali como um símbolo do destino do Império. Cristo não esteve fisicamente em Roma (“não sou digno de que entres debaixo do meu telhado”), mas ele diria uma palavra que levaria graça e cura ao escravo que estava à beira da morte. Cristo curaria a escravidão espiritual de Roma e lhe daria salvação, através da sua Palavra. Pela fé, eles seriam acolhidos na Mesa do Reino e seriam família de Abraão, Isaque e Jacó. Não seriam cachorros, mas filhos.

Quando o Evangelho de Mateus foi escrito, já havia cristãos em Roma há algum tempo, e o evangelista retrata aqui, num encontro de Jesus com um romano, o encontro de Roma com Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino