Sacrifício eucarístico de louvor?

Quanto ao Sacrifício Eucarístico, algumas pessoas tentam fazer uma cisão que, embora bem-intencionada (explico ao fim), é profundamente incorreta: procuram tratar “sacrifício de louvor” e “sacrifício expiatório” como coisas antagônicas e separadas. O que Cristo fez historicamente seria um sacrifício expiatório; o sacramento seria apenas sacrifício de louvor.

Essa separação cria um problema muito óbvio para qualquer pessoa com dois neurônios: a partir daí, há *dois sacrifícios* diferentes, o de Cristo e o da igreja. Isso, por si só, já é motivo de escândalo. A Igreja não presta nenhum sacrifício autônomo ou independente do de Cristo, mas apenas participa do dele. Isso é ao mesmo tempo da fonte de glória (pois ela está em Cristo e realiza tudo no nome, no poder e no corpo de Cristo) e de humildade (pois ela nada contribui de independentemente seu) da igreja.

Essa doutrina de “dois sacrifícios” leva, consequentemente, à negação da Presença Real, pois significa que o corpo de Cristo sobrenaturalmente presente não é mais aquele corpo que, na cruz, era sacrifício. O corpo de Cristo *é* sacrifício expiatório. O sangue de Cristo *é* sacrifício expiatório. Se o sacramento não é sacrifício expiatório, não é o corpo e o sangue de Cristo.

O Senhor Jesus Cristo, na instituição mesma do sacramento, nos dá indicações disso, nas diferentes versões que os evangelhos canônicos nos deixaram (Mt/Mc e Lc/1Co). Cristo diz:

— Mt 26:28: “isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.”

— Lc 22:19-20 “…Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim…. Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.”

Ao dizer “em favor de muitos”, “por vós”, “para remissão de pecados”, Cristo vincula ao seu corpo e sangue esse caráter expiatório, e ele o faz precisamente no momento exato em que institui o sentido do sacramento. É loucura estabelecer o sentido do sacramento sem atentar para exatamente o que Cristo disse naquela hora. Portanto, o sacrifício de louvor é sacrifício expiatório.

Isso se deduz também do efeito do sacramento, que é comunhão com o corpo e sangue de Cristo, assim como união espiritual entre os cristãos (1Co 10:16-17). Ora, isso não se realiza apenas por força da gratidão da Igreja, mas também e principalmente por força do caráter expiatório do corpo e do sangue de Cristo.

Eu entendo os motivos pelos quais essas pessoas querem fazer essa separação, e concordo com a intenção. Essas pessoas estão tentando evitar justamente aquilo que os 39 Artigos também condenam: a ideia de que os “sacrifícios das missas” sejam sacrifícios adicionais, com méritos adicionais, coisa que devemos rechaçar. Há um só sacrifício, o de Cristo, e tudo mais é apenas o sacrifício de Cristo mesmo, tomando corpo no mundo.

Não posso deixar de compartilhar as belas palavras do Rev. Jeremy Taylor (1613–1667), que explica magistralmente a ligação entre o sacramento na terra e o sacerdócio de Cristo nos céus:

“Assim como Cristo é um sacerdote perpétuo nos céus, e ainda assim não se sacrifica novamente, nem sem sacrifício poderia ser um sacerdote, mas pela ministração e intercessão ele representa seu sacrifício a Deus, e se oferece como sacrificado, assim também ele faz na terra, pelo ministério dos seus servos. Ele é oferecido a Deus, isto é, ele é, por orações e pelo Sacramento, representado e oferecido a Deus “como sacrificado”; o que, de fato, é uma celebração de sua morte e sua aplicação às necessidades presentes e futuras da Igreja por um ministério semelhante ao seu nos céus. Segue-se, então, que a celebração desse sacrifício é, em sua proporção, um instrumento de aplicação do sacrifício adequado a todos os seus propósitos, que ele primeiro designou. Ele é ministerialmente, e por aplicação, um instrumento propiciatório; é eucarístico, é uma homenagem e um ato de adoração; e é impetratório, e obtém para nós, e para toda a igreja, todos os benefícios do sacrifício que então é celebrado e aplicado; isto é, como esse rito é a memória e celebração ministerial do sacrifício de Cristo, logo ele é destinado a honrar a Deus, a expressar homenagem e dever dos seus servos, a reconhecer seu supremo domínio, a lhe dar graças e culto, a suplicar perdão, bênçãos e provisão para todas as nossas necessidades.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo pôs fim à limitação dos sacrifícios?

Existe uma maneira incorreta de contar a história do Antigo Testamento ao Novo, quanto ao tema do sacrifício. Algumas pessoas pensam a coisa assim: no Antigo Testamento havia os sacrifícios de animais, como maneira de receber o perdão de Deus, e o Novo Testamento veio e aboliu a coisa com o sacrifício de Jesus.

Esse equívoco é comum em pessoas que só leem a Bíblia e o fazem de uma maneira mais desatenta e particularmente “pactual”. (Não me refiro à “teologia do pacto” reformada.) É como se o sacrifício de animais fosse a maneira única de receber perdão na Antiga Aliança e isso termina com o sacrifício de Cristo. Isso leva a vários enganos tanto no entendimento da natureza dos antigos sacrifícios quanto na da obra da Redenção.

É verdade que, de uma perspectiva cristã, o sacrifício de Cristo torna sem sentido os antigos sacrifícios (como em Hebreus). Mas uma coisa é explicar uma relação teológica e simbólica, outra coisa é contar uma história. No mundo concreto dos fatos humanos, há sempre uma imensidão de fatores em jogo. A história não é tão simples.

Na verdade, os sacrifícios continuaram sendo realizados depois que Cristo morreu — e os apóstolos aparentemente continuaram envolvidos nesse sistema simbólico por um tempo —, e muito antes dele nascer as pessoas já sabiam que os sacrifícios não eram a única maneira de receber perdão. Outras ações eram equiparadas.

Quando a maior parte do Antigo Testamento foi escrita, várias religiões do mundo antigo (inclusive a israelita) haviam passado por um processo de espiritualização e interiorização do sacrifício: o rito exterior passou a ser visto como uma “corporificação” (em forma de dom) das intenções interiores dos adoradores, assim como uma maneira de tornar visíveis a comunhão entre os adoradores e (no caso dos sacrifícios expiatórios) o perdão divino. Embora a ideia já tenha sido criticada sob várias frentes, e muitas vezes a crítica seja legítima, ela continua existindo nos estudos da área, sob o nome, popularizado por Jaspers, de “Era Axial”.

Ademais, por fatores de sua própria história, a religião oficial passou por um tempo sem seu próprio Templo. Assim como no judaísmo contemporâneo, que encontra perdão sem o oferecimento de animais, assim também foi em tempos anteriores. Por isso, nós nos deparamos, tanto em trechos do Antigo Testamento e na literatura posterior, a equiparação de várias ações religiosas não-sacrificiais ao sacrifício. Por exemplo:

• O sacrifício agradável a Deus é o do coração (Sl 51:16-17).

• Diversas ações são tratadas como sacrificiais (Sir 35:1-5).

• Pede-se que a oração seja tratada como incenso e sacrifício (Sl 141:2; cf. Pv 15:8). Assim também o cântico (Sl 27:6; 50:14,23; 54:6; 107:22; 116:17).

• O temor é maior que os sacrifícios (Jud 16:16).

• A esmola e misericórdia expia pecados (Pv 10:2; 11:4; 16:6; 21:3; Tob 4:7-11; 12:8-9; Sir 3:33; cf. Os 6:6).

• A honra aos pais expia pecados (Sir 3:3,14).

• Mudança das más obras para as boas, na prática da justiça, é suficiente (Ez 18).

• Os mártires faziam expiação pelos pecados da nação (Dn 3:40 LXX; 2Mc; 4Mc).

Por isso, quando Hebreus 13 fala do sacrifício da beneficência e do louvor, ou quando Romanos 12 fala do sacrifício dos nossos corpos, não diz coisa nova. Essa doutrina cristã já estava lá, bem assentada, no Antigo Testamento e nas religiões próximas. Afinal, ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”, Cristo citou o Antigo Testamento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Lava-Pés: Quatro Sentidos

Podemos ver quatro sentidos (não exaustivos e não exclusivos) no ato de Cristo de lavar os pés dos seus discípulos.

☩ Sentido Literal: Ao lavar os pés dos discípulos, Cristo coloca diante deles um exemplo a ser seguido. Eles deveriam estar dispostos a ter seus pés lavados e lavar os pés mutuamente, mostrando, com isso, um compromisso de humildade, serviço, reciprocidade, fidelidade a Cristo. No ambiente semítico e oriental de Jesus, o gesto de lavar os pés de outra pessoa era desonroso e inaceitável, que dirá se feito por um mestre, mas esse amor extremo de Jesus deve iluminar todas as nossas práticas e toda a nossa vida.

☩ Sentido Alegórico: O lava-pés é um ato profético (“compreendê-lo-ás depois”) que aponta, no contexto do Quarto Evangelho, para a missão do próprio Cristo, que foi despido em sua Paixão e verteu água quando ferido. Seu sacrifício traz transformação e pureza para os seus discípulos, uma pureza da qual eles precisam continuamente se limpar. Eles devem confiar em Jesus, e confiar que a humildade dele na cruz não é uma derrota, mas o meio pelo qual ele os purificaria. Ao dizer “Se eu não te lavar, não tens parte comigo“, Cristo mostra que não há salvação fora do seu sacrifício. Pedro, resistente à mensagem, representa aqui a Igreja na sua dimensão mais humana, frágil, que tantas vezes resiste ao plano do Senhor. Os discípulos, seguindo o modelo de Jesus, levam a pureza de Jesus para outras pessoas; eles limpam outras pessoas com a graça de Jesus, mas só o fazem plenamente se eles mesmos tiverem sido limpos.

☩ Sentido Moral: O texto aponta para duas dimensões da nossa alma, aquela que mais profundamente está ligada a Jesus (e portanto já está limpa) e aquela mais baixa, que continuamente se suja pelo contato com o mundo. Embora já tenhamos sido purificados por Jesus uma vez, não temos parte com ele a menos que ele limpe os nossos pés. Por isso, para termos plena comunhão com ele, precisamos de que ele nos limpe. A graça de Cristo nos livra mais facilmente dos pecados maiores e visíveis, mas há sempre uma sujeira por baixo que necessita de purificação. “Já lavei os pés, tornarei a sujá-los?” (Cânticos 5:3)

☩ Sentido Anagógico: Esse texto aponta para a pureza plena e definitiva que Cristo trará a nós e a este mundo. Embora ainda enfrentemos o pecado, um dia ele nos purificará por completo, limpará os nossos pés para que estejamos com ele para sempre em Terra Santa, na Nova Jerusalém. Ficarão de fora os impuros, mas, se já tivermos sido purificados pela lavagem do corpo, restará apenas uma limpeza menor, que ele fará por sua graça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Sacrifício, Violência, Dom

O Novo Testamento apresenta a Igreja como “casa espiritual” para “oferecer sacrifícios espirituais”. Em razão disso, não é possível entender a essência e a missão da Igreja sem entender o que é um sacrifício. Uma eclesiologia sacrificial é necessária.

Na linguagem corrente, usamos a palavra “sacrifício” num sentido negativo: sacrificar é eliminar, é destruir, é negar, ou, ao menos, realizar algo através de algum tipo de dor pessoal que seja, em algum sentido, também destruição. O sacrifício envolve alguma forma de violência, e a Igreja, particularmente na forma da comunidade concreta, passa a ser um lugar de violência sublimada — um lugar de violência simbólica. Embora Girard veja no sacrifício de Cristo o fim de uma história terrível, no fim das contas a narrativa padece desse mesmo preconceito antissacrificial, e nos deixa a ver navios quanto ao propósito da Igreja enquanto continuidade da prática sacrificial.

Esse é um dos motivos pelos quais eu creio que a heresia kenótica tenha certo apelo entre os diletantes modernos da cristologia. Se eu entendo que sacrificar é deixar para trás, é concebível, para os sequazes de uma antimetafísica obstinada, que a obra de Cristo consista, em parte, no abandono (temporário) da sua divindade. Se sacrificar é negar, há algum sentido nisso. (Bem pouco, sinceramente.)

Mas não é bem esse o sentido que a palavra “sacrifício” tem na tradição cristã e, francamente, também na própria Bíblia. Embora isso seja muito claro em Santo Agostinho — para quem o sacrifício é uma forma de unir, não uma forma de destruir, uma forma de afirmar, não uma forma de negar —, acho que a primeira pessoa que realmente chamou minha atenção para isso tenha sido Robert Daly, há poucos anos. O fogo do amor não destrói a oferta, antes a eleva às regiões superiores; isso é realmente “sacri-ficar”, tornar sagrado.

Um sacrifício é uma forma de presente, de entrega, de dom. Na raiz das mais diversas religiões, está a noção de que o sacrifício é uma forma de alimentar a divindade, coisa que, óbvio, se torna supérflua a partir do momento em que a divindade é tratada em termos propriamente absolutos. Por isso também, a forma de sacrificar é mudada. Santo Agostinho diz, de modo interessante, na Cidade de Deus: “E a razão por que aqueles sacrifícios [da lei] tiveram de ser mudados, no momento oportuno e pré-estabelecido, foi precisamente para impedir que as pessoas acreditassem que os sacrifícios em si mesmos, em vez das coisas significadas por eles, eram desejadas por Deus ou ao menos aceitáveis em nós.” (X, 5)

De todo modo, o que está em jogo não é a morte — que só acontece em alguns tipos de sacrifícios —, mas o oferecimento do presente. Não é à toa que os sacrifícios sejam chamados de “dons” (gr. dōra). Sacrificar é presentear, e, por isso, é uma forma de transitar (inaugurar, restaurar, fortalecer) numa dinâmica de amizade, agradecimento e reciprocidade para com os poderes superiores. O Antigo Testamento tem alguns resquícios simbólicos da ideia de alimentar a divindade, mas o rejeita frontalmente, particularmente no discurso dos profetas, para quem o melhor sacrifício a se oferecer a Deus é a justiça compassiva para com o próximo e o culto do coração a Deus. São Tomás nos lembra de que o nosso principal sacrifício é a devoção, e isso tudo é parte de um processo de quase três milênios, que ainda não acabou, no qual temos ressignificado (espiritualizado) o sacrifício.

Tudo isso é muito óbvio para quem tenha refletido acerca da noção de Sacrifício Eucarístico. Na Eucaristia, não eliminamos ou destruímos nada de Cristo, muito pelo contrário. O sacramento não destrói, somente “acrescenta”. Embora possamos falar de um investimento de recursos, tempo, atenção e tantas outras coisas que a celebração do sacramento possa envolver, no fundo, o nosso próprio oferecimento só é pleno quando todas essas coisas forem vistas como formas de ganhar, não como formas de perder. Tratar o sacrifício como eliminação é impiedade. Todas as vezes em que sacrificamos, seja na Eucaristia, seja em qualquer outra coisa, nós somos os beneficiários.

O sacrifício não é parte de um jogo de soma zero, mas sim de uma uma dinâmica simbólica criativa, um de aprofundamento ontológico. Por isso, ao dizer “não tenho minha vida por preciosa”, Paulo tornou sua vida sumamente preciosa. Inversamente, ao dizer “não darei ao Senhor sacrifícios que não me custem nada”, Davi tornou em nada o valor que ele ofereceu a Deus. No sacrifício, damos a Deus tudo como se não fosse nada, e é assim que nada se torna tudo. Sacrificar é dizer: nossa amizade, nossa comunhão, é mais importante do que tudo o que esteja em minhas mãos, por isso, com desapego, eu te dou. O apego destrói o valor; a entrega o multiplica.

Por isso, não há qualquer oposição ou contradição entre a Eucaristia como sacrifício e a Eucaristia como banquete — nós comemos entregando e entregamos comendo; tanto sacrifício quanto banquete são formas de dizer: união com Deus. Se essas duas coisas forem bem entendidas, não há sequer como enfatizar uma sem que a outra seja igualmente enfatizada.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Dom Escatológico do Celibato

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Não vivemos para o sexo. Eu lembro que, na época da escola, tive uma conversa com um colega sobre isso. Por algum motivo, falamos sobre planos para o futuro e esse colega me disse que pensava, como objetivo de vida, em casar e fazer sexo, “pois é para isso que nós vivemos”.

Eu não era cristão, não acreditava em Deus, então não fazia nenhuma ideia sobre um propósito para a vida. Nunca tinha pensado seriamente sobre aquilo, e tinha muita dificuldade de responder qual era o propósito da vida. Foi a primeira vez que alguém colocou um propósito. Mas eu fiquei chocado em pensar que a vida se resumiria, de fato, a alguns momentos de prazer. Parecia pouco.

A fé cristã ensina muito claramente que esse não é o propósito da vida. Cristo era celibatário. Paulo e tanto outros discípulos seguiram a mesma rota. Se eles nos ensinam algo nessa área, é a moderação, o domínio próprio. Assim, o mesmo Paulo não só recomenda o celibato, como recomenda que os viúvos permaneçam como viúvos (1Co 7:8), embora não proíba totalmente um segundo casamento. Ainda assim, os ministros e as viúvas consagradas ao serviço na Igreja (e que dela dependem) não devem ter um segundo casamento, como ensina 1Tm 3:2; 5:9.

Aqui vemos claramente como a fé cristã se distingue do judaísmo ou do islamismo. A despeito de como seja interpretada (e alegorizada), é famosa a concepção muçulmana de que o prazer sexual é parte da nossa realização celestial última. Na religião cristã, o sexo, embora seja bom se vivido como “leito sem mácula”, é coisa apenas desta vida.

Embora nem todos tenham a vocação do celibato, uma coisa não é opcional para os cristãos: “E os que são de Cristo crucificaram a carne com as suas paixões e concupiscências.” (Gl 5:24). Então nossa vida não é dominada por desejos e necessidades humanas, mas pela sede que só é saciada no Deus Vivo. O que se esconde na mentalidade de cristãos que consideram inferior o celibato (a condição de Cristo!) talvez possa ser, em alguns casos, uma vida dominada pelas paixões, tão dominada que essas paixões passam a controlar a maneira como julgamos as coisas.


O Novo Testamento dá um lugar especial ao voto do celibato. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente como essa condição é recebida por Deus. Essas palavras indicam que se trata, ao menos, de uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia, para todos nós, a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária, acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62), um escândalo para os padrões da época. Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. No Reino de Deus, os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.


Se o matrimônio fosse superior ao celibato, como querem algumas pessoas, isso significaria que Deus nos levaria do estado superior (casados hoje) para o inferior (castos na eternidade), e que Cristo estava numa condição familiar inferior à de Abraão ou Moisés. Isso não faz sentido.

Nesse aspecto, é bem óbvio o motivo pelo qual o celibato é superior: é dedicação maior de tempo e energia a Deus, maior liberdade para se entregar e sacrificar. Qualquer pessoa com família sabe disso. É puro realismo pastoral do Apóstolo.

Existe um motivo pelo qual uma pessoa pode resistir a isso: a maioria de nós, que fomos ensinados sobre o quanto somos especiais e temos direito a igual felicidade, nos sentimos desprezados se imaginamos que há uma vocação com consagração superior à nossa. Mas é precisamente por reconhecermos nossa fraqueza — de que precisamos de cônjuges e família, e por não sermos capazes de resistir às tentações da castidade —, ou seja, por reconhecermos nossa condição real, que temos a possibilidade de que nossa condição seja exaltada, não pelo matrimônio, mas pela humildade. Pois, no corpo de Cristo, quando um é honrado, todos são honrados, e, nesse caso, Deus deu “muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24). Quando tentamos furtar a dignidade maior do celibato, perdemos a humildade. A humildade começa quando reconhecemos nossa própria condição real e concreta. Deus dá graça aos humildes.

O que Paulo queria, ao ensinar sobre o celibato?

“O que realmente eu quero é que estejais livres de preocupações. Quem não é casado cuida das coisas do Senhor, de como agradar ao Senhor; mas o que se casou cuida das coisas do mundo, de como agradar à esposa, e assim está dividido. Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito; a que se casou, porém, se preocupa com as coisas do mundo, de como agradar ao marido.” (1Co 7:32–34)

O propósito bíblico do celibato é este: por causa do reino dos céus, para que “vos facilite consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor” (1Co. 7:35). Lançando as bases para o espírito do monasticismo, o apóstolo Paulo procurava uma vida sem distrações (aperispastōs).


No capítulo famoso de 1Coríntios 7, São Paulo ensina que o casamento é bom, o celibato é melhor e a viuvez é um meio termo. A parte da viuvez parece piada moderna, mas Paulo diz mesmo isso (“será mais feliz [makariōtera] se permanecer viúva”). Não se trata de demonizar nenhuma situação, mas de reconhecer a superioridade. Para Paulo, a pergunta que devemos fazer não é “devo mesmo ser celibatário?”, mas “preciso mesmo casar?”.

Ambas as situações são dons de Deus, segundo o apóstolo, mas, por algum motivo, algumas pessoas recebem um dom superior, outras recebem um dom inferior. Veja que escândalo! Minha inveja não tolera que alguém tenha recebido algo melhor. Preciso diminuí-la, devo anulá-lo.

E não é só inveja, mas são escatologias diferentes. O cristão visualiza a vida eterna como uma realidade na qual o casamento e a vida sexual deixaram de existir, não por serem maus, mas por serem inferiores. Então todos nós estamos destinados a termos apenas alguns anos de casados, uma gota na imensidão eterna de uma vida sem casamento. O mundo, por outro lado, só conhece esta vida, então o celibatário está perdendo tempo precioso, deixando de aproveitar.

Às vezes, pessoas tão dispostas a dizer que Deus concede salvação a uns e não a outros, não são capazes de ver que, entre os salvos, alguns recebem posição superior.


É normal que o Antigo Testamento exalte a vida matrimonial. A expectativa dos obedientes à Torá, em seu sentido histórico e literal, é de uma vida longa, portanto de um sucesso natural: uma descendência numerosa e próspera que preservasse o nome. São abundantes, no Deuteronômio, exortações como esta: “Porquanto te ordeno hoje que ames ao Senhor teu Deus, que andes nos seus caminhos, e que guardes os seus mandamentos, e os seus estatutos, e os seus juízos, para que vivas, e te multipliques, e o Senhor teu Deus te abençoe na terra a qual entras a possuir.” (Dt 30:16)

O Novo Testamento coloca um fim mais elevado: a vida angélica (“são iguais aos anjos”, Lc 20:36). A mudança de fim implica mudança na maneira como as coisas são priorizadas hoje.

Se a melhor vida a se alcançar, no AT, era vida longa com com muitos filhos naturais (como no Salmo 128), então o matrimônio era a melhor forma de vida, e tanto os eunucos quanto os inférteis tinham uma condição social de desonra e inferioridade, como amaldiçoados. O Novo Testamento vê mais longe do que aquilo que está explícito no Antigo. Então aqueles que eram desonrados foram elevados por Deus, “concedendo muito mais honra àquilo que menos tinha” (1Co 12:24).

A Antiga Aliança toma como referência a Primeira Criação, passada. A Nova Aliança, sem desprezar a Primeira Criação (portanto sem desprezar o matrimônio), toma como referência maior a Nova Criação. Por isso, o milagre de Isabel (que cuja família significa o ápice da Antiga Aliança) foi o milagre de ter um filho mesmo sendo infértil, como Sara. Sua vergonha foi convertida em alegria: “Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbrio perante os homens.” (Lc 1:25). Mas o milagre de Maria (cuja família significa o ápice da Nova Aliança) foi o da maternidade sobrenatural, preservada sua virgindade.


O texto de 1Co 7 trata, em parte, da “opinião” do apóstolo Paulo sobre qual deveria ser o destino de todos os cristãos, mas a superioridade do matrimônio não é matéria de opinião. Se fosse opinião, já seria bastante coisa, pois era a opinião de um apóstolo de Cristo, de alguém que tinha uma mente muito mais espiritual que a nossa, que tinha um “conhecimento tácito” das coisas divinas e das realidades humanas que nós não alcançamos. A opinião (isolada?) de um apóstolo não é mera opinião.

Mas o que o apóstolo Paulo trata como “opinião” é que todos deveriam ser celibatários (“Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto…”, 7:7). A superioridade do celibato não é tratada como opinião no texto: “quem casa a sua filha virgem faz bem; quem não a casa faz melhor.” (7:38).

Algumas pessoas tentam fugir dessa superioridade do celibato alegando que havia algum motivo particular para a preferência do celibato, motivo que estaria ligado, talvez, à perseguição que os cristãos sofriam. A particularização é a primeira estratégia de quem quer fugir de qualquer texto bíblico, alegando que o texto trata de certas condições que, curiosamente, não estão em parte alguma do texto. Não há qualquer menção à perseguição. Esses leitores veem Paulo falar da “angustiosa situação presente” ou “instante necessidade” (7:26) e presumem que Paulo fala aí de perseguição. Paulo procura ali poupar os cristãos de “tribulações na carne” (7:28), mas essas tribulações não estão diretamente ligadas, no contexto, a nenhuma perseguição, mas às necessidades do mundo que nos impedem, como casados, de alcançar a consagração total, sem distrações (7:32-35).

Isso se percebe no motivo pelo qual os cristãos são autorizados a casar (como coisa boa): “por causa da impureza” (7:2), ou seja, porque, para os que não são capazes de se dominar (manter a continência da castidade), “é melhor casar do que viver abrasado” (7:9). O que isso tem a ver com perseguição? Coisa nenhuma. Ora, se estão autorizados a casar aqueles que não se dominam, como pode ser coisa superior o matrimônio? Se o celibato tem o propósito de dedicação completa, como ele pode ser inferior ao matrimônio? É como dizer que se dominar é inferior a não se dominar, ou se consagrar é inferior a não se consagrar. É absurdo. Prefiro concordar com o apóstolo. E com o Espírito Santo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo, Sofrimento e Império

Uma pessoa me perguntou o seguinte: que importância tiveram os sofrimentos de Jesus? A pergunta não é sobre a morte, mas sobre os sofrimentos. Como eles afetam nossa salvação?

Uma coisa que precisa ser entendida, antes de mais nada, é: os sofrimentos de Jesus não foram diretamente causados pelo Pai. Pessoas humanas causaram esses sofrimentos: Pilatos, Caifás, soldados e outras pessoas. Nós causamos o sofrimento de Cristo.

Nenhum texto do Novo Testamento (o cumprimento das coisas), ao descrever a obra da Redenção, ensina que esses sofrimentos foram causados pelo Pai.

Existe um entendimento errado do que significa “a Deus agradou moê-lo” (Is 53:10), que é tão errado como o de quem lê “Deus se arrependeu” e conclui que há arrependimento em Deus. Isso ignora duas coisas: (1) a identidade contextual do Servo de Javé no Segundo Isaías (Is 40–55), que é a nação de Israel sob o juízo divino; (2) o cumprimento concreto dessas coisas no Novo Testamento, a maneira como as coisas visivelmente aconteceram.

Esse entendimento não é possível por um motivo simples: Deus não coopera com pecados. Ele só coopera com o bem, e transforma o mal em bem (como em José), mas nunca coopera com o mal. Todos os sofrimentos que Cristo teve foram pecados dos líderes, dos soldados e da multidão. Nenhum deles foi justo ao castigar o Cristo inocente; pelo contrário. ele sofreu injustamente, por isso apelou ao tribunal divino, “entregava-se àquele que julga justamente“. O diabo, e não Deus, induziu aquelas pessoas a pecarem.

O que o Pai fez, diante de tudo isso, foi entregar o Filho do homem, como os evangelhos repetem. O que os homens fizeram estava dentro da presciência e providência divinas, mas essas coisas incluem a liberdade humana. Deus não é o autor dos pecados dessas pessoas.

Ao falar desses sofrimentos, o Novo Testamento dá preferência a uma expressão: “sofrer“, “padecer“, “sofrimentos” ou “aflições de Cristo” (ou seja, do Messias), não os de “Jesus” ou do “Senhor“. Ao falar do modo como nós participamos desse sofrimentos, essa preferência permanece. Há um motivo para essa preferência de linguagem, dessa a conexão entre sofrimentos e messiado, que causava bastante escândalo. Até hoje, nós falamos dos “Paixão de Cristo”, não “de Jesus”, repetindo a expressão bíblica.

Como isso funciona? De que maneira esses sofrimentos consagram o seu messiado?

Um dos trechos mais antigos do Novo Testamento é o cântico crístico de Fp 2:5-11. Em síntese, ele nos fala de como, em auto-humilhação, Cristo é obediente até a morte e, por isso, é exaltado pelo Pai e recebe um nome acima de todo nome (Senhor). O cântico segue um padrão da justiça restaurativa nas Escrituras: os humilhados são exaltados.

Se entendemos que os sofrimentos de Cristo são tentações, sua obediência até a morte é a vitória contra essas tentações e se constitui o motivo de sua exaltação. Numa linguagem mais antiga, dizemos que a obediência de Cristo “mereceu” a chegada do Reino de Deus; para não usarmos uma palavra tão desgastada (“mérito”), podemos dizer que os sofrimentos de Cristo exigem que a justiça divina façam algo (como em Dn 7): Cristo é vindicado.

Essa é uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam. Esses sofrimentos são correlatos da sua obediência, através da qual ele reina sobre nós. Então os sofrimentos do Messias são a preparação para a sua entrada na glória. Por isso, participamos dos seus sofrimentos. Assim como ele, sofremos injustamente, e o que agrada ao Pai, como nosso sacrifício, não é sermos punidos justamente por ele, mas suportarmos os sofrimentos injustos com paciência e obediência (1Pe 2).

Isso é muito bonito porque tem uma dimensão política. Quando o Messias veio ao mundo, havia um Império que, com forte propaganda (inclusive intelectual e profética), prometia paz e prosperidade ao mundo. Cristo, em vez de agir como esse Império, conquistando o mundo pela força bruta de sua mão onipotente, conquista o mundo através dos sofrimentos, morrendo na mão do Império segundo os homens, vivendo para o Reino segundo Deus.

Essa é só uma das maneiras pelas quais os sofrimentos de Cristo nos salvam.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Igreja é Templo do Espírito. O que isso significa?

File:Luca Giordano - Christ Cleansing the Temple - WGA09000.jpg - Wikimedia  Commons

O Novo Testamento nos ensina explicitamente que a Igreja é o Santuário de Deus (2Co 6:16), o Santuário do Espírito Santo (1Co 3:16), a Casa de Deus (Ef 2:21-22; 1Tm 3:15). Embora isso possa ter um aspecto pessoal, na qual os corpos dos cristãos são tratados como esse santuário de Deus (1Co 6:19; cf. Jo 14:23) — assim como o corpo também pode ser casa de demônios (cf. Mt 12:43-45 par.) —, os textos bíblicos, em sua maioria, trazem uma dimensão corporativa à imagem do Templo: a comunidade (“vós”) é um santuário. Quando começou a adorar em “templos” ou “santuários” seus, a Igreja manifestou sua própria natureza interior: a Igreja é um prédio edificado para Deus. O edificador desse prédio é Jesus (Mt 16:18). O prédio “físico” é um símbolo da construção espiritual, aliás, um santuário ainda em construção (1Co 3:9-17; Ef 2:19-22; 1Pe 2:5), ainda não completo.

O que significa dizer que a Igreja é Templo do Espírito Santo? Que implicações isso tem para o modo como vemos e vivenciamos a Igreja? Numa abordagem mais superficial, poderíamos tomar simplesmente o sentido que nos parece ser mais óbvio hoje: a Igreja é o Templo do Espírito Santo, então o Espírito Santo mora na Igreja — o que seria plenamente verdade. Mas, quando o Novo Testamento usa essa imagem, ela sempre traz consequências para o propósito e a vida da Igreja, consequências que estão em plena continuidade com a imagem conceitual que Jesus e seus seguidores, assim como o povo judeu, tinham sobre o Templo. Portanto a única maneira de entender plenamente o sentido dessa linguagem é vislumbrar o propósito e a importância do Templo no Antigo Testamento e na época de Jesus. O que era o Templo para os antigos hebreus?

Em primeiro lugar, é importante notar que, além de katoikētērion (“habitação”), naos (“templo”) e oikos (“casa, família”), o Novo Testamento usa a palavra hagion (“santuário”) para descrever a Igreja. Essa é uma palavra especial, que ajuda a dar sentido a todas as demais. Santuário é o lugar da habitação da santidade divina, o lugar do seu culto. Em certa narrativa bíblica, mesmo quando não havia um templo, o povo israelita tinha como santuário de Deus o Tabernáculo. O Tabernáculo e o Templo são lugares distintos, o temporário e transitório dando lugar ao mais permanente e sólido, mas ambos são santuários dedicados a Deus. O santuário é a casa de Deus, o lugar de sua habitação. Também os santuários politeístas eram casas dos seus deuses (cf. Jz 9:4,27; 1Rs 16:32 etc.). Sobre o santuário de Israel, o Antigo Testamento conta:

Êxodo 25:8-9
“E me farão um santuário [miqdāš], para que eu possa habitar [šāḵan] no meio deles. Segundo tudo o que eu te mostrar para modelo do tabernáculo e para modelo de todos os seus móveis, assim mesmo o fareis.”

Êxodo 29:43-46
“Ali, virei aos filhos de Israel, para que, por minha glória, sejam santificados, e consagrarei a tenda da congregação e o altar; também santificarei Arão e seus filhos, para que me oficiem como sacerdotes. E habitarei no meio dos filhos de Israel e serei o seu Deus. E saberão que eu sou o Senhor, seu Deus, que os tirou da terra do Egito, para habitar [šāḵan] no meio deles; eu sou o Senhor, seu Deus.”

Deus havia prometido que, num dado momento, habitaria no meio do seu povo novamente (Lv 26:11-12; Zc 2:10-11), o que se realiza em Cristo (cf. Jo 1:14; 2:21) e, através dele, em toda a igreja. A correspondência entre Cristo e o Templo é tão grande que, quando ele está morrendo, o Templo morre com ele — logo antes ou logo depois, a depender do evangelho. Essa continuidade do santuário e transformação dos indivíduos em santuário (naomorfose), no Evangelho de João, se dá através da Eucaristia (6:56) e da obediência do amor (14:23). São práticas que formam a Igreja como santuário.

O Templo era só a sombra da realidade presente. Então a Igreja é mais do que o antigo Templo. Mas certamente não é menos. Diante disso, devemos responder à pergunta: o que significava o Templo para o povo de Israel?

1. O Templo é um lugar de sacrifícios. 1ª Pedro 2:5 ressalta essa dimensão sacrificial, quando aplica a imagem do santuário aos cristãos; é uma casa espiritual para sacrifícios espirituais. No código deuteronômico, os sacrifício mais regulares só podiam ser feitos no Templo, e em nenhum outro lugar da terra (Dt 12). Isso incluía os dízimos, que eram uma modalidade de sacrifício, além de outras ofertas. Por ser um lugar único, provocava as saudades de que lemos nos Salmos 42 e 43. Paulo alude a essa dimensão sacrificial quando escreve:

Romanos 15:15-17
“Entretanto, eu lhes escrevi, em parte mais ousadamente, como para fazer com que vocês se lembrem disso outra vez, por causa da graça que me foi dada por Deus, para que eu seja ministro [leitourgon] de Cristo Jesus entre os gentios, no sagrado encargo de anunciar [hierourgounta] o evangelho de Deus, de modo que a oferta [he prosphora] deles seja aceitável, uma vez santificada pelo Espírito Santo. Tenho, pois, motivo de gloriar-me em Cristo Jesus nas coisas concernentes a Deus.”

Paulo usa aí uma linguagem sacerdotal, hierática, litúrgica. Seu ministério era sacerdotal: ele era um ministro sacerdotal ou litúrgico, com um trabalho de ministrar sacerdotalmente o evangelho para que, com isso, consagre a Deus as ofertas dos gentios. Ele via esse ministério como um motivo para se gloriar, quanto às coisas divinas. Ele via a oferta que as nações davam para o seu ministério (particularmente para a coleta para os cristãos pobres em Jerusalém) como uma oferta a Deus (cf. Fp 4:18), e ele era o meio pelo qual essa ofertas eram santificadas. Templo é um lugar de sacerdotes. Em outras palavras: os sacrifícios que antes eram entregues aos sacerdotes da Lei agora são entregues ministros sacerdotais cristãos; não diretamente a Deus, mas através de ministros que detêm essa glória ou jactância (kauchēsis). Assim, é natural que vejamos no Novo Testamento as ofertas serem depositadas aos pés dos apóstolos. A Igreja é o Novo Templo, então é lá que entregamos nossas ofertas.

Mais do que isso: o Templo não é só o lugar de sacrifício, e o único lugar legítimo, mas o lugar cujo culto principal consiste em sacrifício. Não custa lembrar: não falamos aqui da Igreja como sinagoga de Deus (lugar de ensino e pregação), mas com o templo de Deus (lugar de sacrifício e adoração). Embora essa distinção não deva ser exagerada no Novo Testamento, uma vez que as celebrações cristãs herdaram tradições estruturais da sinagoga, ela nos diz muito sobre qual deve ser o centro da ação da Igreja.

2. O Templo é um lugar de perdão e purificação. Os antigos israelitas se dirigiam Templo para receberem a expiação por seus pecados e outras impurezas, através dos ritos que ali se realizavam. O Templo absorvia as muitas impurezas do povo (Lv 16). Nesse sentido, os ministros da igreja continuam com a missão de trazer o perdão divino (Jo 20:23; Tg 5:14-15), que ocorre primeiramente através do Batismo (At 2:38), assim como impetrar a misericórdia do alto sobre o povo de Deus. A Igreja é um lugar onde a condição humana de pecado, doença, debilidade, culpa, vergonha e imperfeição é reconhecida e reconciliada com Deus, sendo esse o “ministério da reconciliação” mencionado por Paulo (2Co 5). É e deve ser um lugar de compaixão.

3. O Templo é um lugar sagrado. Por isso, é preciso saber “como convém andar na casa de Deus” (1Tm 3:15). Quem destrói esse lugar sagrado é destruído por Deus (1Co 3:17). Também por isso, a Igreja é um lugar de rituais, como orações, sacramentos e outros sinais. O Templo é sagrado no sentido de que ele pertence a Deus, se remete a Deus; desonrar o que acontece no Templo é desonrar a Deus, como protesta o profeta Malaquias ao reclamar do pão imundo, do descuido com a mesa do Senhor (altar), do animais impróprios, do ensino distorcido. Nesse sentido, a Igreja é sagrada, pertence a Jesus, e tudo que está nela pertence a Jesus de um modo especial, o que exige a devido cuidado na reverência, na ordem, no temor, no zelo. Ao mesmo tempo que é um lugar que reconhece e trata nossas impurezas, é ambiente que exige pureza de coração.

4. O Templo é um lugar de bênção. Deus prometeu abençoar o povo no lugar onde seu nome habitasse (cf. Êx 20:24). Os sacerdotes tinham, portanto, a responsabilidade de transmitir essa bênção ao povo (Lv 9:23; Nm 6:23-27; 2Cr 30:27). Como lemos nos salmos várias vezes, a bênção de Deus flui desde Sião (Jerusalém, a cidade do Santuário) para todo o povo:

14:7; 53:6 “Oh, se de Sião tivera já vindo a redenção de Israel…”

20:2 “Do seu santuário envie socorro e desde Sião te sustenta.”

128:5 “O Senhor te abençoe desde Sião…”

134:3 “De Sião te abençoe o Senhor…”.

Profetas como Ezequiel e Zacarias contemplam a realização disso através das correntes do Espírito Santo transbordando do Templo para todo o mundo. A imagem do templo como manancial de águas procede do simbolismo do Templo como um novo Éden, ou do Éden como um santuário, noção bem arraigada na religião de Israel (cf. Sl 36:7-9; Jr 2:13). Por isso, sentir saudade da presença divina no santuário é o mesmo que sentir sede (Sl 42:1-4; 63:1-2; 84:1-6).

Mesmo com a promessa de Ez 11:16, de que Deus seria, por um tempo, um santuário para os exilados de Israel vivendo na Babilônia e bonitos lugares, os exilados oravam em direção a Jerusalém, como fazia o profeta Daniel (Dn 6:10) e como a oração de dedicação do Templo abençoava (1Rs 8). A benção celestial viria desde Sião, ou seja, através de Sião, como uma porta pela qual a realidade divina invade o mundo.

Se a Terra Santa era o lugar mais sagrado do mundo, Jerusalém era o lugar mais sagrado de Israel — a cidade mais amada por Deus (Sl 87:1) —, e o Templo era o lugar mais sagrado de Jerusalém. Esses ambientes eram os únicos em que Deus podia ser adorado — pois como poderíamos “entoar o canto do Senhor em terra estranha?” (Sl 137:4). Ser desterrado significava praticamente ser entregue a um culto idólatra (Dt 4:27-28; 28:64; 1Sm 26:19; Jr 26:14). Por isso, com a autorização de Eliseu, Naamã transportou terra de Israel para a Síria, para lá prestar o culto ao Senhor (2Rs 5:17). Tudo isso funciona muito bem à luz da geografia sagrada de Dt 32:8-9, texto que, originalmente, ensina que as nações da terra foram entregues ao governo de diversos espíritos poderosos (filhos de Deus) enquanto Israel seria a porção do Senhor.

Diante disso, é perfeitamente compreensível que aquele que é excomungado na Igreja seja, por isso, entregue a Satanás (1Co 5:5; 1Tm 1:20). Ele se coloca fora do culto divino, fora do alcance da benção divina. O Templo é o centro da esfera de domínio régio de Javé — é o seu trono na terra (Jr 3:17; 14:21; 17:12; Ez 43:7). Perder a comunhão com o santuário é ser lançado entre os deuses. É a partir do Templo que Deus reina. Nesse sentido, a Igreja é o reino de Deus. O domínio do Rei e o domínio do Sumo-sacerdote são um só (Sl 110): o domínio de Cristo.

5. O Templo é um lugar de oração. Esse propósito do Templo está em íntima continuidade com todos os anteriores. A oração de dedicação feita por Salomão (1Rs 8), já mencionada acima, encara o Templo como o lugar em que as orações são ouvidas, mesmo para as pessoas que, orando distantes dali, se encurvassem naquela direção. Os salmos exemplificam esse sentimento direcional:

28:2 “Ouve-me… quando erguer as mãos para o teu santuário.”

134:2 “erguei as mãos para o santuário e bendizei ao Senhor.”

O profeta Isaías fala do Templo como “casa de oração para todos os povos” (56:7), palavras depois repetidas por Cristo (Mc 11:18). Isso significa, consequentemente, que a Igreja, enquanto Templo, é uma comunidade orante; seu propósito de existência tem a ver com a oração, com a ligação dos homens com Deus. Desde o princípio, a vida de oração era partilhada pela Igreja (cf. At 1:13-14; 2:27). De fato, essa celebração da Igreja inclui numa mesma celebração, a terra e os céus (Hb 12:22-24).

6. O Templo é lugar de anjos. O Templo tem uma íntima ligação com as realidades celestiais, em razão de que a Escritura continuamente diz que Deus habita nos céus e que ele habita no Templo; o Templo segue o modelo celestial, como sombra dele (Hb 8:5). O Templo é o lugar onde a glória divina aparece, onde os anjos sobem e descem (cf. Gn 28:12-17; Ec 5:1-6). Em razão disso, todo o Templo era decorado com querubins (1Rs 6). O Templo funciona como lugar de confluência entre a realidade terrestre e a celeste (Is 6), o que é natural, já que, como vimos, o santuário é trono de Deus.

Assim, a Igreja é também lugar de anjos, e, também, detentora das chaves do reino, de modo que pode ligar ou desligar as coisas na terra em comunhão com o céu (Mt 16:19; 18:18-19); a Igreja, enquanto ambiente celestial, está em comunhão com as coisas superiores (Gl 4:26; Hb 12:22-24). É por isso que o Novo Testamento presume várias vezes que estamos certados de anjos: o véu é usado “por causa dos anjos” (1Co 11:10), João abençoava através de anjos (Ap 1:4-5), Paulo conjura diante dos anjos (1Tm 5:21).

7. Lugar de contemplação da face de Deus. Os salmos, e o Antigo Testamento em geral, falam diversas vezes de como o Templo é o lugar onde se podia contemplar a face, a beleza, a majestade, a glória de Javé. Essa dimensão contemplativa incluía o esclarecimento da vontade divina (Sl 73:16-17). Por exemplo:

26:8 “Eu amo, Senhor, a habitação de tua casa e o lugar onde tua glória assiste.”

27:4 “Uma coisa peço ao Senhor, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do Senhor todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo.”

63:2 “Assim, eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória.

65:4 “Bem-aventurado aquele a quem escolhes e aproximas de ti, para que assista nos teus átrios; ficaremos satisfeitos com a bondade de tua casa — o teu santo templo.”

Essa glória era, em parte, ocultada pelo véu que escondia o trono divino, como um “carro” entre os querubins (cf. 1Cr 28:18; Jó 26:9; Sl 80:1; Is 37:16-17). Semelhantemente, Moisés, depois de contemplar a glória divina e reter algo dela, provocando temor nas pessoas, ocultava seu rosto com um véu (Êx 34:29-34). Usando essa história, Paulo fala de como os ministros do evangelho resplandecem, sem temor, uma glória diferente, sendo transformados na imagem do Senhor (2Co 3:18), e de como as mulheres usavam um véu para ocultarem sua própria glória (1Co 11:15). Isso significa também que a Igreja, enquanto Templo, não é apenas um lugar em que se ensina sobre a glória, mas um lugar no qual a glória está presente, um lugar da presença divina. Isso afeta diretamente o modo como vemos, por exemplo, a Mesa do Senhor, a Eucaristia. Se o culto do antigo Templo tinha em si a glória divina, quanto mais o do novo!

8. O Templo é um lugar para todas as nações. O Templo não é só casa de oração, mas casa de oração para todos os povos. Sempre houve o interesse de Deus de que as nações prestassem culto no seu Templo, de que dali procedesse a luz de Deus para todos. Na oração de dedicação, Salomão ora intencionalmente por isso:

1 Reis 8:41-43
Também ao estrangeiro, que não for do teu povo de Israel, porém vier de terras remotas, por amor do teu nome (porque ouvirão do teu grande nome, e da tua mão poderosa, e do teu braço estendido), e orar, voltado para esta casa, ouve tu nos céus, lugar da tua habitação, e faze tudo o que o estrangeiro te pedir, a fim de que todos os povos da terra conheçam o teu nome, para te temerem como o teu povo de Israel e para saberem que esta casa, que eu edifiquei, é chamada pelo teu nome.

Nesse sentido, a comunidade Igreja-Templo jamais pode estar limitada a um povo, tribo, língua ou nação, nem mesmo a uma congregação. Jamais pode estar presa a privilégios de nação ou província. Ela tem sempre uma dimensão e uma missão universais.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Expiação não é punição

Minha publicação (20)

Nos debates sobre a obra do Redentor, o conceito de expiação é um dos mais importantes. Não estão errados os que tratam o mistério da redenção como doutrina da expiação, mas o que significa expiação? Os defensores da Substituição Penal acreditam que ela está ligada à punição, que a expiação dos nossos pecados acontece através de punições substitutivas, seja as punições (simbólicas?) dos animais no Antigo Testamento, seja a punição de Cristo no Novo. Continue lendo “Expiação não é punição”

A Cruz é mesmo o pagamento do pecado?

Minha publicação (6)

Em alguns textos do Novo Testamento, aprendemos que os nossos pecados podem ser tratados e chamados como dívidas. Essa metáfora não existe no Antigo Testamento, que trata o pecado mais como fardo (a ser carregado) ou doença (a ser curada). Uma dívida pode ser perdoada ou paga, linguagem que acaba sendo transferida para o modo como lidamos com o próprio pecado. Continue lendo “A Cruz é mesmo o pagamento do pecado?”

O Antigo Testamento continua lindo?

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Desde o princípio da Igreja, os cristãos precisaram lidar com a interpretação e aplicação do Antigo Testamento. Foi a partir de certas interpretações das Escrituras Sagradas dos hebreus que os primeiros apóstolos e discípulos de Jesus defenderam sua prerrogativa messiânica e, portanto, a necessidade da conversão à nova fé, ainda alguns anos antes do surgimento dos escritos que comporiam o Novo Testamento. Continue lendo “O Antigo Testamento continua lindo?”