Negociando a Salvação

A salvação e a comunhão com Deus são tratadas, na Bíblia, a partir da perspectiva da dádiva: um presente de Deus que convida à reciprocidade por parte da pessoa humana, numa troca livre, diferente de uma compra.

No entanto, numa medida muito menor, a imagem da compra também é usada, e prepara o caminho para ela de várias maneiras. O Antigo Testamento já conhece a responsabilidade que Deus assume pelos pobres (Pv 19:17), raiz da noção judaica antiga de “tesouro no céu”. Nesse caso, ao assumir a dívida (de gratidão) dos pobres, a reciprocidade ganha um tom próximo ao da compra, porque Deus não falha na retribuição.

A imagem plena da compra aparece particularmente em dois lugares do Novo Testamento:

☩ Mateus 13:45–46 – “O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra.”

☩ Apocalipse 3:18 – “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.”

No primeiro caso, o próprio “reino dos céus” é comprado pelo negociante. No segundo, compra-se de Cristo “ouro refinado” (riqueza espiritual), “vestiduras brancas” (identidade espiritual) e “colírio” (visão espiritual). Essas coisas são negociadas ou compradas de Deus ou de Cristo, não simplesmente recebidas como presentes.

Tudo isso se insere muito bem na imagem do “tesouro celestial”, que é adquirido (por exemplo) através das obras de misericórdia. Há um tesouro a ser alcançado pelos cristãos renunciando a coisas desta vida, e esse tesouro é distinto do tesouro terreno. Os pobres do mundo são ricos a fé (Tg 2:5). Os que parecem ser ricos são pobres e os que parecem ser pobre são ricos (Ap 2:9; 3:17; cf. 2Co 8:2). Há uma inversão entre riqueza e pobreza, e portanto uma possibilidade de conversão de uma riqueza na outra.

É importante que essa não se torne a maneira dominante pela qual nossa santificação e progresso na fé sejam tratadas, para que não se perca de vista a gratuidade e generosidade divinas, mas também é necessário que ela tenha um lugar, que nos relembre da necessidade de nosso próprio empenho.

Rev. Gyordano M. Brasilino

“Soli Deo Gloria” serve para quê?


O princípio “Soli Deo Gloria” é um princípio plenamente bíblico. Afinal, Deus diz, na voz do profeta: “…a minha glória, pois, a outrem não darei…” (Is 42:8; 48:11). Uma vez que que todas as coisas são dele, por ele e para ele, a glória deve ser dada a ele eternamente (Rm 11:36). As doxologias do Apocalipse e do restante do Novo Testamento carregam o mesmo sentimento. Fomos criados para a glória de Deus (Is 43:6-7). Por isso, a glória dada a Deus deve permear nosso comportamento (1Co 10:31).

Essa glória certamente é exclusiva. Mas o que isso significa? Se ela é exclusiva, a quem ela exclui? Na Bíblia, ela exclui o culto aos deuses. O contexto do Segundo Isaías, no qual aparecem as sentenças mencionadas acima, é o do conflito de Javé com um povo que havia se acostumado a cultuar divindades pagãs no Exílio. Deus não divide sua glória com os deuses e ídolos das nações.

Por outro lado, essa glória não exclui o povo de Deus. Num outro momento, a mesma literatura profética fala do destino da Jerusalém redimida: “…sobre ti aparece resplendente o Senhor, e a sua glória se vê sobre ti… eu tornarei mais gloriosa a casa da minha glória…” (Is 60:2,7). O Templo é a casa da glória divina, o lugar em que essa glória reside. Deus visualiza sua própria glória entre o seu povo.

Numa leitura cristã, na qual a Igreja é o Templo de Deus, isso significa que Deus coloca sua glória e resplendor nos seus santos. Assim, é natural que o Novo Testamento veja os cristãos como “participantes” da glória de Deus (1Pe 5:1), que veja os redimidos como glorificados por Deus (Rm 8:30), que trate o crescimento dos apóstolos como um resplandecer de Cristo “de glória em glória” neles. Nesses casos, Deus partilha, sim, sua glória.

Por isso: “…diante de ti se prostrarão e te farão as suas súplicas, dizendo: Só contigo está Deus, e não há outro que seja Deus.” (Is 45:14); “…diante de ti se inclinarão com o rosto em terra e lamberão o pó dos teus pés…” (Is 49:23); “…prostrar-se-ão até às plantas dos teus pés… eu te constituirei glória eterna…” (Is 60:14-15); “eis que os farei vir e prostrar-se aos teus pés e conhecer que eu te amei.” (Ap 3:9).

Em toda essas coisas, Deus é glorificado, o único plenamente glorificado. Por isso, nesses casos, a glória de Deus não é dividida, porque os homens vivem para a glória de Deus. De fato, Deus ama dividir sua glória com quem não quer glória para si.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Confissão de Inocência

Em nenhum lugar a Escritura Sagrada incentiva a atitude de autoflagelação psicológica. Existe, sim, a necessidade urgente da confissão de pecados, da penitência, do arrependimento, da contrição, mas não devemos ter medo de reconhecer nossa própria inocência quando não estamos culpados. A caça pseudofreudiana por más intenções, sob pretexto de uma “depravação total”, é um veneno.

Talvez alguém seja tentado a pensar que Jó foi arrogante, ou se excedeu em alguns momentos, mas, no geral, ele estava em linha com a espiritualidade dos salmos. Alguém poderia dizer que Paulo foi arrogante no trecho abaixo?

Os meus pés seguiram as suas pisadas; guardei o seu caminho e não me desviei dele. Do mandamento de seus lábios nunca me apartei, escondi no meu íntimo as palavras da sua boca.” Jó 23:11–12

Daí retribuir-me o Senhor, segundo a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, na sua presença.” Salmo 18:24

Faze-me justiça, Senhor , pois tenho andado na minha integridade e confio no Senhor, sem vacilar. Lavo as mãos na inocência e, assim, andarei, Senhor , ao redor do teu altar,” Salmo 26:1,6

Tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança. Não tornou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos dos teus caminhos,” Salmo 44:17–18

São muitos os meus perseguidores e os meus adversários; não me desvio, porém, dos teus testemunhos.” Salmo 119:157

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar…” Salmo 131:1

Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes.” 1Tessalonicenses 2:10

Rev Gyordano M. Brasilino

Contemptus mundi: o que significa carregar a Cruz?

Uma pessoa perguntou o que significa tomar diariamente a cruz.

Uma porta para entender esse significado é saber o que a cruz representava na época de Jesus. Era um instrumento de morte do Império Romano, com o propósito de ser público, doloroso e humilhante, castigo exemplar que convidava à execração. Era símbolo punitivo do poder imperial.

Num primeiro nível, carregar a cruz significa estar pronto a aceitar sofrimentos públicos, dolorosos e humilhantes, como os de Jesus, como consequência de o seguirmos num mundo que o odeia. Devemos sofrer com alegria, como os apóstolos de Jesus, que se sentiam alegres em serem perseguidos, aceitando rejeições sem reclamar, antes com gratidão.

Essa dimensão de carregar a cruz naturalmente se abre para um universo mais amplo, pois a única maneira de aceitarmos esses sofrimentos e rejeição é se a nossa vida interior estiver arraigada numa alegria celestial, e não naquilo que diabo e o mundo oferecem em termos de prazer e aceitação.

Então essa aceitação de sofrimento imperial cede muito facilmente àquela ampliação pela qual, aparentemente, o responsável foi São Paulo. Pois nele vemos não apenas um crucicentrismo insistente, mas uma imagem da transfiguração cristã como repetição da vida de Cristo: padecemos com ele, morremos com ele, somos sepultados com ele, revivemos com ele.

Então, para Paulo, estar crucificado significa morrer para o pecado (Rm 6:6), para as paixões (Gl 5:24) e para o mundo (Gl 6:14), três esferas interligadas pela doutrina apocalíptica. Cristo se entregou (na cruz) para nos livrar do presente século mau.

Isso se liga à imagem mais ampla do “mundo” no Novo Testamento, enquanto uma era maligna. Morrer para o mundo significa não ser guiado pelas preocupações e promessas do mundo, como a fama, a glória do mundo, a riqueza do mundo. Os discípulos de Jesus não pertencem ao mundo e não devem amar o mundo ou ser amigos dele, ou conformados a ele.

O mundo é a esfera de atuação diabólica. Satanás “engana todo o mundo”, é o “príncipe deste mundo”. O mundo “jaz no maligno”. Os que andam segundo o curso do mundo andam debaixo desses poderes espirituais tenebrosos e enganadores, as forças espirituais da maldade.

Em razão disso, o mundo envolve ilusões que nos prendem aos pecados: cuidados, enganos, ambições, corrupção, paixões, soberba, ódio. A única maneira de se livrar delas é não seguir “o curso do mundo”, antes desprezá-lo, por amor a Cristo.

O mundo é, em suma, a cidade dos homens, que vive para si mesma, para este tempo, para glórias passageiras. Mas a aparência do mundo passa, o mundo passa, e nossos pensamentos devem se dirigir às realidades celestiais e eternas. Tudo o que é o que é passageiro deve ser visto à luz do eterno. O mundo é a criação sujeita à vaidade, ao amor àquilo que não é importante. Santo Agostinho é, nisso, filho de São Paulo e dos apocalipses.

Embora o desprezo pelo mundo (contemptus mundi) seja costumeiramente associado aos celibatários e monásticos, que, por um cumprimento estrito das palavras paulinas, evitam se prender às “coisas do mundo” para se dedicarem às “coisas do Senhor” — significando, portanto, que à maioria dos cristãos é necessária certa lida com o mundo (tolerada ou aceita?) —, o fato é que, no sentido apocalíptico, nenhum cristão deve amar o mundo. E carregar a cruz é sofrer as consequências de não amar o mundo.

Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?” (Marcos 8:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Boas obras perdoam pecados?

Uma pessoa me fez esta pergunta: quanto ao papel das boas obras na justificação, elas “perdoam” transgressões da lei ou apenas ajudam no processo de santificação?

É patente que as boas obras têm um papel considerável na nossa salvação, pois nós somos perdoados quando andamos na luz. Esse papel inclui, com certeza a purificação dos nossos pecados, como diz o Senhor: “Antes, dai esmola do que tiverdes, e tudo vos será limpo.” (Lc 11:41).

Essas palavras do Senhor não estão isoladas, mas refletem um pensamento, presente desde o Antigo Testamento, de que as obras de compaixão pelos necessitados são mais eficazes que os sacrifícios para suplicar o favor do Senhor — prioridade responsável, em grande medida, pela distinção entre “lei moral” e “lei cerimonial”. Assim: “…a justiça livra da morte.” (Pv 10:2; 11:4); “Pela misericórdia e pela verdade, se expia a culpa…” (Pv 16:6); “Exercitar justiça e juízo é mais aceitável ao Senhor do que sacrifício.” (Pv 21:3); “…põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres…” (Dn 4:27); “…misericórdia quero, e não sacrifício…” (Os 6:6); “…a prática do bem e a mútua cooperação; pois, com tais sacrifícios, Deus se compraz.” (Hb 13:16). O mesmo em Tobias e Siraque.

Por isso, lemos em 1Pedro 4:8: “Acima de tudo, porém, tende amor intenso uns para com os outros, porque o amor cobre multidão de pecados.” Nossa caridade cobre os nossos pecados. Um exemplo disso é a caridade feita para com aquele que se desviou da verdade, trazendo-o de volta ao caminho (Tg 5:19–20). Também isso cobre pecados.

Nas palavras do Rev. Jeremy Taylor (1613–1667), no seu livro Morte Santa: “…as esmolas são, portanto, eficazes para a abolição e perdão dos nossos pecados, porque elas são preparatórias e impetratórias da graça do arrependimento, e são frutos do arrependimento; e assim São Crisóstomo afirma que o arrependimento sem esmolas é morto, e sem asas, e não consegue levantar vôo até o elemento do amor.”

Essas coisas aparecem através da bela imagem da balança, que contrapõe virtudes e vícios: “o Senhor é o Deus de conhecimento, e por ele são as obras pesadas na balança.” (1Sm 2:3); “Pesado foste na balança, e foste achado em falta.” (Dn 5:27)

Retornando à pergunta inicial, é importante entender: não há diferença real entre dizer que as boas obras perdoam pecados e dizer que elas ajudam na santificação. Nossas transgressões são indicadores (parciais) de nossa condição espiritual, do modo como cedemos às paixões da carne e, portanto, da santificação que precisa acontecer. Por isso, arrependimento da transgressão é santificação, como Deus ensina através do profeta:

Quando eu também disser ao perverso: Certamente, morrerás; se ele se converter do seu pecado, e fizer juízo e justiça, e restituir esse perverso o penhor, e pagar o furtado, e andar nos estatutos da vida, e não praticar iniquidade, certamente, viverá; não morrerá.” (Ez 33:14–15)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Incondicional ou condicional? O perdão transformador de Deus.

Eu sinto afinidade tanto com as pessoas que dizem que a misericórdia de Deus é incondicional como com aquelas que dizem que ela é condicional.

Com certeza, a misericórdia de Deus é incongruente e desproporcional a qualquer coisa que haja em nós, e nos encontra em todas as formas da nossa miséria humana — em nossa debilidade, vulnerabilidade, pobreza, fraqueza, ignorância, prisão, pecado. Essa misericórdia é a essência divina eterna agindo em nosso favor e benefício, suas “entranhas de misericórdia”. A bondade de Deus alcança mesmo os ingratos, ou seja, aqueles que não correspondem a ela.

Por isso, erram aqueles que dizem a misericórdia de Deus foi de algum modo comprada pela morte de Cristo. Não, essa misericórdia é eterna, nós fomos criados por misericórdia — só um Deus infinitamente misericordioso estaria disposto a nos criar.

Por outro lado, a Escritura diz muito sobre como Deus perdoa os que perdoam, e não perdoa os que não perdoam, de como ele é misericordioso com os misericordiosos e bom para com os bons, de como ele dá graça aos humildes e justiça aos puros de coração, de como ele nos purifica dos nossos pecados quando os confessamos e deixamos.

Essas condições também são esquecidas por aqueles que acham que nosso perdão foi de algum modo “comprado” por Jesus. “Já foi pago” é o mantra de quem acha que não deve fazer nada.

Essas condições existem porque elas estão na essência do que o perdão é. O perdão divino não é mera “impunidade”. Ele é reconciliação, a restauração da criatura à comunhão divina, e, nesse sentido, só pode existir se a comunhão for realmente comunhão. Elas existem como condições da perspectiva da criatura que coopera com Deus, mas, da perspectiva do Deus que se doa em infinita misericórdia, não são condições.

Não é algo como: “Eu só posso lhe perdoar se você fizer isto e aquilo”. Mas sim com: “Eu vou lhe perdoar, e isso significa que isto e aquilo devem acontecer com você”.

Isso significa que, quando abrimos mão do orgulho ferido para perdoar nossos ofensores, quando ignoramos nosso senso de posse diante dos nossos devedores, quando deixamos de lado a vergonha causada pelos nossos humilhadores, quando deixamos de lado a ira como reação de autoproteção, quando tratamos com compaixão aquele que precisa de compaixão, quando doamos aquilo que queremos para nós mesmos — em suma, quando abrimos mão de todas as paixões que nos impedem de perdoar e amar —, nosso coração se abre para a cura da graça.

Essa cura é o perdão de Deus, colocando em ordem o nosso coração. O perdão de Deus é transformação.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Fogo Purificador (Santa Macrina e São Gregório de Nissa)

Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados, a fim de que, da presença do Senhor, venham tempos de refrigério, e que envie ele o Cristo, que já vos foi designado, Jesus, ao qual é necessário que o céu receba até aos tempos da restauração de todas as coisas, de que Deus falou por boca dos seus santos profetas desde a antiguidade.” (Atos 3:19–21)

A despeito do fato de que nós hoje — corretamente — nos preocupemos com uma imagem de violência divina que sirva para justificar e inflamar a violência humana, ainda assim devemos procurar aquela verdade profunda subjacente às palavras de que o Senhor “açoita a todo filho a quem recebe… a fim de sermos participantes da sua santidade”. A imagem é de uma sociedade em que o castigo físico como expiação e reforma era comum — como vemos no livro de Provérbios —, mas não precisamos nos deter nela. Embora nem todo sofrimento seja, a priori, imediatamente benéfico, deve haver um lugar para o sofrimento na nossa própria transformação.

São Gregório de Nissa, guiado por sua mestra e irmã, Santa Macrina, é levado a contemplar os mistérios da salvação e da condenação, da bondade e da severidade de Deus, numa perspectiva escatológica. Como é bem sabido, eles acreditavam na salvação última de todas as pessoas, a apocatástase. Essa doutrina parte de várias premissas, dentre as quais está a teoria restaurativa e transformadora da pena — que não apenas crê que Deus açoita a todos a quem recebe como filhos, mas recebe como filhos a todos a quem açoita, e cuja dor é intrínseca (causada pelo pecado) e não extrínseca (causada por Deus) —, assim como uma metafísica mística que, por colocar Deus na raiz de todas as criaturas, não consegue não conceber o fim como um retorno de tudo à origem e, portanto, o fim do mal, quando Deus será “tudo em todos”. Nessa concepção, Deus, por ser Deus, não pode eternizar a “existência” do mal. Os místicos universalistas, como Juliana de Norwich e William Law, têm muito em comum.

Não é preciso concordar de todo com a tese da salvação universal para admirar a beleza do modo como Santa Macrina e São Gregório descrevem a resolução última do drama universal. Mas é claro que somente aqueles que acreditam em algum tipo de purificação após a morte — seja num purgatório mais modesto ou mais guloso — serão capazes de aceitar algo assim. Nesse caso, há muitas semelhanças com o purgatório de Santa Catarina de Gênova e de C. S. Lewis. Em nível último, sem algum tipo de pena purificadora (ao menos para parte dos pecadores), o que temos é a prevalência da punição pena punição.

“Uma vez que toda natureza atrai para si aquilo que lhe é afim, e o homem é em certo sentido afim a Deus já que tem em si a imitação do arquétipo, a alma não pode não ser arrastada em direção ao divino por aquilo que lhe é afim; com efeito, é preciso que seja inteira e absolutamente reservado para Deus aquilo que lhe pertence. Se, portanto, a alma é leve e pura, sem nenhum fardo corporal que pede sobre ela, a sua ascensão em direção Àquele que a atrai é agradável e fácil. Mas levantamos a hipótese de que esta seja trespassada pelos pregos da afeição pelas coisas materiais. Nos desastres provocados por terremotos, os corpos esmagados pelos escombros são destinados a sofrer uma semelhante sorte. Suponhamos que esses não somente sejam sufocados pelas ruínas, mas que sejam também trespassados pelos pais e pelos pedaços de madeira que se encontram nos escombros. É fácil intuir os sofrimentos que tocam aos corpos que se encontram nesse estado, quando os seus próximos os retiram das ruínas para sepultá-los santamente: esses são todos pesados e reduzidos a pedaços e sofrem as penas mais atrozes, laceradas pelos escombros e pelos pregos sob o efeito de uma tração violenta. Parece-me que análogo sofrimentos prove também a alma, quando a potência Divina, impelida pelo seu amor em favor dos homens, deseja extrair aquilo que lhe pertence dos escombros representados pela irracionalidade e pela matéria. Na minha opinião, Deus, que exige em restituição e atrai para si tudo aquilo que nasceu graças a ele, não inflige aos pecadores as dores porque os odeia ou queira puni-los pela sua má vida: ele se limita a atrair a alma para si, a fonte de toda bem-aventurança, em vista de um bem superior; mas aquele que é arrastado não pode não tocar a dor.
Como quem deseja eliminar com o fogo o material que se encontra misturado com ouro não pode limitar-se a fundir este material espúrio, mas é constrangido a fundir juntamente também o ouro puro, que permanece enquanto o primeiro se consuma, assim, enquanto mal é consumido pelo fogo inextinguível, a alma também, unida ele, está necessariamente no fogo, até que os elementos espúrios e materiais que foram semeadas nela sejam eliminados e consumados pelo fogo eterno…
…O mal deve ser de fato de todo eliminado do ser: como se disse antes, o não-ser não pode existir. Uma vez que o mal não pode, por natureza, existir fora do livre arbítrio, quando o livre arbítrio se encontra em Deus, o mal irá ao encontro da total destruição porque não lhe resta mais nenhum receptáculo.” — A Alma e a Ressurreição IV

“… Quanto à diferença entre uma vida segunda virtude e uma vida segundo vício, ela aparecerá sobretudo na vida futura, onde a participação na felicidade esperada será mais rápida ou mais tardia. Com efeito, a medida do mal sobrevindo em cada um corresponderá perfeitamente a duração mesmo da cura. A cura da alma consiste na purificação do mal; e esta, como se provou precedentemente, não poderá realizar-se sem um estado de sofrimento…
Mas a vida virtuosa conhecerá em razão do mal as seguintes diferenças: aqueles que nesta vida se cultivaram por meio da virtude se tornam logo uma espiga perfeita; mas aqueles em que o mal tornou débil e exposta aos danos do vento nesta vida a potência contida na semente psíquica — isto, segundo sábios nesses assuntos, costuma acontecer às chamadas sementes duras — mesmo se [um dia] ressurgirem, serão tratados pelo juiz com grande severidade, porque não tiveram força para reencontrar a forma da espiga e se tornarem o que precisamente éramos antes da queda sobre a terra… Quando todas as ervas bastardas e estranhas forem separadas da planta genuína e levadas a destruição pelo fogo que consome o elemento exterior à natureza, então a natureza desses seres também prosperará e produzirá os seus frutos maduros reassumindo, depois de um longo período, a forma comum a todos os homens, que Deus imprimira em nós no início… As paixões produzidas pelo mal se a bola hein dificilmente da alma, uma vez que se encontram misturadas com ela em sua totalidade, tendo crescido com ela e formado uma só coisa com ela ponto quando, portanto, Os seres desse gênero foram eliminados e destruídos pela cura do fogo, cada uma dessas realidades cuja noção tem um conteúdo positivo vir a tomar o lugar: a incorruptibilidade, a vida, a honra e a Graça, a glória, a potência, e toda a outra realidade desse gênero que, segundo nossas conjecturas, se possa contemplar ao mesmo tempo em Deus mesmo e em sua imagem, que é a natureza humana.” — A Alma e a Ressurreição VI

“Entretanto, como para o corpo há diferentes enfermidades, das quais algumas se prestam mais facilmente à cura e outras com maior dificuldade, e para essas últimas se recorre às incisões, às cauterizações, às porções amargas para eliminar os males que se abateram sobre o corpo, do mesmo modo tratamentos análogos nos são anunciados pelo juízo futuro para cura das enfermidades da alma, e isto, para os mais frívolos, é ameaça e método de correção severos, a fim de que o temor de uma expiação dolorosa nos faça tornar-se sábios e nos leve a fugir do mal; mas para aqueles que são mais sensatos, a fé assegura que é uma cura e um tratamento salutar da parte de Deus que deseja reconduzir a sua criatura à graça originária.

Com efeito, aqueles que eliminam com incisões ou mediante cauterização assistências e as verrugas que se formaram no corpo contra a natureza, não conseguem uma cura sem dores ao beneficiário do tratamento; mas, ao menos, não praticam a incisão para causar um dano ao paciente; assim também todas as excrescências materiais que se formaram em nossas almas tornando-as canais sobre efeito de sua participação nas mais de exposições do corpo, são, no tempo oportuno daquele juízo, cortadas e eliminadas por aquela inefável sabedoria e pela potência daquele que, segundo Evangelho, é médico dos pecadores: ‘Não são de fato, diz ele, os sãos, que têm necessidade do médico, mas os doentes.’” — A Grande Catequese VIII, 10–11


“Quando o ouro se mistura a uma matéria menos valiosa, os ourives eliminam com a ação do fogo o elemento estranho e sem valor, devolvendo à matéria mais nobre seu esplendor natural. Todavia, esta separação não sucede sem labor, pois o fogo, com sua força de consumação, necessita de tempo para fazer desaparecer o elemento impuro; aliás, é uma espécie de tratamento aplicado ao ouro, o fato de fundir o elemento que está contido no outro e que altera sua beleza.
Pois da mesma maneira, visto que a morte, a corrupção, as trevas e tudo o que é engendrado pelo mal estão estreitamente unidos ao inventor do mal, a aproximação da potência divina provoca, como o fogo, a destruição do elemento contrário a natureza e, graças a esta purificação, mostra-se salutar para a natureza, por mais penosa que seja a separação. Por conseguinte, tampouco o adversário poderia duvidar de que se trata de um processo justo e salvífico, se chegasse a compreender o benefício que disto resulta.
Ora, precisamente, como aqueles que suportam a terapia a base de cortes e de cauterizações se irritam contra os médicos em razão da dor aguda provocada pelo corte, mas, quando, graças a esses meios, recuperam a saúde e desaparece a dor da cauterização, então terão gratidão por quem os curou; da mesma maneira, uma vez que, após o longo transcorrer dos tempos a natureza foi libertada do mal (do mesmo modo que agora está mesclado e cresceu com ela), quando se cumprir o retorno à condição originária daqueles que agora estão sujeitos ao mal, se erguerá uma sinfonia de ação de graças de toda a criação, seja daqueles que foram castigados com essa purificação, seja da parte de quem não tiver necessidade de purificação.
Esses ensinamentos e outros do mesmo gênero nos transmitem o grande mistério da Encarnação divina. Graças a sua mescla com a humanidade, assumindo todas as particularidades próprias da natureza humana, o nascimento, a educação e o crescimento, e atravessando inclusive a prova da morte, Deus cumpriu tudo o que foi dito anteriormente, libertando o homem da maldade e curando o próprio autor da maldade. Com efeito, curar uma enfermidade é fazer desaparecer a doença, ainda que à custa de sofrimento.” — A Grande Catequese XXVI, 6–9

“…constituindo toda a natureza como um só ser vivo, a ressureição de um membro se estende a todo o conjunto, e da parte se comunica ao todo em razão da continuidade e unidade da natureza.” — A Grande Catequese XXXI, 4

“Ora, o que corresponde ao ouro impuro é o forno de fundição; assim, uma vez fundida toda a maldade que se tinha misturado a esses pecadores, sua natureza, já purificada depois de longos séculos, será reconduzida a Deus sã e salva. Por conseguinte, visto que há certa força purificadora no fogo e na água, aqueles que lavaram a mancha da maldade mediante a água sacramental não necessitam de outra forma de purificação; aqueles, ao contrário, que não são foram iniciados nessa purificação, necessariamente deverão ser purificados pelo fogo.” — A Grande Catequese XXXV, 15

Rev. Gyordano M. Brasilino