Como lidar com o Problema do Sofrimento?

1200–1600 - National Gallery of Slovenia
Pietà (c. 1420), provavelmente de Salzburgo

Como lidar com o Problema do Sofrimento?

O problema do sofrimento não é uma questão puramente teórica. Não é só um argumento usado por céticos para desacreditar a bondade ou existência de Deus. A questão do sofrimento é aquilo que enfrentamos todos os dias, pois todos os dias nós sofremos. Se um de nós se vê livre do sofrimento por um momento, não pode ignorar o sofrimento dos que estão ao seu redor. Portanto, viver inclui saber lidar com o sofrimento.

O sofrimento está no centro da história mais importante contada pela fé cristã: Cristo, o Deus encarnado, sofreu injusta e cruelmente. Aos pés da cruz, sua mãe e alguns dos seus discípulos, impotentes diante do mal praticado. Quando um cristão contempla um crucifixo ou um ícone da Paixão, ou reconta, em um sermão, aquele acontecimento, ele vê o seu Deus sofrer e vê nesse mistério a sua salvação. Então Deus não apenas contempla o sofrimento da criação desde o trono celestial; ele não deixou sofrer sozinho o mundo que criou. Ele mesmo sofreu, envolvendo-se na nossa sina. Ele suportou, juntamente conosco, o peso da criação.

Essas considerações amiúde levantam a pergunta sobre o propósito do sofrimento no plano divino, e às vezes nós oferecemos soluções que são ingênuas ou até profundamente cínicas. Dizemos, por exemplo, que o sofrimento nos ensina algo e nos torna pessoas melhores. Mas, diante do sofrimento brutal pelo qual criancinhas passam, sofrimentos que terminam em sua morte, como podemos que o propósito do sofrimento é ensinar algo? Isso pode vale para alguns sofrimentos, mas só para alguns.

O fato é que o sofrimento pode ter vários propósitos e pode não ter propósito nenhum, e nem sempre somos capazes de diferenciar as coisas. É preciso resistir à tentativa de dar um propósito único a todo o sofrimento, pois isso acabará por justificar o mal e nos deixar insensíveis. Cristo não exige que expliquemos o sofrimento, mas que choremos com os que choram e defendamos os oprimidos. Ele está ao nosso lado contra o sofrimento, compadecido de nossas dores. Devemos combater o mal como coisa desnecessária, que não deveria ser. Chorar com os que choram não significa ficar imóvel diante do mal, reduzido ao lamento, mas assumir certo pathos, certo sentimento, deixando correr livre o direito como um rio caudaloso e a justiça como um ribeiro eterno.

Às vezes, uma explicação pode trazer certa ordem a um coração confuso; mas, na maior parte do tempo, o que queremos não é explicação, mas cura. Nós participamos disso quando temos compaixão. De fato, somente num mundo em que há sofrimento pode haver perdão e compaixão. Assim, somente num mundo em que há sofrimento (temporariamente) o Amor pode revelar sua profundidade.

Há vários motivos pelos quais nós passamos por sofrimentos. Esses motivos não são soluções para o problema do sofrimento. São questões nas quais devemos meditar quando padecemos como cristãos, e que só têm razão de ser quando nos ajudam concretamente. Vivendo a nossa fé, podemos encontrar ao menos nove motivos para o sofrimento:

A culpa própria. Essa é a explicação mais óbvia do sofrimento, a explicação retributiva. Não devemos ser ingênuos em pensar que todo cristão é um santo inocente. Muitos dos nossos sofrimentos não são grandes provações da nossa fé heroica, mas resultados dos nossos pecados ou da nossa ignorância. Deus nos visita e disciplina para nos tornar participantes da sua santidade. Muitos de nós precisam entender que têm responsabilidade por suas ações, sem precisar transferir isso aos demais. Mas é preciso tomar cuidado com os que se culpam demais.

A humildade e a compaixão. Embora os filhos de Deus desfrutem de um cuidado especial, nós somos homens sujeitos às mesmas condições de vida que o restante da humanidade. Através do sofrimento, aprendemos a ser mais humildes e reconhecer nossa condição comum, levando-nos à compaixão para com os nossos semelhantes. Quem não sofre tem dificuldade de perceber o sofrimento alheio.

A unidade dos cristãos. Através dessa compaixão, carregamos os fardos uns dos outros e fortalecemos nossa unidade para com os nossos irmãos. Isso vale especialmente para com nossos irmãos nos países onde há maior sofrimento cristão, e com isso percebemos a importância da unidade maior que nossas diferenças, pois o Espírito do Senhor está sobre aqueles que sofrem pelo Evangelho.

O ódio do mundo a Cristo. Um ataque a um cristão é, no fundo, um ataque ao Cristo que nele vive. Se o Senhor sofreu, como nós não sofreríamos também? Por isso, quando Paulo perseguia os cristãos, o Senhor lhe perguntou: “Saulo, por que me persegues?”. Carregar a cruz e sofrer com o Senhor com paciência, passando vergonha e rejeição, nos leva a uma imitação mais profunda do nosso Senhor crucificado.

A plenitude dos sofrimentos de Cristo. Cristo permite que cada um de nós participe do seu sacrifício único através dos sofrimentos, completando as aflições messiânicas que instauram seu reino. Através disso, e em continuidade com a razão anterior, cada cristão se torna um ícone do Senhor, um santo, inspirando a conversão e santificação de outras pessoas.

A provação da nossa fé. A provação não é só um teste, como se Deus não soubesse dos nossos limites, mas uma forma de sermos purificados por ele, em meio às tentações. Isso é importante para nós mesmos, quando vemos como a graça do Senhor nos permitiu resistir às tentações, motivo de grande alegria. Aquele que vence a provação recebe a coroa da vida; nossa tribulação momentânea produz peso de glória. Isso é um sinal de eleição.

O exercício do perdão. Só há perdão onde também houve sofrimento. Quando padecemos, Deus nos concede uma oportunidade de exercer seu Amor soberano. Deus quer nos santificar perdoando os que nos fizeram mal.

A seriedade da vida. Através do sofrimento, entendemos o nosso fim, levamos a vida — a nossa e a dos nossos semelhantes — com mais seriedade, percebendo o real valor eterno de cada um que nos deixa. Percebemos

A dependência. O sofrimento nos relembra de como somos necessitados da graça e do auxílio do Senhor, para o buscarmos em oração.

Mais uma vez: essas coisas não são exatamente explicações que devemos dar, mas reflexões que devemos fazer, maneiras pelas quais pode adquirir sentido aquilo que para nós não tem sentido nenhum. Se, em algum momento, elas não nos ajudam, que sejam abandonadas.

“Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, pois naquela se vê o fim de todos os homens; e os vivos que o tomem em consideração.” Eclesiastes 7:2

“Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram.” Apocalipse 21:3,4

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus foi ouvido — O Pai disse “Sim”

“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,” Hebreus 5:7

Quando estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Cristo fez uma oração que está profundamente gravada na consciência da primeira comunidade de cristãos, pedindo ao Pai pelo livramento. Essa oração agonizante aparece nos Evangelhos Sinóticos: “Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14:36 = Mt 26:39 // Lc 22:42); e depois é mencionada em Hb 5:7 e 1Pe 2:23, tendo talvez um eco nas palavras de Paulo (Rm 8:15; Gl 4:6).

Antes de ser levado para sua humilhação e morte, Cristo fez uma oração intensa, “com forte clamor e lágrimas”, àquele que “o podia livrar da morte”. Ele disse: “Minha alma está triste [perilypos] até à morte” (Mc 14:34). O evangelista usa palavras graves para descrever o estado da alma de Cristo: ele começou se impressionar e apavorar profundamente [ekthambeisthai] e se angustiar [adēmonein]. O tom é tão forte que é suavizado pelos evangelistas posteriores — o Cristo do Quarto Evangelho nos parece resoluto e determinado, mas mesmo Marcos conhecia a intenção do Filho do homem de doar sua vida (10:45) —, mas mesmo Lucas, na variante textual mais conhecida, fala da “agonia” de Cristo (Lc 22:44), isto é, da batalha que ele enfrentava. Na hora das trevas, Cristo batalhava contra os poderes obscuros que o cercavam e tentavam, e pedia ao Pais que o livrasse da morte. Diante da injustiça que sofreria, Cristo “entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2:23).

E Cristo foi ouvido. Isso surpreende a algumas pessoas, mas a oração de Cristo foi ouvida pelo Pai. Não poderia ser diferente, afinal, ele mesmo disse: “Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11:42). Assim como Cristo havia ensinado ao Pai que seus discípulos receberiam o que pedissem quando fossem obedientes (Jo 15), ele mesmo, estando na perfeita obediência (“por causa da sua piedade [eulabeia]”), recebia do Pai tudo o que pedia. Então Cristo foi ouvido pelo Pai!

Mas como pode ser, se ele morreu? Ele morreu, mas ressuscitou. Ao retornar à vida, ele foi livre daquilo que o prendia. Aqueles que acreditam que a paixão de Cristo foi um “não” do Pai ao Filho terão muita dificuldade em ligar o que está em Hb 5:7 à oração registrada nos Evangelhos, mas, de fato, o Pai passou o cálice. Cristo morreu, mas não morreu eternamente. Ele esteve morto por apenas um tempo. Ao ressuscitá-lo, o Pai dizia o “sim” ao Filho, passando dele o cálice. Como Jó, Cristo foi restituído após os seus sofrimentos injustos, provocados pelas forças das trevas.

Em 2Co 4 (o Evangelho de hoje), Paulo tinha em mente exatamente a mesma coisa. É por isso que ele podia dizer, juntamente, que “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus” (v. 14) e, então, que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (v. 17). Jó foi restituído, Cristo foi restituído, e Paulo sabia que o mesmo poder da ressurreição estava nele. A ressurreição é restituição e muito mais do que restituição.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento

Flagellation of our Lord Jesus Christ - Bourguereau

Bom é para o homem suportar o jugo na sua mocidade. Assente-se solitário e fique em silêncio; porquanto esse jugo Deus pôs sobre ele; ponha a boca no pó; talvez ainda haja esperança. Dê a face ao que o fere; farte-se de afronta. O Senhor não rejeitará para sempre; pois, ainda que entristeça a alguém, usará de compaixão segundo a grandeza das suas misericórdias; porque não aflige, nem entristece de bom grado os filhos dos homens. Lamentação 3:27-33

Não é fácil encontrar o lugar da resignação na fé cristã. O próprio Cristo nos parece o modelo máximo de resignação e irresignação. Ele curou cegos, leprosos e paralíticos, libertou possessos, se opôs aos poderes constituídos deste mundo — os líderes judeus e romanos que agiam como títeres das hostes espirituais da maldade —, e elogiou o exemplo de fé de várias pessoas que, não se resignando à doença e ao diabo, procuraram nele cura e libertação. Mas, como um cordeiro mudo, Cristo desceu ao seu suplício, e, mesmo temeroso do sofrimento que teria de padecer, orou entregando-se à vontade do Pai — “não seja o que eu quero, e sim o que tu queres” (Mc. 14:36) —, levando sobre si e expiando a culpa de todos pelo sacrifício de si mesmo, o justo pelos injusto. Continue lendo “Paciência: a importância de (não) aceitar o sofrimento”

Eclesiastes e a Confusão do Mundo

Öèôðîâàÿ ðåïðîäóêöèÿ íàõîäèòñÿ â èíòåðíåò-ìóçåå Gallerix.ruO Antigo Testamento dá à Providência Divina o nome de Sabedoria. Ela é a ordem que rege o mundo com propósitos transcendentes. Esses propósitos guiam os acontecimentos, ordenando um tempo para cada (3:1-8). Até mesmo o dia da morte está no controle divino, e nós nada podemos fazer a respeito dele (5:18; 8:8; 9:9). O sábio é aquele que, diferente dos demais, tem acesso à Sabedoria, e por isso ele “conhece o tempo e o modo” (8:5) do que deve acontecer. Continue lendo “Eclesiastes e a Confusão do Mundo”

Orações impedidas

oração

“Então, chamarão ao SENHOR, mas não os ouvirá; antes, esconderá deles a sua face, naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras.” (Miquéias 3:4)

“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações.” (I Pedro 3:7)

Eu tenho um problema sério em ver, como algumas pessoas, um conflito entre a misericórdia e a justiça de Deus. Não consigo imaginar nada mais justo do que a misericórdia de Deus. É justo socorrer o necessitado, e essa é precisamente a definição de misericórdia. A confissão do Sl. 62:12 é exemplar: “A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.” Continue lendo “Orações impedidas”