Devoção, segundo São Tomás de Aquino

“Não adoramos a Deus por sacrifícios e dons exteriores em benefício dele, mas por nós e por nossos próximos, pois ele não precisa de nossos sacrifícios, mas deseja que eles lhe sejam oferecidos para promover nossa devoção e a utilidade do nossos próximos.” ST IIa-IIae q. 30 a. 4 ad 1

“Assim a devoção não parece ser nada além da vontade de prontamente se entregar às coisas pertinentes ao serviço a Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 1 co

“…a devoção pelos santos de Deus, mortos ou vivos, não termina neles, mas passa deles a Deus, enquanto naturalmente veneramos a Deus nos ministros de Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 2 ad 3

“Assim necessariamente ocorre que a meditação seja causa da devoção, enquanto naturalmente através da meditação o homem concebe que se entregue ao serviço divino.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 co

“E assim as coisas pertinentes à humanidade de Cristo, como nos conduzindo pela mão, excitam maximamente a devoção, ainda que a devoção consista principalmente das coisas concernentes à divindade.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 ad 2

“Ainda assim, há três razões para empregar a voz em tais orações. Primeiro, para excitar a devoção interior, para que a mente orante se eleve a Deus. Pois por sinais exteriores, seja por voz ou mesmo por outros atos, a mente é movida tanto na apreensão quanto também, consequentemente, na afeição… E assim só devemos usar a voz e tais símbolos na oração conforme excitem a mente inteiriormente. Se, na verdade, por essas coisas a mente for distraída ou de qualquer modo impedida, elas devem cessar.” ST IIa-IIae q. 83 a. 12 co

“…segundo diz o Damasceno, no Livro IV, como somos compostos de natureza dupla, a saber, intelectual e sensível, oferecemos a Deus uma adoração dupla, a saber, espiritual, consistindo na devoção interior da mente, e corporal, consistindo na humilhação exterior do corpo. E como, em todos os atos de adoração (latriae), aquilo que é exterior se refere àquilo que é interior como principal, segue-se que a adoração (adoratio) exterior seja em função da interior, de modo que, pelo sinal da humildade que exibimos corporalmente, seja excitado nosso afeto a se submeter a Deus, assim como nos é conatural que procedemos dos sensíveis aos inteligíveis.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 co

“…mesmo a adoração corporal é em espírito, enquanto ela procede da devoção espiritual e se ordena a ela.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 ad 1

“…um lugar determinado é escolhido para a adoração, não em razão de Deus, que é adorado, mas em razão dos próprios adoradores. E isso por uma razão tripla. Primeiro, em razão da consagração do lugar, pela qual os orantes concebem maior devoção espiritual, de modo que sejam mais ouvidos, segundo indica a Oração de Salomão (2Reis 8).” ST IIa-IIae q. 84 a. 3 ad 2

“…é um modo mais nobre de provocar os homens à devoção pelo ensino e pela pregação do que pelo canto.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 3

“…pelo canto que é empregado com entusiasmo para deleitar, a alma é distraída da atenção por aquilo que é cantado. Mas se alguém canta por devoção, considera atentamente o que diz, tanto porque permanece mais tempo no canto, como porque, como diz Agostinho (Confissões X), ‘todos os afetos do nosso espírito, por sua diversidade, têm modos próprios na voz e no canto, que são excitados por sua oculta familiaridade’. E o mesmo se dá com os ouvintes, que, mesmo quando não entendem o que é cantando, entendem por que é cantado — a saber, em louvor a Deus —, e isso é suficiente para excitar a devoção.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 5

“… devoção, que é o principal ato de religião.” ST IIa-IIae q. 104 a. 3 ad 1

“…aquelas coisas instituídas pelos homens feitas nos sacrementos não são necessárias aos sacrementos, mas são feitas para a sua solenidade, que é acrescentada aos sacramentos para excitar a devoção e reverência naqueles que recebem os sacrementos.” ST IIIa q. 64 a. 2 ad 1

“…que nos batizados se manifeste maior ou menor graça, pode ter duas razões. Por um lado, um recebe no Batismo maior graça do que outro em razão da maior devoção, conforme já dito.” ST IIIa q. 69 a. 8 ad 2

“…aqueles que carecem do uso da razão podem ter devoção pelo Sacramento [da Eucaristia], seja em alguns casos a devoção presente, seja em outros a devoção pretérita.” ST IIIa q. 80 a. 9 ad 1

Rev. Gyordano M. Brasilino

Certeza da salvação (II): João Calvino

calvino

“Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.” (1 Pedro 1:13)

Continuando o texto anterior (leia aqui), agora nos voltamos para Calvino, cuja doutrina da certeza da salvação é mais famosa. Diferentemente de Tomás, que localiza a certeza da salvação na virtude da esperança, Calvino a coloca na virtude da fé; ainda assim, a diferença não é gritante se lembrarmos que Tomás coloca já na fé o fundamento da esperança, na medida em que a fé tem por objeto o Deus onipotente e misericordioso. Continue lendo “Certeza da salvação (II): João Calvino”

Torna-te o que tu és

luthertotle“Porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus.”  (Colossenses 3:3)

É famosa a polêmica de Lutero contra Aristóteles. Se, por um lado, Lutero representava uma reação agostiniana extremada (até disparatada) à absorção da filosofia aristotélica pelos escolásticos, ele estava bem consciente da incompatibilidade entre diversos elementos da Ética de Aristóteles e a teologia da graça. Muito de Aristóteles precisava morrer para que ele fosse batizado. Continue lendo “Torna-te o que tu és”