O Caminho do Meio

O diabo é tanto acusador quanto tentador, e nossas lutas com ele devem levar isso em conta. Ele não só nos oferece liberdade para pecar, mas também usa a condenação da lei para nos enfraquecer. Ele nos seduz a cair e nos prende quando caímos.

Ele trabalha nos extremos e nos confunde sobre eles. Quando alguém deixa um extremo, ele trabalha para que aceleremos na direção contrária. Para ele, estarmos tristes demais ou alegres demais são tentações igualmente úteis, ambas capazes de nos cegar. Libertinos e legalistas, o diabo os ama.

Devemos trilhar o caminho do meio com confiança, não ouvindo as vozes de quem nos oferece uma fé mais radical — seja mais radical na liberdade ou no rigor. Liberdade e rigor só fazem sentido em função do amor, da caridade derramada pelo Espírito Santo, na unidade do Corpo de Cristo.

Para quem está com o coração em Deus, até as porretadas do diabo, de um lado e de outro, santificam. Por isso também, como ensina São Gregório Magno, grande parte do ministério pastoral é oferecer o remédio suficiente para levar ao equilíbrio.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deserto, Acídia e Noite Escura da Alma

É importante não confundir três coisas: deserto, acídia e noite escura. (A confusão que envolve a segunda tem a ver com inexperiência, enquanto a confusão que envolve a terceira tem mais a ver com linguagens divergentes.)

(I) Deserto é período (dias, meses, anos) de provação no qual há maior aridez, diminuição do prazer imediato nas coisas espirituais e da recompensa instantânea. A obediência permanece, mas ela é mais difícil e custosa. Desejamos um rio, mas lutamos por uma gota. Tentações são mais explícitas, naquilo em que estamos fragilizados. O diabo procura lançar dúvidas e confusão espiritual. Todo cristão passa pelo deserto em algum momento. Não resulta de um pecado nosso específico (não é uma punição), embora seja importante para que conheçamos os nossos pecados e forças, pois o deserto nos ajuda a desnudar nossa condição espiritual, pois faz cessarem certas emoções que ocultam nossos problemas.

(II) Acídia não tem a ver principalmente com as circunstâncias que nos provam, mas com o nosso coração. Acontece todo o deserto em nosso redor, mas a acídia envolve certo desespero ou aceitação da distância em relação a Deus. Ela é uma paixão da carne sobre a alma, mas envolve também desobediência e consentimento, uma desistência de lutar no deserto, portanto com algum grau de rejeição à graça e abandono da continência do Caminho, em busca da comodidade. Na maior parte das vezes em que passamos pelo deserto, especialmente quando mais inexperientes, nós caímos em algum grau de acídia. Essa desistência é muito perigosa, porque pode levar à apostasia: você primeiro desiste do amor, depois desiste da esperança e, por fim, se não se arrepender, desiste da fé.

(III) A Noite Escura da Alma é uma forma de deserto, mas é mais profunda. Não é uma experiência de todos os cristãos, mas daqueles que já alcançaram um aprofundamento místico, certo grau de perfeição acima da maturidade, e que, por estarem mais livres das paixões comuns, sofrem uma provação mais severa, na qual devem simplesmente confiar em Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Graça resistível e irresistível

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A graça é resistível ou irresistível? Talvez essa não seja a melhor linguagem, a mais adequada. Ela parece indicar uma luta da graça contra nós, uma oposição ao ser humano, como se a liberdade divina anulasse a nossa, um invasor a ser resistido, quando na realidade a graça cumpre em nós nosso chamado mais íntimo, nossa vocação mais profunda, o propósito mesmo de nossa existência — ela opera em nosso favor, não contra nós. Ainda assim, é uma linguagem justificável, pois o Espírito Santo age certamente contra a pior parte de nós mesmo, combatendo a carne (Gl. 5:17). O ser humano trabalha contra si mesmo. Falar em graça irresistível é sinalizar que a onipotência divina também está em jogo quando falamos sobre salvação. Continue lendo “Graça resistível e irresistível”