A Presença de Cristo na Eucaristia

 

Disputa_del_Sacramento_(Rafael)

Quando se discute sobre a Presença de Cristo no Sacramento, é comum que o debate se limite a uma exposição das diferenças entre certas teorias clássicas. Fala-se em favor do memorialismo ou mero simbolismo, da presença espiritual, da presença corporal ou física de Cristo no sacramento, como que justificando certa posição e, indiretamente, legitimando as diferenças entre os cristãos, reforçando as trincheiras. Continue lendo “A Presença de Cristo na Eucaristia”

Cristologia Supralapsária: A Primazia Absoluta de Cristo

Resultado de imagem para alpha and omega medieval

Eu sou o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim. Apocalipse 22:13

Quando contemplamos o mundo que nos cerca, em toda a sua beleza, grandeza, ordem e poder, com olhos que enxergam e ouvidos que ouvem, não podemos deixar de notar o sentido transcendente que se nos anuncia e que nos chama a algum lugar. Essa voz ecoa mesmo diante das perplexidades que, no mesmo mundo, se colocam diante de nós — a aflição e o desamparo, a morte e o caos. Se essa voz na Criação revela a presença de uma Realidade Última que dá sentido a todas as coisas e que é o sentido de todas as coisa, por outro lado ela também se mostra um grande enigma, uma grande parábola, um grande mistério. Continue lendo “Cristologia Supralapsária: A Primazia Absoluta de Cristo”

A Beleza está nos olhos de Deus

Resultado de imagem para Christ rembrandt

Observava nas belezas o Belíssimo e, pelos vestígios impressos nas coisas, perseguia por toda parte o Amado, fazendo de tudo uma escada para si, para subir à apreensão daquele que é todo desejável. — São Boaventura, Legenda Maior Sancti Francisci, IX, 1, 7

A beleza do mundo consiste inteiramente de doces consonâncias mútuas, quer dentro dele mesmo, quer com o ser supremo. Quanto ao mundo corpóreo, embora haja muitas outras formas de consonâncias, ainda assim a sua beleza mais doce e mais encantadora é sua semelhança com as belezas espirituais. A razão é que as belezas espirituais são infinitamente as maiores, e, não sendo os corpos senão sombras de seres, eles são tão mais encantadores quanto mais espelham as belezas espirituais. Essa beleza é peculiar às coisas naturais, ultrapassando a arte dos homens. Jonathan Edwards, A Beleza do Mundo

A modernidade torna o homem a medida de todas as coisas, o centro mesmo do universo. Colocado em um trono que não deveria ocupar e para o qual jamais estaria preparado, de fato um trono ilusório, o homem é incapaz de dar sentido a si mesmo e ao que o cerca, de colocar todas as coisas em uma ordem consistente; a nossa modernidade não é líquida, mas flácida. Privado de Deus e de todos os valores mais altos, o homem se vê também privado de sua própria alma, se vê reduzido a uma máquina, pronta para encarnar quaisquer diferentes finalidades de quem a controla. Continue lendo “A Beleza está nos olhos de Deus”

Unidade entre Justificação e Santificação

Rembrandt Batismo do Eunuco

“…mas haveis sido lavados, mas haveis sido santificados, mas haveis sido justificados em nome do Senhor Jesus e pelo Espírito do nosso Deus.” — I Coríntios 6:11

“Essa justiça, portanto, é dada aos homens no batismo e sempre que eles verdadeiramente se arrependem.” — Martinho Lutero, Sermão sobre dois tipos de justiça

A doutrina da justificação é central para a compreensão da natureza e propósitos da Reforma Protestante. Tal doutrina não apenas sinaliza diferenças cruciais entre o catolicismo tridentino e o protestantismo, como também diferenças — não inconciliáveis, talvez — dentro do próprio protestantismo, entre Lutero e Calvino, entre as tradições que os seguiram, e sobre as quais penso que cada lado acertou e errou em alguma medida. Pois a doutrina da justificação não é sem ambigüidades e dificuldades, que refletem a unidade com que justificação e santificação aparecem nas Sagradas Escrituras. O uno é descrito com mais dificuldade que o múltiplo. Continue lendo “Unidade entre Justificação e Santificação”

O Deus misericordioso do Antigo Testamento

Oséias de Rafael

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! Mateus 23:23

O uso do Antigo Testamento pela Igreja é uma das mais profundas e importantes interrogações da teologia cristã. Nas décadas anteriores à escrita dos livros do Novo Testamento, os Oráculos Sagrados dos hebreus foram a primeira Bíblia dos cristãos, como foi a Bíblia de Jesus e dos primeiros discípulos. Mortas as últimas testemunhas oculares da ressurreição de Cristo, em pouco tempo vemos já as celebrações cristãs iniciadas pela leitura das memórias dos apóstolos e dos escritos dos profetas, como nos conta o mártir Justino. Nisso se expressava a fé da Igreja não apenas na continuidade da revelação de Deus entre judeus e cristãos, mas também na continuidade do Deus da revelação, que jamais muda e não mudou entre as duas eras. Continue lendo “O Deus misericordioso do Antigo Testamento”

Certeza da salvação (II): João Calvino

calvino

“Por isso, cingindo o vosso entendimento, sede sóbrios e esperai inteiramente na graça que vos está sendo trazida na revelação de Jesus Cristo.” (1 Pedro 1:13)

Continuando o texto anterior (leia aqui), agora nos voltamos para Calvino, cuja doutrina da certeza da salvação é mais famosa. Diferentemente de Tomás, que localiza a certeza da salvação na virtude da esperança, Calvino a coloca na virtude da fé; ainda assim, a diferença não é gritante se lembrarmos que Tomás coloca já na fé o fundamento da esperança, na medida em que a fé tem por objeto o Deus onipotente e misericordioso. Continue lendo “Certeza da salvação (II): João Calvino”

Certeza da salvação (I): Tomás de Aquino

tomas-de-aquino

“Vós, porém, amados, edificando-vos na vossa fé santíssima, orando no Espírito Santo, guardai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo, para a vida eterna.” (Judas 20-21)

A caminhada cristã é marcada, nutrida, sustentada, regida e consumada pela misericórdia de Deus. A bondade efusiva e obstinada do Pai das luzes, sumamente manifestada e realizada em seu Filho Jesus Cristo e trazida a nós nos meios de graça e esperança da glória eterna no poder do Espírito Santo, é a única cura para a chaga mortal do pecado humano, chamando-o a nova vida. Continue lendo “Certeza da salvação (I): Tomás de Aquino”

Per modum exempli: Tomás de Aquino sobre Cl. 1:24

tomas-de-aquino-e-cristo

“Agora, me regozijo nos meus sofrimentos por vós; e preencho o que resta das aflições de Cristo, na minha carne, a favor do seu corpo, que é a igreja;” (Colossenses 1:24)

Colossenses 1:24 é um texto recorrente nos debates entre católicos romanos e protestantes acerca da intercessão dos santos e do tesouro de mérito. O texto nos diz que Paulo preenche, em sua própria carne e em favor da Igreja, o que falta das aflições de Cristo. O que quer que isso signifique, não é algo que se possa ignorar. Continue lendo “Per modum exempli: Tomás de Aquino sobre Cl. 1:24”

Lutero e Tomás de Aquino de mãos dadas?

lutero-e-tomas-de-aquino

“Porque, em Cristo Jesus, nem a circuncisão, nem a incircuncisão têm valor algum, mas a fé que atua pelo amor.” (Gálatas 5:6)

De todos os debates doutrinários que podem haver entre católicos romanos e protestantes, considero que o mais inútil é o debate sobre justificação. Não que a própria noção de justificação seja inútil, muito pelo contrário. Embora eu não considere, como muitos de tendências reformada, que a doutrina Justificação pela Graça seja o Evangelho — já que ela não se lhe dá proeminência nos Evangelhos —, ela é importante para a compreensão da salvação. Continue lendo “Lutero e Tomás de Aquino de mãos dadas?”

Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino

adam_and_eve

“Alguns novos teólogos negam o pegado original, que é a única parte da teologia cristã que pode ser realmente provada. Alguns dos seguidores do Reverendo R. J. Campbell, em sua espiritualidade quase exagerada, admitem a impecabilidade divina, que eles não são capazes de ver nem em seus sonhos. Mas eles essencialmente negam o pecado humano, que eles podem ver na rua.” (G. K. Chesterton)

A noção de Pecado Original é uma das doutrinas mais polêmicas na história da Igreja, especialmente quando foi primeiramente formulada por Agostinho de Hipona (354–430), mas também no princípio da Reforma Protestante — com formulações radicais pela maioria dos reformadores e, do lado Romano, o estabelecimento de um dogma “completo” do Pecado Original no Concílio de Trento (mas recuperando o Concílio de Orange de 529) —, assim como na teologia racionalista entre os séculos XIX e XX, que assumia uma opinião bastante otimista sobre a natureza humana. Continue lendo “Pecado Original sem Culpa Herdada — Paulo, Agostinho, Tomás de Aquino”