Via Remotionis

Toda verdadeira ciência procura o universal por trás do particular, a unidade subjacente à multiplicidade. Os muitos experimentos e comparações servem para averiguar, da maneira mais precisa possível, os traços e propriedades dos entes, não só distinguindo-os das circunstâncias acidentais, mas também assinalando a maneira como os entes se comportam em meio a elas. É um trabalho de remoção daquilo que é mais exterior aos entes, para uma descrição do mundo.

Um passo além é dado quando nos perguntamos, não mais pelas características dos entes, mas por aquilo que é sua essência, sua natureza mais íntima, aquilo que cada coisa necessariamente é, e que não pode deixar de ser sem deixar de existir — o momento em que existência se confunde com a essência. O que é, quid est, ti estin — esse é o terreno da metafísica, que não para nas essências dos entes, mas chega mesmo a perguntar por aquilo que todos os entes têm em comum enquanto entes, os “universais” dos universais, o Um, o Verdadeiro, o Bom, o Belo — os transcendentais —, assim como o desaparecimento dessas coisas no não-ser. Esse processo abstrativo é, também, uma forma de remoção.

Mas é possível ir além. Quando removemos desses transcendentais todos os traços da existência entitativa múltipla, removendo os próprios entes e contemplando sua identidade profunda, chegamos ao Absoluto, ao Infinito, ao Supra-Essencial, no qual todos vivemos, nos movemos e somos, que é a raiz última dos entes e que, mesmo que não idêntica a eles, não obstante lhes dá o ser por participação. O Absoluto é tão infinitamente removido de tudo o que compreendemos que nosso pensamento só sabe dele esse percurso de remoção, esse movimento eterno, do qual só temos notícia dizendo o que ele não é — que não é finito, que não é temporal, que não é composto, que não é limitado —, e que, embora ele não seja o não-ser, nosso pensamento, ao se dirigir a ele, reconhece apenas a Luz Infinita tão imensa e insuportável que nos parece o mesmo que a escuridão.

Nesse momento, nosso único caminho, nossa “via de remoção”, agora já começa a falhar — pois o Infinito é Um, o Um é múltiplo, a diferença é semelhança, e só nos resta o conhecimento tácito de nossa experiência de delumbramento, tremor e “thambos” a dilatar nosso espírito ante o Bem Supremo que nos atrai supremamente.

Todo esse percurso de remoção é uma caminhada do mais profano ao Sagrado Absoluto, o Santo dos Santos da existência, afastado de tudo e contendo tudo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Lei de Moisés é falsa?

João Evangelista“Porque a lei foi dada por intermédio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.” (João 1:17)

No cristianismo primitivo, assim como havia um partido fortemente judaico, havia uma teologia radicalmente antijudaica, ligada a Marcião de Sinope e a algumas vertentes do gnosticismo, a qual desprezava o Antigo Testamento e a Lei Mosaica, vendo a revelação divina exclusivamente em Jesus Cristo e não nos profetas anteriores. Jo. 1:17 dá razão a essa teolgia, o marcionismo? Continue lendo “A Lei de Moisés é falsa?”