A Doutrina Anglicana dos Sacramentos

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“Em nenhuma religião, seja verdadeira, seja falsa, se pode juntar os homens sem algum consórcio de sinais ou sacramentos visíveis.” Santo Agostinho, Contra Faustum 19.11

Gosto de dizer, fazendo graça e com um fundo de verdade, que eu me tornei anglicano por causa do batismo de crianças, rejeitado por tantos evangélicos. Poucas práticas da Igreja mostram tanta beleza na simplicidade e tanta verdade evangélica quanto o amor de Cristo que ali se lança sobre os pequeninos. Todo o Evangelho está ali, implícito ou explícito: o amor de Deus pela criação, a queda da natureza humana, a universalidade do pecado, a necessidade da graça regeneradora, a iniciativa divina na salvação, a Cruz e a Ressurreição, a presença da Igreja, a Santíssima Trindade. Se alguém tem dúvida sobre o princípio Sola Gratia, olhe para o batismo das crianças, que nada contribuem para a própria salvação, antes tudo recebem. Afinal, elas são um grande símbolo do Reino.

Mas o que significam os sacramentos, na tradição anglicana?

As palavras a seguir são a síntese dogmática dos documentos anglicanos sobre teologia sacramental, os 39 Artigos de Religião, a Homilia sobre Oração Comum e os Sacramentos, o Livro de Oração Comum de 1662 e o Catecismo Anglicano — válidos para todos os anglicanos e não apenas para essa ou aquela tendência —, além do Credo Niceno, marca de ortodoxia da cristandade e explicitamente reconhecido nos 39 Artigos.

Sacramentos e Ordenanças

Antes de tudo, é importante entender por que os chamamos de sacramentos e não de “ordenanças”. Tal nome latino foi posto em circulação eclesiástica por Tertuliano de Cartago (c. 155 – c. 240) e foi definitivamente explicado por Santo Agostinho de Hipona (354–430), ambos africanos de língua latina. Os sacramentos são chamados assim por serem sagrados, isto é, sinais sagrados (signa sacra), como ensinou Santo Agostinho. O próprio Tertuliano já havia falado também em sinais: a fé é “selada” (obsignata) no Batismo (De Bapt. 6.1), que é um sinal (signaculum, De Pudic. 9.11) e ato selador (obsignatio, De Bapt. 13.2), selo da fé (obsignatio fidei, De Paenit. 6.16), assinatura do arrependimento (paenitentiae subsignatio, De Paen. 2.4). Essa descrição do sacramento como “selo” ou “sinal” funciona melhor no Batismo (que só ocorre uma vez) que na Eucaristia (que é recebida muitas vezes).

Aqui não temos ainda a diferença específica de um sacramento cristão – pois os ritos da Lei de Moisés também eram “sinais sagrados”, assim como os pagãos consideram sinais sagrados os seus próprios mistérios. Mas Santo Agostinho aqui nos dá certo esclarecimento, que ele mesmo refinou em outros momentos. Os sacramentos cristãos são sinais sagrados, não meras ordenanças. Chamar os sacramentos de “ordenanças” comunica certa verdade — foram ordenados por Cristo. Entretanto, é errado pensar que celebramos os sacramentos simplesmente porque foram ordenados por Cristo, como se seu papel fosse apenas cumprir uma ordem, sem qualquer efeito espiritual ou salvífico. Chamar os sacramentos de ordenanças é como chamar a esposa de irmã — expressão verdadeira que não comunica suficientemente a verdade ali contida, induzindo a erro.

Nesse sentido, a doutrina anglicana abraça a linguagem patrística, sem o rompimento desnecessário com o passado que marcou setores radicais da Reforma Protestante. Não se trata apenas do nome “sacramento”, mas também seu sentido teológico: os 39 Artigos de Religião condenam os erros de pensar nos sacramentos apenas como rituais eclesiásticos, idênticos em papel aos de qualquer outra religião. A administração dos Sacramentos, juntamente com a pregação da Palavra, é missão da Igreja (Art. 19), e a linguagem geral dos documentos anglicanos fundamentais está alinhada ao chamado realismo sacramental: algo real e espiritual acontece nos sacramentos e naquele que os recebe.

I Co. 10:16-17: “Porventura, o cálice da bênção que abençoamos não é a comunhão do sangue de Cristo? O pão que partimos não é a comunhão do corpo de Cristo? Porque nós, embora muitos, somos unicamente um pão, um só corpo; porque todos participamos do único pão.”

Os sacramentos não expressam comunhão, eles realizam comunhão. Não participamos do mesmo pão porque somos do mesmo corpo; somos do mesmo corpo porque participamos do mesmo pão.

A Definição

A teologia cristã, parafraseando Santo Agostinho, define os sacramentos como sinais visíveis de uma graça invisível. Essa fórmula, no entanto, precisa ser corretamente entendida, pois o propósito dos sacramentos não é simplesmente sinalizar a graça, mas conceder aquilo que por eles se sinaliza. Eles não querem dizer apenas que algo aconteceu no passado ou acontecerá no futuro, mas também acontece no presente, no momento em que o sacramento é realizado.

Essa definição é aproveitada pela tradição anglicana: o Catecismo Anglicano define sacramento como “um sinal externo e visível de uma graça interna e espiritual, que se nos concede, instituído pelo próprio Cristo, como meio de recebermos essa graça, e como penhor que nos assegure dela”. Ao reconhecermos nos sacramentos o meio de recebermos essa graça, vemos um vínculo firme entre o sinal externo e a graça interna. Uma forma mais simples é definir os sacramentos como “sinais eficazes da graça” (effectual signs of grace / efficacia signa gratiae), como faz o Art. 25. Não se trata, portanto, de qualquer tipo de sinal, como um sinal de trânsito que apenas comunica alguma informação; trata-se, antes, de um sinal eficaz, que realiza algo, a saber, a graça.

Esse ponto precisa ser bem entendido. No universo reformado, abusa-se da definição dos sacramentos como “sinais e selos” — buscando inspiração, em parte, em Rm. 4:11, que fala da circuncisão como “selo da justiça da fé” —, mas por vezes sem enxergar neles qualquer eficácia espiritual própria e particular, como se fossem “sinais e selos” de uma regeneração que já veio (para os adultos) ou ainda virá (para as crianças), e às vezes esse tipo de hermenêutica é empregado na leitura dos 39 Artigos, incorretamente. Assim, quando o Art. 27 trata o Batismo como “sinal de regeneração”, isso indica um sinal eficaz de regeneração, um sinal que provoca a regeneração, sendo essa a “graça interior e espiritual”.

Assim como se fala em “sinal de”, também se diz “sacramento de”: a Eucaristia é “Sacramento da nossa Redenção pela morte de Cristo”, e o sentido é o mesmo: sacramento pelo qual recebemos essa redenção, sinal eficaz da nossa redenção, sinal que realiza nossa redenção. Os sacramentos são sinais eficazes “pelos quais ele opera invisivelmente em nós, e não só vivifica, mas, também, fortalece e confirma a nossa fé nele” (Art. 25) — Deus nos vivifica (nos dá vida espiritual), fortalece, confirma através dos sacramentos.

Essa linguagem é chocante para o mundo evangélico, mas não está nem um pouco longe do modo como as Sagradas Escrituras tratam os sacramentos: no Batismo, morremos com Cristo para ressuscitarmos com ele (Rm. 6:4-6; Cl. 2:12), e, assim, recebemos a remissão dos nossos pecados (At. 2:38); na Eucaristia, entramos em comunhão com o corpo e sangue de Cristo e recebemos sua bênção (1Co. 10:16). Reconhecer o papel salvífico dos Sacramentos é reconhecer aquilo que Cristo faz através deles. Ele não apenas os instituiu, mas age através deles. Sua eficácia é plenamente cristocêntrica. Por isso também, a eficácia dos sacramentos, corretamente administrados, não é impedida pela impiedade dos ministros (Art. 26).

Os sacramentos funcionam porque Cristo fez promessas com respeito ao seu uso: o Catecismo nos fala (acerca do Batismo) de “promessas de Deus que se lhes faz neste Sacramento”, enquanto o Art. 26 nos diz que eles são “eficazes por causa da instituição e promessa de Cristo”. Isso significa que os sacramentos só têm a virtude que têm por ter Cristo se comprometido a realizar, através deles, coisas que não prometeu fazer de qualquer outra maneira

O Número dos Sacramentos

O anglicanismo reconhece um papel espiritual próprio no Batismo e na Eucaristia, que não está igualmente presente em nenhum outro rito da Igreja. Por isso, esses dois sinais são chamados Sacramentos do Evangelho, por terem sido diretamente ordenados por Cristo, com um sinal por ele estabelecido, e por estarem diretamente ligados à salvação de maneira particular.

A Homilia sobre Oração Comum e os Sacramentos explica porque a Absolvição (que mais se aproxima do Batismo e da Eucaristia) e a Ordem não são contados como sacramentos do mesmo modo que o Batismo e a Eucaristia, a partir de sua definição:

…sinais visíveis expressamente comandados no Novo Testamento, aos quais se anexa a promessa do perdão livre dos nossos pecados e da nossa santidade e união em Cristo, só há dois, a saber, o Batismo e a Ceia do Senhor. Pois, embora a Absolvição tenha a promessa do perdão de pecados, ainda assim ela não tem, por palavra expressa do Novo Testamento, essa promessa anexada e ligada a um sinal visível, que é a imposição de mãos. Pois esse sinal visível, a imposição de mãos, não é expressamente comandado no Novo Testamento para uso na Absolvição, como ocorre com os sinais visíveis do Batismo e da Ceia do Senhor; e, assim, a Absolvição não é Sacramento assim como o Batismo e a Comunhão são. E, embora a Ordenação de Ministros tenha seu sinal visível e sua promessa, ainda assim lhe falta a promessa da remissão do pecado, como têm os demais Sacramentos. Portanto, nem esse nem outro Sacramento são Sacramentos como o Batismo e a Comunhão são. Mas na acepção geral o nome de Sacramento pode ser atribuído a qualquer coisa pela qual algo santo é significado.

Isso significa que o anglicanismo não nega o nome de sacramentos (na acepção geral) à Absolvição (ou Penitência), à Ordem, assim como à Confirmação, à Unção dos Enfermos e ao Matrimônio. Apenas não os coloca no mesmo nível que o Batismo e a Eucaristia, os dois Sacramentos do Evangelho.

Cristo concedeu aos seus apóstolos, por exemplo, a autoridade para perdoar pecados (João 20:23), mas não atrelou essa autoridade a nenhum símbolo específico, cabendo à Igreja utilizá-lo como for melhor para as circunstâncias. A Unção dos Enfermos tem o sinal do azeite e tem até a promessa de perdão de pecados (Tg. 5:14-15), chegando muito perto da essência de um sacramento (o vínculo entre o sinal visível e a graça invisível), mas falta a instituição direta de Cristo no Evangelho (embora ela possa, indiretamente, ser indicada em Mc. 6:13), que frequentemente cura as pessoas apenas com imposição de mãos e até por outros meios — inclusive usando meios diferentes dos pedidos (Mc. 7:32-33).

Por isso, esses outros cinco ritos são às vezes chamados sacramentos menores (não no mesmo sentido que essa expressão tem no catolicismo romano) ou ritos sacramentais. A homilia trabalha, assim, com duas definições de sacramento, uma mais estrita e outra mais ampla, e esse parece ser o caso também com Santo Agostinho, que às vezes reconhece como sacramentos até o exorcismo (Sermão 227), o credo (Sermão 228) e o ósculo da paz (Sermão 229).

A Graça Interna

A definição já nos fornece as duas partes do sacramento, que o Catecismo aborda: o sinal exterior e visível (ou forma) e a graça interior e espiritual. Os sinais exteriores são conhecidos de toda a cristandade: a água, o pão, o vinho, assim como a imposição de mãos e o azeite para os sacramentos menores.

Quando dizemos “sacramento”, podemos indicar três realidades: o sinal exterior, a graça interior (res significata) ou ambos em vínculo. No sentido pleno da palavra, sacramento é a terceira opção, tanto o sinal quanto a graça, mas quando o definimos como sinal exterior de uma graça interior, enfatizamos o sinal, por motivos fenomenológicos: é com o sinal exterior que nos “deparamos” (embora isso também seja objetável, por motivos fenomenológicos!). Assim, a palavra “sacramento” é, às vezes, usada em sinédoque, indicando apenas parte do que o sacramento realmente é, e isso faz toda a diferença quando queremos compreender o significado de dizer que os sacramentos são “geralmente necessários à salvação”. (Do mesmo modo, chamar os sacramentos de “sinais” é uma sinédoque da parte para o todo, pois os sacramentos não são meros sinais.)

De maneira geral, existe uma mesma graça interna tanto no Batismo quanto na Eucaristia, já indicada na Homilia: “a promessa do perdão livre dos nossos pecados e da nossa santidade e união em Cristo” — perdão, santificação e união. Que ambos os sacramentos incluam a promessa de perdão de pecados, isto é, de que até a Eucaristia tenha essa promessa, talvez seja uma novidade para os católicos romanos, que só associam à Eucaristia o perdão de pecados veniais, e que, mesmo assim, não buscam especificamente nela esse perdão. Ainda assim, esse parece ser o teor das palavras de Cristo na Instituição: “isto é o meu sangue, o sangue da aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecado” (Mt. 26:28), uma leitura com base patrística endossada também por luteranos e ortodoxos.

O Catecismo esclarece a graça interna do Batismo como “A morte para o pecado e o novo nascimento para a retidão; porque sendo por natureza nascidos em pecado, e filhos da ira, com isso nos tornamos filhos da graça.” No começo do Catecismo, fala-se que no Batismo “fui feito membro de Cristo, filho de Deus, e herdeiro do Reino do céu”. Na base dessa teologia está a afirmação nicena de “um só batismo para remissão de pecados”. Após o Batismo de crianças, segundo o rito do LOC de 1662, o ministro declara que a criança recém-batizada “foi regenerada e introduzida no corpo da Igreja de Cristo” e rende graças a Deus porque lhe aprove “regenerar essa Criança com o teu Espírito Santo”. Assim, sem sombra de dúvidas o LOC e o Catecismo abraçam sem reservas a doutrina bíblica da regeneração batismal.

Na Eucaristia, a definição de sacramento já não opera tão bem quanto no Batismo, não por falta, mas por excesso: o Catecismo faz agora uma distinção (não presente no Batismo) entre a graça invisível (res sacramenti) e os benefícios de participar dignamente da Eucaristia (virtus sacramenti). No Catecismo, temos por graça invisível: “O Corpo e o Sangue de Cristo, que são espiritualmente tomados e recebidos pelos fiéis na Ceia do Senhor.” Já os benefícios são: “Nossas almas são fortalecidas e confortadas pelo Corpo e Sangue de Cristo, bem como o são os nossos corpos pelo Pão e Vinho.”

Essa distinção entre res sacramentivirtus sacramenti, entre a graça (Cristo) e os benefícios (fortalecimento e conforto) nos diz algo especial sobre a presença de Cristo na Eucaristia: Ele está presente na Eucaristia de um modo diferente do Batismo. Neste a graça e a virtude são a mesma coisa, mas naquele algo diferente ocorre. Isso se dá em virtude do próprio ato de consagração dos elementos. Embora a tradição da Igreja inclua a bênção da água para o Batismo, esta não é parte da essência do sacramento; já na Eucaristia, a “bênção” dos elementos (sua consagração, sua eucharistia no sentido greco-semítico) é essencial: ao abençoar os elementos, Cristo disse “fazei isto, ou seja, ordenou aos apóstolos também abençoar (dar graças) pelos elementos.

Assim, enquanto no Batismo o elemento é usado para “abençoar” uma pessoa (os batizandos são os alvos do sacramento, e a água um instrumento), na Eucaristia os próprios elementos são alvo de uma intenção sacramental (“consagração”), sendo, depois, recebidos por nós. A distinção entre res e virtus, na Eucaristia, assinala os correlatos de dois momentos específicos da ação sacramental: a consagração (para res) e a recepção (para virtus). Algo acontece primeiro nos elementos, para depois, então, algo acontecer em nós.

Sinais e Sacramentos

Sempre que no meio reformado se fala em “sacramentos”, noto uma tendência em lhes conceder certo papel “mental”: os sacramentos nos “lembram”, “falam”, “recordam”, “expressam”, eles apelam ao pensamento, à recordação, à imaginação. Nesse sentido, a mente torna-se como que um “mediador” entre o sacramento realizado (pelo ministro) e os benefícios espirituais recebidos. É o que eu chamo de sinalização intelectual: nessa teologia, o propósito do sacramento é comunicar (compartilhar) a graça através da sinalização intelectual.

Eu não nego a existência da sinalização intelectual. Os pais da Igreja observaram a similitude entre a função “mundana” dos elementos (a água limpa, a comida alimenta) e a função espiritual dos sacramentos (limpeza espiritual, alimentação espiritual). Nesse sentido, o modo como esses elementos funcionam no mundo serve como indicação simbólica do papel que assumem dos sacramentos. Isso não significa, porém, que esses sinais servem para simbolizar esse papel. O seu papel é conceder a graça a quem participa deles, e a Sabedoria Divina escolheu, para isso, elementos que naturalmente já simbolizam as realidades espirituais de certo modo, para facilitar sua compreensão.

Ademais, no Batismo, a sinalização intelectual está limitada a um momento específico. A água, por seu simbolismo natural, sempre representa pureza, mas ela só assume papel sacramental pleno no momento em que alguém é batizado. Como disse Santo Agostinho, o sacramento ocorre quando a palavra é adicionada ao elemento.

O batismo de crianças é um excelente teste para qualquer definição de sacramento como “sinal”, pois o batizando não é capaz de receber o sacramento através de sua própria inteligência. Nesse momento, falha qualquer tentativa de atrelar a eficácia sacramental à sinalização intelectual. O mecanismo sacramental deve transcender a capacidade intelectiva. A sinalização intelectual do sacramento só existe para a Igreja (para o ministro, para os pais, padrinhos); a criança apenas recebe passivamente a graça divina, sem entender o “sinal”. Assim, é impossível que, no batismo de crianças, o propósito do sacramento seja comunicar a graça através da sinalização intelectual. A sinalização ajuda apenas os presentes a entender (visualmente) que a graça é comunicada, mas não pode ser o meio e propósito do sacramento em si.

No fim das contas, atrelar a eficácia sacramental à sinalização intelectual mina todas as bases do batismo de crianças, e é engraçado ver presbiterianos defenderem a prática usando a mesma mentalidade (anti-)sacramental dos batistas.

Necessários para a salvação, geralmente

O Catecismo Anglicano declara que os sacramentos são “geralmente necessários para a salvação”. Ao dizê-lo, o Catecismo se coloca do lado dos pais da Igreja, para quem de fato os sacramentos (especialmente o Batismo) são necessários para a salvação. De fato, a própria Sagrada Escritura declara que o Batismo salva (1Pe. 3:21) e os sacramentos são sempre ligados a algum aspecto da salvação (remissão, comunhão, identidade, etc.). Mas parece haver certa dureza em se dizer que os sacramentos (inclusive a Eucaristia) são necessários (ou geralmente necessários) para a salvação. Não seria uma forma de excluir aqueles que não os receberam? Três coisas precisam ser ditas:

Em primeiro lugar, dizer que os sacramentos são meios da graça implica reconhecer que nós, seres humanos, somos (sobre)naturalmente deficientes, falta-nos algo, e que devemos receber esse algo em algum momento, onde nos tornamos, de certo modo, completos novamente. Precisamos ser revestidos de uma nova identidade espiritual (Gl. 3:26-28).

Em segundo lugar, a graça sacramental é e deve ser, a priori, resistível, pois é claro que nem todos os que receberam a graça da regeneração no Batismo estão, de fato, regenerados, e grande parte das críticas à regeneração batismal ignora isso, como que assumindo que a graça sacramental é irresistível. A graça salvífica é compartilhada nos sacramentos, mas nem todos de fato a acolhem. Como comentei em um texto anterior sobre a doutrina anglicana da Predestinação, a graça sacramental, na concepção anglicana, não é inteiramente consistente com a doutrina calvinista da expiação limitada, pois todo sacramento precisa comunicar a graça de Cristo, radicada na Cruz, a todo o que recebe o sacramento (mesmo que réprobo), mesmo quando só alguns desfrutam dela.

Em terceiro lugar, é importante recordar a distinção entre o interior e o exterior do sacramento. Como a salvação é inteiramente pela graça, não é possível ser salvo sem a graça que os sacramentos comunicam (graça interior e espiritual), mas Deus é livre para comunicar essa graça sem os sinais visíveis. Por isso, quando dizemos que os sacramentos são geralmente necessários para a salvação, apenas ressaltamos o fato de que Deus pode, excepcionalmente, conceder a sua graça por outros meios, mas nenhum de nós pode presumir-se excepcional.

Rev. Gyordano M. Brasilino

 

7 comentários em “A Doutrina Anglicana dos Sacramentos

    1. Revisionismo da pior qualidade. A evidência para o Batismo de crianças no século II é sólida, assim como era sólida e universal a crença na regeneração batismal.

      Nenhum pai da Igreja jamais negou a VALIDADE do Batismo de crianças, mesmo no caso excepcional de Tertuliano, que considerava a prática inteiramente válida, mas preferia adiar.

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      1. Muito bem! Acho sempre importante, quando falamos do batismo de crianças, enfatizar o papel que o sacramento tinha para os pais da Igreja. Mesmo nessa citação de Tertuliano, o papel é claro: remissão de pecados. Os opositores ao batismo de crianças não acreditam nesse vínculo entre sacramento e remissão (graça).

        É importante enfatizar isso, porque uma visão distorcida sobre o sacramento leva naturalmente ao impedimento das crianças. Na história da Igreja, PRIMEIRO Zuínglio trouxe uma nova concepção de batismo (mero símbolo), e só depois os seguidores dele (George Blaurock e outros) começaram a negar o sacramento às crianças, como conseqüência dessa nova teologia.

        Curtido por 1 pessoa

  1. Conheci esse blog por acaso, e que acaso feliz, porque poucas vezes hoje no mundo virtual vemos pessoas com opinião tão imparcial e longe de radicalismos, você como cristão anglicano expressa sua visão teológica baseada na sua fé mas eu como cristão católico nunca me senti ofendido com nenhuma ideia exposta aqui, na verdade sinto que uma união de toda a cristandade seria perfeitamente se houvessem mais indivíduos como você. Muito grato !

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