O que é escândalo?

Normalmente tratamos “escândalo” como algum tipo de história chocante envolvendo uma falha moral de impacto social muito grave. Falamos muito de escândalos políticos. Escandalizar seria o mesmo que chocar. Embora a noção bíblica de “escândalo” envolva essa gravidade e seriedade, além de poder ter um impacto social, ela indica algo um pouco diferente.

O substantivo e o verbo correspondentes, na Bíblia, significam um tipo de pedra colocada com o “armadilha” para fazer alguém tropeçar (literalmente), ou seja, pecar (figurativamente). Escandalizar é provocar a queda espiritual de outras pessoas, ou de nós mesmos (como em Mt 5:29-30; 18:8-9). Às vezes queremos escandalizar, e às vezes queremos algo que causa escândalo. Assim, tentar outras pessoas é uma forma de escandalizá-las (Mt 16:22-23). Escandalizar é fazer tropeçar, é enfraquecer outras pessoas (Rm 14:21).

Como a perseguição é uma tentação (de negar o nome de Cristo), ela é uma forma de escândalo para os fracos (Mc 4:17), e Cristo prepara seus discípulos para esse escândalo (Jo 16:1-2).

É óbvio que, se escandalizar é fazer outros caírem, isto é, fazer perecer aquele por quem Cristo morreu, segue-se que escandalizar normalmente é pecado. O que causa escândalo será removido do reino e condenado (Mt 13:41; 18:6-8), de modo que nosso propósito deve ser sempre o de não escandalizar ninguém (Rm 14:13; 1Co 8:9; 2Co 6:3), permanecendo “sem escândalo algum até ao dia de Cristo” (Fp 1:10). Paulo tem uma preocupação constante de que o evangelho não seja censurado (2Co 6:3; cf. 1Tm 5:14; 6:1; Tt 2:5,8), para que não haja obstáculo a ele (1Co 9:12).

Mas é preciso entender bem: escandalizar não é o mesmo que chatear outras pessoas, embora isso possa se escandaloso quando praticado por certas pessoas, especialmente pelos que representam Cristo, que devem ter como propósito agradar tantos quanto for possível, desde que isso não tire de Cristo o primeiro lugar (cf. 1Co 10:33; Gl 1:10). Ainda assim, o próprio Cristo, pregando e vivendo a Palavra, escandalizou pessoas em alguns momentos (cf. Mt 11:6; 13:54-58; 15:12-13; Jo 6:60-61; Rm 9:33), e uma das coisas que chocavam as pessoas em redor era certamente o modo como Cristo andava, comia e bebia com “pecadores”. Mas ele evitava escandalizar desnecessariamente (Mt 17:27).

O próprio evangelho é um escândalo para os judeus (1Co 1:23), o escândalo da cruz (Gl 5:11), a história de um rei crucificado por seu próprio povo, o que colocava cada judeu evangelizado diante de uma escolha muito difícil. Ser cristão é carregar esse escândalo, pois cada cristão deve carregar a cruz. Paradoxalmente, Paulo que que não causemos escândalo aos judeus (1Co 10:32).

Assim, por lealdade à verdade, e não por mera insensibilidade, eventualmente iremos escandalizar as pessoas, porque cremos numa mensagem que escandaliza, uma mensagem que, num dado momento, fará com que pessoas se afastem, como se afastaram de Jesus. Isso se dá porque, embora devamos procurar agradar tanto quanto puder, evitando afastar desnecessariamente, Paulo nos ensina também que não devemos nos tornar escravos de ninguém, e o discurso do escândalo pode se tornar numa prisão. É perigoso que nosso evangelho se torne escravo das conveniências sociais, refém da hipocrisia. Contra isso, o Apóstolo protesta: não se tornem escravos dos homens!

A regra deve ser sempre o amor, como lemos em 1João 2:10: “Aquele que ama a seu irmão está na luz, e nele não há escândalo.”

O Sacerdócio Ministerial no Novo Testamento

A profecia bíblica do Antigo Testamento nos ensina que haveria um tempo em que Deus faria novos sacerdotes dentro do povo de Deus, como lemos em Isaías 66:21: “Também deles tomarei a alguns para sacerdotes e para levitas, diz o Senhor.” Essa profecia foi escrita num tempo em que havia um sacerdócio organizado, desempenhando certos papeis religiosos, litúrgicos, espirituais, educacionais, sociais. Era o sacerdócio hereditário, o sacerdócio levítico. Era um sacerdócio, naquele período, fechado a qualquer outra pessoa de fora dos nascidos na linhagem sacerdotal.

Mas a profecia indica um tempo em que alguns dentre os israelitas que retornassem dentre as nações seriam selecionados como sacerdotes e levitas. Trata-se aqui de um novo sacerdócio. Não um sacerdócio de toda a nação, pois só alguns seriam escolhidos. Não há como dizer que essa profecia se refere ao chamado “sacerdócio de todos os cristãos” sem fazer violência às palavras do texto. Mas não se trata mais de um sacerdócio hereditário, pois seriam contados por Deus como “levitas” aquele que não eram da tribo de Levi. O que é esse novo sacerdócio? Como se cumpre essa profecia?

A maneira como a tradição cristã viu esse cumprimento é bastante óbvia: trata-se do ministério sacerdotal, desempenhado pelos ministros ordenados da Nova Aliança, de fundamento apostólico. Todas as grandes tradições cristãs anteriores à Reforma Protestante (assírios, católicos romanos, ortodoxos, não-calcedonianos) tratam seus ministros ordenados como sacerdotes; essa noção não foi “inventada” por nenhum desses grupos, pois é compartilhada por todos eles, e vemos essa noção nos Pais da Igreja que servem de inspiração para essas vertentes. Ou seja: o testemunho histórico em favor do sacerdócio é unânime. Algumas comunidades afetadas pela Reforma Protestante, como a Igreja Anglicana, continuaram a chamar os seu ministros de sacerdotes (priests) e referir ao seu papel como sacerdócio (priesthood). Mas isso é só uma questão de tradição, ou podemos observar esse sacerdócio no Novo Testamento?

Um primeiro esclarecimento importante é sobre o que se chama de sacerdócio de todos os cristãos ou sacerdócio batismal (porque recebido quando somos batizados). O Novo Testamento menciona essa noção em alguns momentos (1Pe 2:5-9; Ap 1:6; 5:9-10) e ela foi muito importante na Reforma Protestante, ainda que com divergências quanto a seus limites. O próprio Novo Testamento não nos diz muito sobre até onde vai esse sacerdócio, mas os textos indicam que, ao menos, oferecer certos sacrifícios espirituais e testemunhar da fé são parte desse sacerdócio. Possivelmente esses sacrifícios espirituais incluiriam a confissão do nome de Deus e prática do bem e do compartilhamento (Hb 13:15-16) e a contrição do coração, já conhecida no Antigo Testamento (Sl 51:16-17). Podemos falar aqui da importância da oração, que é prática de todos os cristãos. Porém o Novo Testamento nunca indica, como parte desse sacerdócio, o exercício de papeis litúrgicos ou sacramentais.

De todo modo, se todos os cristãos são sacerdotes, logicamente os ministro da Nova Aliança são também sacerdotes. A pergunta então deve ser, então: eles exercem o mesmo sacerdócio que todos os demais cristãos, sem qualquer diferença, ou têm um sacerdócio particular, algo mais? Há alguma indicação sobre isso nas Escrituras? Pois a existência de um sacerdócio universal não elimina um sacerdócio particular. De fato, os textos do Novo Testamento que mencionam o sacerdócio universal aludem a Êx 19:5-6, um texto do Antigo Testamento que fala de uma missão sacerdotal para todos os israelitas, num tempo em que havia sacerdotes com ordenação e missão específicas, não compartilhadas por todo o povo, como bem monstra a controvérsia com Corá (que é relembrada na Epístola de Judas). Se o sacerdócio universal não eliminava o sacerdócio ministerial no Antigo Testamento, também não eliminaria no Novo.

Há algo importante nesse ponto. Embora nenhum de nós viva sob a Lei de Moisés, é fato que seus princípios continuam sendo válidos para instruir os cristãos (2Tm 3:15-17). Embora não pratiquemos a circuncisão, o dízimo ou o culto do mesmo modo que se fazia no Antigo Testamento, os princípios a respeito dessas coisas continuam válidos e úteis. Assim também, quanto ao sacerdócio. O Novo Testamento não é uma eliminação do Antigo Testamento, mas sua superação honrosa.

É claro que os ministros da Nova Aliança não são chamados explicitamente de “sacerdotes” no Novo Testamento, isto é, não recebem ali esse nome explicitamente. Mas qualquer pessoa instruída minimamente acerca da teologia sistemática e sua história sabe que esse é um argumento muito frágil e insuficiente, muito fraco. Como cansamos de repetir, não negamos a existência da Trindade simplesmente porque “Trindade” não é uma palavra presente no Novo Testamento. As palavras ajudam, mas estamos em busca do significado por trás delas, da realidade a que elas apontam. Então, se não há um texto que diga que os ministros da Nova Aliança são sacerdotes, também não há um texto que diga que não são. O Novo Testamento jamais nega a existência do sacerdócio. Essa questão não está respondida pela presença ou ausência dessa palavra, pela afirmação ou negação.

De fato, o exemplo da Trindade também nos ajuda aqui em termos de método. Parte da demonstração da divindade do Espírito Santo nas Escrituras está em indicar como ele faz coisas divinas e tem coisas divinas, em suma, que ele desempenha um “papel” divino, um papel que cabe a Deus. Com o sacerdócio, dá-se o mesmo. Se observarmos as características e tarefas dos sacerdotes no Antigo Testamento e as compararmos às dos ministros do Novo Testamento, veremos uma grande continuidade. Não se trata de uma identidade total, pois os sacerdotes do Antigo Testamento e os do Novo não são a mesma coisa.

Muitas dessas tarefas não são exclusivas dos sacerdotes. De fato, podemos ver a grande maioria delas ser desempenhada por figuras não identificadas como sacerdotes, particularmente grandes profetas. No entanto, colocadas em conjunto, elas claramente indicam o papel sacerdotal, coisas que os sacerdotes deveriam fazer regularmente, mesmo que outras pessoas o façam esporadicamente. Assim, a pergunta diante de nós é: quando descobrimos a essência do sacerdócio no Antigo Testamento, podemos vê-la no ministério do Novo Testamento de tal modo que seja justificado chamá-lo de “sacerdócio”?

Dentre as funções dos sacerdotes no Antigo Testamento, podemos listar, dentre outras coisas:

Ensinar. Os sacerdotes levíticos eram os professores naturais do povo de Israel, com a função de ensinar toda a nação a obedecer as leis divinas, como aprendemos em vários textos bíblicos (cf. Lv 10:8-11; Dt 24:8; 33:10; Ez 44:21,23; Ml 2:7). Outras pessoas podiam ensinar também, mas eles deviam ensinar. Esse é um papel óbvio dos ministros da Nova Aliança (cf. 1Tm 3:2; 5:17). Quando enviou seus apóstolos pelo mundo, Cristo lhes disse que eles deveriam ensinar as pessoas a guardarem tudo o que ensinou (Mt 28:20). O ensino da obediência é uma função sacerdotal compartilhada pelos ministros da Nova Aliança. (Os texto de Levítico e Ezequiel têm uma recomendação contra bebida forte no ministério que aparece também nas exigências dos ministros em 1Tm 3:3,8.)

Ungir. É muito comum, na Lei, que os sacerdotes unjam as pessoas com óleo. Um exemplo interessante é a unção com azeite dos leprosos, em Lv 14:15-18, uma unção que trazia expiação. Vemos a mesma unção com azeite de um enfermo no Novo Testamento, em Tg 5:13-15, que trazia também perdão de pecados (além de cura física), nas mãos dos presbíteros. Os apóstolos tinham esse costume (cf. Mc 6:13).

Purificar (com água). Vemos os sacerdotes usando água para purificar na Lei (Nm 8:7; cf. Nm 31:23). Os ministros da Nova Aliança, no Novo Testamento, batizam seguindo uma ordem de Jesus (Mt 28:19), trazendo purificação (cf. 1Co 6:11). Quanto a essa purificação batismal, a palavra empregada no Novo Testamento é de que o nome foi “invocado sobre” as pessoas num dado momento (cf. Tg 2:7), o que mostra a função sacerdotal de invocar o nome sobre outras pessoas.

Receber e consagrar as ofertas a Deus. Cabia aos sacerdotes e levitas na Lei receber dízimos, primícias e ofertas (cf. Nm 18:21; Ne 10:37-38; Hb 7:5); é por esse motivo que Abraão entregou o dízimo ao sacerdote Melquisedeque. Vemos o mesmo ocorrer no Novo Testamento. Na igreja nascente, as ofertas eram colocadas aos pés dos apóstolos (At 4:35). Do mesmo modo Paulo fala em Rm 15:16, em termos sacerdotais (leitourgon, hierogounta), de sua missão de consagrar as ofertas dos gentios, para que fossem aceitáveis. Qualquer comunidade que afirmar a necessidade do dízimo mas negar o sacerdócio se contradiz, porque cabe aos sacerdotes receber o dízimo. De fato, assim como os sacerdotes da antiga aliança deveriam viver do que recebiam, também os ministros da Nova Aliança (1Co 9:14).

Ministrar o perdão dos pecados e a expiação. É de amplo conhecimento que os sacerdotes do Antigo Testamento ministravam perdão e expiação, como já vimos. Os ministros do Novo Testamento fazem o mesmo. Cristo deu aos apóstolos a autoridade para perdoar pecados (Jo 20:23), e os presbíteros cristãos fazem o mesmo ungindo com óleo (Tg 5:13-15).

Interceder. O que acabamos de dizer se enquadra dentro de uma função intercessória maior. O sacerdote intercede, roga, suplica pelo povo. Vemos o apóstolo Paulo fazê-lo continuamente em suas cartas.

Cuidar da casa de Deus. Cuidar da casa do Senhor era uma função levítica (cf. Nm 1:53; 3:32; 31:30; 1Cr 23:32). Essa mesma função ocorre no Novo Testamento para os ministros da Nova Aliança (1Tm 3:5). É claro que esse cuidado sobre a casa de Deus agora não se refere ao “prédio”, mas à Igreja enquanto Templo e casa de Deus. De fato, quando dizemos que a Igreja é Templo do Espírito Santo (cf. 1Co 3:16-17), presumimos a existência de um sacerdócio que cuide desse templo.

Realizar sacrifícios. Os sacerdotes consagram sacrifícios, na Lei de Moisés. Podemos dizer que os ministros da Nova Aliança realizam sacrifícios específicos? De fato, a Eucaristia é tratada como um sacrifício no Novo Testamento: em 1Co 10:16-21, a Eucaristia é colocada lado a lado aos sacrifícios da Lei (“Israel segundo a carne”) e os sacrifícios dos gentios; em Hb 13:10, fala-se de comer de um determinado altar, usando uma palavra que presume sacrifício (thysiastērion = “sacrificiatório”). Se a Eucaristia é um sacrifício — não um novo sacrifício, mas o mesmo sacrifício de Cristo, do qual agora comemos —, aqueles ministros que a oficiam (inicialmente os apóstolos) são sacerdotes. Há, porém, uma importante distinção entre os clérigos do Novo Testamento e os do Antigo, ressaltada pela Epístola aos Hebreus: os sacerdotes do Antigo Testamento faziam sacrifícios pelos pecados repetidos e incapazes, em si mesmos, de santificar, enquanto Cristo realizou um sacrifício único e irrepetível.

Julgar e excomungar. Como os levitas faziam separação entre o puro e o impuro (Lv 10:10), eles tinham um papel de vigilância, para separarem o que fosse comum ou impuro. Somente o puro poderia entrar na presença do santo, e os sacerdotes agiam aqui, desse modo. O livro de Esdras testemunha, nos capítulos finais, justamente uma aplicação desse princípio. Isso se dá porque cabia aos sacerdotes exercer juízo (cf. Ez 44:24). Assim também, vemos, no Novo Testamento, a aplicação desse juízo pelos apóstolos e por figuras pastorais como Timóteo (cf. 1Co 5:3-5; 1Tm 5:19).

Conduzir a liturgia. Os sacerdotes conduzem a liturgia no Antigo Testamento com tal frequência que isso dispensa comentários. No Novo Testamento, a oração (comunitária), juntamente com o ministério da palavra, é função apostólica (At 6:4), no que eles têm primazia (At 20:11).

Representar Deus. Em suma, o sacerdote era representante de Deus, ou, nas palavras de Ml 2:7, “mensageiro”, “anjo” do Senhor. De fato, a palavra apóstolo, no contexto do Novo Testamento, indica um “representante” (emissário). Os ministros das sete igrejas do Apocalipse são chamados anjos (angeloi), assim como em Malaquias 2:7.

Sacerdotes levíticos abençoam e invocam o nome do Senhor sobre o povo, ensinam a Palavra de Deus, são ministros de cura física e espiritual (especialmente o perdão), ungem, recebem e administram ofertas, presidem sobre a liturgia e sobre o altar, regem o povo em matéria espiritual e disciplinam a pureza e impureza. Todas essas e outas funções estão presentes no Novo Testamento. Vemos, em tudo isso, que o sacerdote é um representante de Deus com a missão oficial de ajudar as demais a se achegarem a Deus como devem. É exatamente a mesma coisa que faz um ministro da Nova Aliança no Novo Testamento, e é exatamente o mesmo sacerdócio primitivo de Adão: servir (lavrar) e guardar o jardim de Deus. Quando dizemos que um ministro da Nova Aliança é sacerdote, queremos dizer que ele age precisamente com tal função: ser um representante de Deus com a missão oficial de ajudar as demais a se achegarem a Deus como devem. Tanto no Antigo Testamento quanto no Novo, esses ministro são consagrados através de um rito de “ordenação”.

Cristo não aboliu a existência de um sacerdócio especial, pois ele mesmo é um sacerdote, na realidade um sumo sacerdote. O sacerdócio de todos os cristãos não é uma abolição do sacerdócio antigo, mas sua expansão ponto de fato mesmo no Antigo Testamento havia esse sacerdócio universal. Aquilo que nós fazemos hoje como parte do sacerdócio universal era feito no antigo testamento pelos israelitas que eram participantes de um sacerdócio a existência de um sacerdócio universal não elimina o sacerdócio particular e ministerial. Portanto se dizemos que todo cristão é um sacerdote, consequentemente os pastores, por serem cristãos, são sacerdotes também (no sentido mais amplo). A questão é: o sacerdócio que eles exercem é idêntico ao dos demais cristãos, ou se refere a algo mais que eles recebem ministerialmente como função, além daquilo que todo cristão pode e deve realizar? Pelo que mostramos acima, a resposta é a segunda. Existe um sacerdócio cristão ordenado.

O leitor talvez tenha percebido que, o tempo todo, chamei os pastores do Novo Testamentos de “ministros da Nova Aliança”, ecoando uma expressão paulina (2Co 3:6). A palavra “ministro” é, ela mesma, uma palavra que tinha conotações sacerdotais (Is 61:6; Jr 33:21; Ez 45:4-5; Jl 1:9,13 etc), e é especial que Paulo a aplique para os obreiros cristãos, em contraposição aos ministros da Lei.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Paulo desprezava o Batismo? (1Co 1:10-17)

Para Paulo, o Batismo não salva?

Quem está informado dos debates em torno da eficácia do sacramento do Batismo e da literatura teológica relevante possivelmente já chegou à discussão em torno de 1Co 1:10-17, texto usado pelos que negam a eficácia do Batismo. Grosso modo, o argumento é de que Paulo (supostamente) dá ao Batismo uma importância inferior à pregação, o que ele não faria se o Batismo fosse meio de salvação. Entre os que veem os sacramentos como meros símbolos e desnecessários a salvação, Paulo mostra nesse capítulo como a pregação do evangelho é essencial e fundamental a salvação e o batismo é acessório e secundário.

É estranho que seja assim, diante de tudo o que Paulo diz sobre o Batismo, em outros textos. Seria uma clara contradição. Um problema nessa leitura é bem comum: ver no texto mais do que ele diz e não ver nele o que de fato ele diz. Não é uma leitura atenta ao texto, mas um uso polêmico do texto. Quando lemos os textos sagrados, devemos estar atentos aos porquês, às razões dadas pelos autores sagrados para suas próprias palavras, e não inventar razões nossas. Não podemos trocar as relações gramaticais do próprio texto pelas nossas próprias inferências (enviesadas teologicamente).

Mesmo exegetas competentes como James G. Dunn caem nesse erro. Veem que Paulo diz que não foi enviado “para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17) e “deduzem” daí que o motivo é que o Batismo é menos importante que a pregação. Leem “Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio;” (v. 14) e deduzem daí que Paulo dava pouca importância ao sacramento. Deduzem daí que isso significa que o batismo não tem uma necessidade salvífica. Mas essas coisas jamais são ditas no texto. Em nenhum momento Paulo diz que não foi enviado para batizar porque o Batismo é menos importante que a pregação, nem que ele agradece por não ter batizado muitos porque o Batismo não salva. Esses “porquês” são coisas que o leitor traz ao texto, não coisas que ele extrai do texto. O viés anti-sacramental do leitor dificulta ler o texto de outra maneira.

É claro, não podemos imputar a esses leitores desonestidade. Somos acostumados, de fato, a tratar aquilo que é essencial como prioridade, então podemos ver uma semelhança entre o que Paulo diz e nossa própria maneira de estabelecer uma hierarquia de valores. Mas ocorre que os porquês são dados no texto, então não precisamos imaginá-los! Nossa responsabilidade é perguntar ao texto qual é sua lógica interna. Paulo não está num debate teológico sobre a importância do Batismo, mas tratado pastoralmente uma situação bem diferente: falta de unidade na Igreja, e usa também o Batismo como marca dessa unidade.

O problema com o qual Paulo lida é dado nos primeiros versículos: “Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que faleis todos a mesma coisa e que não haja entre vós divisões; antes, sejais inteiramente unidos, na mesma disposição mental e no mesmo parecer. Pois a vosso respeito, meus irmãos, fui informado, pelos da casa de Cloe, de que há contendas entre vós. Refiro-me ao fato de cada um de vós dizer: Eu sou de Paulo, e eu, de Apolo, e eu, de Cefas, e eu, de Cristo.” (1Co 1:10-12)

O que vemos aí? Um problema de desunião entre os cristãos coríntios. Entre eles, tornou-se comum (“cada um de vós”) se apegar a uma das figuras apostólicas (Paulo, Apolo, Cefas) ou ao próprio Cristo; o vínculo com essas figuras prejudicava a unidade naquela igreja. O tema não se esgota nesse capítulo, mas continua sendo tratado nos seguintes, como indicam as referências continuadas a essas mesmas figuras e ao seu papel da igreja (3:4-6,22; 4:6). É comum descrever esse problema como partidarismo.

Como Paulo começa a tratar do problema? Ele escreve: “Acaso, Cristo está dividido? Foi Paulo crucificado em favor de vós ou fostes, porventura, batizados em nome de Paulo?” (v. 13). As duas perguntas retóricas de Paulo mostram um tratamento inicial do problema: a unidade de Cristo, a unicidade da obra de Cristo e a uniformidade do Batismo, assunto a que ele retorna no capítulo 12. Cristo não está dividido, portanto a Igreja não pode estar. Paulo não foi crucificado em favor dos coríntios, ele não é salvador; Cristo é. Por isso mesmo, os coríntios não foram batizados em nome de Paulo, mas em nome de Cristo.

Note-se: Paulo coloca, ao lado de Cristo e de sua crucificação, o Batismo como fundamento da unidade dos coríntios. Eles foram lavados, santificados e justificados no mesmo nome (1Co 6:11). Quando se perguntam por sua identidade e, portanto, por sua unidade, os coríntios devem olhar para o Batismo e o fato de que foram batizados no mesmo nome, não no nome de Paulo ou de qualquer outra pessoa. Portanto, Paulo vê aqui, em algum sentido (esclarecido noutros textos), que o Batismo define a identidade cristã. Essa não é uma concepção “baixa” do sacramento, embora não esteja explícito o quão alta ela é.

Vemos, então, que o Batismo (como referencial) entra em cena como parte da solução para o problema de unidade entre os coríntios. Até aqui, a discussão não é sobre o papel ou importância do Batismo. Mas Paulo prossegue:

“Dou graças [a Deus] porque a nenhum de vós batizei, exceto Crispo e Gaio; para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome. Batizei também a casa de Estéfanas; além destes, não me lembro se batizei algum outro. Porque não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho; não com sabedoria de palavra, para que se não anule a cruz de Cristo.” (vv. 14-17).

Como dito acima, em nenhuma parte do texto Paulo diz que o Batismo não tem importância ou valor salvífico. A intenção está no próprio texto. Quando Paulo diz que dá graças por não ter batizado (v. 14), o motivo não é uma ineficácia salvífica do Batismo, mas sim “para que ninguém diga que fostes batizados em meu nome” (v. 15) e que “não me enviou Cristo para batizar, mas para pregar o evangelho” (v. 17). Quanto ao v. 15, Paulo é irônico quando diz que se alegra de não tê-los batizado; não por conta do Sacramento, mas pelo comportamento dos coríntios. Quanto ao v. 17, o leitor pode presumir que Cristo tenha orientado Paulo ao mais importante, mas o texto em si não diz que Paulo deveria pregar o evangelho por isso ser mais importante, ou mais necessário. Na verdade, Paulo não faz nenhuma oposição, nem estabelece nenhuma hierarquia de importância entre Pregação e Batismo.

Diante do texto como lemos até agora, poderíamos presumir que Paulo simplesmente tinha uma função e deixava o Batismo a outras pessoas. Assim, Cristo o teria direcionado a um ministério específico, para cumprir com maior excelência, só batizando excepcionalmente. Não há motivo para supor que seja algo além disso. Mas há algo mais, no texto: Paulo disse que foi enviado a pregar “não com sabedoria de palavra” (v. 17), e, com isso, dá início a uma longa teologia da cruz, na qual o próprio pregador da “palavra da cruz” é chamado a se esvaziar e ser crucificado. Assim, Paulo, que fora colocado como uma das preferências coríntias, agora humilha sua própria pregação como “loucura”. Por que Paulo traz esse tema logo em seguida, senão porque o auto-rebaixamento de Paulo seja, também, uma resposta ao partidarismo coríntios?

Assim, em vez de colocar sua própria pregação como sendo a coisa mais importante (o que o exaltaria diante dos coríntios), na verdade Paulo se coloca como aquele que faz coisa inferior, ainda que se glorie no Senhor. O que Paulo diz não é “eu sou um apóstolo e faço o mais importante”, mas “eu sou um apóstolo dedicado a essa missão que em nada me exalta”.

Sobre Pregação e Batismo, devemos reconhecer que tanto um quanto o outro são tratados como meios de salvação (de modos diferentes) nas Escrituras. Embora sejam necessários, em ambos os casos visualizamos exceções. Assim, crianças muito pequenas são salvas sem pregação; pessoas que morram antes do Batismo podem ser salvos sem eles. Mas essas situações não eliminam aquilo que o Espírito Santo faz ordinariamente através da Pregação e do Sacramento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Doutrina Protestante da Virgindade Perpétua de Maria

Imagino que, para a maioria dos leitores, o título deste texto talvez pareça um absurdo. Quando aderem ao protestantismo, especialmente o protestantismo de tipo evangélico, em geral os cristãos aprendem a rejeitar quase tudo o que aprenderam no catolicismo acerca de Maria, como coisa espúria, maligna, idólatra, sem fundamento na Palavra de Deus. A figura de Maria termina tão despida de qualidades que há um medo de dizer qualquer coisa boa ou positiva sobre ela. De fato, há quem chegue a tratar Maria como uma mulher qualquer, como uma pecadora qualquer. Teme-se que, honrando Maria, Deus seja menos adorado.

O título é sugestivo, por outro motivo. Tratamos aqui da doutrina protestante da Virgindade Perpétua de Maria. Há uma doutrina protestante da Virgindade Perpétua, uma doutrina especificamente protestante ou uma versão protestante da doutrina? Com isso não quero dizer, é claro, que o resultado seja diferente do da doutrina católica romana ou da ortodoxa, mas se trata de uma abordagem um pouco diferente, com suas próprias nuances. Os protestantes em geral não se satisfazem com o consenso histórico em favor da Virgindade Perpétua. Exigem provas mais rigorosas de uma determinada doutrina, que se baseiem nas Escrituras Sagradas, no testemunho apostólico mais antigo. Então embora eu mostre aqui o que pensavam figuras como Lutero e Calvino, o propósito de estabelecer esse consenso não é de tratá-lo como uma prova exata da doutrina, mas uma prova de que essa é a doutrina protestante original, preservando o consenso histórico, e que não há nada de especificamente protestante na negação da Virgindade Perpétua, nem é “coisa de católico” afirmá-la.

1. Testemunhos protestantes em favor da Virgindade Perpétua

Como é de amplo conhecimento, a Virgindade Perpétua de Maria é afirmada pelos Pais da Igreja, com exceção de Tertuliano (cuja condição entre os Pais é disputada). Mas também Lutero, Calvino, os reformadores ingleses e teólogos carolinos, John Wesley (o pai do movimento evangélico) e tantos outros afirmaram a Virgindade Perpétua e rejeitaram argumentos empregados contra a doutrina (como o que usa Mt 1:25).

Para uma lista (em inglês) de citações de reformadores apoiando a Virgindade Perpétua, veja aqui. A Segunda Confissão Helvética (1562) também professa que Maria é “sempre virgem” (c. 11). Quanto aos bispos e teólogos anglicanos, vemos afirmações da Virgindade Perpétua por todo lado. Três exemplos, de épocas contíguas, nos séculos XVI e XVII, são Cranmer, Andrewes e Taylor. Na Correção, o arcebispo Thomas Cranmer (1489–1556) escreveu:

“E eu creio também que esse menino Jesus Cristo não apenas foi concebido sem pecado, mas também nasceu igualmente da referida benditíssima mãe; e que ela, tanto na concepção quanto no nascimento e natividade do seu filho, assim como para sempre, reteve sua sua virgindade pura e imaculada…”

Nas suas Devoções Privadas, o bispo Lancelot Andrewes (1555–1626) escreveu:

“Fazendo menção da toda santa, imaculada e benditíssima Maria, Mãe de Deus e Sempre Virgem, com todos os Santos, encomendemos a nós mesmos e uns aos outros e toda a nossa vida a Cristo, nosso Deus.”

Em seu Golden Grove, o Rev. Jeremy Taylor (1613–1667) escreveu:

“…e ela recebeu a honra de ser Mãe do Filho de Deus, e para sempre Virgem, e todas as gerações a chamarão bendita.”

É importante dizer também que, se esse é o consenso, e se a Igreja é a coluna e baluarte da verdade (1Tm 3:15), esse consenso, que inclui cristãos de ramos tão distintos (assírios, ortodoxos, miafisitas, protestantes, romanos) não pode ser desprezado. Não podemos imaginar que algum gênio, depois de tanto tempo, tenha finalmente entendido as Escrituras em contrário a tudo o que foi ensinado antes. A afirmação da Virgindade Perpétua de Maria não é um “resquício do catolicismo”, como se o propósito da Reforma Protestante fosse eliminar o catolicismo, assim como não são resquícios de catolicismo a afirmação dos dogmas da Trindade e da União Hipostática.

2. Jesus, o único filho de Maria

A demonstração da Virgindade Perpétua de Maria começa estabelecendo um fato: Maria teve apenas um filho. Isso é um passo importante, pois, embora ter tido apenas um filho não seja prova suficiente da continuidade da virgindade após o nascimento de Jesus — poderíamos supor que Maria teve apenas um filho conhecido e, ainda assim, teve uma vida sexual com José, por ser estéril ou porque outros filhos teriam morrido ainda no ventre ou bem pequenos —, ainda assim o argumento de que Cristo teve irmãos é usado como argumento fácil contra a Virgindade Perpétua.

Assim, o que nos ensinam as Escrituras nessa área? Em primeiro lugar, é importante dizer que não há texto nas Escrituras que diga que Maria tenha tido outros filhos, ou que tenha perdido a virgindade. Há textos dos quais se tenta deduzir isso, mas não há um texto que realmente indique tal coisa. Nesse assunto, um texto que nos instrui muito é o de João 19:26-27 (NAA):

Vendo Jesus a sua mãe e junto dela o discípulo amado, disse: — Mulher, eis aí o seu filho [íde ho huiós sou]. Depois, disse ao discípulo: — Eis aí a sua mãe [íde hē mēter sou]. Dessa hora em diante, o discípulo a tomou para casa [eis ta ídia].

Nesse texto, Cristo como que transfere para o Discípulo Amado a responsabilidade de ser o filho de Maria, e dá a ela a responsabilidade de ser sua mãe. A expressão que Crito usa, nessa transferência de filiação, é sugestiva: “eis aí o seu filho”, como que indicando que não havia outro filho para cuidar de Maria, o qual, a partir daquele momento, a recebeu em casa [eis ta ídia]. Naquele contexto semítico, não era incomum que mulheres que não fossem mães naturais fossem, ainda assim, chamadas de mães (cf. Rm 16:13). Cristo não diz que o Discípulo Amado deveria apenas cuidar de Maria, mas que deveria ser o seu filho. Esse texto nos indica também, implicitamente, que José já estava falecido, algo que será importante posteriormente. Não haveria sentido em privá-la de seu marido se ele ainda estivesse vivo. O “filho” só teria responsabilidade em receber a mãe em casa se o marido de sua mãe (seu pai) já tiver morrido. De todo modo, por esse texto, parece que Maria tinha apenas um filho: Jesus, cujo papel é assumido por João.

Ironicamente, outro texto particularmente importante para mostrar que Maria tinha apenas um filho é aquele que amiúde é citado como indicação de que Jesus tinha irmãos naturais: Marcos 6:3. O texto expressa a surpresa ou desconfiança dos conterrâneos quanto a Jesus. Essa história aparece em diferentes versões nos quatro evangelhos, as quais nos fornecem várias informações relevantes:

Mateus 13:54-56 : E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de modo que se maravilhavam e diziam: — De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? Não é este o filho do carpinteiro [ho tou téktonos huiós]? A sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? Todas as suas irmãs não vivem entre nós? Então, de onde lhe vem tudo isto?

Marcos 6:1-3 : Tendo saído dali, Jesus foi para a sua terra, e os seus discípulos o acompanharam. Chegando o sábado, começou a ensinar na sinagoga, e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: — De onde lhe vem tudo isso? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Não é este o carpinteiro, o filho de Maria [ho huiós tēs Marías] e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? As suas irmãs não vivem aqui entre nós? E escandalizavam-se por causa dele.

Lucas 4:22 : Todos davam testemunho dele e se maravilhavam das palavras cheias de graça que lhe saíam dos lábios. E perguntavam: — Não é este o filho de José?

João 6:42 : E diziam: — Este não é Jesus, o filho de José [ho huiós Iōsēph]? Por acaso não conhecemos o pai e a mãe dele? Como é que ele agora diz: “Desci do céu”?

O modo como Jesus é identificado, nesses textos, é bastante sugestivo: ele é identificado como “o filho de José”, “o filho do carpinteiro”, “o filho de Maria”, expressões bastante sugestivas de que Cristo era o único filho conhecido. A expressão é tão sugestiva que, no caso de Mc 6:3, a maioria das traduções bíblicas ocultam o artigo definido. Em Jo 6:42, em que ele é identificado como “Jesus, o filho de José”, é perfeitamente plausível que o artigo definido cumpra aí apenas a função de identificar um Jesus dentre muitos, já que seu nome (Iēsous, Yēšûaʿ) era relativamente comum na época; não indicaria necessariamente o único filho. Davi é também chamado “o filho de Jessé”, mesmo havendo outros. Mas os outros exemplos são diferentes. Sem a identificação do seu nome, ele é chamado simplesmente de “o filho do carpinteiro” (Mt 13:55) e “o carpinteiro, o filho de Maria” (Mc 6:3), ambas marcadas pelo artigo definido. Essas expressões perderiam sua utilidade se houvesse outros filhos possíveis (ao menos quatro). Assim, a melhor explicação é de que Jesus seria o único filho natural de Maria e (como se pensava) de José.

Mas os textos não mencionam outro irmãos? Como explicaremos logo adiante, usar outros textos bíblicos para identificar esses irmãos (Tiago, José, Simão, Judas), especialmente Tiago, nos ajuda a mostrar que esses não eram irmãos naturais. Assim, ao que parece, Maria não teve outros filhos além de Jesus. É por esses motivos que não vemos nenhum sinal de irmãos em Lc 2:41-51, quando o Senhor já tinha doze anos de idade.

3. Os Irmãos do Senhor

Alguns textos bíblicos falam de pessoas conhecidas como Irmãos do Senhor, sem explicitar o que essa expressão significa. Na antiguidade, a cristandade ortodoxa tinha duas posições principais sobre quem eles seriam: segundo a tese de Jerônimo, eram primos de Jesus; segundo a de Epifânio, eram meio-irmãos de Jesus, filhos de José de um casamento anterior. Essa segunda tese parece não ter nenhum indício real no Novo Testamento, antes parece contradizer o que acabamos de dizer: Cristo era o único “filho” conhecido de José. A primeira tese, porém, emerge naturalmente dos indícios que o Novo Testamento dá acerca dessas figuras, particularmente Tiago.

Uma primeira informação importante, acerca desses irmãos do Senhor, é que inicialmente “nem mesmo seus irmãos criam nele” (Jo 7:5). Obviamente, Maria e José acreditavam, pois receberam diversas revelações angélicas. Como explicar que irmãos naturais, criados na mesma casa e recebendo o mesmo testemunho de Maria e de José, não acreditassem em Jesus?

Dentre os Irmãos do Senhor, o mais bem identificado é Tiago. Os indícios das Escrituras Sagradas são de que Tiago, irmão do Senhor, era filho de Alfeu, um dos doze apóstolos de Cristo, não sendo, portanto, um irmão natural. Não há uma prova cabal, mas tudo o que sabemos sobre ele aponta nessa direção. Quando lemos o que o Novo Testamento indica sobre Tiago, irmão do Senhor, e Tiago, filho de Alfeu, a melhor explicação é de que eles eram a mesma pessoa. Os dados casam perfeitamente, e isso provavelmente era tão óbvio para os primeiros cristãos que eles sequer precisaram explicar. Grosso modo, seria uma identificação entre o Tiago das epístolas e o Tiago menor dos evangelhos (e Atos). Não devemos multiplicar Tiagos desnecessários.

O que sabemos sobre Tiago, o irmão do Senhor?

I. Ele não poderia ser o filho de Zebedeu, pois esse logo foi martirizado.
II. Ele era um dos apóstolos e vivia em Jerusalém. A leitura inclusiva de Gálatas 1:19 é a mais simples: “não vi a nenhum outro dos apóstolos, senão a Tiago, irmão do Senhor”, ou seja, não viu nenhum outro apóstolo além de Tiago; do contrário, a comparação entre ele e os apóstolos seria desnecessária. Essa visita a Tiago se deu quando Paulo estava em Jerusalém (v. 18). Essa leitura é fortalecida por 1Co. 9:5, que coloca implicitamente os “irmãos do Senhor”, juntamente com Cefas (Pedro), entre os apóstolos. O texto pode ser melhor traduzido assim: “como também os demais apóstolos, tanto os irmãos do Senhor quanto Cefas”, pois Cefas era apóstolo, e a construção grega (“kai/kai” como “tanto/quanto”) o permite. É possível que 1Co. 15:7 indique o mesmo.
III. Ele era uma das colunas, ao lado de dois apóstolos. A mesma epístola se refere a Tiago, Cefas (Pedro) e João como as três colunas entre os cristãos de Jerusalém, e mostra que eles ministravam aos judeus (vv. 2:1,9), e que ele provavelmente procurava manter boas relações com judeus zelosos em Jerusalém (Gl. 2:12). Isso condiz com o retrato de Tiago de Jerusalém em At. 21:18-24.
IV. Não há qualquer história de sua conversão como tal. Ele simplesmente “aparece” como líder cristão, no livro de Atos, e já estava lá aguardando o Pentecostes.

Agora, o que sabemos sobre o apóstolo Tiago, filho de Alfeu?

I. Sabemos que Judas era seu irmão. Não se trata do Iscariotes, mas do apóstolo identificado como escritor da Epístola de Judas, que nela nos diz ser “servo de Jesus, Cristo e irmão de Tiago” (1:1). Tanto no Evangelho de Lucas (6:15-16) quanto nos Atos (1:13), há essa identificação: “Tiago, filho de Alfeu… e Judas, irmão de Tiago”. Isso parece significar que tanto Tiago quanto Judas eram filhos de Alfeu. (Nada sabemos sobre a vida desse Alfeu, e certamente entre os cristãos ele era uma figura menos importante que seu filho Tiago, já que Judas é denominado pelo irmão, não pelo pai.)
II. Ele era famoso. De fato, o escritor da Carta de Tiago era tão famoso que poderia ser simplesmente identificado por seu nome pessoal, Tiago, enquanto seu irmão, escritor da Carta de Judas, era identificado por ele, como “irmão de Tiago”. Se houvesse uma multiplicidade de Tiagos importantes, esperaríamos que os textos os distinguissem de alguma maneira. Enquanto eram dois, eram identificados pelos pais (Zebedeu, Alfeu); com a morte do filho de Zebedeu, a identificação se tornou desnecessária.
III. Ele provavelmente era o Tiago de Jerusalém, líder daquela Igreja. Com a morte do filho de Zebedeu (At. 12:2), o livro de Atos menciona certo Tiago à frente da Igreja em Jerusalém (15:13; 21:18). Ele não vê qualquer necessidade em identificar esse Tiago, tratando-se de uma pessoa importante, de fácil identificação. Toda a probabilidade é de que seja o mesmo Tiago dos onze. Portanto, Tiago, irmão de Judas e filho de Alfeu, provavelmente era um líder cristão importante em Jerusalém; na verdade, liderava os anciãos (presbíteros) daquela Igreja e responsável pela igreja como um todo (12:17).
IV. Ele provavelmente tinha uma mãe chamada Maria. Entre as mulheres que testemunharam a ressurreição estava certa “Maria, mãe de Tiago” (Lc. 24:10), que não era Maria, a mãe do Senhor. Havendo dois Tiagos possíveis no Evangelho, o mais provável é que ela seja a mãe do Tiago que se tornou mais proeminente: o filho de Alfeu, Tiago de Jerusalém. Marcos 15:40 confirma essa interpretação, e nos diz que ela era mãe de Tiago, o menor, e José. Assim, há pelo menos três irmãos aqui em jogo: Tiago, José e Judas.
V. Ele era irmão do Senhor. Em Marcos 6:3, os irmãos do Senhor são identificados como Tiago, Judas, José e Simão. Embora provavelmente nada saibamos desse Simão pelos evangelhos, três dos nomes da lista são os mesmos que identificamos entre os irmãos de Tiago, o menor, filho de Alfeu e Maria. Eles eram filhos de Alfeu e Maria (outra Maria além da mãe do Senhor), não de José e Maria (mãe do Senhor). Portanto, ao chamá-los “irmãos” do Senhor, com isso se quer dizer que eles eram seus familiares, embora não filhos dos mesmos pais.

Por si só, isso já mostra que Tiago e seus irmãos não poderiam ser “irmãos do Senhor” em sentido natural. A expressão deve ter outro sentido. Sabemos que Cristo tinha uma tia chamada Maria, mulher de Clopa (Jo. 19:25). É possível que Clopa e Alfeu sejam variantes, em escrita grega, do mesmo nome semítico. Assim, Alfeu e Maria seriam tios do Senhor. Os Irmãos do Senhor seriam primos, seguindo aqui o costume judaico de chamar parentes de “irmãos”. Não há necessidade de postular outro Tiago. Assim, toda a probabilidade é de que Tiago, irmão (primo) do Senhor, era filho de Alfeu e Maria, um dos apóstolos de Cristo e o primeiro bispo da Igreja de Jerusalém.

Se essa identificação dos irmãos do Senhor for correta, então temos um argumento incidental a mais em favor da Virgindade Perpétua. Pois, se o mais próximo, além de Maria, que a multidão pôde encontrar em Jesus foram seus primos, então a melhor explicação é a de que ele não tinha irmãos naturais.

4. A virgindade, dom escatológico

Como eu disse acima, do fato de que Maria teve apenas um filho não se deduz que ela permaneceu virgem, pois há outras possibilidades abstratas (sem indícios). Precisamos então observar se há alguma indicação, dentre o que sabemos de Maria, nessa direção.

Uma vez que observamos que Maria tinha apenas um filho, o Senhor, e sabemos que ela permaneceu ao menos nove meses como casada (legalmente) e virgem, surge então questionamento: como explicar esse período de virgindade? Para que o milagre do nascimento virginal de Cristo acontecesse, bastava que José não tivesse tido intimidade sexual com Maria no começo. Se o propósito fosse apenas esse, não haveria qualquer necessidade de evitar a intimidade sexual lá pelo meio ou fim da gestação. Como explicar esses nove meses?

Uma pergunta óbvia a fazer é: o que a Escritura ensina sobre virgindade? A única explicação bíblica plausível é de que Maria não apenas ficou virgem para estabelecer o milagre, mas fez o voto de castidade. O Novo Testamento dá um lugar especial a esse voto. Tanto Cristo quanto o apóstolo Paulo falam desse voto. Enquanto o Antigo Testamento dá um lugar privilegiado ao matrimônio, sem uma valorização específica do celibato, essa tendência do Novo Testamento em valorizar o celibato tem um sentido escatológico. Não só a virgindade, mas também a viuvez perpétua é honrada.

Cristo ensina que há aqueles que “há outros que se fizeram eunucos, por causa do Reino dos Céus” (Mt 19:12), mas não esclarece detalhadamente de que maneira essa condição é recebida por Deus. Ao menos, essas palavras indicam que se trata uma priorização do Reino dos Céus, expressão que tem sentido escatológico. Cristo anuncia a prioridade do Reino (Mt 6:33) e promete bênçãos sobre os que deixam “casa, mulher, irmãos, pais ou filhos, por causa do Reino de Deus” (Lc 18:29). Esse eunuco pelo Reino de Deus coloca o reino escatológico como coisa prioritária acima de suas próprias necessidades naturais e das expectativas sociais e familiares. Cristo indica que o reino de Deus tem prioridade mesmo sobre nossas relações familiares: antes anunciar o reino escatológico, do que enterrar os mortos ou se despedir dos familiares (Mt 8:21-22; Lc 6:59-62). Então a virtude do eunuco pelo reino pode ser vista como uma priorização da urgência do reino.

O apóstolo Paulo, por sua vez, seguindo nessa mesma tendência escatológica, nos diz mais algumas coisas sobre a importância dessa virgindade celibatária, associando-a também a viuvez, em I Coríntios 7. A virgindade e a viuvez são melhores do que o matrimônio porque, ao mesmo tempo, há possibilidade de um maior serviço a Deus hoje (7:32 “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor”; 7:34 “Também a mulher, tanto a viúva como a virgem, cuida das coisas do Senhor, para ser santa, assim no corpo como no espírito”; 7:35 “o que é decoroso e vos facilite o consagrar-vos, desimpedidamente, ao Senhor”) e o mundo presente é passageiro (7:26 “por causa da angustiosa situação presente”; 7:29 “o tempo se abrevia”; 7:31 “a aparência deste mundo passa”), vendo nisso uma vida em que os consagrados estão mais “livres de preocupações” (7:32). Mesmo os casados poderiam, por um breve momento, se abster da união sexual para se dedicarem à oração (1Co 7:5). A viúva “será mais feliz se permanecer viúva” (7:40). Assim como Cristo não faz essa exigência do celibato a todos, também o apóstolo Paulo fala de como isso é algo “distribuído”, e “cada um tem de Deus o seu próprio dom” (7:7).

A partir disso podemos ver retrospectivamente esses dois conceitos no que Cristo ensinou. Reino de Deus os perfeitos são aqueles que vivem ao mesmo tempo na urgência e na paciência escatológicas. Podemos ver, também, como essa virgindade seria um retorno à criação original e uma continuidade da vida dos “pequeninos” de Deus, pois todos nascemos virgens.

Como vimos, os casados podem passar alguns dias separados sexualmente para se dedicarem à oração, um tipo de consagração de poucos dias conhecida já desde o Antigo Testamento (cf. Êx 19:15; 1Sm 21:4-5). Mas Maria e José estiveram assim por nove meses! Ou seja, eles não se encaixaram naquilo que seria esperado para um casal normal. Eles não estavam vivendo uma vida normal de casal. Eles não se encaixavam no que Paulo descreve como o esperado para os casados, mas para os virgens e viúvos: eles conseguiam se dominar o suficiente para não precisarem disso por nove meses, sem serem arrastados pela tentação e pelo “abrasamento” sexual. Eles não precisavam se unir sexualmente. Assim, quando olhamos para os nove meses, vemos que a melhor explicação para esses nove meses é de que eles viviam o voto de castidade.

Há algo mais aí. Como vimos, Paulo não exalta apenas a virgindade, mas também a viuvez. Com a morte de José, Maria ficou viúva, entrando no grupo dos anawim, alvos particulares da compaixão de Javé. Isso já foi indicado em Jo 19:26-27, e também é evidente pelo que lemos em Atos 1:14, que Maria vivia em meio aos discípulos de Jesus, sem José, o que é melhor explicado pela morte prévia de José. Ademais, Maria não procurou um segundo casamento, embora o pudesse. Com exceção do sumo sacerdote (Lv 21:14), que não podia casar com uma viúva, o judaísmo permitia que ela casasse novamente, como permite o Novo Testamento. Podemos considerar outras possibilidades, é claro: que Maria tivesse tentado casar e não tenha conseguido, ou que tenha casado posteriormente. Mas precisamos pensar: qual é a melhor maneira de explicar, ao mesmo tempo, tanto a a virgindade consagrada por 9 meses, a viuvez mantida e a ausência de irmãos de Jesus? A resposta é de que Maria havia se dedicado à vida casta exaltada em I Coríntios 7. Na família natural de Jesus, começamos a ver um sinal profético da vida eterna da família chamada Igreja.

Ao longo dos séculos, os cristãos vieram essa consagração da virgindade de Maria a Jesus na profecia de Ezequiel 44:2:

“E o Senhor me disse: — Este portão permanecerá fechado; não deverá ser aberto. Ninguém entrará por ele, porque o Senhor, o Deus de Israel, entrou por ele. Por isso, permanecerá fechado.”

Assim, quando unimos o fato de que Maria teve apenas um filho (2) aos nove meses antes do parto, juntamente com a profecia de Ezequiel 44:2 e a viuvez continuada de Maria, a melhor explicação para a virgindade de Maria é essa adesão a essa consagração escatológica a Deus, contribuindo para que ela seja “bendita entre as mulheres”, a mulher mais abençoada.

5. Alguns argumentos contra a Virgindade Perpétua

Já tratamos acima de um dos argumentos, que é o dos “irmãos do Senhor”, e vimos que, na verdade, os textos apontam noutra direção e funcionam como argumento em favor da Virgindade Perpétua. Em continuidade com esse argumentos, há quem alegue que a palavra grega empregada (adelphos) indica necessariamente filhos dos mesmos pais, enquanto as palavra para parentes mais distantes ou primos (anepsios, sungenis) não são usadas. Esse argumento é falso e resulta de falsa erudição, pois a palavra grega adelphos era, num ambiente semítico, usada com referência também a parentes distantes. Afinal, em primeiro lugar, falando em aramaico, as primeiras testemunhas de Cristo não poderiam distinguir entre “irmão” e “primo”, não havendo esta palavra em sua língua. Em segundo lugar, como testemunha o uso da LXX (tradução grega do Antigo Testamento), parentes eram chamados de “irmãos” (adelphoi; cf. Gn 14:16; 1Sm 20:29; 2Rs 10:13; 1Cr 23:2). Isso era natural nessa língua, pois todos os descendentes distantes eram contados como filhos (cf. Mt 1:2), portanto irmãos entre si. As expressões das relações familiares não eram tão precisas.

Um segundo argumento, usando 1Co 7:4-5, indica que marido e esposa não poderiam passar muitos dias separados sexualmente. Mas, como vimos, José e Maria passaram ao menos nove meses. Eles obviamente não seguiam essa regra, pelos motivos já indicados, inclusive baseados no restante do capítulo.

Um terceiro argumento, bastante comum, é o que usa Mt 1:25, às vezes conjugado com Lc 2:7. Os textos são os seguintes:

Mateus 1:25 : “E não a conheceu até que deu à luz seu filho, o primogênito; e pôs-lhe por nome Jesus.”

Lucas 2:7 : “Então Maria deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou o menino e o deitou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na hospedaria.”

No primeiro texto, o argumento é de que o “até que” indica o término da virgindade: José não teve intimidade sexual (“conheceu”) Maria até o momento do parto, mas o teria feito em seguida. Além disso, Jesus é chamado “primogênito” (nos dois textos), indicando que seria o primeiro dentre muitos filhos.

Quanto à expressão “primogênito”, é fácil comprovar que ela não tem um sentido tão restrito. Em Rm 8:29, falando dos salvos, se diz que Cristo é “o primogênito entre muitos irmãos”. Ora, nenhum de nós é gerado do Pai do mesmo modo que Cristo. Essa expressão indica a primazia de Cristo. Em sentido estrito, ele é o único Filho de Deus, embora seja chamado de primogênito. Ser primogênito não o impede de ser unigênito. Noutro sentido, Cristo é tratado como primogênito da criação em Cl 1:15 e primogênito da ressurreição em Cl 1:18; Ap 1:5. Em Hb 1:6, Cristo é chamado simplesmente de “o primogênito”; ele é o primogênito de Deus tanto quanto é o unigênito de Deus. Uma coisa não impede a outra. A Igreja é chama de “igreja dos primogênitos” (Hb 12:23), como se todos eles (já salvos) fossem primogênitos. A primogenitura é um título que podia ser transferido (como se deu entre Esaú e Jacó). Dessas coisas se depreende que a expressão é usada de maneira bastante fluída do Novo Testamento. O primeiro filho é automaticamente o primogênito, mesmo que não haja um segundo na sequência.

Quanto ao “até que” (ou “enquanto”), a expressão grega “héōs [hou]” não indica necessariamente um término. Tanto no Antigo Testamento (LXX) quanto no Novo, vemos vários exemplos em que ela é usada e em que não indica uma transição posterior, mas apenas se enfatiza um determinado tempo (Dt 1:31; 9:7; 1Sm 15:35; 2Sm 6:23; Mt 12:20; Lc 1:80 etc). Em 1Co 15:25, lemos: “Porque convém que ele reine até que haja posto todos os inimigos debaixo dos pés.” Lido isoladamente, o texto indicaria que o reino de Cristo teria um fim, o que sabemos ser falso (cf. Lc 1:33). O propósito da expressão é apenas indicar um propósito, enfatizar um determinado momento, sem necessariamente excluir o que acontece depois. Assim, certamente José não conheceu Maria enquanto ela não deu à luz a Cristo… nem depois. Por que Mateus fala desse modo, e não diz simplesmente que Maria foi sempre virgem? Ele não precisava, porque isso não estava em discussão, e talvez ele sequer soubesse disse. Disse o que podia saber ou o que precisou enfatizar.

Dessas coisas, segue-se que os argumentos contra a Virgindade Perpétua são todos inconclusivos, insuficientes, e alguns textos na realidade ajudam a provar o inverso.

A Relevância da Virgindade Perpétua

Para muitas pessoas, pode parecer que a afirmação da Virgindade Perpétua de Maria é uma depreciação do matrimônio. É claro, essas pessoas sabem que o próprio Cristo foi sempre virgem e que os salvos viverão eternamente sem o sexo; não lhes parece que isso deprecia o matrimônio. Mas, no caso de Maria, ao menos ela era casada. Também podemos perguntar se, ao contrário, não foi uma mentalidade contrária ao sexo que produziu essa doutrina.

Por isso, é preciso dizer: a afirmação da Virgindade Perpétua de Maria não significa transformar o matrimônio e a união sexual em coisas pecaminosas. Elas não o são. Se fosse o plano de Deus que Maria tivesse tido uma vida sexual com José, isso não seria pecado nem coisa má. Ao contrário, não são apenas coisas boas, mas excelentes, pois recebem uma benção especial de Deus. São o meio pelo qual Deus quis que a humanidade enchesse a terra. Mas há, acima dessa excelência, uma perfeição escatológica própria a certos sacrifícios feitos pelo Reino de Deus.

Assim como o matrimônio imita a relação entre Cristo e a Igreja, e não só imita como prenuncia escatologicamente, assim também a virgindade e o celibato imitam a pessoa de Cristo, para anunciar a condição eterna dos salvos. É justamente a excelência e grandiosidade o matrimônio e da união sexual inerente, uma vocação divina, o que faz o que o sacrifício dessa coisa boa em nome de uma coisa ainda melhor tenha um valor tão grande.

A Virgindade Perpétua de Maria não tem a mesma relevância que a Maternidade Divina. Há uma heresia profunda em negar que Maria é mãe de Deus (Theotokos), pois é um ataque ao próprio Cristo e à união entre suas duas naturezas, união que nos trouxe nossa salvação. A Virgindade Perpétua não está igualmente atrelada à nossa salvação, então tem uma relevância menor. Enquanto a Maternidade Divina nos diz principalmente algo sobre Jesus, a Virgindade Perpétua nos diz principalmente algo sobre Maria. Fala-nos de sua consagração completa a Jesus e ao Reino dos Céus, pelo que ela é digna de maior honra, bendita entre todas as mulheres.

Nunca nos esqueçamos das palavras de Santo Agostinho de Hipona:

“Maria é mais bendita recebendo a fé de Cristo do que concebendo a carne de Cristo.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Fundamentos bíblicos da oração pelos mortos

The Victorian Era & the Art of Mourning - SevenPonds BlogSevenPonds Blog

“Eu acredito que a oração pelos Fiéis Falecidos
é um dever a se observar.” John Wesley

Há um grande mistério da morte. Ela se levanta contra nós com um poder terrível e incontrolável. Pessoas que amamos nos deixam, colocando-se além de nossas forças. A mortalha se coloca entre nós e os que partiram, levando algo de nós mesmos, de nossos pensamentos, lembranças, sentimentos.

Parte desses sentimentos inclui o de que os falecidos estejam bem, estejam em paz, desfrutem da luz divina. Não sabemos como eles estão, mas só desejamos que estejam melhor do que nós. É nesse amor pelos falecidos (amor que nunca falha), que o bispo Aulén encontra o fundamento para a oração pelos mortos. O amor espera além de toda esperança.

Com toda a evidência, desde muito cedo os cristãos oraram pelos mortos, como exemplificam a Inscrição de Abércio (séc. II) e as referências de Tertuliano (séc. III). As indicações que temos são também de que os judeus do período do Segundo Templo oravam pelos mortos e de que ele necessitavam de expiação (2Mc 12:44-45; Testamento de Abraão 15; Sifre Deverarim 210 etc.). Então a fé cristã se desenvolveu num ambiente em que a oração pelos mortos era uma prática aceitável, não rejeitada.

A prática de interceder pelos cristãos falecidos, durante a liturgia eucarística, é unânime nas liturgias antigas, dos mais diversos lugares, e abundam as referências patrísticas em seu favor. Mas os desenvolvimentos da Reforma Protestante, especialmente na tendência calvinista, levaram a uma rejeição da oração pelos mortos. Ainda assim, vemos a oração pelos mortos ser aprovada e, às vezes, ensinada e praticada por figuras como Lutero, Zuínglio, além de anglicanos como Lancelot Andrewes, John Cosin e John Wesley.

Como uma prática assim pode ter se tornado tão universal até o período da Reforma? Há um fundamento bíblico para ela? Há uma utilidade?

A intercessão pelos mortos é bíblica?

É importante dizer primeiramente que, para que uma prática seja aceita na fé cristã, não é necessário ela seja exigida, exemplificada, ensinada ou autorizada nas Escrituras Sagradas. Nada do que fazemos pode contradizer as Santas Palavras, mas nenhum texto da Escritura jamais foi escrito com o propósito de elencar tudo o que podemos fazer na religião cristã.

A suficiência da Escritura não diz respeito à liturgia, por exemplo. Ninguém pergunta se pode orar por emprego, por exemplo, mesmo que não haja nenhuma oração por emprego na Bíblia. O que perguntamos não é se a Bíblia autoriza a orar por emprego, mas se esse tipo de oração é compatível com os princípios que vemos nas Escrituras. Felizmente, a Escritura nos dá mais do que apenas princípios, como veremos.

Vemos ao longo das Escrituras um costume universal: o luto através do pranto e jejum (de vários dias) pelos falecidos, como por Arão, Moisés, Saul e seus filhos, por Estêvão e tantos outros, mas são o ambiente adequado em que essas orações podem começar a surgir, dados os bons desejos dos vivos pelos mortos.

Primeiramente, sabemos que a Escritura nos ensina a orar “por todos os homens” (1Tm 2:1) e “por todos os santos” (Ef 6:18), isto é, por todos os cristãos. Os contextos jamais limitam essas obrigações aos vivos. Em ambos os casos, há referência a pessoas vivas em redor, mas isso não constitui uma limitação. Afinal, se devemos orar por todos, obviamente os vivos são incluídos! O que procuramos não é uma referência aos vivos, mas uma exclusão dos mortos. Não encontramos essa exclusão, e isso, recordemos, num ambiente judaico e pagão em que a oração pelos mortos era conhecida e aceita. A responsabilidade de não apenas alegar, mas provar que esses “todos os homens” não incluem todos, mas apenas os vivos, é de quem é acredita nessa limitação. Do jeito que está, lido da maneira mais natural, o texto inclui mesmo a todos. A única coisa que impede de perceber essa leitura natural é o preconceito do leitor contra a oração pelos mortos.

Segundamente, vemos que a intercessão pelos mortos era bem conhecida de Paulo e dos cristãos de Corinto. O texto de 1Co 15:29 faz referência a um tipo de intercessão pelos mortos:

Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?

1 Coríntios 15:29

Nesse trecho de difícil interpretação, Paulo usa o “batizar-se” pelos mortos como um argumento em favor da ressurreição, como indicando que, de algum modo, a premissa por trás dessa prática é a de que os mortos seria, de algum modo, beneficiados por essa intercessão quando ressuscitassem. Não é possível decidir com segurança o que seria esse batismo pelos mortos, mas sem dúvida era uma prática intercessória, que beneficiaria os mortos. O fato de que Paulo usa a prática como argumento, sem condená-la, mostra que ele via a intercessão pelos mortos como, no mínimo, possível. De modo interessante, vemos nesse texto, assim como em 2Mc 12:40-46 (texto desconsiderado pela maioria dos protestantes), a intercessão pelos mortos aparecer na perspectiva da ressurreição.

Terceiramente, Paulo intercedeu por misericórdia sobre Onesíforo no dia do juízo.

Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas; antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou solicitamente até me encontrar. O Senhor lhe conceda, naquele Dia, achar misericórdia da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

2 Timóteo 1:16-18

Esse texto nos ensina algo muito importante, que afeta diretamente o modo como vemos a oração pelos mortos. Paulo ora por misericórdia do Senhor sobre Onesíforo, no dia do juízo (“naquele Dia”). Com isso, aprendemos com muita naturalidade que podemos orar por misericórdia no juízo final, que é possível Deus realizar misericórdia (cf. Tg 2:13). Isso, por si só, já justifica a oração pelos mortos, uma vez que podemos orar por um dia que chegará quando a maioria de nós já estivermos mortos.

Mas o argumento vai além: Onesíforo provavelmente já havia falecido quando Paulo fez essa oração. O texto faz pouco sentido se Onesíforo ainda estivesse vivo. Os motivos são simples: 1. Paulo pede misericórdia pela família de Onesíforo, mas por Onesíforo ele pede misericórdia apenas no dia do juízo; 2. Onesíforo é mencionado no passado, pelo que fez anteriormente; 3. Em 2Tm 4:19, a família de Onesíforo é mencionava novamente, num contexto de saudação a diversos indivíduos, e essa família recebe uma saudação, mas Onesíforo não recebe diretamente. Assim, os indícios apontam na direção de que esse texto de 2Tm 1:18 seja uma oração pelos mortos. Bem no Novo Testamento.

Por fim, há o exemplo já mencionado de 2Mc 12:40-46. Esse texto não é usado como referência pela maioria dos protestantes, embora faça parte da tradição anglicana (e luterana), não sendo usado para estabelecer uma doutrina, mas apenas para instrução, significando que seu ensinamento não é herético.

Do que foi dito, se segue que: 1. é nosso dever orar por todos os homens, sem distinção (portanto também pelos mortos); 2. a intercessão pelos mortos era conhecida dos primeiros cristãos, não sendo condenada; 3. é possível interceder por misericórdia de Deus no juízo final, independentemente de se estar morto ou não. Assim, no fim das contas, há muito mais fundamento nas Escrituras para orar pelos mortos do que pelos desempregados.

A intercessão pelos mortos é útil?

Que utilidade pode haver na oração pelos mortos? Esse é o questionamento natural de quem não estudou a questão, especialmente se criado num ambiente em que essas orações não existem ou são condenadas. Para quem não refletiu sobre nossa condição após a morte, realmente não há como vislumbrar utilidade nessas orações.

No nosso ambiente ocidental, as orações pelos mortos frequentemente são tratadas em termos de Purgatório, como se dependessem dele. Mas é fato que as primeiras orações pelos mortos que conhecemos apareceram antes do surgimento e popularização da teologia so Purgatório. Até hoje, as comunidades orientais que não acreditam em Purgatório (como ortodoxos e miafisitas) oram pelos mortos. Primeiro vieram as orações pelos mortos; só depois, uma concepção de Purgatório. As explicações dadas aqui são independentes dessa noção.

Já vimos uma das utilidades que a oração pelos mortos tem: misericórdia no juízo. Nós somos julgados por Deus por tudo o que fizemos nesta vida (2Co 5:4), e cabe a Deus realizar a misericórdia pela qual Paulo orou. Essa misericórdia no juízo se enquadra perfeitamente bem na intercessão pelos mortos vista em 1Co 15:29, que diz respeito à ressurreição. É particularmente importante lembrar que nós também somos julgados por Deus após a morte (Hb 9:27), sendo essa outra possibilidade de misericórdia no juízo divino.

O que essa misericórdia significa? No caso de Onesíforo, falamos de uma oração feita em favor de um (provável) cristão, de alguém que pode ter morrido em plena comunhão com a Igreja. Nesse sentido, essa oração se pareceria com as que aparecem nas liturgias antigas. Não se trata de uma oração por alguém sem fé, mas, possivelmente, com fé, ainda que seja uma fé que não se sabe se é totalmente viva. A questão da oração por um “incrédulo” (ninguém é incrédulo depois da morte) seria mais complicada, mas, de toda forma, como há diferentes graus de condenação, a misericórdia ainda seria possível, mas parece desrecomendada (1Jo 5:16-17). Como não sabemos o destino de ninguém, podemos orar. Nada está perdido, porque Deus atende nossas orações desde a eternidade, e não limitado ao momento em que oramos.

Mas há algo mais, além disso. Pois, mesmo os salvos que já estão na luz divina, em Cristo, ainda podem crescer infinitamente no conhecimento e no amor (epektasis), portanto também na felicidade, mesmo depois que o pecado for completamente extirpado. Assim como, oramos pelos que estão vivos, para sua santificação e crescimento em Deus, oramos pelos que faleceram, para que cresçam cada vez mais em Deus, porque para Deus nada é impossível. Nossas orações são meios pelos quais Deus cumpre seus propósitos eternos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ai de vós, os ricos!

My Post (5)

As palavras de Cristo nos parecem, às vezes, escandalosas. Como pode Jesus dizer “ai de vós, os ricos” (Lc 6:24)? Mas e se for um rico honesto? E se for alguém que trata bem os seus empregados? E se for um homem de fé? E se…? Não obstante, foi o que Cristo disse: ai de vós, os ricos, já tendes a vossa consolação. A felicidade de vocês já veio e é temporária.

Pior, Cristo disse que é mais fácil passar um camelo no fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino. Na nossa ânsia de “salvar” as palavras de Jesus, de torná-las mais aceitáveis, inventamos mil agulhas e mil camelos possíveis, todos criações da fantasia humana sem qualquer fundamento, quando Cristo, na realidade, nos fala de algo realmente impossível (Mt 10:23-26).

O desejo de Cristo, quanto às riquezas, é muito claro: ele quer que sejam dadas aos pobres para que, com isso, não sejam acumulados tesouros na terra, e sim no céu (Mt 6:19-21). Se nosso tesouro está no céu, nosso coração está no céu; se nosso tesouro está na terra, nosso coração está na terra. Aquilo que valorizamos diz muito sobre o nosso destino. O próprio Cristo fez-se pobre para nos enriquecer, e com isso nos deu o exemplo do que devemos fazer, abrindo nossas mãos. Certamente ele promete cuidar daqueles que são generosos.

Para Cristo, “os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições” são como espinhos que sufocam aquele que poderia frutificar (Mc 4:19). Fica infrutífero porque está cercado por aquilo que o prende, pelos deleites desta vida, por aquilo que o mundo oferta. Poucas coisas são tão mundanas quanto essa acomodação ao espírito do mundo, que nos faz amar os nossos recursos mais do que ao nosso próximo. É nesse espírito mundano, frequentemente motivados por ideologias ateias, que ignoramos as palavras do Senhor acerca da riqueza. Como alguém disse, o bolso é a última parte que se converte.

Deus escolheu os pobres deste mundo para serem ricos na fé (Tg 2:5). Ele escolheu as coisas que não são para confundir as que são, por isso “não são muitos os sábios segundo a carne, nem muitos os poderosos, nem muitos os nobres que são chamados” (1Co 1:26). Quanto aos ricos deste mundo, devem herdar a verdadeira vida doando seus bens, sendo misericordiosos e compassivos, sacrificando suas riquezas (1Tm 6:17-19). Uma grande ameaça pesa sobre aquele que ama as riquezas deste mundo mas não é rico para com Deus.

Devemos tomar o cuidado com o tratamento das riquezas como um sinal da bênção divina. O livro de Provérbios está cheio de indicações de como os sábios, os trabalhadores e os justos prosperarão. E, no entanto, também os ricos aumentam suas riquezas nas Escrituras, sem dores e sem preocupação: “Eis que estes são ímpios, e prosperam no mundo; aumentam em riquezas.” (Sl 73:12). Não podemos negar que as riquezas podem ser, sim, uma das maneiras pelas quais Deus nos abençoa, mas com que propósito? O que a Escritura nos ensina é distribuir aos pobres para, com isso, ter uma justiça eterna (Sl 112:9).

Eu não digo aqui nada contra profissões muito rentáveis, como a de grandes empresários, que naturalmente terão grandes remunerações. O que está em jogo não é a recepção em si das riquezas, mas duas outras coisas: o propósito para o qual nós as desejamos (cobiça?) e o que fazemos depois que as recebemos (acumulamos?). O amor ao dinheiro é raiz de todos os males, e os que querem ser ricos caem em muitas tentações (1Tm 6:9-10). O mero acúmulo, sem uma preocupação com tantas pessoas necessitadas e com tanto bem que pode ser feito aos nossos semelhantes, é um mal, assim como é um mal desejar esse acúmulo.

Penso que dois cuidados são necessários. Primeiro, não devemos ter desprezo para com os ricos, nem invejá-los. Não se resolve um pecado com outro, e a intenção cristã é sempre a reconciliação, o amor mútuo, não o conflito. Frequentemente a crítica à riqueza, como vista eventualmente no cenário político, é apenas um desejo de tomá-la, como Judas quis. Segundo, essa concepção sobre as riquezas não pode se confundir com um pensamento imaterialista, uma espiritualidade pura que desconhece o corpo e as necessidades desta vida.

Devemos estar satisfeitos com o que o Senhor nos concedeu, na simplicidade do que ele nos deu, como na oração: “não me dês nem a pobreza nem a riqueza; dá-me o pão que me for necessário” (Pv 30:8). Aprendemos na Escritura a estarmos satisfeitos tendo o que comer e com o que nos vestirmos. O espírito mundano nos impede de fazer essa mesma oração.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A divinização do homem na teologia anglicana, segundo seis teólogos

Minha publicação (30)

Lemos nos pais da Igreja, particularmente nos gregos, sobre a deificação do homem como a finalidade da obra do Redentor. Aprendemos com Sto. Irineu que o Filho de Deus se fez homem para que fôssemos feitos filhos de Deus, ou, com Sto. Atanásio, que Deus se fez homem para que nós fôssemos deificados. De que maneira a tradição anglicana incorporou essa linguagem patrística?

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Expiação não é punição

Minha publicação (20)

Nos debates sobre a obra do Redentor, o conceito de expiação é um dos mais importantes. Não estão errados os que tratam o mistério da redenção como doutrina da expiação, mas o que significa expiação? Os defensores da Substituição Penal acreditam que ela está ligada à punição, que a expiação dos nossos pecados acontece através de punições substitutivas, seja as punições (simbólicas?) dos animais no Antigo Testamento, seja a punição de Cristo no Novo. Continue lendo “Expiação não é punição”

O Batismo não é só um símbolo (parte 2)

Minha publicação (13)

A doutrina da Regeneração Batismal é unânime entre os Pais da Igreja. De fato, entre eles há mais acordo sobre Regeneração Batismal do que sobre a Trindade. Enquanto a primeira é afirmada por todo mundo, a segunda teve um desenvolvimento histórico até chegar à explicação mais clara e permanente. Continue lendo “O Batismo não é só um símbolo (parte 2)”

Por que nem todo mundo pode realizar a Eucaristia?

Santo Inácio de Antioquia, um cristão que foi discípulo de João e se tornou mártir da fé cristã, escreveu o seguinte: “Considerai legítima a eucaristia realizada pelo bispo ou alguém que foi encarregado por ele.” (Aos Esmirniotas, Cap 8). Existe fundamento nas Escrituras para isso? Continue lendo “Por que nem todo mundo pode realizar a Eucaristia?”