Sobre o Nacionalismo, um comentário

“Nascido também na cidade de Belém, tão pequena entre todas as cidades da Judeia, que ainda hoje é chamada de vila, (Cristo) não quis que ninguém se orgulhasse da nobreza de qualquer cidade terrena.” — Santo Agostinho, Primeira Catequese aos Não Cristãos XXII

Quando cada um de nós olha para sua cidade e sua nação, encontrará motivos para agradecer, traços de uma história que nos fizeram ser quem somos e que são responsáveis por construir a liberdade de que desfrutamos. Há um nacionalismo ou patriotismo são, que consiste em olhar para tudo o que há de verdadeiro, bom e belo em nossa própria história, identidade e cultura, e se ver como também responsável por preservá-lo, algo que nos liga a pessoas distantes e nos ajuda a amá-las, por vermos aí o reflexo da humanidade comum.

Em grande medida, temos um destino comum, e enfrentaremos juntos as mesmas mazelas nacionais, queiramos ou não. Tal sentimento é bom quando serve para minar o espírito de seita e de individualismo, ambos alheios ao bem comum, assim como fator de unidade que sirva para minar hegemonias internacionais.

Esse sentimento agradecido de pertencimento e responsabilidade deve ser temperado com realismo histórico. Nem todas as pessoas, quando olham para a história da nação, veem tantos motivos de alegria, porque essa história se verá manchada por injustiças e crueldades, e ambiguidades e contradições por toda parte. O passado não foi igualmente generoso com todos, e cabe ao presente fazer a reparação.

Quando olhamos para trás em busca de nossas próprias raízes, devemos tomar o cuidado para não imitar os pecados de ontem, como se fossem virtudes esquecidas, que no fundo apelam mais à parte mais baixa e instintiva de nossa humanidade, e não às suas aspirações mais elevadas e universais (católicas). Se a água é mais espessa que o sangue, a fé cristã terá sempre um elemento internacionalista de cooperação, reconciliação e hospitalidade.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Caridade e Coerção

Reflexão sobre caridade, coerção e modernidade, a propósito de Tolstói.

Em sua famosa “Carta a um Hindu” (1908), Tolstói apresenta os termos gerais de uma narrativa interessante, ainda que não muito inovadora: ele trata parte da história política humana como um conflito entre a “lei do amor” (lei espiritual inerente à natureza humana e conhecida de todas as grandes religiões) e instituições políticas de coerção e violência (punições, prisões, execuções, torturas, guerras), marcada pela tirania de uma minoria sobre a maioria.

Nisso ele está em continuidade como que já havia escrito em “O Reino de Deus está dentro de vós” (1894), agora incluindo outras tradições religiosas (particularmente o hinduísmo). Por que a humanidade não percebeu a contradição entre a lei do amor e a coerção política? Segundo Tolstói, porque as superstições religiosas e depois as superstições científicas justificaram o recurso à violência. O que há de interessante na carta é que nela o romântico Tolstói se coloca também contra parte da modernidade (até mesmo contra a teoria atômica) e contra a ilusão de que a ciência traria ordem ao mundo.

A resposta, para Tolstói, estaria na lei inerente à natureza humana. Por isso, há na carta elementos que prenunciam a pós-modernidade, mas também há um essencialismo de fundo, o Rousseau em Tolstói. De todo modo, se Tolstói via contradição entre a lei do amor e a violência, a saída não seria a violência libertária, mas simplesmente o recurso à lei do amor, com o abandono das superstições. Simples, não? Imagine all the people living for today.

Essa tensão entre amor e opressão na política não é criação de Tolstói, mas tem longa história, e pode mesmo ser vista em Santo Agostinho, o qual, contudo, soube distinguir a Cidade de Deus e a cidade dos homens, em suas aproximações e afastamentos. (Por isso, há um considerável elemento “anárquico” em Agostinho, também.)

Isso mostra aquilo que eu considero como a heresia fundamental do tolstoísmo: a sua incapacidade de perceber o elemento caritativo na política. Ou, dito de outro modo, e em termos muito claros: a necessidade de defender a lei da caridade através de alguma forma coerção. Não a tortura (que corrompe o torturador e o torturado), nem a invasão a outras nações, mas realismo. Tolstói foi traído pelo individualismo romântico.

Ou talvez o melhor seria dizer que essa é a hipocrisia fundamental, ou a ingenuidade cordial, ou mesmo a desatenção essencial. Pois, se é verdade que a política moderna procurou expulsar a influência religiosa explícita, e gradativamente trocou a ética transcendente pelo positivismo e pelo constitucionalismo (que nunca se divorcia totalmente da ética), não conseguiu desfazer a conexão com o princípio do amor: quando proibimos que se mate, quando punimos a incitação a delito, quando limitamos os danos causados sob o primado da liberdade de expressão, nós agimos por uma preocupação caritativa (mesmo que oblíqua) para com o ser humano igual a nós. De fato, quando punimos torturadores, é à lei da caridade que prestamos homenagem.

Digo que há ingenuidade no tolstoísmo, e mesmo conivência com o mal, porque, na verdade, o motivo fundamental pelo qual não há ordem política sem violência, é este: há pessoas que, mesmo que não sejam espiritualmente irredimíveis, são politicamente irreformáveis, são inobjetificáveis, estão além de toda psiquiatria repressiva, de toda pedagogia libertadora, de toda negociação ao nosso alcance. Nunca devemos presumir que estamos diante dessas pessoas, a caridade nos obriga a dar a todos a chance de mudança, e isso certamente nos inspirará a condições distintas e humanas no tratamento dos condenados criminalmente. Num mundo em que pessoas assim existem, a caridade exige que protejamos aqueles que podem estar sob sua mira.

Contra o Altruísmo

“Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão?” Gênesis 4:9

No uso corrente da palavra, “altruísmo” significa a atitude de bondade gratuita, de benevolência, de importar-se genuinamente com as outras pessoas, sem atrelar o resultado ao seu próprio ganho pessoal, coisas desse tipo. Isso significa, inclusive, fazer o bem a pessoas que não merecem ou que não nos recompensarão. Nesse sentido, quem discordaria do altruísmo, senão somente uma alma corrompida? E mesmo uma alma assim ainda faria uma homenagem implícita parasitária, quando o altruísmo alheio lhe beneficia.

No entanto, às vezes “altruísmo” significa algo mais: um ideal de que toda ação moral, para encontrar validade, deve estar totalmente desligada (ao menos na intenção) de qualquer benefício a quem a realiza. Nesse sentido, a ação mais virtuosa seria aquela que não procura nenhuma recompensa; a virtude seria sua própria recompensa. Essa perspectiva ética é associada à figura do pietista liberal Immanuel Kant. (Algumas pessoas associam algo nesse sentido ao confucionismo, mas eu suspeito que isso seja muito mais uma leitura moderna.)

Isso coloca diante de nós um problema imediato. Aquilo que os cristãos chamam de escatologia emerge, na história humana, precisamente como uma reparação final dos problemas do mundo e então uma premiação dos bons e castigo dos maus, uma recompensa dos méritos e deméritos, transposta para a eternidade. Quando lemos as Escrituras, não nos parece que Deus quer que desejemos recompensas? Do contrário, não no-las prometeria. Ele procura, de algum modo, atrair o nosso desejo através disso que ele coloca diante de nós. Isso vale tanto para ambos os testamentos. Cristo fala explicitamente sobre sermos “dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos”.

Por outro lado, há muito, na Escritura, na direção de que devemos agir desinteressadamente: a caridade “não busca os seus interesses”. Paulo ensina, em lugares diferentes: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.”; “Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem.”

Ainda assim, não é curioso que, no momento exato em que Cristo tem a melhor oportunidade de tratar da ação sem recompensa, no caso do socorro a pessoas em condições miseráveis, que não podem nos recompensar, fugindo das limitações da lógica do retorno pessoal e da gratificação social (“esse quam videri”), ele faça questão de reintroduzir a crença na Ressurreição? Ele diz: “serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.”

Se, por um lado, Cristo manifestou uma atitude de desprendimento sacrificial em favor da humanidade, por outro lado, ele não o fez sem receber e sem olhar para recompensar (“…Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz…”). A questão é: que recompensa é essa? A quem ela beneficia de fato? A recompensa que Cristo recebe não é, muito mais, em favor de outras pessoas do que dele mesmo?

O que ocorre é que a separação entre altruísmo e egoísmo presume uma antropologia individualista e liberal, aquela do “cogito” cartesiano. Se eu vejo no ser humano uma identidade aberta e comunitária, que atravesse os indivíduos, a ideia de uma felicidade individual é ilusão, e pautar nisso a intenção das ações é correr de uma miragem. Como escreveu o poeta anglicano, “Nenhum homem é uma ilha”, e, cada vez que o sino toca, indicando que alguém se foi, eu sei que eu mesmo ali morri também. O que diz respeito aos outros diz respeito a mim. Quem fere à humanidade fere a mim. Quem pede perdão, pede perdão a mim; quem perdoa, perdoa a mim. Crime, vergonha, constrangimento e reconciliação nunca se dão entre mônada sociais, mas são sempre eventos políticos. Somos cúmplices das comunidades das quais participamos, na proporção dessa participação.

Por isso, quando, elaborando a raiz do que os cristãos chamaram de “Comunhão dos Santos”, São Paulo escreve que “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam”, ele não descreve aí uma forma totalmente nova de existência humana, mas a restauração e elevação daquilo que é a vocação humana universal. A Igreja é a pólis restaurada. Não sabe disso toda família que, em meio às contradições e vicissitudes da nossa existência, cumpre o seu papel? Não sabe disso todo exército em batalha? A vitória de um é a vitória de todos, e, a cada um que perece, todos nós perecemos um pouco mais. Somos, em Cristo, membros uns dos outros porque fomos feitos para sermos membros uns dos outros. Nas palavras do rei Davi: “Vós sois meus irmãos, sois meu osso e minha carne”.

Por isso, quando um de nós não se preocupa com sua própria vida, quando age de maneira relaxada e irresponsável, pode tornar mais miserável a vida de outras pessoas que se importam, pois somos membros uns dos outros.

Nesse sentido, o que se quer evitar é que cada um procure o que é seu enquanto apenas seu, enquanto posse e domínio pessoal, e não enquanto serviço em favor do outro. A recompensa divina, nesse sentido, é algo que temos obrigação de buscar, e isso inclusive em favor de outras pessoas, pois nossa santificação e elevação afeta outras pessoas, que nós arrastamos conosco. Rejeitar a recompensa divina é rejeitar a amizade com Deus, pois toda amizade é reciprocidade ao longo do tempo, numa teia de obrigações que se fortalece a cada resposta que se dá, a cada gesto de gratidão. Quem recusa a reciprocidade manifesta independência, recusa a comunidade, recusa as obrigações decorrentes. Nesse sentido, somente uma vida de oração (que é em favor dos outros) pode justificar a reclusão do eremita cristão.

Rev. Gyordano M. Brasilino

AOS CRISTÃOS CONSERVADORES

AOS CRISTÃOS CONSERVADORES

Misericórdia, paz e amor.

As Sagradas Escrituras nos ensinam que Deus reina sobre as nações e que é ele quem eleva e depõe os nossos governantes.

Diante de tantos cristãos que oraram, jejuam, intercederam, choraram e fizeram campanha para Jair Bolsonaro, a pergunta que devemos fazer agora é: o que Deus nos ensina com esses resultados?

A aritmética do primeiro turno já nos havia dito que as chances de Bolsonaro eram poucas. Somente um milagre poderia elegê-lo.

E o milagre não veio.

Esses evangélicos, se não confundindos pela ideologia, foram, na melhor das hipóteses, enganados pelo “mal menor”, que tem e sempre terá o poder de nos corromper. Mal menor porque, sabendo dos erros graves de Bolsonaro, não poderiam suportar as consequências do retorno de Lula e daquilo que sabem que ele pretende avançar, como a causa assassina em favor da legalização do aborto.

Quantos ministérios não foram humilhados por esse apoio? Quantas comunidades não caíram na vergonha? Quantas igrejas e famílias não foram divididas? Quantos púlpitos não foram maculados? E quantos cristãos não foram ostracizados e hostilizados naquela que deve ser a “Casa de Oração para todas as nações”, por não se verem obrigados a participar desse jogo? Em vão. Só veio o ônus.

Bolsonaro não foi capaz de convencer mais de 60 milhões de eleitores brasileiros de sua honestidade e sanidade, de sua lealdade à democracia, de sua capacidade de governar, de combater a corrupção e de conduzir a nação numa direção melhor.

Bolsonaro foi incapaz de unir o Brasil diante da crise da pandemia, a maior oportunidade que ele teve. Ele fracassou, a ponto de que um candidato corrupto, Lula, seja eleito.

Ele não cumpriu o seu papel.

Os evangélicos serão maiores em número nas próximas eleições. Os cristãos precisam de uma maneira diferente de lidar com a política, e construir alternativas que representem a totalidade dos nossos valores cristãos, sem ceder ao pragmatismo — a favor da vida e a favor do pobre, a favor da mãe nordestina, a favor do negro, da educação e da saúde, a favor da justiça, a favor da paz. Se não formos capaz disso, a falha é nossa.

Jesus Cristo reina.

O Amor é Desigual

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Muita gente tem vergonha de admitir, mas a realidade é que todos nós temos preferências no amor. Não amamos todas as pessoas por igual. Não me refiro a tipos diferentes de amor, mas ao mesmo amor caridoso. Nós damos preferência a certas pessoas. Essas preferências são erradas?

Imagine que numa grande tragédia (como um tsunami), uma mãe tenha que escolher entre salvar seu filho e salvar uma criança desconhecida. Qual ela deve escolher? As duas decisões são iguais? Caso escolha a criança desconhecida, o que deverá dizer ao seu filho, caso ele sobreviva?

Ou imagine que, quando vai visitar sua mãe num hospital, um filho encontre outras várias senhoras na mesma situação. Ele deve dedicar tempo igual a cada uma delas ou deve dar preferência à sua própria mãe?

O próprio Cristo tinha um “discípulo amado”, significando com isso que havia algum tipo de preferência, sem que ele precisasse excluir ou odiar os demais. O apóstolo Paulo trata de preferência: “façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé” (Gl 6:10).

Mas Cristo ensina que devemos amar mesmo pessoas desconhecidas, de uma nação julgada inimiga (Parábola do Bom Samaritano). O amor pelos inimigos é um ensinamento fundamental. Nossa hospitalidade deve superar todo tipo de pensamento contrário à dignidade humana (ex: racismo).

Essa preferência sem exclusão é chamada na teologia cristã de “ordo amoris” (ordem do amor), significando que há pessoas às quais devemos maior amor. O exemplo mais natural é o amor dos filhos pelos pais e dos pais pelos filhos, ou dos cônjuges entre si.

Essa prática de diferenciação é instintiva, e isso pode levar algumas pessoas a pensarem que, em razão da Queda, não devemos confiar nos nossos instintos. Mas o que há de caído nos nossos instintos não é a preferência, mas a exclusão, o ódio.

Isso nos ajuda a entender a opção de Deus pelos pobres. Deus ama a todos nós, mas há claramente uma preferência de Deus pelos mais necessitados, pelos que, aos olhos humanos, são pobres deste mundo.

O amor envolve vários aspectos:
• desejamos o bem (benevolência)
• praticamos o bem (beneficência)
• temos apreço (afeição)
• desejamos proximidade (união)

Quem acha que devemos amar a todos por igual acerta em parte, porque devemos querer o mesmo bem para todos: sem prejuízo da justiça, queremos a vida eterna para todos, não queremos nenhum mal para ninguém.

Mas amor não é só querer. Não é só decisão. Apenas querer o bem não é todo o amor, mas uma abstração dele. Amor envolve ação, e, nas condições das nossas limitações, a ação é e será sempre desigual. Então a beneficência já não será a mesma, mas limitada. Precisaremos escolher. Quem sofreu violência grave pode ter muita dificuldade em desejar proximidade com quem lhe feriu.

Então a “ordo amoris” não é só uma doutrina cristã tradicional. Ela é uma doutrina muito humana, muito realista, que nos reconhece onde estamos e nos ensina a avançar para um amor maior. As pessoas a quem amamos devem se tornar, não um limite, mas uma escola do amor.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que as igrejas não podem apoiar candidatos

Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou.” 2Timóteo 2:4

Quero deixar muito claro, antes de mais nada: não acredito na separação entre religião e política. Isso não é nem ideal, nem real. Não é real porque as religiões são parte da maneira como as pessoas tomam decisões, como elas constroem critérios e prioridades. Existe a possibilidade de uma ética com base na razão e em valores compartilhados, mas isso tem limites. As pessoas religiosas precisam saber que não vivem numa sociedade em que todo mundo compartilha dos seus valores, e devem saber lidar com isso. Mas as pessoas céticas, ateias ou contrárias aos valores religiosos também precisam saber que as religiões influenciarão o mundo. Enquanto estivermos numa democracia, será assim. A separação também não é ideal, de uma perspectiva cristã, porque cada um dos meus pensamentos deve obedecer a Cristo.

Nesta altura do campeonato, quando os partidários mais aguerridos e decididos de Bolsonaro e Lula já tomaram suas posições, eles partem agora em busca dos “do meio”, fazendo todo tipo de apelo passional, e o argumento dominante será o do mal menor, já que esses “indecisos” ou “isentos” obviamente não consideram os dois lados satisfatórios. De fato, isso já começou, e é irônico ver pessoas de ambos os lados usando exatamente o mesmo tipo de discurso para forçar apoio. (Enquanto isso, líderes políticos que há pouco tempo trataram Bolsonaro e Lula como corruptos passam a apoiá-los.)

Pois bem, o “mal menor” é o motivo pelo qual igrejas não podem apoiar candidatos. Falando em termos gerais, cada pessoa pode e deve tomar partido segundo os ditames de sua própria consciência, fazendo o cálculo difícil de qual seja o mal menor, e, estando nós numa democracia, cada um tem liberdade inclusive para defender (com honestidade) o político que considera melhor. Considerando que cada lado representa uma doutrina política diferente e diametralmente oposta — com seus próprios interesses, acordos e movimentos concretos —, o cálculo comparativo é complicado, as informações são enviesadas, e nós tomamos partido sempre antecipando a miséria que certo candidato pode acabar fazendo. Sendo honesto: a maioria de nós não tem condições de tomar decisões políticas bem-informadas. Quando você apoia um candidato irrestritamente, você escolhe ignorar algumas coisas e fingir que sabe outras.

Eu falava do “mal menor”. Diferentes do povo cristão como um todo, os ministros do evangelho não podem tomar partido e defender candidatos, justamente pelo motivo de que, enquanto representantes do Reino de Deus, não devem usar seu discurso e sua autoridade em favor de nenhum “mal menor”, mas apenas do bem maior, do ideal, sem negociá-lo em favor do pragmatismo político, sem ceder ao desespero mais próximo. Esse ideal inclui muitas coisas que não concordam com as propostas disponíveis. Mas, para que ele seja alcançado, é essencial que os cristãos estejam unidos e construam uma alternativa a Bolsonaro e a Lula, que nos represente melhor. Trocar o bem maior mandamental pelo mal menor pragmático, no discurso da igreja, é perder a voz profética, e dar carta branca eterna para todo tipo de pilantra que use um ou dois valores cristãos. Quando os ministros do evangelho tomam partido, eles escandalizam gregos e judeus, e não promovem a paz.

Por isso, é importante que, numa situação em que alguns cristãos votam pelo mal menor (de esquerda ou de direita), outros cristãos devem ter plena liberdade de criticá-lo, e nós, pastores, somos pastores de ambos. Você não evangeliza a pessoa com quem você está “em guerra”. Você renuncia à missão em nome da guerra. Isso é omissão, fugir da missão de um ministro da Palavra e dos Sacramentos e se tornar cabo eleitoral de um reino tão cheio de impiedades. É sempre uma narrativa ideológica que constrói os inimigos (os “fascistas”, “comunistas”…), mas nós representamos a perspectiva de Deus, que vê seres humanos caídos e necessitados de graça.

Na eleição presidencial em que nós nos encontramos, assim como na anterior, o papel dos evangélicos é determinante. Os católicos também têm um papel aqui, mas em geral são muito mais receptivos a ideias de esquerda, inclusive no clero, mesmo quando elas vão contra o ensino “oficial” da igreja. Não resta nenhuma dúvida de que, se o número de evangélicos fosse menor, a eleição teria sido decidida já no primeiro turno.

Um fator decisivo, para os evangélicos, é a questão do aborto, e continuará sendo. A esquerda precisa desistir da ideia insana de que aborto é uma questão de saúde pública. Isso será motivo de tensão permanente. Autorizar o extermínio de crianças, com dinheiro público, não é questão de saúde pública. É assassínio puro e simples, sob o pretexto liberal e individualista “meu corpo, minhas regras”. Como os evangélicos acreditarão na compaixão da esquerda pelas vítimas do coronavírus, se não se importam com crianças no ventre das mães? (O mesmo deve ser perguntado: como a esquerda acreditará na compaixão dos evangélicos quando apoiam um presidente com discurso insensível?) Cada vez que um político de esquerda repete aquele discurso “não quero o aborto, mas é uma questão de saúde pública”, o evangélico sabe que a primeira parte é uma mentira. Isso não convence a ninguém.

Por outro lado, o que significa o apoio a Bolsonaro de parcela tão grande dos evangélicos? Significa ignorar a apologia à tortura, filistinismo, insensibilidade para com as vítimas da pandemia? Aliás, quem pode acreditar na aproximação de Bolsonaro e Guedes com as questões de justiça social e igualdade econômica? É a mesma coisa. Não vejo, na maioria dos evangélicos, uma apologia a essas coisas, mas vejo, sim, como, eles se veem forçados a ignorar muito porque veem uma alternativa que é pior ainda, e que só lhes oferece críticas.

Diante disso, os adversários de Bolsonaro devem pensar o que fazer: cuspir ódio nos evangélicos e assim acirrar as divergências, confirmando que são realmente inimigos (cada um de sua própria perspectiva: a batalha espiritual, a luta de classes…); ou sentar à mesa tentar construir uma ponte para um futuro diferente, em que o bolsonarismo não precise sequer ser discutido. Se a esquerda não é capaz de oferecer uma alternativa melhor do que Bolsonaro, ela também é culpada pelos erros dele.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Que necessidade havia na morte de Jesus?

Alguém perguntou:

Porque houve a necessidade de um sacrifício redentor? Por que Deus simplesmente não perdoou a humanidade por um simples [sic] ato de vontade?”

Não há necessidade de que Deus salve a humanidade desse ou daquele jeito. Deus poderia, sim, salvar a humanidade com uma só palavra. De fato, o perdão, na sua essência, é um ato gratuito, que emana das riquezas da misericórdia divina. Como Jesus disse tantas vezes a tantas pessoas: “teus pecados estão perdoados”.

A questão não é se Deus poderia fazer alguma coisa dessa ou daquela maneira, mas sim qual problema Deus tencionou resolver. Como ensinou Santo Atanásio, se fosse o problema do perdão apenas, bastaria o arrependimento, sem a Encarnação — Deus sabe perdoar do mesmo jeito que nos manda perdoar. O perdão divino implica algo maior: reconciliação com Deus, e para isso precisamos ser curados do pecado.

Então a pergunta assume a seguinte forma: já que Deus poderia salvar a humanidade de infinitas maneiras, porque a Sabedoria Eterna escolheu que acontecesse como aconteceu, tão dura e dolorosamente? A categoria correta não é necessidade, mas conveniência, adequação, propriedade, proporcionalidade, “fittingness“.

Certamente Deus quis nos salvar de uma maneira que, simultaneamente, exaltasse a Cristo, revelasse mais plenamente a natureza divina e fosse a mais adequada à nossa natureza e necessidade.

Desse modo, embora certamente esteja dentro da Onipotência nos salvar de infinitas maneiras — quem diz que Deus só poderia salvar de um jeito ofende essa Onipotência —, não somos capazes de imaginar nenhuma maneira que seja tão gloriosa como a Redenção contada nos evangelhos.

Imagine, por um instante, que Deus nos tivesse salvado (transformado) por um ato de poder. Nós receberíamos passivamente a salvação, mas seríamos incapazes de imitá-lo. Mas nos salvando, não por um ato de poder, mas pelo sofrimento da dor — isto é, pela obediência até a morte —, ele nos deu um caminho a imitar: a cruz. Como ensinam os Pais, Deus não quis nos salvar pelo poder, mas pela justiça (virtude).

Então Deus providenciou um caminho melhor, no qual:
1. Nós participemos da dividade comendo a carne e bebendo o sangue de Cristo, imitemos sua vida e morte obedientes, e nos enchamos de devoção e autoentrega ao contemplarmos a Paixão.
2. Cristo seja premiado pela obediência, tornando-se Senhor de vivos e mortos, tendo um nome acima de todo o nome, assentando-se acima de principados e potestades — recebendo essa posição (“entrasse na glória”) por merecimento (“vindicação”), tendo superado toda tentação, vergonha, maldição e inculpação a que estamos sujeitos. Cristo, o supremamente humilhado, é supremamente exaltado.
3. Os demônios sejam vencidos, não por poder bruto, mas por obediência dolorosa.
4. O próprio Deus participe do sofrimento do mundo, sem ficar assistindo distante, no trono da glória, todo o drama que ele criou.

Quanto à noção de sacrifício, é adequado, conveniente e apropriado que a reconciliação de um ofensor de alguém envolva sempre a auto-humilhação da pessoa que pede perdão (assim como de qualquer representante seu). Parte do processo de intercessão de Cristo (que continua acontecendo hoje) envolve isso. Ele não o faz porque esteja tentando convencer um “Pai” rancoroso que tenha dificuldade em perdoar, mas apenas para que nós tenhamos dimensão do valor imenso do que nos é dado.

Em outras palavras: podendo escolher uma rota mais fácil, Deus escolheu o caminho mais difícil e quer que façamos o mesmo. Com isso, nós dá maior motivo para amá-lo.

Muito mais coisa se pode dizer a esse respeito, mas aqui está o começo.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O “Mistério” não salvará a Substituição Penal

Eu costumo argumentar que a ideia de Cristo ser punido no lugar da humanidade é injusta, segundo a lei divina revelada. É um defeito moral dessa teoria.

Alguém me trouxe uma resposta que eu considero a escapatória óbvia, mas que pouca gente tem coragem de apresentar, o “apelo ao mistério”, ou, mais propriamente, o “apelo à ignorância” (argumentum ad ignorantiam): não se pode dizer que punir um inocente (Cristo) seria injusto porque a justiça de Deus está além da nossa compreensão. Algo assim.

Pouca gente tem coragem porque instintivamente as pessoas sabem que é uma resposta falaciosa. Quem a apresenta comete contradição performática: diz que não entendemos a justiça de Deus, mas, ao usá-lo como argumento, age como se soubesse o que é e o que não é compatível com essa justiça, logo presumindo que entende a justiça divina.

A questão é: como podemos separar a justiça de Deus revelada daquela supostamente oculta? Como vou desprezar o revelado e fazer de conta que sei o segredo? O que está revelado é que Deus abomina mãos que derramam sangue inocente.

O “apelo ao mistério” não funciona. Uma situação pode ser incompreensível porque o número de fatores nos escapa, mas não é assim nesse assunto. A situação de Cristo tem um número muito pequeno de fatores, todos perfeitamente compreensíveis. Ninguém tem qualquer dificuldade de entender que Caifás e Pilatos cometeram uma injustiça ao punirem um inocente. Não há mistério. Não há fatores ocultos. Não há como dizer que Caifás e Pilatos, ao punirem um inocente, erravam, mas “Deus” acertaria em fazer exatamente o mesmo, como cúmplice deles.

Aliás, o próprio Cristo via que a justiça de Deus reverteria a injustiça sofrida:

“porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós… e, quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente,” (1Pedro 2:19,21,23)

Como vários outros, o defeito moral da Substituição Penal é invencível, não há resposta possível. Mas ele tem pouco poder de convencimento, porque os defensores da SP, por entenderem errado alguns textos da Bíblia, acham que a coisa realmente aconteceu (Deus puniu Cristo como substituto), então guardam uma esperança de que, de algum modo, não seja injustiça aquilo que eles sabem que é injustiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O problema não é com Deus!

Jesus não veio ao mundo para nos salvar de Deus. Jesus não veio ao mundo para aplacar a ira de um “pai” que deseja ver morte, sangue e violência para se satisfazer. Essa imagem de Deus está totalmente errada, indigna do Eterno, indigna da Santidade Absoluta, indigna de Jesus.

O que aconteceu é que, na época da Reforma, muitas pessoas carregavam uma imagem muito errada de Deus. Não dá para dizer que essa imagem era universal naquela época, pois encontramos doçura e misericórdia em muitos dos pregadores e místicos medievais, como São Bernardo (que tanto inspirou Lutero), Santa Gertrudes, Santa Juliana de Norwich. Mas certamente essa imagem odiosa de Deus foi a que vários reformadores receberam. Ela está no Purgatório de Tomás More, por exemplo.

Veja o que Calvino escreve no livro II das Institutas:

Ora, uma vez que ninguém pode descer dentro de si mesmo e sondar seriamente o que quer que seja sem que, sentindo a Deus irado e hostil para consigo, não tenha necessidade de buscar ansiosamente meio e maneira de aplacá-lo; o que exige satisfação requer-se certeza não comum, visto que sobre os pecadores, até que tenham sido absolvidos da culposidade, cai sempre a ira e maldição de Deus, o qual, visto ser justo Juiz, não deixa impune quem viola sua lei; pelo contrário, armado ele está para a punição.” (XVI, 1)

O que Calvino diz aí? Ele descreve uma experiência de introspecção (“descer dentro de si mesmo”). O que quer que sondasse dentro de si, ele via essa imagem um “Deus irado e hostil para consigo”, e uma necessidade de aliviá-lo. Eu não acredito que Calvino visse só isso em Deus, pois muitas outras partes refletem um pensamento diferente, mas certamente ele sofria com esses escrúpulos de uma consciência anormalmente pesada.

Eu não sei o que é descer dentro de mim mesmo e encontrar esse Deus irado. Boa parte do tempo eu vejo meus muitos e graves pecados, mas, olhando mais profundo, sempre vejo o Deus de amor infinito do qual eu dependo. Eu vejo minha dependência, fragilidade, necessidade. Mas já vi pessoas descreverem exatamente o que Calvino descreve, e vi as consequências danosas desse tormento.

O que ele fez, então? Fez o que a Escritura manda: foi até Cristo para buscar alívio e descanso para a alma, lançou seus fardos sobre Cristo. Mas o fez do jeito errado, e, por isso, em vez de curar a imagem errada que tinha do Pai, ele preservou e reproduziu essa imagem, com a solução errada.

A ira do Pai é seu desgosto com o pecado que nos destrói, que destrói as pessoas ao nosso redor, que destrói a Criação, que sumamente destrói nossa comunhão com ele. O problema que Jesus veio solucionar não é um problema com Deus, mas conosco.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Negociando a Salvação

A salvação e a comunhão com Deus são tratadas, na Bíblia, a partir da perspectiva da dádiva: um presente de Deus que convida à reciprocidade por parte da pessoa humana, numa troca livre, diferente de uma compra.

No entanto, numa medida muito menor, a imagem da compra também é usada, e prepara o caminho para ela de várias maneiras. O Antigo Testamento já conhece a responsabilidade que Deus assume pelos pobres (Pv 19:17), raiz da noção judaica antiga de “tesouro no céu”. Nesse caso, ao assumir a dívida (de gratidão) dos pobres, a reciprocidade ganha um tom próximo ao da compra, porque Deus não falha na retribuição.

A imagem plena da compra aparece particularmente em dois lugares do Novo Testamento:

☩ Mateus 13:45–46 – “O reino dos céus é também semelhante a um que negocia e procura boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra.”

☩ Apocalipse 3:18 – “Aconselho-te que de mim compres ouro refinado pelo fogo para te enriqueceres, vestiduras brancas para te vestires, a fim de que não seja manifesta a vergonha da tua nudez, e colírio para ungires os olhos, a fim de que vejas.”

No primeiro caso, o próprio “reino dos céus” é comprado pelo negociante. No segundo, compra-se de Cristo “ouro refinado” (riqueza espiritual), “vestiduras brancas” (identidade espiritual) e “colírio” (visão espiritual). Essas coisas são negociadas ou compradas de Deus ou de Cristo, não simplesmente recebidas como presentes.

Tudo isso se insere muito bem na imagem do “tesouro celestial”, que é adquirido (por exemplo) através das obras de misericórdia. Há um tesouro a ser alcançado pelos cristãos renunciando a coisas desta vida, e esse tesouro é distinto do tesouro terreno. Os pobres do mundo são ricos a fé (Tg 2:5). Os que parecem ser ricos são pobres e os que parecem ser pobre são ricos (Ap 2:9; 3:17; cf. 2Co 8:2). Há uma inversão entre riqueza e pobreza, e portanto uma possibilidade de conversão de uma riqueza na outra.

É importante que essa não se torne a maneira dominante pela qual nossa santificação e progresso na fé sejam tratadas, para que não se perca de vista a gratuidade e generosidade divinas, mas também é necessário que ela tenha um lugar, que nos relembre da necessidade de nosso próprio empenho.

Rev. Gyordano M. Brasilino