Oração é Coração

Oração não é falatório, mas alinhamento entre o coração e Deus.

Isso revela um dos perigos de achar que o mais importante na oração é usar palavras espontâneas, falar do seu jeito, pois você acaba tratando a oração como um falar com Deus, conversar com ele, dizer coisas a ele. Isso é parte da oração, mas há algo mais fundamental.

Quando dizemos “Santificado seja o teu nome”, como Cristo ensinou, o que estamos fazendo?

O nome de Deus já é santo, e não estamos simplesmente pedindo a Deus para que continue sendo assim ou que isso seja reconhecido por outras pessoas. O que fazemos, ao pronunciar essas palavras, é posicionar nosso coração do melhor jeito. Cristo nos dá as palavras certas, nas quais podemos meditar, para que possamos estar com Deus. São palavras que nos ajudam a preparar o coração para a graça.

Sem proibir outras formas, Cristo nos ensinou a invocar a Deus dizendo “Pai” ou “Abá”. Essas palavras não têm efeito sobre Deus (ele já sabe que é Pai e não esquece disso), mas sobre nós mesmos, quando as pronunciamos de maneira significativa. Nossa fragilidade se esquece ou desacredita da filiação. As palavras certas, na oração, ativam na nossa fé certa dimensão de honra, proximidade e (lateralmente) fraternidade.

Não sentimos a mesma coisa quando dizemos “O Senhor é meu pastor, e nada me faltará”? Não nos recordamos do seu cuidado? Não reafirmamos nossa fé em sua bondade? As palavras da oração reposicionam o coração.

Tudo isso se perde ou se enfraquece quando eu trato a oração como se fosse apenas dizer coisas a Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Oração Profética, Oração Mística

Entender a oração envolve duas dimensões fundamentais: uma é a dimensão profética, a outra é a dimensão mística.

A dimensão profética é aquela do clamor: o socorro implorado ao Soberano Eterno, a justiça reivindicada perante o Juiz Divino, a misericórdia suplicada ao Pai Celestial. Entramos com humildade e com ousadia perante o Trono Altíssimo, em busca do combate espiritual contra os males do mundo, particularmente aqueles que afetam a nossa própria alma e a vida das pessoas a quem amamos. Orar é buscar a compaixão divina e pelo milagre na terra.

A segunda dimensão, a dimensão mística, é a elevação do coração a Deus. É a dimensão da comunhão espiritual, e da nossa própria transformação e transfiguração nesse processo. É o encontro da alma com Deus e a consequente elevação dessa alma, que está sedenta de Deus. É subir os degraus da escada de Jacó para lá habitar, no único lugar da satisfação definitiva. Orar é buscar a reordenação do coração, dos afetos, do espírito.

A primeira dimensão é a da invocação, é pedir que Deus venha à nossa realidade, é dizer (Sl 70:1): “Praza-te, ó Deus, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” A segunda é a da ascensão, é entrar em Deus, é dizer (Sl 42:1): “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma.” A primeira dimensão olhar para o futuro que Deus cria; a segunda olha para cima, onde Deus está.

Essas não são duas formas de orar, mas duas dimensões simultâneas da oração. Embora um lado possa ser mais ressaltado numa situação — pois somos criatura temporais, nossa atenção e nossas palavras ressaltam lados diferentes em momentos diferentes —, a realidade é que esses dois lados estão sempre presentes na oração como a conhecemos, pois sempre invocamos e ascendemos.

Essa dualidade se deve particularmente à nossa condição, como finitos, como pecadores e como sofredores, ansiando por sermos “absorvidos pela vida”. Como podemos, aliás, invocar a Deus sem sermos transformados, e como podemos ser transformados sem que, no processo, percebamos ainda mais agudamente as necessidades do mundo e nossas próprias debilidades, ainda que agora com uma nova mente? Invocação e ascensão andam juntas.

A imagem do Lugar Santíssimo no Santuário une esses dois lados. O sacerdote, ao entrar nesse lugar, veste o linho dos anjos e contempla o trono de Deus, ele é “ritualmente transformado” mas o faz justamente no momento em que busca a misericórdia divina pela nação. Interceder, nesse processo, é ter comunhão com o coração de Deus e, por isso, tornar-se instrumento profético da causalidade divina, concordando intimamente com o Alfa e o Ômega.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Como orar os Salmos?

Se Deus nos deu um livro de orações canônico, os Salmos, é porque ele quer que façamos uso dele. Na verdade, desde o princípio e ao longo dos séculos os cristãos sempre usaram os salmos, enriquecendo sua vida de oração em geral.

De certo modo, a resposta é: simplesmente leia (ou recite) os salmos com fé e esperança. A oração dos Salmos não deve ser um grande desafio na vida pessoal e particular, ou também comunitária, então as orientações dadas aqui são maneiras de melhorar a leitura. No fundo, você já sabe como fazer.

O corpo: Você pode orar os salmos de várias maneiras, mas uma particularmente apropriada é de pé, com o livro em mãos. Você também pode fazê-lo de joelhos (como vários salmos convocam a fazer). Com o tempo, você vai notar a diferença que faz a posição do corpo. Pessoas desacostumadas a orar de olhos abertos, geralmente pelo hábito de se limitar à oração extemporânea (“espontânea”), encontrarão algum desafio, mas o novo hábito vence, no médio prazo.

A voz: Ore os Salmos em voz alta. Usar a sua voz é uma maneira de concentrar a atenção, e de louvor a Deus com o corpo. Não se apresse demais, “deguste” cada verso, cada sentença. (Os versos dos salmos geralmente são divididos em duas partes paralelas.) E lembre-se: seja reverente, mas mostre vigor. Os salmos são cânticos de guerra.

A história: Cada salmo tem sua história, seu processo de formação, mas colocá-los em uma coleção, dentro do cânon, é dar forma a uma nova obra. Os salmos são a história de um povo em oração. São peregrinos em busca (e com saudade) da Cidade Santa, com espírito sedento pela presença divina e pelos tabernáculos do Senhor. São soldados e generais em guerra, procurando a proteção do Senhor contra os seus inimigos. São pecadores afligidos e contritos, penitentes. São adoradores manifestando louvor alegre e convocando toda a criação, na terra e nos céus, a adorar o Senhor. É um povo sofredor com a esperança do reino universal de Deus sobre todos os povos. Ao orar os salmos, nós nos colocamos como parte dessa história. Esteja consciente disso.

O espírito: os salmos devem ser orados com espírito de devoção e fé, não de estudo. É possível estudar os salmos, é importante fazê-lo, mas orar os salmos não é ficar procurando detalhes para satisfazer a curiosidade intelectual, mas encontrar neles aquilo que enriquece a nossa fé. Deixe o estudo dos salmos para um outro momento.

A contrição: Os salmos penitenciais são os salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Esses sete salmos são particularmente importantes para confessarmos ao Senhor os nossos pecados. Quando algo que você fez lhe pesar à consciência, recite esses salmos (agora de joelhos), pedindo perdão ao Senhor. Como sempre pecados, esses salmos devem ser nossos companheiros de caminhada.

Há outros blocos que seria importante conhecer e usar em conjunto, como os salmos de entronização (especialmente 95-100) e o Halel (113 a 118), que são ótimos para adoração.

A apropriação: Como dito acima, nós somos parte dessa história que os salmos contam. Assim como Pedro em Atos 4:24-30, aproprie-se das palavras dos salmos nas suas próprias orações. O sentimento deve ser: o Deus dos salmos é o mesmo Deus que nós adoramos. Um exemplo de como fazer isso diz respeito à nossa batalha espiritual. Os salmos foram, vários deles, escritos em situação de guerra ou conflito com os inimigos. Mas, como aprendemos no Novo Testamento (Ef 6), nossos inimigos são espirituais, são os poderes das trevas, e é principalmente contra eles que devemos direcionar as armas dos Salmos. Essa batalha é mais óbvia no Salmo 91, mas os “salmos imprecatórios” devem ser usados assim também. Pense, por exemplo, nas palavras do Salmo 35:1-5, que, particularmente, me trazem bastante conforto. O Salmo 5 é uma bela oração matutina que pode ser empregada assim. Assim como os nossos maiores inimigos são espirituais, nosso maior aliado é Cristo, que ora conosco nessa batalha.

As aspirações: Versos isolados dos salmos são muito apropriados como orações breves, chamadas “aspirações”, que podem ser usadas ao longo do dia repetidas vezes, ou em momentos específicos, como no começo de alguma oração, antes da leitura da Bíblia etc. Alguns exemplos comuns:

  • “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor , rocha minha e redentor meu!” (19:14)
  • “Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.” (28:9)
  • “Praza-te, Senhor, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” (40:13)
  • “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos.” (43:3)
  • “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (51:10)
  • “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca manifestará os teus louvores.” (51:15)
  • “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.” (57:5)
  • “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, e concede-nos a tua salvação.” (85:7)
  • “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.” (119:18)

• A frequência: Use ao menos um salmo por dia, no começo. Depois que o hábito estiver firme, dois salmos (um pela manhã e outro à noite). Você pode usar o Salmo 95:1-7 (seguido do Salmo 96:9,13) pela manhã e o Salmo 141 à tarde/noite.

A constância: Use os salmos em todas as situações, mesmo quando nossos sentimentos não estão no lugar. Vários Salmos foram escritos em momento de intensa angústia (como o Salmo 88), mas eles são orações, ainda assim, e mostram como a oração deve ser feita mesmo quando não estamos em paz.

A conclusão: Costumamos terminar as orações dizendo apenas “Amém”, mas uma maneira de terminar os salmos é com alguma doxologia breve (como o “Glória ao Pai”). Uma forma fácil é, após finalizar o salmo, repetir algum verso que chame mais à sua atenção ou seja mais coerente com a sua situação. Aliás, os cinco blocos de salmos bíblicos são separados por quatro transições que são doxologias, e que podem ser usadas (de memória) quando concluímos algum salmo: Sl 41:13; 72:19; 89:52; 106:48. Depois, como sempre: Amém!

• A memorização: Todo cristão deveria conhecer alguns salmos de memória. Alguns salmos que seria interessante considerar memorizar: 23 (segurança), 24, 42-43, 46, 67, 91 (batalha espiritual), 95, 100, 113, 116 (gratidão), 130 (penitência).

• O compromisso: Os salmos apresentam uma forma de oração que não é natural para muitos cristãos, os “atos de fé”, “atos de confiança” e outros, orações geralmente breves nas quais, em vez de apenas pedir algo a Deus, nós nos posicionamos diante dele e afirmamos a nossa fé, nossa esperança, nosso amor, nossa devoção, nosso compromisso e outras coisas. Esse tipo de atitude exigirá, em algumas situações, certa ousadia, mas também serão uma forma de avivar nossa fé e reafirmar nossa lealdade ao Senhor, portanto são uma forma importante de adoração. Alguns exemplos:

  • “No tocante a mim, confio na tua graça;” (13:5a)
  • “Eu te amo, ó Senhor , força minha.” (18:1)
  • “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” (23:6)
  • Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes.” (27:13)
  • Aguardo o Senhor , a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra.” (130:5)

• A defesa: Os Salmos não são apenas deprecação, mas também defesa. Neles, não apenas afirmamos nossa culpa, mas também nossa inocência (“Lavo as minhas mãos na inocência”, 26:6), e, com isso, pedimos que Deus faça justiça diante da nossa situação (“Faze-me justiça, ó Deus”, 43:1). Essa ousadia é necessária numa vida espiritual equilibrada.

Experimente orar os salmos. Encontre nele uma história que, passando por montes e por vales, encontra ao fim sempre motivo de gratidão e para um cântico novo, um motivo para dizer: Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ansiedade é pecado?

As pessoas perguntam se a ansiedade é pecado. Existe muita confusão nesse assunto.

É falso o raciocínio do tipo “quem tem fé não tem ansiedade ”. Isso presume um vislumbre muito simplista da natureza humana, e não tem nada a ver com a Bíblia. A maneira como a Bíblia ensina a lidar com a ansiedade — por exemplo, através da oração — prova que não basta ter fé. Ansiedade não é só falta de confiança em Deus.

Na verdade, a ansiedade e a fé se alojam em dimensões diferentes da natureza humana. A ansiedade ocupa a carne (finitude, corporeidade, fragilidade, mortalidade, animalidade, instinto), a fé ocupa o espírito; não há contradição na coexistência delas.

Podemos falar, de um ponto de vista teológico filosófico, de três formas de ansiedade: a ansiedade como impulso, ansiedade como hábito, ansiedade como transtorno. Nem o impulso nem o transtorno são pecados, mas somente o hábito, resultante de um consentimento com o impulso.

Na verdade, o impulso da ansiedade, embora possa adoecer, é necessário para nossa sobrevivência, porque ele é o instinto de que nós não contornamos o futuro — o que é total verdade. Essa informação precisa ser completada pelo espírito, pois só ele sabe que, embora não controlemos o futuro, Deus controla.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Devoção, segundo São Tomás de Aquino

“Não adoramos a Deus por sacrifícios e dons exteriores em benefício dele, mas por nós e por nossos próximos, pois ele não precisa de nossos sacrifícios, mas deseja que eles lhe sejam oferecidos para promover nossa devoção e a utilidade do nossos próximos.” ST IIa-IIae q. 30 a. 4 ad 1

“Assim a devoção não parece ser nada além da vontade de prontamente se entregar às coisas pertinentes ao serviço a Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 1 co

“…a devoção pelos santos de Deus, mortos ou vivos, não termina neles, mas passa deles a Deus, enquanto naturalmente veneramos a Deus nos ministros de Deus.” ST IIa-IIae q. 82 a. 2 ad 3

“Assim necessariamente ocorre que a meditação seja causa da devoção, enquanto naturalmente através da meditação o homem concebe que se entregue ao serviço divino.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 co

“E assim as coisas pertinentes à humanidade de Cristo, como nos conduzindo pela mão, excitam maximamente a devoção, ainda que a devoção consista principalmente das coisas concernentes à divindade.” ST IIa-IIae q. 82 a. 3 ad 2

“Ainda assim, há três razões para empregar a voz em tais orações. Primeiro, para excitar a devoção interior, para que a mente orante se eleve a Deus. Pois por sinais exteriores, seja por voz ou mesmo por outros atos, a mente é movida tanto na apreensão quanto também, consequentemente, na afeição… E assim só devemos usar a voz e tais símbolos na oração conforme excitem a mente inteiriormente. Se, na verdade, por essas coisas a mente for distraída ou de qualquer modo impedida, elas devem cessar.” ST IIa-IIae q. 83 a. 12 co

“…segundo diz o Damasceno, no Livro IV, como somos compostos de natureza dupla, a saber, intelectual e sensível, oferecemos a Deus uma adoração dupla, a saber, espiritual, consistindo na devoção interior da mente, e corporal, consistindo na humilhação exterior do corpo. E como, em todos os atos de adoração (latriae), aquilo que é exterior se refere àquilo que é interior como principal, segue-se que a adoração (adoratio) exterior seja em função da interior, de modo que, pelo sinal da humildade que exibimos corporalmente, seja excitado nosso afeto a se submeter a Deus, assim como nos é conatural que procedemos dos sensíveis aos inteligíveis.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 co

“…mesmo a adoração corporal é em espírito, enquanto ela procede da devoção espiritual e se ordena a ela.” ST IIa-IIae q. 84 a. 2 ad 1

“…um lugar determinado é escolhido para a adoração, não em razão de Deus, que é adorado, mas em razão dos próprios adoradores. E isso por uma razão tripla. Primeiro, em razão da consagração do lugar, pela qual os orantes concebem maior devoção espiritual, de modo que sejam mais ouvidos, segundo indica a Oração de Salomão (2Reis 8).” ST IIa-IIae q. 84 a. 3 ad 2

“…é um modo mais nobre de provocar os homens à devoção pelo ensino e pela pregação do que pelo canto.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 3

“…pelo canto que é empregado com entusiasmo para deleitar, a alma é distraída da atenção por aquilo que é cantado. Mas se alguém canta por devoção, considera atentamente o que diz, tanto porque permanece mais tempo no canto, como porque, como diz Agostinho (Confissões X), ‘todos os afetos do nosso espírito, por sua diversidade, têm modos próprios na voz e no canto, que são excitados por sua oculta familiaridade’. E o mesmo se dá com os ouvintes, que, mesmo quando não entendem o que é cantando, entendem por que é cantado — a saber, em louvor a Deus —, e isso é suficiente para excitar a devoção.” ST IIa-IIae q. 91 a. 2 ad 5

“… devoção, que é o principal ato de religião.” ST IIa-IIae q. 104 a. 3 ad 1

“…aquelas coisas instituídas pelos homens feitas nos sacrementos não são necessárias aos sacrementos, mas são feitas para a sua solenidade, que é acrescentada aos sacramentos para excitar a devoção e reverência naqueles que recebem os sacrementos.” ST IIIa q. 64 a. 2 ad 1

“…que nos batizados se manifeste maior ou menor graça, pode ter duas razões. Por um lado, um recebe no Batismo maior graça do que outro em razão da maior devoção, conforme já dito.” ST IIIa q. 69 a. 8 ad 2

“…aqueles que carecem do uso da razão podem ter devoção pelo Sacramento [da Eucaristia], seja em alguns casos a devoção presente, seja em outros a devoção pretérita.” ST IIIa q. 80 a. 9 ad 1

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deserto, Acídia e Noite Escura da Alma

É importante não confundir três coisas: deserto, acídia e noite escura. (A confusão que envolve a segunda tem a ver com inexperiência, enquanto a confusão que envolve a terceira tem mais a ver com linguagens divergentes.)

(I) Deserto é período (dias, meses, anos) de provação no qual há maior aridez, diminuição do prazer imediato nas coisas espirituais e da recompensa instantânea. A obediência permanece, mas ela é mais difícil e custosa. Desejamos um rio, mas lutamos por uma gota. Tentações são mais explícitas, naquilo em que estamos fragilizados. O diabo procura lançar dúvidas e confusão espiritual. Todo cristão passa pelo deserto em algum momento. Não resulta de um pecado nosso específico (não é uma punição), embora seja importante para que conheçamos os nossos pecados e forças, pois o deserto nos ajuda a desnudar nossa condição espiritual, pois faz cessarem certas emoções que ocultam nossos problemas.

(II) Acídia não tem a ver principalmente com as circunstâncias que nos provam, mas com o nosso coração. Acontece todo o deserto em nosso redor, mas a acídia envolve certo desespero ou aceitação da distância em relação a Deus. Ela é uma paixão da carne sobre a alma, mas envolve também desobediência e consentimento, uma desistência de lutar no deserto, portanto com algum grau de rejeição à graça e abandono da continência do Caminho, em busca da comodidade. Na maior parte das vezes em que passamos pelo deserto, especialmente quando mais inexperientes, nós caímos em algum grau de acídia. Essa desistência é muito perigosa, porque pode levar à apostasia: você primeiro desiste do amor, depois desiste da esperança e, por fim, se não se arrepender, desiste da fé.

(III) A Noite Escura da Alma é uma forma de deserto, mas é mais profunda. Não é uma experiência de todos os cristãos, mas daqueles que já alcançaram um aprofundamento místico, certo grau de perfeição acima da maturidade, e que, por estarem mais livres das paixões comuns, sofrem uma provação mais severa, na qual devem simplesmente confiar em Deus.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O Amor e a Morte

Amor é ação e hábito. Quem ama procura o bem e a união com a pessoa amada. Quando paramos de agir, nosso amor morre. Isso é muito visível na maneira como lidamos com as pessoas ao nosso redor, mas não para aí.

Há vários anos, ouvi um importante pregador carismático — vocês não saberão quem é — dizer que não mais amava a sua falecida esposa. Não sei se, enquanto ela ainda vivia, ele chegou a lhe dizer que seu amor era “forte como a morte”. As palavras me pegaram desprevenido, mas, refletindo, percebi que isso fazia perfeito sentido, dentro daquilo que aquele pregador acredita sobre a vida após a morte.

O Novo Testamento recomenda a viuvez sem novo casamento — em 1Co como um conselho a todos os cristãos para maior bem-aventurança, e em 1Tm como uma orientação na seleção de bispos e para a ordem das viúvas, de modo que, em ambos os casos, só seria aceita pessoa que não tivesse casado mais de uma vez. Além de uma demonstração de continência e de entrega ao serviço no reino de Deus, a viuvez era, no mundo antigo, uma forma de honrar a memória da pessoa falecida. Com um novo matrimônio, o cônjuge que partiu não será mais lembrado com a mesma ênfase.

Assim como em vida, também após a morte, se não fazemos nada pela pessoa falecida, se deixamos que seu nome morra, nosso amor por essa pessoa morre também, aos poucos. Então damos o nome de falecidos a lugares (como ruas e instituições), fazemos memoriais públicos (como o do holocausto), usamos fotografias, colocamos estátuas em praças, para lembrar essas pessoas de algum modo, hornando a memória daquela pessoa. “A memória do justo é abençoada, mas o nome dos perversos cai em podridão.” (Pv 10:7)

Nós fazemos essas coisas para não nos perdermos, para não nos perdermos. Pois esquecer é amar menos, e amar menos é se perder.

Então práticas cristãs como lembrar os que faleceram e orar por eles é uma forma de vivenciar o amor — desejando o seu bem e desejando nossa união com eles, o que, no fundo, é a mesma coisa em Deus. Esse sentimento de dever para com os falecidos é tão antigo que, dentro da religião israelita, parece preceder historicamente qualquer noção clara sobre vida após a morte e comunhão dos santos.

Se nós nos impomos restrições sobre a memória deles e a oração por eles, é como proibir o exercício do amor — ele atrofia. O resultado é que com o tempo nós até perdemos a consciência de que os que partiram continuam existindo. É como se, após a morte, cada um de nós se tornasse apenas mais um personagem da imaginação. Você não tem mais o que amar, mesmo. O amor é sepultado.

“…para que Davi, meu servo, tenha sempre uma lâmpada diante de mim em Jerusalém…” (1Rs 11:36)

Rev. Gyordano M. Brasilino

Eu sou um eleito? Meu filho é um eleito?

O arminianismo e o calvinismo, nas suas versões mais comuns populares, têm certos problemas pastorais que são muito mais fáceis de resolver quando se tem uma perspectiva mais equilibrada e multifacetada. Não adianta discutir esses assuntos, ou rejeitar toda discussão, sem atentar para o modo como essas coisas afetam a vida das pessoas.

O calvinismo, particularmente o de tipo mais puritano, acentua o primeiro problema: eu sou um eleito? O Arminianismo acentua o segundo: O meu filho é um eleito?

Quando criamos uma barreira intransponível entre os salvos e os condenados, e vemos que os primeiros, os eleitos de Deus, devem ser identificados por certas características de “comportamento piedoso”, entramos no primeiro problema. Pois os cristãos mais sérios são aqueles que mais percebem suas próprias insuficiências, e, por isso, nesse esquema, são os que mais provavelmente encontrarão problemas de consciência e duvidarão da esperança da vida eterna, enquanto os que vivem na letargia da doutrina abstrata sem exame de vida, aqueles que têm pecados comuns e aceitos ou invisíveis — a inveja, a gula, a avareza, certas formas de soberba —, não terão problema em se verem como eleitos, especialmente quando cercados de discursos do tipo “descanse em Deus”. Tudo o que o preguiçoso quer ouvir é “descanse!”.

Como não há uma maneira de transpor o caminho dos perdidos para os salvos — aquilo que se chamou de “graça suficiente” —, nós nos deparamos com um “grande abismo”, sem ter o que fazer e sem saber se Deus virá em nosso socorro. As pessoas que caem nesse desespero artificial, criado pela doutrina, serão consideradas como realmente perdidas, pessoas que nunca foram eleitas, que nunca acreditaram “de fato”. Assim, o grupo preserva o senso de que seu remédio realmente funciona — se não funcionou em alguém, aquela pessoa é a culpada. O sofredor é culpado pelo sofrimento. A solução reforça o problema.

Isso é muito fácil de resolver quando você entende que a fonte da graça está bem diante de você. A possibilidade de cooperar com essa graça nos permite perceber que não somos inertes. Não há muro, mas uma escada, cujo primeiro degrau está bem à nossa frente. Graça suficiente e cooperação são necessárias.

Por outro lado, há outro problema, o problema de Santa Mônica e de tantas mães, de tantos pais, ao longo dos séculos, que viram seus filhos longe da graça e da fé. O pensamento de que nossa conversão depende, num nível último, de nossa própria escolha, gera o problema de que não há nada que possamos fazer pelo pecador endurecido, nada que nos dê a segurança de que tudo está nas mãos de Deus.

O que fazemos por essas pessoas? Nós pregamos, nós amamos, nós perdoamos, nós damos exemplo de vida, nós apoiamos, nós temos paciência, nós testemunhamos com misericórdia — tudo isso como “cooperadores de Deus” —, mas, acima de tudo isso, nós invocamos aquele que tem em suas mãos todos os corações e que é poderoso para abrir os olhos espirituais, para mover as vontades, para curar os sentimentos feridos, para saciar todos os desejos da nossa alma na direção do sentido último, que pode remover o coração de pedra, que pode libertar de todo cativeiro das trevas e iluminar o nosso espírito com um clarão que espanta toda a escuridão — aquele que não respeita o pecado e, por isso, não precisa respeitar nossa (falsa) liberdade de pecar.

Então oramos com fé pelo pecador, crendo na eficácia da graça divina. Nós nos desesperamos quando achamos que tudo depende de nós — que a conversão do meu filho depende dele —, mas temos uma firme esperança quando acreditamos naquele que, através de nossas orações, pode inundar a todos nós, especialmente àqueles a quem amamos, com uma torrente extraordinária de graça, atraindo com laços de amor. A graça eficaz é necessária.

Esses problemas pastorais se devem, em parte, a que essas teologias não resultem da experiência histórica dos cristãos, mas do exame de teólogos deduzindo proposições a partir do texto bíblico.

Nenhum teólogo é uma ilha, é claro. Todo teólogo leva sua tradição e experiência — como pecador, como cristão, como membro de uma comunidade concreta, como representante de uma classe social ou raça, como ser humano diante do problema da existência — para o exame da doutrina, na saúde ou na doença, mas a teologia que procura conscientemente se atentar para a experiência e reconhecê-la é diferente. Uma teologia que emerge de séculos de tradição foi “testada” — sabemos os seus resultados e limites. Uma que, assim que surge, logo se torna dogma exigido pela comunidade, não passou pelo exame.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus foi ouvido — O Pai disse “Sim”

“Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte e tendo sido ouvido por causa da sua piedade,” Hebreus 5:7

Quando estava no Getsêmani, no Monte das Oliveiras, Cristo fez uma oração que está profundamente gravada na consciência da primeira comunidade de cristãos, pedindo ao Pai pelo livramento. Essa oração agonizante aparece nos Evangelhos Sinóticos: “Aba, Pai, tudo te é possível; passa de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, e sim o que tu queres.” (Mc 14:36 = Mt 26:39 // Lc 22:42); e depois é mencionada em Hb 5:7 e 1Pe 2:23, tendo talvez um eco nas palavras de Paulo (Rm 8:15; Gl 4:6).

Antes de ser levado para sua humilhação e morte, Cristo fez uma oração intensa, “com forte clamor e lágrimas”, àquele que “o podia livrar da morte”. Ele disse: “Minha alma está triste [perilypos] até à morte” (Mc 14:34). O evangelista usa palavras graves para descrever o estado da alma de Cristo: ele começou se impressionar e apavorar profundamente [ekthambeisthai] e se angustiar [adēmonein]. O tom é tão forte que é suavizado pelos evangelistas posteriores — o Cristo do Quarto Evangelho nos parece resoluto e determinado, mas mesmo Marcos conhecia a intenção do Filho do homem de doar sua vida (10:45) —, mas mesmo Lucas, na variante textual mais conhecida, fala da “agonia” de Cristo (Lc 22:44), isto é, da batalha que ele enfrentava. Na hora das trevas, Cristo batalhava contra os poderes obscuros que o cercavam e tentavam, e pedia ao Pais que o livrasse da morte. Diante da injustiça que sofreria, Cristo “entregava-se àquele que julga retamente” (1Pe 2:23).

E Cristo foi ouvido. Isso surpreende a algumas pessoas, mas a oração de Cristo foi ouvida pelo Pai. Não poderia ser diferente, afinal, ele mesmo disse: “Eu sei que sempre me ouves” (Jo 11:42). Assim como Cristo havia ensinado ao Pai que seus discípulos receberiam o que pedissem quando fossem obedientes (Jo 15), ele mesmo, estando na perfeita obediência (“por causa da sua piedade [eulabeia]”), recebia do Pai tudo o que pedia. Então Cristo foi ouvido pelo Pai!

Mas como pode ser, se ele morreu? Ele morreu, mas ressuscitou. Ao retornar à vida, ele foi livre daquilo que o prendia. Aqueles que acreditam que a paixão de Cristo foi um “não” do Pai ao Filho terão muita dificuldade em ligar o que está em Hb 5:7 à oração registrada nos Evangelhos, mas, de fato, o Pai passou o cálice. Cristo morreu, mas não morreu eternamente. Ele esteve morto por apenas um tempo. Ao ressuscitá-lo, o Pai dizia o “sim” ao Filho, passando dele o cálice. Como Jó, Cristo foi restituído após os seus sofrimentos injustos, provocados pelas forças das trevas.

Em 2Co 4 (o Evangelho de hoje), Paulo tinha em mente exatamente a mesma coisa. É por isso que ele podia dizer, juntamente, que “aquele que ressuscitou o Senhor Jesus também nos ressuscitará com Jesus” (v. 14) e, então, que “a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória” (v. 17). Jó foi restituído, Cristo foi restituído, e Paulo sabia que o mesmo poder da ressurreição estava nele. A ressurreição é restituição e muito mais do que restituição.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Notas sobre o Pai Nosso

Pode ser uma imagem de texto que diz "Pai Nosso: Entrada no Templo, Esperança do Fim"

A Oração do Senhor incorpora, ao mesmo tempo, duas linguagens das Escrituras e do judaísmo antigo: o misticismo do templo e a expectativa apocalíptica. Isso se dá de maneira mais clara na versão maior (a de Mateus 6), que elabora o sentido da versão menor (a de Lucas 11).

Pai nosso nos céus,
Seja santificado o teu Nome,
(I)
Venha o teu Reino, (II)
Aconteça a tua vontade, como no céu, também na terra. (III)

Na primeira petição, há mais do que pode parecer à primeira vista. No Antigo Testamento, o Deus criador, que habita nos céus, se manifesta neste mundo através do Nome (HaShem). O Anjo da Presença, enviado por Deus, carrega este nome (Êx 23:20-21); este nome está no templo (Dt 12:5); particularmente, o sumo-sacerdote, o único que podia adentrar à Divina Presença no Lugar Santíssimo, fazendo as vezes do Anjo da Presença e realmente vestido de anjo (linho fino), carrega simbolicamente, em sua coroa sagrada, o Nome: “Santidade a Yahweh” (Êx 39:30; cf. Ap 14:1; 22:4), e podia invocar o Nome para abençoar o povo (Nm 6:27). Assim, o Nome é a manifestação terrena do Eterno. Ao dizer “seja santificado o teu Nome”, a referência à coroa é óbvia.

Coroa nos lembra de reino. Essa ligação entre o celeste e o terrestre reaparece nas duas petições seguintes. O reino é o domínio que Yahweh exerce a partir do trono do seu santuário (Sl 11:4; 45:6; 47:8; 96:9-10; 103:19; Is 66:1; Jr 3:17; 17:12 etc.). O santuário liga os céus e a terra. Ora-se, na segunda petição do Pai Nosso, pelo estabelecimento escatológico definitivo desse Reino (Dn 7:27). Olhando para isso, o vidente de Patmos contempla uma realidade na qual não mais haverá santuário (uma porta para os céus), porque os céus estarão na terra (Ap 22:3,22).

A terceira petição (que não existe na versão lucana) vai na mesma direção, mas de uma perspectiva diferente: ela enfoca a obediência angélica como um modelo para a obediência terrestre. Embora frequentemente se veja aí uma aceitação dos fardos da vida, o que é verdadeiro (Mt 26:42), a oração tem um conteúdo positivo, já que a obediência celestial é tomada como referência. Existe, portanto, em segundo lugar, um desejo de realizar essa obediência celestial, através da adoração celestial (Sl 103:19-21; cf. Ne 9:6). Essa obediência à vontade do Pai Celestial é o que constitui a família de Cristo (Mt 12:50) e nos dá entrada no Reino (Mt 7:21). Mas existe também um apressamento do momento escatológico, no espírito de “maranatha”, realizando a plena obediência na terra e eliminando todos os poderes contrários: vem, Senhor.

Assim, as primeiras três petições do Pai Nosso (o Nome, o Reino, a Vontade) contém as noções da teologia do templo: os a habitação dos céus, a santidade, o Nome, o Reino (vindouro), a obediência e adoração celestes imitadas na terra (em comunhão). Em suma: o Nome, o Reino, a Vontade (Torá), três aspectos de Jesus. Assim como na invocação (Pai nosso), as demais petições, que dizem respeito às nossas necessidades presentes e escatológicas (não é preciso escolher entre as diferentes interpretações), fazem todas referência à pluralidade dos discípulos (pão nosso, nossas dívidas, nossos devedores, não cairmos em tentação, nosso livramento do mal/Maligno), visualizados como o templo no qual habita o Nome.