Notas sobre o Pai Nosso

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A Oração do Senhor incorpora, ao mesmo tempo, duas linguagens das Escrituras e do judaísmo antigo: o misticismo do templo e a expectativa apocalíptica. Isso se dá de maneira mais clara na versão maior (a de Mateus 6), que elabora o sentido da versão menor (a de Lucas 11).

Pai nosso nos céus,
Seja santificado o teu Nome,
(I)
Venha o teu Reino, (II)
Aconteça a tua vontade, como no céu, também na terra. (III)

Na primeira petição, há mais do que pode parecer à primeira vista. No Antigo Testamento, o Deus criador, que habita nos céus, se manifesta neste mundo através do Nome (HaShem). O Anjo da Presença, enviado por Deus, carrega este nome (Êx 23:20-21); este nome está no templo (Dt 12:5); particularmente, o sumo-sacerdote, o único que podia adentrar à Divina Presença no Lugar Santíssimo, fazendo as vezes do Anjo da Presença e realmente vestido de anjo (linho fino), carrega simbolicamente, em sua coroa sagrada, o Nome: “Santidade a Yahweh” (Êx 39:30; cf. Ap 14:1; 22:4), e podia invocar o Nome para abençoar o povo (Nm 6:27). Assim, o Nome é a manifestação terrena do Eterno. Ao dizer “seja santificado o teu Nome”, a referência à coroa é óbvia.

Coroa nos lembra de reino. Essa ligação entre o celeste e o terrestre reaparece nas duas petições seguintes. O reino é o domínio que Yahweh exerce a partir do trono do seu santuário (Sl 11:4; 45:6; 47:8; 96:9-10; 103:19; Is 66:1; Jr 3:17; 17:12 etc.). O santuário liga os céus e a terra. Ora-se, na segunda petição do Pai Nosso, pelo estabelecimento escatológico definitivo desse Reino (Dn 7:27). Olhando para isso, o vidente de Patmos contempla uma realidade na qual não mais haverá santuário (uma porta para os céus), porque os céus estarão na terra (Ap 22:3,22).

A terceira petição (que não existe na versão lucana) vai na mesma direção, mas de uma perspectiva diferente: ela enfoca a obediência angélica como um modelo para a obediência terrestre. Embora frequentemente se veja aí uma aceitação dos fardos da vida, o que é verdadeiro (Mt 26:42), a oração tem um conteúdo positivo, já que a obediência celestial é tomada como referência. Existe, portanto, em segundo lugar, um desejo de realizar essa obediência celestial, através da adoração celestial (Sl 103:19-21; cf. Ne 9:6). Essa obediência à vontade do Pai Celestial é o que constitui a família de Cristo (Mt 12:50) e nos dá entrada no Reino (Mt 7:21). Mas existe também um apressamento do momento escatológico, no espírito de “maranatha”, realizando a plena obediência na terra e eliminando todos os poderes contrários: vem, Senhor.

Assim, as primeiras três petições do Pai Nosso (o Nome, o Reino, a Vontade) contém as noções da teologia do templo: os a habitação dos céus, a santidade, o Nome, o Reino (vindouro), a obediência e adoração celestes imitadas na terra (em comunhão). Em suma: o Nome, o Reino, a Vontade (Torá), três aspectos de Jesus. Assim como na invocação (Pai nosso), as demais petições, que dizem respeito às nossas necessidades presentes e escatológicas (não é preciso escolher entre as diferentes interpretações), fazem todas referência à pluralidade dos discípulos (pão nosso, nossas dívidas, nossos devedores, não cairmos em tentação, nosso livramento do mal/Maligno), visualizados como o templo no qual habita o Nome.

Por que eu amo a Quaresma?

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A Quaresma é o período do ano cristão que eu mais amo. Geralmente as pessoas amam o Natal, pela beleza que traz ao mundo, pela celebração da Encarnação, pela alegria do nascimento do Deus menino. Amam a Páscoa, pelo sacrifício de amor, pela vitória sobre a morte, pelo chocolate. Amam o Pentecostes, pelo derramamento do Espírito, pelo envio da Igreja, pelo crescimento do Reino de Deus.

Eu amo essas festas também, elas são a coisa principal. Mas eu amo a Quaresma. A Quaresma é um período de espera pela Páscoa, mas eu espero pela Quaresma. Na verdade, para mim a Quaresma é uma grande oportunidade de fazer coisas estranhas, de abrir mão de várias coisas, com a desculpa de que estamos na Quaresma. Eu não pretendo passar a vida inteira sem comer carne vermelha, ou fazer uma série de outras coisas, especialmente quando estou na residência de outras pessoas; mas, enquanto, noutros tempos, pode ser até falta de educação rejeitar algumas coisas, na Quaresma eu tenho uma boa desculpa para me privar dessas coisas sem precisar ser chato, já que não é puramente decisão minha. É um costume da Igreja. Isso vale para muitas outros votos e abstinências durante esse período do ano. Esse é o primeiro motivo pelo qual eu amo a Quaresma.

O segundo motivo pelo qual eu amo a Quaresma está nos benefícios que ela traz. Ela é uma disciplina obrigatória, e seu maior benefício tem a ver com isso. É um jejum proclamado pela autoridade do povo, como vemos nas Escrituras (2Cr 20:3; Ed 8:21-23; Jr 36:9; Jl 1:14; 2:1; 2:15). Ela coloca diante da fraqueza de nossa carne uma grande seriedade. O jejum individual, feito por minha própria escolha, é uma disciplina importante, mas é algo submetido à minha própria decisão. O jejum apregoado pela autoridade excede minha escolha e me coloca diante de algo muito maior. É normal que membros de comunidades que não jejuam coletivamente também não jejuem individualmente. Falta o estímulo e o desenvolvimento do hábito.

Na verdade, sem uma disciplina de abstinência, oscilamos, ao longo da vida, entre a moderação justa e o excesso. Com o jejum, nossa oscilação se dá entre a abstinência e o excesso, centrada na moderação justa. Nesse tempo, podemos nos forçar a ver que não dependemos dos nossos desejos por dinheiro (através da esmola), por comida (através do jejum) e por tempo livre (através da oração). Isso nos faz um profundo bem, porque nos livramos de coisas que trazem preocupações tremendas, como os três espinhos que nos impedem de ser frutíferos (Lc 8:14): os cuidados (através da oração), as riquezas (através da esmola), os deleites da vida (através do jejum). Essas três disciplinas espirituais regulam nossos amores: a Deus (através da oração), ao próximo (através da esmola), a nós mesmos (através do jejum). As três disciplinas espirituais aparecem juntas em textos como Mt 6 e em At 10; no judaísmo da época, estavam conectadas (cf. Tb 12:8), e isso tem raízes profundas na religião israelita (cf. Is 58).

O terceiro motivo pelo qual eu amo a Quaresma é o de entender como ela é bíblica e como ela me conecta, juntamente com toda a história da Igreja, a certos temas das Escrituras Sagradas. Toda uma herança, todo um tesouro é colocado diante de mim, toda uma nuvem de testemunhas ao longo dos séculos, que celebraram esse tempo litúrgico. Para algumas pessoas, perguntar se a Quaresma é bíblica é perguntar se a Bíblia manda guardar a Quaresma (ou a proíbe). Mas esse tipo de pergunta não nos leva a lugar nenhum, porque a Bíblia não trata dessa questão diretamente. Para ver a Quaresma na Bíblia, é preciso fazer as perguntas certas, e não apenas ler a Bíblia, mas lê-la com a mentalidade bíblica.

Como isso funciona? A direção nos é indicada pelo apóstolo Paulo. Quando ele escreveu a Primeira Carta aos Coríntios, estava antes da festa anual de Pentecostes (1Co 16:8; cf. At 20:16). A grande festa que antecede o Pentecostes é a Páscoa. A esse respeito, sem mais nem menos, Paulo escreve, tratando no contexto de disciplina e impureza na Igreja, que:

“Joguem fora o velho fermento, para que vocês sejam nova massa, como, de fato, já são, sem fermento. Pois também Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa não com o velho fermento, nem com o fermento do mal e da maldade, mas com o pão sem fermento, o pão da sinceridade e da verdade.” (1 Coríntios 5:7-8)

Paulo quer que os coríntios celebrem a festa (heortázōmen) pascal centrada em Cristo, o cordeiro imolado, e para fazê-lo devem se abster do fermento, isto é, das impurezas no meio da igreja, dos ímpios que se fazem de cristãos. Somente purificados podemos participar desse momento. Paulo usa aqui uma leitura alegórica do rito pascal israelita, que determinava retirar o fermento dos pães (Êx 12:15). O pão eclesiástico deve ser um pão sem fermento, isto é, sem a mistura do pecado. A Páscoa é festa dos puros, dos libertos, é festa do Êxodo. Já no Antigo Testamento, havia uma abstinência: o pão fermentado. Um Êxodo espiritual (não mais terreno) indicará uma vitória espiritual, uma libertação espiritual em relação aos poderes dominadores das trevas, o que nos levará aos 40 dias de Cristo no deserto.

Essa leitura alegórica de Paulo parte de uma teologia da preparação, muito comum em toda a Bíblia, e que pode ser resumida nas palavras de Js 3:5: “Santifiquem-se, porque amanhã o Senhor fará maravilhas no meio de vocês.”. Esse tipo de preparação exige tirar do meio do povo de Deus os anátemas (Js 7:13) e envolve todo o povo (Jl 2:16). É assim antes de participar de um sacrifício (1Sm 16:5). Deus mesmo exige essa preparação (Êx 19:10-11). Por vezes, essa preparação inclui abstinência sexual (Êx 19:15; 1Sm 21:4; 1Co 7:5). Os apóstolos jejuavam antes de ordenar pessoas (At 13:2-3; 14:23). Purificação e preparação estão ligadas em 2Tm 2:21. O ministério de João Batista consistiu em conduzir o povo a preparar o caminho do Senhor através do arrependimento. Se eu entendo que amanhã Deus fará grandes coisas, devo estar pronto hoje. Não posso tratar as coisas de Deus de todo modo.

Essa teologia da preparação é fundamental para entender a Quaresma. Os primeiros cristãos sabiam perfeitamente da necessidade de preparação. Assim, houve, desde muito cedo, um período de preparação em jejum para o Batismo, como evidencia a Didaquê, e tudo isso seguindo a direção que Paulo indicou. Assim, quando os primeiros cristãos olhavam para a festa da Páscoa, deveriam pensar: como podemos nos preparar para esse momento tão importante, para a festa que celebra o Senhor Ressuscitado e, com isso, toda a nossa Redenção? Essa é a primeira pergunta bíblica para fazer. A resposta começou a ser dada por Paulo: removendo as impurezas. No contexto de 1Co 5, essas impurezas eram os devassos, avarentos, idólatras, maldizentes, bêbados, ladrões (v. 11).

Então se celebraremos a Páscoa, a próxima pergunta que temos de nos fazer é: eu sou alguma dessas coisas? Sou devasso, avarento, idólatra, maldizente, bêbado ou ladrão? Há em mim alguma dessas impurezas? Se sim, como deixar essas coisas? Uma reflexão sobre nossa própria condição é necessária, e cada um de nós descobrirá que há ainda pecados e impurezas em sua própria vida, dos quais deve se purificar pela graça de Deus (2Co 7:1; 2Tm 2:21; Tg 4:6-10). É aqui que começa a Quaresma.

A resposta bíblica que esses primeiros cristãos encontraram foi imitar o exemplo de Cristo e de outras figuras bíblicas, que prepararam-se através do jejum. Em primeiro lugar, o jejum é um modo típico de arrependimento penitencial bíblico, como forma de “humilhação” (1Rs 21:27; Ne 1:4; 9:1; Dn 9:3; Jl 2:12; Jn 3:5-10). O jejum era uma forma de castigar a própria alma (Sl 69:10). O jejum é uma abstinência de alimentos (e outros prazeres) durante um tempo (cf. Dn 10:3). Ele provoca em nós uma tristeza que é benéfica (cf. Ec 7:3; 2Co 7:10), e, como abstinência, é coerente com quem quer vencer a corrida (1Co 9:25-27). Isso, na linguagem cristã, é indicado por uma palavra: mortificação, subjugação do corpo (Rm 8:13; Gl 6:8; Cl 3:5). O resultado da mortificação é manifestar Cristo em nosso próprio corpo (2Co 4:10).

Ora, se o jejum é uma forma tão propícia de preparação, arrependimento e purificação, a próxima pergunta bíblica a fazer é: por quanto tempo devemos jejuar?

O número dos 40 dias naturalmente aparece como referência bíblica. Esse número está ligado ao Êxodo pascal: o povo israelita passou quarenta anos no deserto antes de chegar à Terra Santa (Êx 16:35). Era o tempo necessário para morrer a geração ímpia (que não poderia entrar na Terra); isso corresponde aos quarenta dias em que eles espiaram a terra prometida (Nm 14:34-35; cf. Ez 4:6). Durante esse tempo, “conhecereis o meu afastamento” (Nm 14:34), num curioso paradoxo com a promessa de que Deus não se afastaria daquele povo durante os quarenta anos (Dt 2:7). Os quarenta anos eram um tempo de afastamento, provação e humilhação, mas também de suficiência, cuidado e provisão (Dt 8:2-4).

O próprio Moisés havia, em dois momentos, jejuado por quarenta dias em preparação para receber a Lei (Êx 24:18; 34:28; Dt 9:9-11,18,25), e, durante o segundo tempo, ele intercede penitencialmente pelo povo (Dt 9:25; 10:10). Seguindo o mesmo modelo, Elias jejuou quarenta dias a caminho de Horebe (1Rs 19:8). Assim, há duas referências importantes aqui: Moisés (a Lei) e Elias (os Profetas).

Na Bíblia, quarenta dias são o tempo de chuva do dilúvio (Gn 7:4,12,17), isto é, o tempo em que o antigo mundo morre para surgir o novo mundo. Quarenta anos era a idade dos gêmeos Isaque e Esaú quando se casaram com suas respectivas esposas, a arameia Rebeca e a hitita Judite (Gn 25:20; 26:34). Quarenta era o limite de açoites que se julgava que uma pessoa poderia suportar antes da desumanização (Dt 25:3). Quarenta dias foi o tempo em que Golias afrontou os israelitas (1Sm 17:16). Quarenta anos, representados por quarenta anos foi o tempo de juízo prometido ao Egito (Ez 29:11-13). O juízo foi prometido aos ninivitas dentro de quarenta dias (Jn 3:4).

Sem entrar em muitos detalhes, podemos observar que a história de Israel tem ciclos de quarenta anos, exemplificados por vários períodos de paz de quarenta anos (Jz 3:11; 5:32; 8:28), ou quarenta anos de punição (13:1), os quarenta anos de ministério de Eli (1Sm 4:18), quarenta anos do reinado de Davi (2Sm 5:4; 1Rs 2:11), do de Salomão (1Rs 11:42), do de Joás (2Rs 12:1).

Assim, quando Cristo jejuou por quarenta dias no deserto em preparação para o seu ministério (Mt 4:2; Mc 1:13; Lc 4:2), vindo depois a passar 40 dias de preparação para a Ascensão (At 1:13), havia um grande precedente para a importância desse número. Cristo é um novo Moisés, um novo Elias, o novo rei de Israel, o novo Êxodo, o novo espia (primeiro a entrar) da Terra Prometida, ele suporta o Exílio pelo seu povo (num novo Êxodo), ele enfrenta por quarenta dias o Golias espiritual (Satanás), ele é quem prepara a “nova terra” pós o “Dilúvio”, ele se prepara para o casamento com sua noiva.

Então, quando alguns dos primeiros cristãos se perguntaram por quanto tempo jejuariam para a Páscoa, a resposta veio facilmente: imitaremos Cristo, jejuaremos por quarenta dias em preparação para a Páscoa. Nesse sentido, a prática do jejum da Quaresma surge muito tranquilamente ao fazer as perguntas certas à Escritura, numa mentalidade bíblica. Isso não significa que essas perguntas tenham sido todas feitas simultaneamente; levou um tempo para que o atual costume eclesiástico se transformasse de uma pequena semente numa grande árvore, seguindo uma lógica apostólica.

Uma narrativa comum e muito coerente é a de que o jejum da Quaresma é um desenvolvimento do antiquíssimo jejum pré-Batismo, já que o Batismo era feito comumente na Páscoa. Mas não é impossível que a ordem tenha sido inversa, e que dois costumes de origens diferentes tenham se unido. Os teólogos anglicanos, conhecendo as diferentes referências patrísticas nessa área, atribuem o jejum da Quaresma a uma tradição apostólica e, ao mesmo tempo, sabem que houve um desenvolvimento do costume, preservando uma raiz apostólica. O Revmo. John Bramhall (1594–1663), arcebispo anglicano, escreveu:

“Não recebemos vossas tradições espúrias inovadoras, nem fundamentos não escritos; mas admitimos as Tradições genuínas, universais e apostólicas, como o Credo dos Apóstolos, a Perpétua Virgindade da Mãe de Deus, os festivais anuais da Igreja, o Jejum Quaresmal. Ainda que saibamos que tanto a duração quanto a maneira de observá-lo era bem diferente nos primeiros tempos.”

Answer to de la Militière

“Mas dias virão em que lhes será tirado o esposo, e então jejuarão naqueles dias.” Marcos 2:20

Rev. Gyordano M. Brasilino

Fundamentos bíblicos da oração pelos mortos

The Victorian Era & the Art of Mourning - SevenPonds BlogSevenPonds Blog

“Eu acredito que a oração pelos Fiéis Falecidos
é um dever a se observar.” John Wesley

Há um grande mistério da morte. Ela se levanta contra nós com um poder terrível e incontrolável. Pessoas que amamos nos deixam, colocando-se além de nossas forças. A mortalha se coloca entre nós e os que partiram, levando algo de nós mesmos, de nossos pensamentos, lembranças, sentimentos.

Parte desses sentimentos inclui o de que os falecidos estejam bem, estejam em paz, desfrutem da luz divina. Não sabemos como eles estão, mas só desejamos que estejam melhor do que nós. É nesse amor pelos falecidos (amor que nunca falha), que o bispo Aulén encontra o fundamento para a oração pelos mortos. O amor espera além de toda esperança.

Com toda a evidência, desde muito cedo os cristãos oraram pelos mortos, como exemplificam a Inscrição de Abércio (séc. II) e as referências de Tertuliano (séc. III). As indicações que temos são também de que os judeus do período do Segundo Templo oravam pelos mortos e de que ele necessitavam de expiação (2Mc 12:44-45; Testamento de Abraão 15; Sifre Deverarim 210 etc.). Então a fé cristã se desenvolveu num ambiente em que a oração pelos mortos era uma prática aceitável, não rejeitada.

A prática de interceder pelos cristãos falecidos, durante a liturgia eucarística, é unânime nas liturgias antigas, dos mais diversos lugares, e abundam as referências patrísticas em seu favor. Mas os desenvolvimentos da Reforma Protestante, especialmente na tendência calvinista, levaram a uma rejeição da oração pelos mortos. Ainda assim, vemos a oração pelos mortos ser aprovada e, às vezes, ensinada e praticada por figuras como Lutero, Zuínglio, além de anglicanos como Lancelot Andrewes, John Cosin e John Wesley.

Como uma prática assim pode ter se tornado tão universal até o período da Reforma? Há um fundamento bíblico para ela? Há uma utilidade?

A intercessão pelos mortos é bíblica?

É importante dizer primeiramente que, para que uma prática seja aceita na fé cristã, não é necessário ela seja exigida, exemplificada, ensinada ou autorizada nas Escrituras Sagradas. Nada do que fazemos pode contradizer as Santas Palavras, mas nenhum texto da Escritura jamais foi escrito com o propósito de elencar tudo o que podemos fazer na religião cristã.

A suficiência da Escritura não diz respeito à liturgia, por exemplo. Ninguém pergunta se pode orar por emprego, por exemplo, mesmo que não haja nenhuma oração por emprego na Bíblia. O que perguntamos não é se a Bíblia autoriza a orar por emprego, mas se esse tipo de oração é compatível com os princípios que vemos nas Escrituras. Felizmente, a Escritura nos dá mais do que apenas princípios, como veremos.

Vemos ao longo das Escrituras um costume universal: o luto através do pranto e jejum (de vários dias) pelos falecidos, como por Arão, Moisés, Saul e seus filhos, por Estêvão e tantos outros, mas são o ambiente adequado em que essas orações podem começar a surgir, dados os bons desejos dos vivos pelos mortos.

Primeiramente, sabemos que a Escritura nos ensina a orar “por todos os homens” (1Tm 2:1) e “por todos os santos” (Ef 6:18), isto é, por todos os cristãos. Os contextos jamais limitam essas obrigações aos vivos. Em ambos os casos, há referência a pessoas vivas em redor, mas isso não constitui uma limitação. Afinal, se devemos orar por todos, obviamente os vivos são incluídos! O que procuramos não é uma referência aos vivos, mas uma exclusão dos mortos. Não encontramos essa exclusão, e isso, recordemos, num ambiente judaico e pagão em que a oração pelos mortos era conhecida e aceita. A responsabilidade de não apenas alegar, mas provar que esses “todos os homens” não incluem todos, mas apenas os vivos, é de quem é acredita nessa limitação. Do jeito que está, lido da maneira mais natural, o texto inclui mesmo a todos. A única coisa que impede de perceber essa leitura natural é o preconceito do leitor contra a oração pelos mortos.

Segundamente, vemos que a intercessão pelos mortos era bem conhecida de Paulo e dos cristãos de Corinto. O texto de 1Co 15:29 faz referência a um tipo de intercessão pelos mortos:

Doutra maneira, que farão os que se batizam por causa dos mortos? Se, absolutamente, os mortos não ressuscitam, por que se batizam por causa deles?

1 Coríntios 15:29

Nesse trecho de difícil interpretação, Paulo usa o “batizar-se” pelos mortos como um argumento em favor da ressurreição, como indicando que, de algum modo, a premissa por trás dessa prática é a de que os mortos seria, de algum modo, beneficiados por essa intercessão quando ressuscitassem. Não é possível decidir com segurança o que seria esse batismo pelos mortos, mas sem dúvida era uma prática intercessória, que beneficiaria os mortos. O fato de que Paulo usa a prática como argumento, sem condená-la, mostra que ele via a intercessão pelos mortos como, no mínimo, possível. De modo interessante, vemos nesse texto, assim como em 2Mc 12:40-46 (texto desconsiderado pela maioria dos protestantes), a intercessão pelos mortos aparecer na perspectiva da ressurreição.

Terceiramente, Paulo intercedeu por misericórdia sobre Onesíforo no dia do juízo.

Conceda o Senhor misericórdia à casa de Onesíforo, porque, muitas vezes, me deu ânimo e nunca se envergonhou das minhas algemas; antes, tendo ele chegado a Roma, me procurou solicitamente até me encontrar. O Senhor lhe conceda, naquele Dia, achar misericórdia da parte do Senhor. E tu sabes, melhor do que eu, quantos serviços me prestou ele em Éfeso.

2 Timóteo 1:16-18

Esse texto nos ensina algo muito importante, que afeta diretamente o modo como vemos a oração pelos mortos. Paulo ora por misericórdia do Senhor sobre Onesíforo, no dia do juízo (“naquele Dia”). Com isso, aprendemos com muita naturalidade que podemos orar por misericórdia no juízo final, que é possível Deus realizar misericórdia (cf. Tg 2:13). Isso, por si só, já justifica a oração pelos mortos, uma vez que podemos orar por um dia que chegará quando a maioria de nós já estivermos mortos.

Mas o argumento vai além: Onesíforo provavelmente já havia falecido quando Paulo fez essa oração. O texto faz pouco sentido se Onesíforo ainda estivesse vivo. Os motivos são simples: 1. Paulo pede misericórdia pela família de Onesíforo, mas por Onesíforo ele pede misericórdia apenas no dia do juízo; 2. Onesíforo é mencionado no passado, pelo que fez anteriormente; 3. Em 2Tm 4:19, a família de Onesíforo é mencionava novamente, num contexto de saudação a diversos indivíduos, e essa família recebe uma saudação, mas Onesíforo não recebe diretamente. Assim, os indícios apontam na direção de que esse texto de 2Tm 1:18 seja uma oração pelos mortos. Bem no Novo Testamento.

Por fim, há o exemplo já mencionado de 2Mc 12:40-46. Esse texto não é usado como referência pela maioria dos protestantes, embora faça parte da tradição anglicana (e luterana), não sendo usado para estabelecer uma doutrina, mas apenas para instrução, significando que seu ensinamento não é herético.

Do que foi dito, se segue que: 1. é nosso dever orar por todos os homens, sem distinção (portanto também pelos mortos); 2. a intercessão pelos mortos era conhecida dos primeiros cristãos, não sendo condenada; 3. é possível interceder por misericórdia de Deus no juízo final, independentemente de se estar morto ou não. Assim, no fim das contas, há muito mais fundamento nas Escrituras para orar pelos mortos do que pelos desempregados.

A intercessão pelos mortos é útil?

Que utilidade pode haver na oração pelos mortos? Esse é o questionamento natural de quem não estudou a questão, especialmente se criado num ambiente em que essas orações não existem ou são condenadas. Para quem não refletiu sobre nossa condição após a morte, realmente não há como vislumbrar utilidade nessas orações.

No nosso ambiente ocidental, as orações pelos mortos frequentemente são tratadas em termos de Purgatório, como se dependessem dele. Mas é fato que as primeiras orações pelos mortos que conhecemos apareceram antes do surgimento e popularização da teologia so Purgatório. Até hoje, as comunidades orientais que não acreditam em Purgatório (como ortodoxos e miafisitas) oram pelos mortos. Primeiro vieram as orações pelos mortos; só depois, uma concepção de Purgatório. As explicações dadas aqui são independentes dessa noção.

Já vimos uma das utilidades que a oração pelos mortos tem: misericórdia no juízo. Nós somos julgados por Deus por tudo o que fizemos nesta vida (2Co 5:4), e cabe a Deus realizar a misericórdia pela qual Paulo orou. Essa misericórdia no juízo se enquadra perfeitamente bem na intercessão pelos mortos vista em 1Co 15:29, que diz respeito à ressurreição. É particularmente importante lembrar que nós também somos julgados por Deus após a morte (Hb 9:27), sendo essa outra possibilidade de misericórdia no juízo divino.

O que essa misericórdia significa? No caso de Onesíforo, falamos de uma oração feita em favor de um (provável) cristão, de alguém que pode ter morrido em plena comunhão com a Igreja. Nesse sentido, essa oração se pareceria com as que aparecem nas liturgias antigas. Não se trata de uma oração por alguém sem fé, mas, possivelmente, com fé, ainda que seja uma fé que não se sabe se é totalmente viva. A questão da oração por um “incrédulo” (ninguém é incrédulo depois da morte) seria mais complicada, mas, de toda forma, como há diferentes graus de condenação, a misericórdia ainda seria possível, mas parece desrecomendada (1Jo 5:16-17). Como não sabemos o destino de ninguém, podemos orar. Nada está perdido, porque Deus atende nossas orações desde a eternidade, e não limitado ao momento em que oramos.

Mas há algo mais, além disso. Pois, mesmo os salvos que já estão na luz divina, em Cristo, ainda podem crescer infinitamente no conhecimento e no amor (epektasis), portanto também na felicidade, mesmo depois que o pecado for completamente extirpado. Assim como, oramos pelos que estão vivos, para sua santificação e crescimento em Deus, oramos pelos que faleceram, para que cresçam cada vez mais em Deus, porque para Deus nada é impossível. Nossas orações são meios pelos quais Deus cumpre seus propósitos eternos.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Dez ensinamentos da Bíblia negligenciados no mundo evangélico


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A fidelidade dos evangélicos à Sagrada Escritura às vezes é frustrada por certa reticência em confessar aquilo que ela mesma ensina de modo claro e distinto sobre diferentes assuntos. Essas palavras não atingem a totalidade dos evangélicos, mas atingem em cheio certo tipo de evangelicalismo inculto de origem americana. Penso que a maioria dos evangélicos brasileiros, especialmente os de igrejas mais recentes, é atingida em ao menos um destes dez ensinamentos bíblicos.

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Orações impedidas

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“Então, chamarão ao SENHOR, mas não os ouvirá; antes, esconderá deles a sua face, naquele tempo, visto que eles fizeram mal nas suas obras.” (Miquéias 3:4)

“Maridos, vós, igualmente, vivei a vida comum do lar, com discernimento; e, tendo consideração para com a vossa mulher como parte mais frágil, tratai-a com dignidade, porque sois, juntamente, herdeiros da mesma graça de vida, para que não se interrompam as vossas orações.” (I Pedro 3:7)

Eu tenho um problema sério em ver, como algumas pessoas, um conflito entre a misericórdia e a justiça de Deus. Não consigo imaginar nada mais justo do que a misericórdia de Deus. É justo socorrer o necessitado, e essa é precisamente a definição de misericórdia. A confissão do Sl. 62:12 é exemplar: “A ti também, Senhor, pertence a misericórdia; pois retribuirás a cada um segundo a sua obra.” Continue lendo “Orações impedidas”

Oração e santificação

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“De sorte que, meus amados, assim como sempre obedecestes, não só na minha presença, mas muito mais agora na minha ausência, assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade.” (Filipenses 2:12,13)

A famosa oração de Agostinho, “Domine, da quod iubes et iube quod vis” (Senhor, dá o que ordenas e ordena o que quiseres), captura a essência da súplica por santidade conforme ensinada nas Escrituras. Se ele nos dá o que exige, não há limites para o que possa exigir. Suas exigências são satisfeitas por aquilo que ele nos concede; desde que nos dê, estará satisfeito. Nossas próprias limitações se tornam como que irrelevantes, já que Deus é poderoso para fazer ainda mais do que o que pedimos ou imaginamos. Ainda assim, somos inteiramente dependente deles; se não nos conceder sua graça santificante, não iremos a parte alguma. Só podemos suplicar. Continue lendo “Oração e santificação”

Vãs repetições? — Um erro de tradução em Mt. 6:7

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“Não te precipites com a tua boca, nem o teu coração se apresse a pronunciar palavra alguma diante de Deus; porque Deus está nos céus, e tu estás sobre a terra; assim sejam poucas as tuas palavras.” (Eclesiastes 5:2)

O que às vezes escandaliza no discurso de muitos evangélicos sobre oração é a falta de realismo. Enquanto se sabe e se afirma o “Orai sem cessar” (1Ts. 5:17), é comum que ele venha acompanhado de uma obrigação que o impossibilita: o dever da oração espontânea. Não é possível a um ser humano ser espontâneo sempre; há quem tenha maior facilidade, outros (como eu mesmo) têm maior dificuldade. Além disso, admita-se ou não, com o passar do tempo as orações ficam todas bastante iguais; você pode perceber que tipos de repetições certas pessoas sempre fazem, quando oram. Continue lendo “Vãs repetições? — Um erro de tradução em Mt. 6:7”

Mitos evangélicos sobre conversão

Semeador - Van Gogh (cortado)

“Os que foram semeados em boa terra são aqueles que ouvem a palavra e a recebem, frutificando a trinta, a sessenta e a cem por um.” (Marcos 4:30)

Um mito persistente na pregação evangélica é o de que é necessário, para a conversão, fazer uma “oração de conversão” ou “oração do pecador”. A Bíblia desconhece a prática de uma oração de conversão ou oração do pecador, que se tornou tão onipresente no evangelicalismo americano e brasileiro. Continue lendo “Mitos evangélicos sobre conversão”

Amor em duas teologias: Dietrich Bonhoeffer e C. S. Lewis

Fotsky

“Deus é amor; e quem está em amor está em Deus, e Deus nele.” (1Jo. 4:16b)

Um alemão e um britânico. Ambos viveram durante a Segunda Guerra, embora Bonhoeffer não tenha sobrevivido ao nazismo. Ambos cristãos profundamente preocupados com o relacionamento de sua fé cristã com a cultura e a sociedade. Eles representam duas tradições teológicas distintas, cujas histórias se misturam às de seus países — um luterano e um anglicano. Por isso, em Bonhoeffer e Lewis mostram-se duas formas contrastantes de encarar um dos assuntos mais importantes da pregação cristã: o amor. Continue lendo “Amor em duas teologias: Dietrich Bonhoeffer e C. S. Lewis”

Espiritualidade Cristã (7): A Oração

ChristOnMountain[1]

Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. (Rm. 8:26)

O cristianismo carrega uma verdade profundamente libertadora sobre sua espiritualidade, que impede que a oração se torne a medalha de um pequeno número de iluminados: não sabemos como orar (Rm. 8:26). Embora a Escritura ensine muito sobre oração (mais como exemplo que como prescrição) e muitos mestres da espiritualidade cristã de todas as épocas tenham feito importantes contribuições práticas, a grande verdade é que nenhum de nós sabe orar. Continue lendo “Espiritualidade Cristã (7): A Oração”