Oração Profética, Oração Mística

Entender a oração envolve duas dimensões fundamentais: uma é a dimensão profética, a outra é a dimensão mística.

A dimensão profética é aquela do clamor: o socorro implorado ao Soberano Eterno, a justiça reivindicada perante o Juiz Divino, a misericórdia suplicada ao Pai Celestial. Entramos com humildade e com ousadia perante o Trono Altíssimo, em busca do combate espiritual contra os males do mundo, particularmente aqueles que afetam a nossa própria alma e a vida das pessoas a quem amamos. Orar é buscar a compaixão divina e pelo milagre na terra.

A segunda dimensão, a dimensão mística, é a elevação do coração a Deus. É a dimensão da comunhão espiritual, e da nossa própria transformação e transfiguração nesse processo. É o encontro da alma com Deus e a consequente elevação dessa alma, que está sedenta de Deus. É subir os degraus da escada de Jacó para lá habitar, no único lugar da satisfação definitiva. Orar é buscar a reordenação do coração, dos afetos, do espírito.

A primeira dimensão é a da invocação, é pedir que Deus venha à nossa realidade, é dizer (Sl 70:1): “Praza-te, ó Deus, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” A segunda é a da ascensão, é entrar em Deus, é dizer (Sl 42:1): “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma.” A primeira dimensão olhar para o futuro que Deus cria; a segunda olha para cima, onde Deus está.

Essas não são duas formas de orar, mas duas dimensões simultâneas da oração. Embora um lado possa ser mais ressaltado numa situação — pois somos criatura temporais, nossa atenção e nossas palavras ressaltam lados diferentes em momentos diferentes —, a realidade é que esses dois lados estão sempre presentes na oração como a conhecemos, pois sempre invocamos e ascendemos.

Essa dualidade se deve particularmente à nossa condição, como finitos, como pecadores e como sofredores, ansiando por sermos “absorvidos pela vida”. Como podemos, aliás, invocar a Deus sem sermos transformados, e como podemos ser transformados sem que, no processo, percebamos ainda mais agudamente as necessidades do mundo e nossas próprias debilidades, ainda que agora com uma nova mente? Invocação e ascensão andam juntas.

A imagem do Lugar Santíssimo no Santuário une esses dois lados. O sacerdote, ao entrar nesse lugar, veste o linho dos anjos e contempla o trono de Deus, ele é “ritualmente transformado” mas o faz justamente no momento em que busca a misericórdia divina pela nação. Interceder, nesse processo, é ter comunhão com o coração de Deus e, por isso, tornar-se instrumento profético da causalidade divina, concordando intimamente com o Alfa e o Ômega.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Como orar os Salmos?

Se Deus nos deu um livro de orações canônico, os Salmos, é porque ele quer que façamos uso dele. Na verdade, desde o princípio e ao longo dos séculos os cristãos sempre usaram os salmos, enriquecendo sua vida de oração em geral.

De certo modo, a resposta é: simplesmente leia (ou recite) os salmos com fé e esperança. A oração dos Salmos não deve ser um grande desafio na vida pessoal e particular, ou também comunitária, então as orientações dadas aqui são maneiras de melhorar a leitura. No fundo, você já sabe como fazer.

O corpo: Você pode orar os salmos de várias maneiras, mas uma particularmente apropriada é de pé, com o livro em mãos. Você também pode fazê-lo de joelhos (como vários salmos convocam a fazer). Com o tempo, você vai notar a diferença que faz a posição do corpo. Pessoas desacostumadas a orar de olhos abertos, geralmente pelo hábito de se limitar à oração extemporânea (“espontânea”), encontrarão algum desafio, mas o novo hábito vence, no médio prazo.

A voz: Ore os Salmos em voz alta. Usar a sua voz é uma maneira de concentrar a atenção, e de louvor a Deus com o corpo. Não se apresse demais, “deguste” cada verso, cada sentença. (Os versos dos salmos geralmente são divididos em duas partes paralelas.) E lembre-se: seja reverente, mas mostre vigor. Os salmos são cânticos de guerra.

A história: Cada salmo tem sua história, seu processo de formação, mas colocá-los em uma coleção, dentro do cânon, é dar forma a uma nova obra. Os salmos são a história de um povo em oração. São peregrinos em busca (e com saudade) da Cidade Santa, com espírito sedento pela presença divina e pelos tabernáculos do Senhor. São soldados e generais em guerra, procurando a proteção do Senhor contra os seus inimigos. São pecadores afligidos e contritos, penitentes. São adoradores manifestando louvor alegre e convocando toda a criação, na terra e nos céus, a adorar o Senhor. É um povo sofredor com a esperança do reino universal de Deus sobre todos os povos. Ao orar os salmos, nós nos colocamos como parte dessa história. Esteja consciente disso.

O espírito: os salmos devem ser orados com espírito de devoção e fé, não de estudo. É possível estudar os salmos, é importante fazê-lo, mas orar os salmos não é ficar procurando detalhes para satisfazer a curiosidade intelectual, mas encontrar neles aquilo que enriquece a nossa fé. Deixe o estudo dos salmos para um outro momento.

A contrição: Os salmos penitenciais são os salmos 6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143. Esses sete salmos são particularmente importantes para confessarmos ao Senhor os nossos pecados. Quando algo que você fez lhe pesar à consciência, recite esses salmos (agora de joelhos), pedindo perdão ao Senhor. Como sempre pecados, esses salmos devem ser nossos companheiros de caminhada.

Há outros blocos que seria importante conhecer e usar em conjunto, como os salmos de entronização (especialmente 95-100) e o Halel (113 a 118), que são ótimos para adoração.

A apropriação: Como dito acima, nós somos parte dessa história que os salmos contam. Assim como Pedro em Atos 4:24-30, aproprie-se das palavras dos salmos nas suas próprias orações. O sentimento deve ser: o Deus dos salmos é o mesmo Deus que nós adoramos. Um exemplo de como fazer isso diz respeito à nossa batalha espiritual. Os salmos foram, vários deles, escritos em situação de guerra ou conflito com os inimigos. Mas, como aprendemos no Novo Testamento (Ef 6), nossos inimigos são espirituais, são os poderes das trevas, e é principalmente contra eles que devemos direcionar as armas dos Salmos. Essa batalha é mais óbvia no Salmo 91, mas os “salmos imprecatórios” devem ser usados assim também. Pense, por exemplo, nas palavras do Salmo 35:1-5, que, particularmente, me trazem bastante conforto. O Salmo 5 é uma bela oração matutina que pode ser empregada assim. Assim como os nossos maiores inimigos são espirituais, nosso maior aliado é Cristo, que ora conosco nessa batalha.

As aspirações: Versos isolados dos salmos são muito apropriados como orações breves, chamadas “aspirações”, que podem ser usadas ao longo do dia repetidas vezes, ou em momentos específicos, como no começo de alguma oração, antes da leitura da Bíblia etc. Alguns exemplos comuns:

  • “As palavras dos meus lábios e o meditar do meu coração sejam agradáveis na tua presença, Senhor , rocha minha e redentor meu!” (19:14)
  • “Salva o teu povo e abençoa a tua herança; apascenta-o e exalta-o para sempre.” (28:9)
  • “Praza-te, Senhor, em livrar-me; dá-te pressa, ó Senhor, em socorrer-me.” (40:13)
  • “Envia a tua luz e a tua verdade, para que me guiem e me levem ao teu santo monte, e aos teus tabernáculos.” (43:3)
  • “Cria em mim, ó Deus, um coração puro e renova dentro de mim um espírito inabalável.” (51:10)
  • “Abre, Senhor, os meus lábios, e a minha boca manifestará os teus louvores.” (51:15)
  • “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória.” (57:5)
  • “Mostra-nos, Senhor, a tua misericórdia, e concede-nos a tua salvação.” (85:7)
  • “Abre tu os meus olhos, para que veja as maravilhas da tua lei.” (119:18)

• A frequência: Use ao menos um salmo por dia, no começo. Depois que o hábito estiver firme, dois salmos (um pela manhã e outro à noite). Você pode usar o Salmo 95:1-7 (seguido do Salmo 96:9,13) pela manhã e o Salmo 141 à tarde/noite.

A constância: Use os salmos em todas as situações, mesmo quando nossos sentimentos não estão no lugar. Vários Salmos foram escritos em momento de intensa angústia (como o Salmo 88), mas eles são orações, ainda assim, e mostram como a oração deve ser feita mesmo quando não estamos em paz.

A conclusão: Costumamos terminar as orações dizendo apenas “Amém”, mas uma maneira de terminar os salmos é com alguma doxologia breve (como o “Glória ao Pai”). Uma forma fácil é, após finalizar o salmo, repetir algum verso que chame mais à sua atenção ou seja mais coerente com a sua situação. Aliás, os cinco blocos de salmos bíblicos são separados por quatro transições que são doxologias, e que podem ser usadas (de memória) quando concluímos algum salmo: Sl 41:13; 72:19; 89:52; 106:48. Depois, como sempre: Amém!

• A memorização: Todo cristão deveria conhecer alguns salmos de memória. Alguns salmos que seria interessante considerar memorizar: 23 (segurança), 24, 42-43, 46, 67, 91 (batalha espiritual), 95, 100, 113, 116 (gratidão), 130 (penitência).

• O compromisso: Os salmos apresentam uma forma de oração que não é natural para muitos cristãos, os “atos de fé”, “atos de confiança” e outros, orações geralmente breves nas quais, em vez de apenas pedir algo a Deus, nós nos posicionamos diante dele e afirmamos a nossa fé, nossa esperança, nosso amor, nossa devoção, nosso compromisso e outras coisas. Esse tipo de atitude exigirá, em algumas situações, certa ousadia, mas também serão uma forma de avivar nossa fé e reafirmar nossa lealdade ao Senhor, portanto são uma forma importante de adoração. Alguns exemplos:

  • “No tocante a mim, confio na tua graça;” (13:5a)
  • “Eu te amo, ó Senhor , força minha.” (18:1)
  • “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” (23:6)
  • Eu creio que verei a bondade do Senhor na terra dos viventes.” (27:13)
  • Aguardo o Senhor , a minha alma o aguarda; eu espero na sua palavra.” (130:5)

• A defesa: Os Salmos não são apenas deprecação, mas também defesa. Neles, não apenas afirmamos nossa culpa, mas também nossa inocência (“Lavo as minhas mãos na inocência”, 26:6), e, com isso, pedimos que Deus faça justiça diante da nossa situação (“Faze-me justiça, ó Deus”, 43:1). Essa ousadia é necessária numa vida espiritual equilibrada.

Experimente orar os salmos. Encontre nele uma história que, passando por montes e por vales, encontra ao fim sempre motivo de gratidão e para um cântico novo, um motivo para dizer: Aleluia!

Rev. Gyordano M. Brasilino

Ainda sobre ansiedade…

Fico impressionado com quanta gente aprendeu por aí que ansiedade é pecado. Até meses atrás, eu sequer imaginava que alguém pensasse assim, acho que nunca ouvi coisa do tipo em nenhuma igreja. Ao que parece, esse tipo de pensamento é incentivado pelo pessoal do “aconselhamento bíblico”.

Isso é resultado de uma prática pastoral irresponsável, de uma hermenêutica superficial, de uma atitude humana incompassiva para com o sofrimento psíquico.

Às vezes, essa abordagem da ansiedade como pecado presta um auxílio relativo a essas pessoas, o incômodo faz com que elas se movam. Tentam enfrentar o problema “sem muletas” e às vezes conseguem, na macheza. Mas, nos casos que eu conheço, ocorre o contrário: achar que a ansiedade é pecado piora ainda mais o problema, já que acrescenta uma preocupação.

Eu não enfrento um problema muito grave com ansiedade. Na maior parte do tempo, eu tenho certa facilidade em perceber a voz da ansiedade e dizer a ela que confiarei em Deus. Para mim, isso normalmente não envolve nenhum esforço heróico, não exige a virtude da fortaleza. Mas, na prática pastoral, convivo com pessoas que não têm a mesma facilidade, se desgastam muito mais para tomarem uma decisão simples. A ansiedade lhes absorve a atenção. Sentem-se oprimidas pela retribuição do passado e pala incerteza do futuro.

A Escritura Sagrada diz, em vários lugares, que não devemos estar ansiosos:

“…não andeis ansiosos pela vossa vida…” Mt 6:25
“Não andeis ansiosos de coisa alguma…” Fp 4:6
“Lançando sobre ele toda a vossa ansiedade…” 1Pe 5:7

Mas o que esses textos realmente dizem? O erro mais óbvio é tratar essas coisas como mandamentos, de maneira que quebrá-los seja pecado. Não são mandamentos, mas exortações, encorajamentos. É como quando a Bíblia diz “Não temas”, “Não chores” e coisas semelhantes. São imperativos exortativos. São palavras de compaixão que procuram inspirar, não condenar, na mesma lógica de Pv 12:25: “A ansiedade no coração deixa o homem abatido, mas uma boa palavra o alegra.” Só uma hermenêutica chapada pode tratar tudo que há na Bíblia como sendo o mesmo gênero de fala.

A Bíblia não trata como pecado a ansiedade, mas o “andar ansioso”. Que atitude é condenada no contexto de Mt 6, por exemplo? Não a de quem tem o sofrimento da ansiedade, mas sim a de quem sai em busca de riquezas, acumulando tesouros para ancorar neles a sua segurança, em vez de (como nos outros textos) procurar segurança no Senhor. Esse é o “andar ansioso” condenado pela Bíblia. Essa é a pouca fé.

A ansiedade de Maria e José por Jesus (Lc 2:48) e a de Paulo pelas igrejas (2Co 11:28) não são pecaminosas, mas antes obrigatórias, porque são resultado de certas responsabilidades pessoais.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Confissão de Inocência

Em nenhum lugar a Escritura Sagrada incentiva a atitude de autoflagelação psicológica. Existe, sim, a necessidade urgente da confissão de pecados, da penitência, do arrependimento, da contrição, mas não devemos ter medo de reconhecer nossa própria inocência quando não estamos culpados. A caça pseudofreudiana por más intenções, sob pretexto de uma “depravação total”, é um veneno.

Talvez alguém seja tentado a pensar que Jó foi arrogante, ou se excedeu em alguns momentos, mas, no geral, ele estava em linha com a espiritualidade dos salmos. Alguém poderia dizer que Paulo foi arrogante no trecho abaixo?

Os meus pés seguiram as suas pisadas; guardei o seu caminho e não me desviei dele. Do mandamento de seus lábios nunca me apartei, escondi no meu íntimo as palavras da sua boca.” Jó 23:11–12

Daí retribuir-me o Senhor, segundo a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, na sua presença.” Salmo 18:24

Faze-me justiça, Senhor , pois tenho andado na minha integridade e confio no Senhor, sem vacilar. Lavo as mãos na inocência e, assim, andarei, Senhor , ao redor do teu altar,” Salmo 26:1,6

Tudo isso nos sobreveio; entretanto, não nos esquecemos de ti, nem fomos infiéis à tua aliança. Não tornou atrás o nosso coração, nem se desviaram os nossos passos dos teus caminhos,” Salmo 44:17–18

São muitos os meus perseguidores e os meus adversários; não me desvio, porém, dos teus testemunhos.” Salmo 119:157

Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar…” Salmo 131:1

Vós e Deus sois testemunhas do modo por que piedosa, justa e irrepreensivelmente procedemos em relação a vós outros, que credes.” 1Tessalonicenses 2:10

Rev Gyordano M. Brasilino

Sacrifício eucarístico de louvor?

Quanto ao Sacrifício Eucarístico, algumas pessoas tentam fazer uma cisão que, embora bem-intencionada (explico ao fim), é profundamente incorreta: procuram tratar “sacrifício de louvor” e “sacrifício expiatório” como coisas antagônicas e separadas. O que Cristo fez historicamente seria um sacrifício expiatório; o sacramento seria apenas sacrifício de louvor.

Essa separação cria um problema muito óbvio para qualquer pessoa com dois neurônios: a partir daí, há *dois sacrifícios* diferentes, o de Cristo e o da igreja. Isso, por si só, já é motivo de escândalo. A Igreja não presta nenhum sacrifício autônomo ou independente do de Cristo, mas apenas participa do dele. Isso é ao mesmo tempo da fonte de glória (pois ela está em Cristo e realiza tudo no nome, no poder e no corpo de Cristo) e de humildade (pois ela nada contribui de independentemente seu) da igreja.

Essa doutrina de “dois sacrifícios” leva, consequentemente, à negação da Presença Real, pois significa que o corpo de Cristo sobrenaturalmente presente não é mais aquele corpo que, na cruz, era sacrifício. O corpo de Cristo *é* sacrifício expiatório. O sangue de Cristo *é* sacrifício expiatório. Se o sacramento não é sacrifício expiatório, não é o corpo e o sangue de Cristo.

O Senhor Jesus Cristo, na instituição mesma do sacramento, nos dá indicações disso, nas diferentes versões que os evangelhos canônicos nos deixaram (Mt/Mc e Lc/1Co). Cristo diz:

— Mt 26:28: “isto é o meu sangue, o sangue da [nova] aliança, derramado em favor de muitos, para remissão de pecados.”

— Lc 22:19-20 “…Isto é o meu corpo oferecido por vós; fazei isto em memória de mim…. Este é o cálice da nova aliança no meu sangue derramado em favor de vós.”

Ao dizer “em favor de muitos”, “por vós”, “para remissão de pecados”, Cristo vincula ao seu corpo e sangue esse caráter expiatório, e ele o faz precisamente no momento exato em que institui o sentido do sacramento. É loucura estabelecer o sentido do sacramento sem atentar para exatamente o que Cristo disse naquela hora. Portanto, o sacrifício de louvor é sacrifício expiatório.

Isso se deduz também do efeito do sacramento, que é comunhão com o corpo e sangue de Cristo, assim como união espiritual entre os cristãos (1Co 10:16-17). Ora, isso não se realiza apenas por força da gratidão da Igreja, mas também e principalmente por força do caráter expiatório do corpo e do sangue de Cristo.

Eu entendo os motivos pelos quais essas pessoas querem fazer essa separação, e concordo com a intenção. Essas pessoas estão tentando evitar justamente aquilo que os 39 Artigos também condenam: a ideia de que os “sacrifícios das missas” sejam sacrifícios adicionais, com méritos adicionais, coisa que devemos rechaçar. Há um só sacrifício, o de Cristo, e tudo mais é apenas o sacrifício de Cristo mesmo, tomando corpo no mundo.

Não posso deixar de compartilhar as belas palavras do Rev. Jeremy Taylor (1613–1667), que explica magistralmente a ligação entre o sacramento na terra e o sacerdócio de Cristo nos céus:

“Assim como Cristo é um sacerdote perpétuo nos céus, e ainda assim não se sacrifica novamente, nem sem sacrifício poderia ser um sacerdote, mas pela ministração e intercessão ele representa seu sacrifício a Deus, e se oferece como sacrificado, assim também ele faz na terra, pelo ministério dos seus servos. Ele é oferecido a Deus, isto é, ele é, por orações e pelo Sacramento, representado e oferecido a Deus “como sacrificado”; o que, de fato, é uma celebração de sua morte e sua aplicação às necessidades presentes e futuras da Igreja por um ministério semelhante ao seu nos céus. Segue-se, então, que a celebração desse sacrifício é, em sua proporção, um instrumento de aplicação do sacrifício adequado a todos os seus propósitos, que ele primeiro designou. Ele é ministerialmente, e por aplicação, um instrumento propiciatório; é eucarístico, é uma homenagem e um ato de adoração; e é impetratório, e obtém para nós, e para toda a igreja, todos os benefícios do sacrifício que então é celebrado e aplicado; isto é, como esse rito é a memória e celebração ministerial do sacrifício de Cristo, logo ele é destinado a honrar a Deus, a expressar homenagem e dever dos seus servos, a reconhecer seu supremo domínio, a lhe dar graças e culto, a suplicar perdão, bênçãos e provisão para todas as nossas necessidades.”

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que eu não acredito em Cosmovisão Cristã?

Não sei se é só impressão pessoal ou ilusão da bolha, mas parece que de um tempo para cá esse papo de “cosmovisão cristã” perdeu um pouco de força. Em algum momento as pessoas iriam cansar, é claro, e ouvi dizer quer algumas vozes do movimento mudaram de foco. Isso é bastante positivo.

Os motivos pelos quais eu não acredito nessa ideia são principalmente três, e acho que eles ditam, em parte, os motivos do cansaço (atual ou futuro).

1. Em geral, são calvinistas aplicando o calvinismo (de certo tipo) a todas as esferas da cultura e do pensamento. Isso lhes traz o benefício de escreverem algo extremamente relevante para o grupo e profundamente irrelevante para os cristãos que não tenham essa “cosmovisão cristã”, assim como para os não-cristãos. (Além de ser mais fácil de atrair jovens em busca de intelectualidade, pois é o caminho fácil para se sentir mais douto que Aristóteles.) Então pode haver interação com os de fora, leitura, releitura, mas não diálogo no sentido estrito. Há sempre uma contaminação presumida no pensamento exterior. Por isso, é um movimento que só pode crescer de fato até atingir a pequena parcela dos correligionários; depois, como qualquer império, cansa.

2. Eu não acredito que essa coisa de “cosmovisão cristã” exista. Cristãos de culturas, eras e lugares sociais diferentes não têm a mesma cosmovisão, e a Bíblia não é suficiente para gerar uma cosmovisão, além de que seria impossível demonstrar que os escritores sagrados tinham a mesma cosmovisão. A Bíblia nos fornece uma janela para uma cosmologia, uma doutrina sobre o mundo, mas essa cosmologia não é exclusivamente cristã — ela está presente em outras religiões e deve muito à cultura helenística mediterrânea — e não é completa. Custa usar a Bíblia para o propósito pelo qual ela foi escrita e reunida?

3. Essa proposta, como várias outras, parece presumir um relativismo de fundo: se não for pelo meio “A“, resta apenas a relatividade total, o caos do pensmento. Todo mundo sabe como é ridículo quando algum apologista católico de internet vem com aquele papo de “ou o Papa, ou não tem doutrina certa”, como se essa autoridade fosse a única via de acesso à verdade. Não são fideístas, mas agem como se fossem. O caso dos cosmovisionários é que eles parecem ser mesmo fideístas. A ausência de fontes múltiplas do saber, naturalmente acessíveis para cristãos e não cristãos, tende a formar um pensmento único que é facilmente instrumentalizado na política.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Apego não é idolatria

Uma pessoa que queira manter a sanidade mental e crescer no autoconhecimento, e entender seus próprios pecados e fraquezas, deve se manter protegida contra o pensamento de que o coração é uma fábrica de ídolos, e contra a obsessão de tratar todo excesso como idolatria.

Inspiradas por esse tipo de pensamento, muitas pessoas acabam presas numa introspecção mórbida, tentando encontrar a raiz de idolatria por trás de cada pensamento ou hábito que lhes pareça exagerado. Um dos alvos mais frequentes é o apego a outras pessoas, o que frequentemente provoca crises emocionais inteiramente desnecessárias.

A ideia parece ser a seguinte: se você dá às outras pessoas uma atenção que deveria ser dada a Deus, isso se constitui idolatria. Essa maneira (não bíblica e muito geral) de “definir” a idolatria leva a muitos problemas. Quando o apóstolo Paulo fala de como o solteiro pode se dedicar inteiramente às “coisas do Senhor” e o casado deve se dedicar às “coisas do mundo”, basicamente ele trata da situação de uma pessoa que, ao casar, escolhe, com isso, dar menos atenção a Deus. Surpresa: Paulo não trata isso como idolatria. Essa pessoa que, na descrição de Paulo, está “dividida” entre as coisas do Senhor e as coisas do mundo não comete idolatria. Ela casou porque precisava casar, por conta de suas fraquezas e necessidades, e deve fazê-lo sem peso na consciência.

A idolatria deve ser bem definida: idolatria é uma forma de culto, de adoração. Nem toda dedicação é culto. Nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é culto. Então nem toda dedicação excessiva e pecaminosa é idolatria. Lembremos: nem toda dedicação é excessiva. Não há necessidade de ficar caçando idolatria.

Uma coisa que, certamente, não é idolatria é apego a outras pessoas. Existe apego excessivo, mas a Bíblia é até extravagante na maneira como descreve o apego lícito, natural e saudável, tratado como “amor ardente” (1Pe 1:22; 4:8). É esse amor ardente que leva ao pranto contínuo de Ana por um filho que ela (ainda) não teve, ou ao pranto pela morte de Estevão, ou o imenso cortejo e lamento na morte de Jacó, ou pela partida de Paulo. Essas demonstrações emocionais nunca são tratadas como exageradas. Não é difícil colecionar exemplos de pessoas com apego muito intenso a outras pessoas, que jamais são repreendidas pelas Escrituras, antes são colocadas como modelos:

“Então levantaram a sua voz, e tornaram a chorar; e Orfa beijou a sua sogra, porém Rute se apegou a ela. Por isso disse Noemi: Eis que voltou tua cunhada ao seu povo e aos seus deuses; volta tu também após tua cunhada. Disse, porém, Rute: Não me instes para que te abandone, e deixe de seguir-te; porque aonde quer que tu fores irei eu, e onde quer que pousares, ali pousarei eu; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus;” Rt 1:14–16

“Quanto aos santos que há na terra, são eles os notáveis nos quais tenho todo o meu prazer.“ Sl 16:3

“Ora, quando cheguei a Trôade para pregar o evangelho de Cristo, e uma porta se me abriu no Senhor, não tive, contudo, tranquilidade no meu espírito, porque não encontrei o meu irmão Tito; por isso, despedindo-me deles, parti para a Macedônia.” 2Co 2:12–13

“Assim nós, sendo-vos tão afeiçoados, de boa vontade quiséramos comunicar-vos, não somente o evangelho de Deus, mas ainda as nossas próprias almas; porquanto nos éreis muito queridos.” 1Ts 2:8

Rev. Gyordano M. Brasilino

Divórcio e Segundo Matrimônio: Minha Posição

De vez em quando alguém me pede para falar desse assunto. Confesso um certo receio de tratar de um tema que envolve tantas situações diferentes, que toca nas dores e nos sofrimentos de muita gente, cujas condições não podem ser adequadamente abordadas em um texto que queira ser simples. Seis considerações são necessárias:

(1) Pessoas casadas considerando o divórcio ou segundo matrimônio como uma possibilidade devem ser aconselhados pastoralmente, em suas igrejas, e não simplesmente se guiar por algum texto que encontraram na Internet. O propósito deste texto não é dar orientações pastorais, é ajudar a entender como a Igreja deve lidar com esse assunto, e mostrar um pouco de como eu lido com essa questão. Este texto provavelmente só será útil em igrejas que sigam a mesma perspectiva, como esclarecimento dela.

(2) É possível que minha posição seja vista, por um “tradicionalista” — como os católicos romanos e reformados que defendem indissolubilidade absoluta —, como uma abertura exagerada e incontrolável que levará (ou já levou) ao caos matrimonial. A mesma posição talvez seja vista, pelo partido oposto, talvez mais “progressista”, como rigorosa, retrógrada, incompassiva, reacionária, incoerente. Aconteça o que acontecer, minha posição não será “em cima do muro”. Direi exatamente o que penso sobre assunto.

(3) É importante notar que, como consideraremos a interpretação de textos bíblicos, devemos fazê-lo sem impor a linguagem histórica com a qual, séculos depois, os cristãos passaram a tratar do assunto: distinções entre “anulação”, “divórcio” e “separação”, ou entre “matrimônio sacramental” e “casamento natural”. Essas distinções são importantes e úteis e devem fazer parte da discussão, mas devemos tomar cuidado na maneira como nós as vemos nos textos. As tradução que há se veem forçadas a escolher traduzir por “divórcio” ou “separação” textos que, no grego, usam a mesma palavra. Sem detrimento do mérito dos tradutores, não devemos colocar peso demais quando as encontramos num dado texto. Essas distinções têm uma história, e em alguns momentos elas simplesmente não existiam. Os cristãos de hoje talvez ficassem chocados com a maneira como, na época dos Pais da Igreja, os cristãos eram tolerantes com o concubinato (e como as pessoas em concubinato comungavam na Igreja).

(4) Não devemos temer que o ensinamento de Cristo seja visto como rigoroso (desde que não desumano). Ele disse: “se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5:20). O ensinamento de Cristo sobre o divórcio e segundo matrimônio foi, em particular, visto como difícil pelos seus discípulos (Mt 19:10). Um ensinamento que nos pareça muito fácil talvez seja uma construção de nossa própria imaginação.

(5) Não imaginei este texto como um ataque a nenhuma posição diferente da minha, ou a pessoas cujas condições de vida estejam (aparentemente) desalinhadas para com o que eu digo aqui. Pessoas divorciadas não devem ser destratadas ou desprezadas, muito pelo contrário; a Igreja deve sempre procurar uma maneira de reintegrá-las, e não simplesmente puni-las eternamente. Os divórcios já acarretam danos enormes sobre os casais e sobre os filhos, a Igreja não deve contribuir com isso, mas ser um lugar de cura.

(6) Eu creio que o ensinamento de Cristo sobre esse assunto é perene, é permanente, e deve ser seguido por nós até o fim dos tempos. Existem mudanças na cultura, e essas mudanças na cultura nos levam a considerar de maneira diferente certos fatores que serão mencionados abaixo. Mas, aconteça o que acontecer, eles não devem mudar os mandamentos de Jesus.

Pois bem, o tema do divórcio e a possibilidade (ou não) de segundo matrimônio é um dos assuntos mais difíceis para os cristãos. Nós convivemos num mundo em que o casamento é tratado como uma forma de satisfação pessoal, podendo ser permanente ou provisório a depender da vontade das partes; é reduzido a um contrato. Ao tocarmos nesse assunto, tocamos na maneira como as pessoas planejam suas próprias vidas, e a coisa mais comum é que as pessoas que se tornam cristãs ou retornam à igreja carreguem consigo bastante da mentalidade da cultura em redor. Numa época em que tudo é descartável, por que o casamento não poderia ser também?

Mas como comparar a situação de um casal que simplesmente desiste da convivência porque idealiza um romance melhor àquela de uma mulher violentada (física e psicologicamente) pelo esposo narcisista?

O primeiro fator a considerar, na construção desse assunto, é o que eu chamarei “a Regra”. Essa regra aparece tanto na epístolas de São Paulo quanto, depois, nos evangelhos sinóticos. Ela pode ser descrita assim:

“Ora, a mulher casada está ligada pela lei ao marido, enquanto ele vive; mas, se o mesmo morrer, desobrigada ficará da lei conjugal. De sorte que será considerada adúltera se, vivendo ainda o marido, unir-se com outro homem; porém, se morrer o marido, estará livre da lei e não será adúltera se contrair novas núpcias.” (Romanos 7:2-3)

“Ora, aos casados, ordeno, não eu, mas o Senhor, que a mulher não se separe do marido (se, porém, ela vier a separar-se, que não se case ou que se reconcilie com seu marido); e que o marido não se aparte de sua mulher… A mulher está ligada enquanto vive o marido; contudo, se falecer o marido, fica livre para casar com quem quiser, mas somente no Senhor.” (1 Coríntios 7:10-11,39)

Essas palavras estão em contextos bem diferentes. Enquanto a primeira é parte de uma discussão sobre a lei, na qual o casamento aparece como uma analogia incidental para o ensinamento de Paulo, a segunda é parte de uma discussão mais ampla sobre o casamento em si, assim como sobre celibato e viuvez. Apesar dessas diferenças de contexto, os dois trechos, além de concordarem na doutrina, têm duas semelhanças: em primeiro lugar, a linguagem assimétrica (falam mais da mulher); em segundo lugar, têm um fraseado muito semelhante: a mulher está ligada ao marido enquanto ele vive, ficando livre/desobrigada caso ele morra. O trecho de Romanos 7 acrescenta o pecado do adultério para a mulher que se unir a outro esposo enquanto o primeiro vive.

No contexto de 1Coríntios 7, Paulo discute várias situações diferentes e usa as palavras de Cristo e sua sabedoria pastoral para orientar os casados. Nos versículos citados, ele é claro em dizer que não se trata de uma ideia sua, mas uma ordem do Senhor. Essa “ordem” do Senhor é retratada também no evangelho canônico julgado o mais antigo, o de São Marcos, no qual foi registrado o célebre diálogo de Cristo com os fariseus acerca da aplicação da lei mosaica do divórcio. Segundo Cristo, a possibilidade de divórcio que havia na lei era uma concessão mosaica à “dureza de coração” dos homens. A lei permitia a carta de divórcio, mas Cristo toma uma postura diferente. Ele resume seu ensinamento sobre isso dizendo:

“Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem [anthrōpos]… Qualquer que deixar a sua mulher e casar com outra, adultera contra ela. E, se a mulher deixar a seu marido, e casar com outro, adultera.” (Marcos 10:9,11-12)

Essas palavra concordam, em essência, com o que foi escrito por Paulo num contexto diferente, e elas não fazem nenhuma restrição a um caso específico. As palavras são colocadas de maneira bem genérica, e se pautam na essência da relação matrimonial: se Deus uniu o homem e a mulher, não devemos separá-los. Eu concordo, em parte, com aqueles que dizem que a preocupação de Cristo aqui é em proteger a mulher da arbitrariedade do marido, pois ela seria lançada à miséria caso ele se divorciasse dela. Sim, certamente a compaixão era um dos fatores principais na pregação e doutrina moral de Cristo. Mas o texto não nos dá indicação de se limitar a essa situação; Cristo radica o caso “no princípio”, na ligação entre homem e mulher. Cristo deixa a coisa em termos bem gerais.

Essa ligação entre os cônjuges é fortalecida por vários fatores de origem bíblica, como a relação “matrimonial” entre Cristo e a Igreja (Ef 5) ou os ensinos de Cristo sobre perdão. Muito pode ser dito em favor disso, particularmente quando vemos o que vários pais da Igreja (como Santo Agostinho) disseram sobre esse assunto. Essa regra rigorosa só é compreensível à luz do ensinamento, visto tanto em Cristo quanto (principalmente) em Paulo, que valoriza o celibato acima do matrimônio. Quando entendemos que o matrimônio não é a finalidade de nossa vida terrena, torna-se um pouco mais fácil entender por que a existência fora do matrimônio (para alguém que tenha se separado do cônjuge) não é uma punição, mas o retorno à condição maior.

De todo modo, tomando por base os textos bíblicos lidos até aqui, a Regra é aquela vista amiúde nos votos matrimonias: “até que a morte nos separe”. Aparentemente não deve haver segundo matrimônio quando haja um primeiro matrimônio válido. Essa é a Regra.

Agora, a boa hermenêutica nos pede que nos perguntemos: há algo mais, nas palavras de Jesus e nos ensinos dos apóstolos, ou na Bíblia como um todo, que indiquem uma direção distinta sobre esse assunto? Há algum outro princípio a considerar, na aplicação da lei? Essa pergunta é necessária porque é muito comum, na discussão de qualquer assunto moral, que nós tenhamos, na Escritura, testemunhos em direções diferentes, e o entendimento mais completo do assunto exige que nós levemos em conta todos os fatores. Mesmo princípios como misericórdia e compaixão devem ser levados em conta. Todas as cartas devem estar na mesa.

Nesse sentido, há duas circunstâncias que, creio, ajudam bastante na lida com pessoas com certos problemas matrimoniais. A primeira circunstância é desconsiderar o casamento civil. Diversas pessoas estão casadas civilmente, se divorciam civilmente e, por ignorância sobre o assunto, pensam que não podem casar “novamente”. Ocorre que o casamento civil é uma instituição relativamente recente, e, diferentemente do matrimônio cristão, não indica intenção de perpetuidade. Não se faz votos “até que a morte nos separe”. Então, em tese, uma pessoa que contraiu apenas o casamento civil não estaria impedida. Não se trata de desconsiderar totalmente o casamento civil, pois ele tem uma importância legal e social, e a ausência do casamento civil pode indicar desinteresse matrimonial (embora a presença não indique automaticamente interesse). Todos os casais devem contrair, além do matrimônio cristão, o casamento civil. Isso não é o mesmo que dizer que pessoas civilmente casadas devam ser encorajadas a se separar; elas devem ser encorajadas a fazer os votos do matrimônio cristão. No entanto, em situações particularmente difíceis, esse fardo não precisa ser suportado e o casamento civil pode ser desfeito em benefício de um novo relacionamento. (As pessoas que querem tratar o casamento civil como igual ao matrimônio cristão só aumentam o problema.)

Nessa circunstância está o caso de pessoas que se divorciaram antes de se tornarem cristãs. (Note bem: cristãs, não evangélicas ou participantes da igreja A ou B.) É um dos casos mencionados por Paulo em 1Co 7:24-28, sobre os quais ele diz “se te casares, não pecas”. É um divórcio prévio. Semelhante também é o caso de 1Co 7:12-16, quando, num casamento entre dois pagãos, um deles se converte à fé cristã e o outro o abandona.

A segunda circunstância é o erro em relação à pessoa. Nós fazemos os votos matrimoniais não apenas para com o rosto que está diante dos nossos olhos, ou para com o nome que está no papel, mas para com a totalidade da pessoa. Isso significa que, para assumirmos o matrimônio, nós precisamos estar suficientemente informados de quem seja a pessoa com quem casamos. Isso não significa conhecer profundamente os segredos e meandros do coração; significa saber o que se precisa saber para casar. Em alguns casos, as pessoas casam enganadas, porque seus cônjuges fingiram algo que não eram. Não se trata, mais uma vez, de alguém que mudou com o tempo, mas de alguém que não tinha interesse real de casar. Embora nos votos façamos compromissos sérios e isso envolva uma certa “aposta” de que a outra pessoa será boa, essa aposta não inclui casar com um psicopata, por exemplo. Então, se uma pessoa casa com alguém assim, ela pode, dentro de um contexto eclesiástico que o permita, ter o seu “vínculo” matrimonial terminado (o que alguns chamarão de “anulação”, não “divórcio”). Considerando a maneira como as pessoas se casam hoje, isso é algo bem comum.

Levando isso esses fatores, há uma última situação, a chamada “cláusula fornicationem“, que aparece no Evangelho de São Mateus:

“Eu, porém, vos digo: qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera; e aquele que casar com a repudiada comete adultério.” (Mateus 5:32)

Eu, porém, vos digo: quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra comete adultério [e o que casar com a repudiada comete adultério].” (Mateus 19:9)

A leitura mais natural desses textos é de que, se uma pessoa se divorcia, por motivo de relações sexuais ilícitas, e casa com outra não comete adultério. Ou seja, esses textos parecem colocar uma exceção na Regra. Não é difícil mostrar que houve ampla repercussão dessa clásusula na Tradição cristã durante séculos, não só entre os Pai da Igreja — que não eram unânimes nesse assunto —, mas principalmente na vida da Igreja através dos cânones conciliares. Para exemplos fáceis (em inglês), veja aqui, aqui e aqui. É muito comum que as pessoas que defendem a indissolubilidade absoluta ignorem essa história de séculos. Vários dos exemplos repetem a clásulula fornicationem e lhe dão a interpretação mais natural. Existem outras leituras desse texto, mas normalmente elas são tão constrangedoras que o próprio proponente parece perceber que força a barra.

É importante dizer: essa cláusula não derroga o caráter sacramental do matrimônio. O matrimônio é, essencialmente, finito e limitado: ninguém estará casado para sempre, na eternidade, antes o matrimônio tem fim com a morte. O que se considera é que haja outras situações, além da morte, que rompam o vínculo. (Sobre a cláusula em particular, considero boa a consideração de que, sendo a fornicação pecado mortal, ela legalmente levaria à morte do cônjuge, naqueles tempos.)

Diante disso, minha posição é de que, considerados todos os fatores acima (a restrição ao matrimônio cristão, o erro de pessoa, a cláusula fornicationem), provavelmente na maioria dos casos as pessoas não deveriam procurar um novo matrimônio. Primeiramente, ninguém deve se divorciar apenas porque quer; caso se separe, não deve casar novamente de maneira nenhuma, em tempo nenhum, enquanto o primeiro cônjuge viver, ou caso não se evidenciem as situações acima. A subjetividade dos envolvidos não deve ser desconsiderada, mas as circunstâncias e exceções colocadas não devem ser julgadas apenas subjetivamente. Ademais, a ideia de que um segundo matrimônio simplesmente salvará aquela pessoa do sofrimento do primeiro é loucura.

Caso a convivência no primeiro matrimônio seja impossível ou até perigosa, devem se distanciar os seus cônjuges, mas não procurar um novo matrimônio, e sim viverem o ideal da fé cristã, que é a dedicação total a Cristo e o casamento com ele. Nesse caso, é inteira responsabilidade da Igreja lutar pela reconciliação sempre que é possível, e lutar pela pessoa caso não seja possível. Existem situações em que a reconciliação não é possível. É uma imensa irresponsabilidade e até crueldade enviar para junto do seu esposo a mulher que foi violentada por ele. Mas nos dois casos a Igreja deve lutar pelas pessoas e apoiá-las. Se alguém não encontra apoio e amparo da Igreja e faz o contrário do que Cristo diz, em grande parte a Igreja é responsável. É muito fácil colocar na conta de Jesus. A lei do amor ainda é a maior de todas.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Cristo pôs fim à limitação dos sacrifícios?

Existe uma maneira incorreta de contar a história do Antigo Testamento ao Novo, quanto ao tema do sacrifício. Algumas pessoas pensam a coisa assim: no Antigo Testamento havia os sacrifícios de animais, como maneira de receber o perdão de Deus, e o Novo Testamento veio e aboliu a coisa com o sacrifício de Jesus.

Esse equívoco é comum em pessoas que só leem a Bíblia e o fazem de uma maneira mais desatenta e particularmente “pactual”. (Não me refiro à “teologia do pacto” reformada.) É como se o sacrifício de animais fosse a maneira única de receber perdão na Antiga Aliança e isso termina com o sacrifício de Cristo. Isso leva a vários enganos tanto no entendimento da natureza dos antigos sacrifícios quanto na da obra da Redenção.

É verdade que, de uma perspectiva cristã, o sacrifício de Cristo torna sem sentido os antigos sacrifícios (como em Hebreus). Mas uma coisa é explicar uma relação teológica e simbólica, outra coisa é contar uma história. No mundo concreto dos fatos humanos, há sempre uma imensidão de fatores em jogo. A história não é tão simples.

Na verdade, os sacrifícios continuaram sendo realizados depois que Cristo morreu — e os apóstolos aparentemente continuaram envolvidos nesse sistema simbólico por um tempo —, e muito antes dele nascer as pessoas já sabiam que os sacrifícios não eram a única maneira de receber perdão. Outras ações eram equiparadas.

Quando a maior parte do Antigo Testamento foi escrita, várias religiões do mundo antigo (inclusive a israelita) haviam passado por um processo de espiritualização e interiorização do sacrifício: o rito exterior passou a ser visto como uma “corporificação” (em forma de dom) das intenções interiores dos adoradores, assim como uma maneira de tornar visíveis a comunhão entre os adoradores e (no caso dos sacrifícios expiatórios) o perdão divino. Embora a ideia já tenha sido criticada sob várias frentes, e muitas vezes a crítica seja legítima, ela continua existindo nos estudos da área, sob o nome, popularizado por Jaspers, de “Era Axial”.

Ademais, por fatores de sua própria história, a religião oficial passou por um tempo sem seu próprio Templo. Assim como no judaísmo contemporâneo, que encontra perdão sem o oferecimento de animais, assim também foi em tempos anteriores. Por isso, nós nos deparamos, tanto em trechos do Antigo Testamento e na literatura posterior, a equiparação de várias ações religiosas não-sacrificiais ao sacrifício. Por exemplo:

• O sacrifício agradável a Deus é o do coração (Sl 51:16-17).

• Diversas ações são tratadas como sacrificiais (Sir 35:1-5).

• Pede-se que a oração seja tratada como incenso e sacrifício (Sl 141:2; cf. Pv 15:8). Assim também o cântico (Sl 27:6; 50:14,23; 54:6; 107:22; 116:17).

• O temor é maior que os sacrifícios (Jud 16:16).

• A esmola e misericórdia expia pecados (Pv 10:2; 11:4; 16:6; 21:3; Tob 4:7-11; 12:8-9; Sir 3:33; cf. Os 6:6).

• A honra aos pais expia pecados (Sir 3:3,14).

• Mudança das más obras para as boas, na prática da justiça, é suficiente (Ez 18).

• Os mártires faziam expiação pelos pecados da nação (Dn 3:40 LXX; 2Mc; 4Mc).

Por isso, quando Hebreus 13 fala do sacrifício da beneficência e do louvor, ou quando Romanos 12 fala do sacrifício dos nossos corpos, não diz coisa nova. Essa doutrina cristã já estava lá, bem assentada, no Antigo Testamento e nas religiões próximas. Afinal, ao dizer “misericórdia quero, e não sacrifício”, Cristo citou o Antigo Testamento.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Mártires Expiadores

A chamada “teologia dos mártires” é um dos elementos do judaísmo do Segundo Templo que provavelmente influenciaram o cristianismo. Em síntese, essa doutrina ensina que aqueles que morriam zelosos da Lei, num tempo em que Israel estava sob a ira divina pela desobediência à Lei, por sua obediência extraordinária de entregar a própria vida, expiavam o pecado da nação.

A lógica às vezes parece ser de que, quando o castigo nacional e coletivo (a opressão pagã e idólatra) recai sobre os mártires inocentes, sua condição suscita a compaixão divina, seguindo aquela lógica, bem assentada no Antigo Testamento, de que nosso sofrimentos são instrumentais na misericórdia de Deus (“Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa todos os meus pecados.“, Sl 25:18), mas agora segundo uma aplicação nacional. Assim como a punição da nação recai sobre eles, a misericórdia lançada sobre eles cobre a nação. Assim também, a nação estrangeira, ao se exceder na execução do juízo divino, atrai para si esse juízo.

2 Macabeus 7:30-38 | 30 …Eu não obedeço ao mandamento do rei! Ao mandamento da Lei, porém, que foi dada aos nossos pais por meio de Moisés, a esse eu obedeço. 31 Quanto a ti, que te fizeste o inventor de toda a maldade que se abate sobre os hebreus, não escaparás às mãos de Deus. 32 Porquanto nós, é por causa dos nossos pecados que padecemos. 33 E se agora, a escopo de castigo e correção, o Senhor, que vive, está momentaneamente irritado contra nós, ele novamente se reconciliará com os seus servos. 34 Mas tu, ó ímpio e mais celerado de todos os homens, não te eleves estultamente, agitando-te em vãs esperanças, enquanto levantas a mão contra os seus servos, 35 pois ainda não escapaste ao julgamento de Deus todo-poderoso, que tudo vê. 36 Nossos irmãos, agora, depois de terem suportado uma aflição momentânea por uma vida imperecível, morreram pela Aliança de Deus. Tu, porém, pelo julgamento de Deus, hás de receber os justos castigos por tua soberba. 37 Quanto a mim, como meus irmãos, entrego o corpo e a vida pelas leis de nossos pais, suplicando a Deus que se mostre logo misericordioso para com a nação e que, mediante provas e flagelos, te obrigue a reconhecer que só ele é Deus. 38 Possa afinal deter-se, em mim e nos meus irmãos, a ira do Todo-poderoso, que se abateu com justiça por sobre todo o nosso povo!

Rev. Gyordano M. Brasilino