Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos

 

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As obras de arte têm uma riqueza muito especial, uma certa transcendência natural: o significado da obra se lança sempre para além da intenção do autor. Ainda que seja danoso desprezar essa intenção do autor inteiramente, ela nunca expressa a totalidade da obra, é só uma janela para um mundo diferente. Quando, sob pressão, Varonese mudou o título da sua Última Ceia para Banquete na casa de Levi, ele condicionou significativamente leitura que fazemos da pintura, mas mesmo assim ele não a controla totalmente. Continue lendo “Quem é esta?: A Interpretação do Cântico dos Cânticos”

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A Doutrina Anglicana dos Sacramentos

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“Em nenhuma religião, seja verdadeira, seja falsa, se pode juntar os homens sem algum consórcio de sinais ou sacramentos visíveis.” Santo Agostinho, Contra Faustum 19.11

Gosto de dizer, fazendo graça e com um fundo de verdade, que eu me tornei anglicano por causa do batismo de crianças, rejeitado por tantos evangélicos. Poucas práticas da Igreja mostram tanta beleza na simplicidade e tanta verdade evangélica quanto o amor de Cristo que ali se lança sobre os pequeninos. Todo o Evangelho está ali, implícito ou explícito: o amor de Deus pela criação, a queda da natureza humana, a universalidade do pecado, a necessidade da graça regeneradora, a iniciativa divina na salvação, a Cruz e a Ressurreição, a presença da Igreja, a Santíssima Trindade. Se alguém tem dúvida sobre o princípio Sola Gratia, olhe para o batismo das crianças, que nada contribuem para a própria salvação, antes tudo recebem. Afinal, elas são um grande símbolo do Reino. Continue lendo “A Doutrina Anglicana dos Sacramentos”

O platonismo do Novo Testamento

Platão

Desde Harnack, uma tese tem sido bastante comum entre teólogos protestantes, conscientemente ou não. Trata-se da noção de que a teologia cristã se desenvolveu por helenização do pensamento hebreu de Jesus e dos apóstolos, e de que isso seria um crime contra as origens. Essa concepção de Harnack expressa um tipo de narrativa puritana preocupada com a “origem imaculada” e a posterior “degeneração” da fé cristã, uma visão trágica do desenvolvimento histórico do Cristianismo inteiramente diferente daquela que Jesus pensou na Parábola do Grão de Mostarda. A helenização às vezes recebe o nome de (neo)platonismo, o grande vilão. Continue lendo “O platonismo do Novo Testamento”

Predestinação em Sto. Agostinho

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Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade,” (Efésios 1:3-5)
Indelével. A marca que Sto. Agostinho deixou na cristandade ocidental é indelével. Ele está envolvido em todos os grandes debates da Igreja antiga, e em todos eles ele deixou alguma contribuição importante. Polêmica em muitos casos, mas sempre importante, e talvez mesmo a mais importante seja também a mais polêmica, que é a teologia da graça, gestada nos conflitos do africano contra as tendências moralistas e paganizantes de Pelágio e seus seguidores. Mas antes disso, especialmente no debate contra o rigorismo donatista, a doutrina da graça de Agostinho já estava em preparação, na sua reflexão sobre os sacramentos. A doutrina da predestinação é uma conseqüência da doutrina da graça.

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Teologia do Amor em Agostinho

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“Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda esse é o que me ama; e aquele que me ama será amado de meu Pai, e eu o amarei, e me manifestarei a ele.” (João 14:21)

A teologia do amor de Agostinho é como que o crescimento das preciosas sementes das Sagradas Escrituras, que nos ensinam que do amor dependem todos os mandamentos, que todas as coisas devem ser feitas com amor, sem o qual nada tem valor, que quem ama cumpriu a lei, que não pode dizer que ama a Deus quem não ama ao irmão, que Deus permanece naqueles que permanecem em seu amor, que o amor procede de Deus e é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo e, sobretudo, que Deus é amor. Por um lado, o amor é a máxima exigência e, por outro, o maior dom. Continue lendo “Teologia do Amor em Agostinho”

Sobre a palavra “penitência”

Profeta Jeremias

“Quando o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse “Arrependei-vos [Penitentiam agite] etc.”, quis que toda a vida dos crentes fosse penitência. (Martinho Lutero, 95 Teses)

“Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte.” (2Coríntios 7:10)

A vida cristã é uma vida entre dois mundos. Somos atacados pelo pecado e pela tentação, pelos cuidados deste mundo e pelo engano do diabo, pela fraqueza e pela ignorância, pela dor e pela morte, pela desesperança e descrença, pelo esfriamento do amor. Ainda assim, somos alvos do chamado celestial, participantes da natureza divina, filhos de Deus Pai, formados à imagem do seu Filho, habitados pelo Espírito Santo, receptáculos da misericórdia excelsa e herdeiros eternidade. Herdeiros da alegria eterna só herdada através da tristeza. Continue lendo “Sobre a palavra “penitência””

Apolinarismo, heresia nossa de cada dia

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Jesus é o principal. Embora muitas vezes e com acerto a pregação e a abordagem da Igreja sejam de resgatar o pecador e o perdido, esse é somente o primeiro degrau em uma escada que nos leva a descobrir que nós não somos o assunto principal. É Cristo. Tudo o que a Igreja tem, o que a humanidade redimida tem, tem-no não apenas emcompor Cristo, mas também para Cristo. “Tudo foi criado por ele e para ele.” (Cl. 1:16b). Continue lendo “Apolinarismo, heresia nossa de cada dia”