Contra o Altruísmo

“Disse o Senhor a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Ele respondeu: Não sei; acaso, sou eu tutor de meu irmão?” Gênesis 4:9

No uso corrente da palavra, “altruísmo” significa a atitude de bondade gratuita, de benevolência, de importar-se genuinamente com as outras pessoas, sem atrelar o resultado ao seu próprio ganho pessoal, coisas desse tipo. Isso significa, inclusive, fazer o bem a pessoas que não merecem ou que não nos recompensarão. Nesse sentido, quem discordaria do altruísmo, senão somente uma alma corrompida? E mesmo uma alma assim ainda faria uma homenagem implícita parasitária, quando o altruísmo alheio lhe beneficia.

No entanto, às vezes “altruísmo” significa algo mais: um ideal de que toda ação moral, para encontrar validade, deve estar totalmente desligada (ao menos na intenção) de qualquer benefício a quem a realiza. Nesse sentido, a ação mais virtuosa seria aquela que não procura nenhuma recompensa; a virtude seria sua própria recompensa. Essa perspectiva ética é associada à figura do pietista liberal Immanuel Kant. (Algumas pessoas associam algo nesse sentido ao confucionismo, mas eu suspeito que isso seja muito mais uma leitura moderna.)

Isso coloca diante de nós um problema imediato. Aquilo que os cristãos chamam de escatologia emerge, na história humana, precisamente como uma reparação final dos problemas do mundo e então uma premiação dos bons e castigo dos maus, uma recompensa dos méritos e deméritos, transposta para a eternidade. Quando lemos as Escrituras, não nos parece que Deus quer que desejemos recompensas? Do contrário, não no-las prometeria. Ele procura, de algum modo, atrair o nosso desejo através disso que ele coloca diante de nós. Isso vale tanto para ambos os testamentos. Cristo fala explicitamente sobre sermos “dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos”.

Por outro lado, há muito, na Escritura, na direção de que devemos agir desinteressadamente: a caridade “não busca os seus interesses”. Paulo ensina, em lugares diferentes: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.”; “Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem.”

Ainda assim, não é curioso que, no momento exato em que Cristo tem a melhor oportunidade de tratar da ação sem recompensa, no caso do socorro a pessoas em condições miseráveis, que não podem nos recompensar, fugindo das limitações da lógica do retorno pessoal e da gratificação social (“esse quam videri”), ele faça questão de reintroduzir a crença na Ressurreição? Ele diz: “serás bem-aventurado, pelo fato de não terem eles com que recompensar-te; a tua recompensa, porém, tu a receberás na ressurreição dos justos.”

Se, por um lado, Cristo manifestou uma atitude de desprendimento sacrificial em favor da humanidade, por outro lado, ele não o fez sem receber e sem olhar para recompensar (“…Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz…”). A questão é: que recompensa é essa? A quem ela beneficia de fato? A recompensa que Cristo recebe não é, muito mais, em favor de outras pessoas do que dele mesmo?

O que ocorre é que a separação entre altruísmo e egoísmo presume uma antropologia individualista e liberal, aquela do “cogito” cartesiano. Se eu vejo no ser humano uma identidade aberta e comunitária, que atravesse os indivíduos, a ideia de uma felicidade individual é ilusão, e pautar nisso a intenção das ações é correr de uma miragem. Como escreveu o poeta anglicano, “Nenhum homem é uma ilha”, e, cada vez que o sino toca, indicando que alguém se foi, eu sei que eu mesmo ali morri também. O que diz respeito aos outros diz respeito a mim. Quem fere à humanidade fere a mim. Quem pede perdão, pede perdão a mim; quem perdoa, perdoa a mim. Crime, vergonha, constrangimento e reconciliação nunca se dão entre mônada sociais, mas são sempre eventos políticos. Somos cúmplices das comunidades das quais participamos, na proporção dessa participação.

Por isso, quando, elaborando a raiz do que os cristãos chamaram de “Comunhão dos Santos”, São Paulo escreve que “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam”, ele não descreve aí uma forma totalmente nova de existência humana, mas a restauração e elevação daquilo que é a vocação humana universal. A Igreja é a pólis restaurada. Não sabe disso toda família que, em meio às contradições e vicissitudes da nossa existência, cumpre o seu papel? Não sabe disso todo exército em batalha? A vitória de um é a vitória de todos, e, a cada um que perece, todos nós perecemos um pouco mais. Somos, em Cristo, membros uns dos outros porque fomos feitos para sermos membros uns dos outros. Nas palavras do rei Davi: “Vós sois meus irmãos, sois meu osso e minha carne”.

Por isso, quando um de nós não se preocupa com sua própria vida, quando age de maneira relaxada e irresponsável, pode tornar mais miserável a vida de outras pessoas que se importam, pois somos membros uns dos outros.

Nesse sentido, o que se quer evitar é que cada um procure o que é seu enquanto apenas seu, enquanto posse e domínio pessoal, e não enquanto serviço em favor do outro. A recompensa divina, nesse sentido, é algo que temos obrigação de buscar, e isso inclusive em favor de outras pessoas, pois nossa santificação e elevação afeta outras pessoas, que nós arrastamos conosco. Rejeitar a recompensa divina é rejeitar a amizade com Deus, pois toda amizade é reciprocidade ao longo do tempo, numa teia de obrigações que se fortalece a cada resposta que se dá, a cada gesto de gratidão. Quem recusa a reciprocidade manifesta independência, recusa a comunidade, recusa as obrigações decorrentes. Nesse sentido, somente uma vida de oração (que é em favor dos outros) pode justificar a reclusão do eremita cristão.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Por que as igrejas não podem apoiar candidatos

Nenhum soldado em serviço se envolve em negócios desta vida, porque o seu objetivo é satisfazer àquele que o arregimentou.” 2Timóteo 2:4

Quero deixar muito claro, antes de mais nada: não acredito na separação entre religião e política. Isso não é nem ideal, nem real. Não é real porque as religiões são parte da maneira como as pessoas tomam decisões, como elas constroem critérios e prioridades. Existe a possibilidade de uma ética com base na razão e em valores compartilhados, mas isso tem limites. As pessoas religiosas precisam saber que não vivem numa sociedade em que todo mundo compartilha dos seus valores, e devem saber lidar com isso. Mas as pessoas céticas, ateias ou contrárias aos valores religiosos também precisam saber que as religiões influenciarão o mundo. Enquanto estivermos numa democracia, será assim. A separação também não é ideal, de uma perspectiva cristã, porque cada um dos meus pensamentos deve obedecer a Cristo.

Nesta altura do campeonato, quando os partidários mais aguerridos e decididos de Bolsonaro e Lula já tomaram suas posições, eles partem agora em busca dos “do meio”, fazendo todo tipo de apelo passional, e o argumento dominante será o do mal menor, já que esses “indecisos” ou “isentos” obviamente não consideram os dois lados satisfatórios. De fato, isso já começou, e é irônico ver pessoas de ambos os lados usando exatamente o mesmo tipo de discurso para forçar apoio. (Enquanto isso, líderes políticos que há pouco tempo trataram Bolsonaro e Lula como corruptos passam a apoiá-los.)

Pois bem, o “mal menor” é o motivo pelo qual igrejas não podem apoiar candidatos. Falando em termos gerais, cada pessoa pode e deve tomar partido segundo os ditames de sua própria consciência, fazendo o cálculo difícil de qual seja o mal menor, e, estando nós numa democracia, cada um tem liberdade inclusive para defender (com honestidade) o político que considera melhor. Considerando que cada lado representa uma doutrina política diferente e diametralmente oposta — com seus próprios interesses, acordos e movimentos concretos —, o cálculo comparativo é complicado, as informações são enviesadas, e nós tomamos partido sempre antecipando a miséria que certo candidato pode acabar fazendo. Sendo honesto: a maioria de nós não tem condições de tomar decisões políticas bem-informadas. Quando você apoia um candidato irrestritamente, você escolhe ignorar algumas coisas e fingir que sabe outras.

Eu falava do “mal menor”. Diferentes do povo cristão como um todo, os ministros do evangelho não podem tomar partido e defender candidatos, justamente pelo motivo de que, enquanto representantes do Reino de Deus, não devem usar seu discurso e sua autoridade em favor de nenhum “mal menor”, mas apenas do bem maior, do ideal, sem negociá-lo em favor do pragmatismo político, sem ceder ao desespero mais próximo. Esse ideal inclui muitas coisas que não concordam com as propostas disponíveis. Mas, para que ele seja alcançado, é essencial que os cristãos estejam unidos e construam uma alternativa a Bolsonaro e a Lula, que nos represente melhor. Trocar o bem maior mandamental pelo mal menor pragmático, no discurso da igreja, é perder a voz profética, e dar carta branca eterna para todo tipo de pilantra que use um ou dois valores cristãos. Quando os ministros do evangelho tomam partido, eles escandalizam gregos e judeus, e não promovem a paz.

Por isso, é importante que, numa situação em que alguns cristãos votam pelo mal menor (de esquerda ou de direita), outros cristãos devem ter plena liberdade de criticá-lo, e nós, pastores, somos pastores de ambos. Você não evangeliza a pessoa com quem você está “em guerra”. Você renuncia à missão em nome da guerra. Isso é omissão, fugir da missão de um ministro da Palavra e dos Sacramentos e se tornar cabo eleitoral de um reino tão cheio de impiedades. É sempre uma narrativa ideológica que constrói os inimigos (os “fascistas”, “comunistas”…), mas nós representamos a perspectiva de Deus, que vê seres humanos caídos e necessitados de graça.

Na eleição presidencial em que nós nos encontramos, assim como na anterior, o papel dos evangélicos é determinante. Os católicos também têm um papel aqui, mas em geral são muito mais receptivos a ideias de esquerda, inclusive no clero, mesmo quando elas vão contra o ensino “oficial” da igreja. Não resta nenhuma dúvida de que, se o número de evangélicos fosse menor, a eleição teria sido decidida já no primeiro turno.

Um fator decisivo, para os evangélicos, é a questão do aborto, e continuará sendo. A esquerda precisa desistir da ideia insana de que aborto é uma questão de saúde pública. Isso será motivo de tensão permanente. Autorizar o extermínio de crianças, com dinheiro público, não é questão de saúde pública. É assassínio puro e simples, sob o pretexto liberal e individualista “meu corpo, minhas regras”. Como os evangélicos acreditarão na compaixão da esquerda pelas vítimas do coronavírus, se não se importam com crianças no ventre das mães? (O mesmo deve ser perguntado: como a esquerda acreditará na compaixão dos evangélicos quando apoiam um presidente com discurso insensível?) Cada vez que um político de esquerda repete aquele discurso “não quero o aborto, mas é uma questão de saúde pública”, o evangélico sabe que a primeira parte é uma mentira. Isso não convence a ninguém.

Por outro lado, o que significa o apoio a Bolsonaro de parcela tão grande dos evangélicos? Significa ignorar a apologia à tortura, filistinismo, insensibilidade para com as vítimas da pandemia? Aliás, quem pode acreditar na aproximação de Bolsonaro e Guedes com as questões de justiça social e igualdade econômica? É a mesma coisa. Não vejo, na maioria dos evangélicos, uma apologia a essas coisas, mas vejo, sim, como, eles se veem forçados a ignorar muito porque veem uma alternativa que é pior ainda, e que só lhes oferece críticas.

Diante disso, os adversários de Bolsonaro devem pensar o que fazer: cuspir ódio nos evangélicos e assim acirrar as divergências, confirmando que são realmente inimigos (cada um de sua própria perspectiva: a batalha espiritual, a luta de classes…); ou sentar à mesa tentar construir uma ponte para um futuro diferente, em que o bolsonarismo não precise sequer ser discutido. Se a esquerda não é capaz de oferecer uma alternativa melhor do que Bolsonaro, ela também é culpada pelos erros dele.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O “Mistério” não salvará a Substituição Penal

Eu costumo argumentar que a ideia de Cristo ser punido no lugar da humanidade é injusta, segundo a lei divina revelada. É um defeito moral dessa teoria.

Alguém me trouxe uma resposta que eu considero a escapatória óbvia, mas que pouca gente tem coragem de apresentar, o “apelo ao mistério”, ou, mais propriamente, o “apelo à ignorância” (argumentum ad ignorantiam): não se pode dizer que punir um inocente (Cristo) seria injusto porque a justiça de Deus está além da nossa compreensão. Algo assim.

Pouca gente tem coragem porque instintivamente as pessoas sabem que é uma resposta falaciosa. Quem a apresenta comete contradição performática: diz que não entendemos a justiça de Deus, mas, ao usá-lo como argumento, age como se soubesse o que é e o que não é compatível com essa justiça, logo presumindo que entende a justiça divina.

A questão é: como podemos separar a justiça de Deus revelada daquela supostamente oculta? Como vou desprezar o revelado e fazer de conta que sei o segredo? O que está revelado é que Deus abomina mãos que derramam sangue inocente.

O “apelo ao mistério” não funciona. Uma situação pode ser incompreensível porque o número de fatores nos escapa, mas não é assim nesse assunto. A situação de Cristo tem um número muito pequeno de fatores, todos perfeitamente compreensíveis. Ninguém tem qualquer dificuldade de entender que Caifás e Pilatos cometeram uma injustiça ao punirem um inocente. Não há mistério. Não há fatores ocultos. Não há como dizer que Caifás e Pilatos, ao punirem um inocente, erravam, mas “Deus” acertaria em fazer exatamente o mesmo, como cúmplice deles.

Aliás, o próprio Cristo via que a justiça de Deus reverteria a injustiça sofrida:

“porque é coisa agradável que alguém, por causa da consciência para com Deus, sofra agravos, padecendo injustamente. Porque para isto sois chamados, pois também Cristo padeceu por nós… e, quando padecia, não ameaçava, mas entregava-se àquele que julga justamente,” (1Pedro 2:19,21,23)

Como vários outros, o defeito moral da Substituição Penal é invencível, não há resposta possível. Mas ele tem pouco poder de convencimento, porque os defensores da SP, por entenderem errado alguns textos da Bíblia, acham que a coisa realmente aconteceu (Deus puniu Cristo como substituto), então guardam uma esperança de que, de algum modo, não seja injustiça aquilo que eles sabem que é injustiça.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Jesus não estudou Hermenêutica

Jesus não era biblicista. Certamente ele reconhecia e afirmava a veracidade e a autoridade das Escrituras, referindo-se a eles em seus ensinos. Mas ele as usa com relativa liberdade, seguindo padrões conhecidos da halāḵâ judaica, encarando-as mais como janelas do que como destinos. Ele não esperava que os seus interlocutores usassem as Escrituras de modo restrita, antes traz mais cartas para a mesa.

No diálogo com o intérprete da lei em Lc 10:25ss, Cristo concorda em colocar dois mandamentos da lei acima de todos os demais, mas discorda de que o mandamento do amor ao próximo se limite aos compatriotas. O problema é: se lido de maneira puramente contextual, o mandamento se referia, sim, apenas ao amor entre os israelitas:

Não te vingarás, nem guardarás ira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo. Eu sou o Senhor.” (Levítico 19:18)

Por implicação do paralelismo, o “próximo” corresponde aos “filhos do teu povo”. Essa é a leitura mais natural do texto. Por isso mesmo, o capítulo contém um segundo mandamento equiparando os estrangeiros que vivessem entre os israelitas (Lv 19:33-34); o primeiro mandamento não dava conta. Isso é uma importante expressão de humanidade e empatia, mas não é, ainda, em termos de contexto estrito, um mandamento de amor universal e irrestrito.

Então Cristo usa o mandamento para além dos seus limites contextuais e da intenção do autor. Ele não traz aí um mandamento novo — não é uma questão de “antiga aliança e nova aliança” —, mas observa como deve ser aplicado o mandamento antigo, como a lei deve ser usada. O texto não é a regra última, mas uma expressão dela.

Assim também, nas discussões sobre o sábado. No dia santo, seus interlocutores circuncidavam (Jo 7:21-24) e sacrificavam (Mt 12:5), e isso encontra amparo na lei, de modo que Cristo apela a uma hierarquização implícita nela, que deve ser válida também em situações não prescritas, como naquela de curar no sábado ou alimentar pessoas.

Mas a argumentação vai além: no sábado, eles levavam seus animais para beber água e socorriam seus filhos e animais caídos numa vala (Lc 13:15; 14:5), e isso é um apelo ao senso moral (expresso na lei oral), não à própria lei escrita. O fermento dos fariseus, a hipocrisia (Lc 12:1), consistia precisamente em ocultar o senso moral, e julgar as coisas apenas através de uma prescrição fria da lei, quando ela lhes convém.

Em outras palavras, Cristo exige dos seus interlocutores uma leitura não biblicista, na qual seja válido o princípio da analogia legal através do senso moral. Ele foi além da intentio auctoris e reclamou com quem não fez o mesmo. Se a hermenêutica é a ciência do contexto, Cristo nunca estudou hermenêutica.

Rev. Gyordano M. Brasilino

O que Deus acha de punir um inocente?

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Cristo morreu como um inocente completo e absoluto, sem qualquer culpa. Em qualquer discussão sobre o propósito da sua morte no plano divino, em algum momento a questão da sua inocência vem à tona. Os Evangelhos pintam a cena de seu julgamento como envolvendo uma mistura de testemunhos mentirosos, inveja, pressão, interesses políticos e ignorância, pois só uma mistura dessas coisas poderia levar à condenação de um inocente. Aqueles que hoje acreditam que, além de ser um inocente sofrendo na justiça humana, Cristo também era um inocente sofrendo na justiça divina, isto é, que Cristo foi punido pelo Pai no lugar dos homens, precisam lidar com o fato de que Cristo era inteiramente inocente. É justo punir um inocente? Pois podemos facilmente dizer que o tribunal humano que condenou Cristo foi injusto. Mas não podemos dizer o mesmo do tribunal divino. Juízo e justiça são a base do trono de Deus.

O que Deus pensa dessa questão? Nosso instinto moral nos dirá que é injusto punir inocentes, e não esperamos que Deus, o juiz mais justo de todos, nos diga algo diferente. De fato, demonstrar que é injusto punir inocentes é quase como tentar provar que a grama é verde. Essa é uma regra tão universal, presumida por todas as nossas reflexões éticas e sistemas jurídicos, que é estarrecedor que precise ser dita ou que se precise argumentar em seu favor. Todos aqueles que leem sabem, no fundo, que há profunda injustiça em punir um inocente. Mas como há quem afirme que Deus pode punir inocentes (ao menos no caso de Jesus), é importante visualizar como as Escrituras colocam essa questão, não só na rejeição completa da punição de inocentes, como na linguagem com que essa rejeição aparece.

Um primeiro grande exemplo na Bíblia é o da destruição da cidade ímpia de Sodoma, a cidade de Ló, pela qual Abraão intercedeu. Javé revela a Abraão que a cidade será destruída pois “o seu pecado é gravíssimo” (Gn 18:20). No entanto, aquela palavra pareceu dura a Abraão, que inicia uma “luta” com Deus em oração, tentando encontrar a possibilidade de que, em razão dos justos que morassem ali, a cidade não fosse condenada.

Gênesis 18:23-25
“E, aproximando-se a ele, disse: Destruirás o justo com o ímpio? Se houver, porventura, cinquenta justos na cidade, destruirás ainda assim e não pouparás o lugar por amor dos cinquenta justos que nela se encontram? Longe de ti o fazeres tal coisa, matares o justo com o ímpio, como se o justo fosse igual ao ímpio; longe de ti. Não fará justiça o Juiz de toda a terra?”

Para Abraão, era uma questão clara: Deus não iria destruir o justo com o ímpio. Seria injustiça dar a ambos a mesma punição. Há aí uma conexão direta com a justiça (mišpāṭ) de Deus. A justiça de Deus exige que o justo não sofra a mesma punição do ímpio. Que esse não é só um pensamento de Abraão, mas algo com o que Deus concorda, mostram as sucessivas respostas que Deus dá a Abraão, a começar desta: “Se eu achar em Sodoma cinquenta justos dentro da cidade, pouparei a cidade toda por amor deles.” (18:26). Os injustos são poupados por amor aos justos, para que os justos não sejam punidos em razão dos ímpios. É preferível, para Deus, dar temporariamente o destino dos justos aos ímpios do que dar o destino dos ímpios aos justos (cf. Is 65:8; Jr 5:1; Ez 22:30; Mt 24:22). Portanto há um claro pendor, na justiça divina, para a misericórdia, não para a severidade. De fato, todos os caminhos de Deus são justiça (Dt 32:4).

Esse não é o único caso em que a Escritura Sagrada coloca a justiça de Deus ao lado do inocente. Outros exemplos são estes:

Êxodo 23:6-8
“Não perverterás o julgamento do teu pobre na sua causa. Da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, porque não justificarei o ímpio. Também suborno não aceitarás, porque o suborno cega até o perspicaz e perverte as palavras dos justos.”

Deuteronômio 24:16
“Os pais não serão mortos em lugar dos filhos, nem os filhos, em lugar dos pais; cada qual será morto pelo seu pecado.”

Provérbios 6:16-19
Seis coisas o Senhor aborrece, e a sétima a sua alma abomina: olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente, coração que trama projetos iníquos, pés que se apressam a correr para o mal, testemunha falsa que profere mentiras e o que semeia contendas entre irmãos.”

Provérbios 17:15,26
“O que justifica o perverso e o que condena o justo abomináveis são para o Senhor, tanto um como o outro. Não é bom punir ao justo; é contra todo direito ferir ao príncipe.”

A Escritura condena, em vários momentos, a injustiça de matar o justo ou o inocente (Dt 19:10,13; 1Sm 19:5; 2Rs 21:16; 24:4; Sl 94:21; 106:38; Pv 1:11; Is 59:7; Jr 7:6; 22:3,17; 26:15; Jl 3:19; Mt 27:4; Tg 5:6 etc). Por isso, o próprio Cristo, como inocente, se lançava nas mãos “daquele que julga justamente” (1Pe 2:23), o que não faria nenhum sentido se aquele que julga justamente o estivesse punindo por pecados de outras pessoas. O que Cristo fez foi se entregar aos cuidados daquele que não pune inocentes e que não apoia a punição de inocentes.

Nesse sentido, ao rejeitar a punição do inocente, a Escritura Sagrada sustenta que somente o culpado pode ser punido. Há um vínculo entre um mal praticado, uma pessoa que o cometeu e uma punição: “Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim.” (Êxodo 32:33). Numa linguagem muito semelhante, o profeta Ezequiel transmite o oráculo da justiça divina: “a alma que pecar, essa morrerá.” (Ez 18:4). Cada um é julgado por suas próprias obras. De fato, o trecho de Ezequiel merece muita atenção:

Ezequiel 18:1-4,19-24
Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: Que tendes vós, vós que, acerca da terra de Israel, proferis este provérbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos é que se embotaram? Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este provérbio em Israel. Eis que todas as almas são minhas; como a alma do pai, também a alma do filho é minha; a alma que pecar, essa morrerá.
Mas dizeis: Por que não leva o filho a iniquidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo, e guardou todos os meus estatutos, e os praticou, por isso, certamente, viverá. A alma que pecar, essa morrerá; o filho não levará a iniquidade do pai, nem o pai, a iniquidade do filho; a justiça do justo ficará sobre ele, e a perversidade do perverso cairá sobre este. Mas, se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu, e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que é reto e justo, certamente, viverá; não será morto. De todas as transgressões que cometeu não haverá lembrança contra ele; pela justiça que praticou, viverá. Acaso, tenho eu prazer na morte do perverso? — diz o Senhor Deus; não desejo eu, antes, que ele se converta dos seus caminhos e viva? Mas, desviando-se o justo da sua justiça e cometendo iniquidade, fazendo segundo todas as abominações que faz o perverso, acaso, viverá? De todos os atos de justiça que tiver praticado não se fará memória; na sua transgressão com que transgrediu e no seu pecado que cometeu, neles morrerá.

Ezequiel, assim como Jeremias, profetizava o juízo da nação de Israel naquele momento. Era um juízo nacional, intimamente ligado aos pecados das gerações anteriores e, mesmo assim, o profeta indicava a responsabilidade individual. Para Ezequiel, Deus não pune inocentes. Isso é importante porque a resposta mais comum a esse princípio, por parte dos que acreditam que Deus pode punir inocentes, é assinalar casos bíblicos de juízos sobre famílias e nações, os quais podem, segundo se argumenta, envolver a punição de inocentes. Embora esses textos sejam importantes e testemunhem a amplitude com a qual a Escritura trata essa questão, as coisas nunca são tão simples. Mesmo nos textos bíblicos escritos em condições em que se vislumbra responsabilidade coletiva, nesses casos sempre existe a possibilidade do repúdio mal, para que não haja conivência coletiva (cf. Dt 21:1-9).

Na verdade, toda essa questão desaparece inteiramente se percebermos que, na execução da condenação, o juiz não é o Pai, e sim o Filho (Jo 5:22,27), e que, portanto, o Filho não foi, de modo algum, condenado pelo Pai.

Rev. Gyordano M. Brasilino

A Fé Cristã e as Religiões do Mundo

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Em sua morte em 1825, Saint-Simon deixou incompleto um diálogo sobre O Novo Cristianismo, no qual reconstrói a fé cristã segundo as aspirações do Iluminismo, numa proposta não tão diferente da de Kant: a religião se constituiria essencialmente num moralismo da razão pura — uma ética demitizada, burguesa e humanista —, capaz de unir os homens numa nova solidariedade. Diferente de Kant, a proposta do francês não carrega o menosprezo pietista pelo ritual, que acaba aliciado. Continue lendo “A Fé Cristã e as Religiões do Mundo”