O Antigo Testamento continua lindo?

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Desde o princípio da Igreja, os cristãos precisaram lidar com a interpretação e aplicação do Antigo Testamento. Foi a partir de certas interpretações das Escrituras Sagradas dos hebreus que os primeiros apóstolos e discípulos de Jesus defenderam sua prerrogativa messiânica e, portanto, a necessidade da conversão à nova fé, ainda alguns anos antes do surgimento dos escritos que comporiam o Novo Testamento.

Nessas mesmas Escrituras, o movimento nascente encontrou alimento espiritual continuado num mundo hostil. Nas origens, a teologia cristã surgiu como a releitura do Antigo Testamento à luz da pessoa e palavras de Jesus de Nazaré, a “mente do Messias”. Agora era possível encontrar nesses Santos Escritos um segredo, um mistério, que os apóstolos tinham contemplado com os próprios olhos.

Mas, mudada a situação, não tardou que surgissem maneiras enganosas de tratar a Lei do Antigo Testamento, que reaparecem ao longo da história em diversas formas, e que existem até hoje, e que se colocam como dois extremos:

A primeira é como um código a ser obedecido literalmente, uma lei inevitável, que faz exigências sobre os aspectos mais diversos da nossa vida, como se vivêssemos sob a Lei de Moisés. Já na era apostólica houve quem pensasse que a circuncisão e a guarda da Lei de Moisés eram necessárias à salvação (At 15:1,5). A Nova Aliança seria apenas um acréscimo à Antiga, talvez até um aperfeiçoamento, mas não uma mudança muito radical. Em várias formas diferentes, e em graus diferentes de radicalidade, esse erro deseja a aplicação contemporânea literal da “lei cerimonial” ou da “lei civil” do Antigo Testamento.

O segundo erro, contrário, é o da rejeição do Antigo Testamento e de sua Lei, vistos como um passado abolido, não como uma Palavra de Deus para hoje. O conhecimento da Lei seria no máximo uma curiosidade histórica, que nos ajudaria a compreender algo do Novo Testamento, mas sem qualquer necessidade de obediência. Em formas mais radicais, o Antigo Testamento e o Novo seriam colocados como dois extremos de um eixo, um terreno e o outro celestial, um “religioso” e o outro “espiritual”.

A posição correta é o equilíbrio, pois ambas as posições se baseiam em fundamentos corretos, ao menos em parte, e o erro surge quando os aplicam de maneira unilateral.

Assim, é verdade que o Antigo Testamento é Palavra de Deus para hoje e para todas as épocas, desde que foi escrito. Não vivemos sob a Antiga Aliança, mas o Antigo Testamento continua sendo a Palavra de Deus em razão de sua inspiração e em razão do uso que Jesus e os apóstolos fizeram dele. Afinal, o próprio Senhor nos disse que não veio para abolir a lei e os profetas, mas para cumpri-los (Mt 5:17-19).

Essa conexão entre a inspiração e a validade das Escrituras aparece em 2Tm 3:15-16: se a Escritura é inspirada, ela continua sendo útil para nos corrigir e nos instruir na justiça. Assim, os apóstolos continuaram usando a Lei do Antigo Testamento como padrão e parâmetro para decidir várias questões, como no caso do número de testemunhas (Dt 19:15; Mt 18:16; 2Co 13:1; 1Tm 5:19) e o mantimento dos ministros do Evangelho (Dt 25:4; 1Co 9:9), por exemplo, e até mesmo os dias judaicos de festa continuaram sendo usados como parâmetro (At 20:6,16; 27:9; 1Co 16:8). Deus não daria ao seu povo uma lei injusta; mas se é justa segundo os parâmetros divinos, por que não a obedeceríamos?

Por outro lado, os cristãos devem se regozijar no fato de que não estão sob a Lei de Moisés, mas sob a Lei de Cristo (Rm 6:14; 1Co 9:19-21; Gl 3:19-25); os cristãos estão mortos para a Lei (Gl 2:19), pois ela foi abolida por Cristo na cruz (Ef 2:15). Os apóstolos, todos judeus, podiam considerar a Lei de Moisés um jugo insuportável (At 15:10). Em vários momentos, o Novo Testamento reverte ou modifica certas práticas estabelecidas no Antigo, como a restrição de alimentos (Mc 7:18-23), o divórcio (Mc 10:1-12) ou a guarda dos dias de festa da Lei (Gl 4:10-11; Cl 2:16); de fato, no caso do divórcio, o mandamento da Lei aparece como uma concessão divina à dureza humana, e que Cristo agora não mais toleraria. Além disso, algumas práticas se tornaram impossíveis hoje, pois dependiam de condições que passaram, como o sacrifício de animais, que se deveria realizar exclusivamente no Templo, lugar que não mais existe. Vinho novo, odres novos.

Assim, embora pareça que a Lei foi abolida, ela continua sendo usada no Novo Testamento como referência para os cristãos, e de maneiras bastante estranhas. Os dois erros indicados acima tendem a usar a categoria de “abolição”, ou outra semelhante, para tratar dessa questão: para uns, o Antigo Testamento continua valendo, exceto naquilo que foi abolido no Novo (presunção da continuidade); para outros, ele foi inteiramente abolido, exceto naquilo que o Novo dá continuidade (presunção da ruptura). Como base nisso, chega-se a diferentes conclusões sobre se os cristãos devem continuar entregando seus dízimos (não é lei cerimonial?), guardando o sábado (ou domingo) ou apedrejando feiticeiros. Essas coisas foram abolidas ou não?

De fato, na presunção da continuidade, a “lei civil” do Antigo Testamento deveria continuar; não se diz jamais, explicitamente, que ela foi abolida. Isso se pode dizer também sobre boa parte da “lei cerimonial” do Antigo Testamento, com seus sacrifícios e ofertas, pois, embora se costume argumentar, a partir de uma leitura equivocada da Carta aos Hebreus, que aqueles sacrifícios em geral se tornaram obsoletos pelo sacrifício de Cristo por nossos pecados, esse argumento é fraco, pois grande parte dos sacrifícios da lei não tinha relação com pecados.

Por outro lado, se a lógica for a de que tudo está abolido, exceto aquilo que for mencionado no Novo Testamento, ficamos sem saber se devemos honrar os idosos (Lv 19:32) ou honrar a Deus com as primícias de todos os nossos ganhos (Pv 3:9-10).

Eu já defendi posições assim, definidas em termos de abolição ou não do Antigo Testamento, no todo ou em parte, mas hoje percebo como esses esquemas são artificias e equivocados, alheios ao uso apostólico da Lei e à inspiração perene das Escrituras, que nunca trazem nenhuma dessas duas presunções.

A verdadeira questão sempre foi como interpretar o Antigo Testamento, antes de saber se devemos aplicar ou não esta parte ou aquela. Percebo que o literalismo hermenêutico induz a pensar a questão em termos de abolição da Lei — ao menos foi assim no meu caso —, mas uma hermenêutica mais ampla, como a dos apóstolos e dos pais da Igreja, nos permite uma perspectiva muito mais rica e frutífera. A Lei de Moisés inteira pode continuar nos ensinando e nos instruindo, mesmo que não seja aplicada como na antiga religião de Israel.

A solução é o equilíbrio. Como todo equilíbrio, essa posição será vista como insuficiente pelos radicais opostos: simultaneamente como obediência incompleta (pelos estritos) e como judaização perigosa (pelos libertinos). O equilíbrio entre a validade eterna da Lei e a novidade da Lei de Cristo exige uma hermenêutica para além da literalidade, como a dos apóstolos.

Onde está o equilíbrio? A questão é como interpretamos o Antigo Testamento. O apóstolo Paulo, por exemplo, vê na Lei da Páscoa o modo como devemos celebrar a “Páscoa Cristã” na Igreja: a retirada do fermento é interpretada como retirada do pecado (cf. Êx 12:15; 1Co 5:7-8). Do mesmo modo, aplica-se para os ministros um mandamento que originalmente se refere a bois, pois vê no mandamento um princípio importante e igualmente válido em situações mais importantes (a fortiori). O mandamento de honrar os pais permanece quase intocado, mas a promessa ligada a ele é ampliada para além dos limites da terra de Israel (cf. Êx 20:12; Ef 6:2).

Nesses casos interessantes, o princípio do Antigo é preservado em novas condições. A Lei de Moisés é um registro momentâneo, sob mediação angélica (At 7:53; Gl 3:19), da Lei Divina eterna. Por isso, como Hooker mostra nos livros das Leis, os seus princípios subjacentes à Lei de Moisés são eternos, são imutáveis, mas suas aplicações nem sempre são idênticas, pois variam um pouco, de acordo com as condições e necessidades da época.

Rev Gyordano M Brasilino

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