O Batismo não é só um símbolo (parte 2)

Minha publicação (13)

A doutrina da Regeneração Batismal é unânime entre os Pais da Igreja. De fato, entre eles há mais acordo sobre Regeneração Batismal do que sobre a Trindade. Enquanto a primeira é afirmada por todo mundo, a segunda teve um desenvolvimento histórico até chegar à explicação mais clara e permanente.

Se a Regeneração Batismal não é o ensino apostólico, quando ela surgiu? Poderíamos supor que ela surgiu como um erro que progressivamente se instalou, um grão de areia de cada vez, despercebido. Ou então que ela surgiu como uma grande heresia, inventada por alguém, numa ruptura de grandes proporções. Mas os dados não permitem nenhuma dessas duas opiniões, antes os contradizem. A Regeneração Batismal aparece como doutrina universal dos Pais, sem divergências, sem debate e sem disputa, e desde muito cedo, em lugares bem diferentes.

Para os Pais da Igreja, acreditar que o Batismo era somente um símbolo, somente uma ação humana, não era possível, por dois motivos. O primeiro é o lugar litúrgico em que o Batismo estava inserido, sendo precedido de exorcismo, havendo a invocação da Trindade e habilitando a participar da Eucaristia e da vida cristã plena.

Em segundo lugar, eles estavam tão acostumados à interpretação alegórica e tipológica que entendiam bem como os símbolos funcionam, bem o suficiente para entender que o Batismo não podia ser só um símbolo; na verdade, eles estavam convencidos de que a religião cristã tinha a realidade da qual a religião judaica era o símbolo, coisa que revelam, por exemplo, quando tratam do Shabbat. Um caso típico é a Epístola de Barnabé. Não era apenas outro símbolo. Deus não trocou os símbolos da antiga aliança por símbolos da nova aliança; ele trocou os símbolos da antiga aliança pelas realidades da nova aliança.

De fato, os sacramentos devem ser vistos como sinais da nova criação, como sinais de uma escatologia inaugurada. O tempo da salvação chegou, então os poderes do mundo vindouro já começam a operar sobre o mundo, o Reino já está presente. No entanto, a regeneração do mundo ainda não está completa, o Reino não se manifestou ainda sem plenitude. Então os sacramentos cristãos têm algo do antigo (símbolo) e algo do novo (poder). Eles são a transição do simbólico para o dinâmico.

Na Didaquê, tratado cristão geralmente datado da segunda metade do século I e possivelmente de origem síria, ensina: “Que ninguém coma nem beba da Eucaristia sem antes ter sido batizado em nome do Senhor pois sobre isso o Senhor disse: ‘Não deem as coisas santas aos cães’ ” (9,5). Aí, a Didaquê usa as palavras de Cristo no Evangelho (Mt 7:6), e indica que aquele que não foi batizado é ainda um “cão”, ou seja, um impuro. Somente aquele que foi purificado pode participar da coisa santa. Isso significa que o Batismo efetua uma mudança real e purificadora no batizado.

Talvez pouco tempo depois, também na Síria, Sto. Inácio de Antioquia, que morreu na primeira metade do século II, traz palavras acerca da purificação da água depois usadas por certas liturgias batismais (como a anglicana): “Ele nasceu e foi batizado, para que por Sua paixão Ele purificasse a água.” (Aos Efésios 18). Nesse texto, podemos extrair a ideia de que a paixão (sofrimento salvífico) de Cristo tinha por intenção a purificação da água (batismo), portanto, que há uma relação entre o propósito salvífico de Cristo e o batismo. Do contrário, a referência à paixão seria ininteligível, assim como essa purificação da água em si mesma. Portanto, o texto só é inteligível à luz da doutrina da Regeneração Batismal. A purificação da água pode ser vista como alusão à “água pura” do Batismo em Hb 10:22.

Mais ou menos no mesmo período, a Epístola de Barnabé (11), em meio à polêmica com o judaísmo e, portanto, tentando mostrar a superioridade da fé cristão, ensina: “Quanto à água, está escrito que Israel não teria recebido o batismo que leva à remissão dos pecados, mas que eles próprios teriam constituído um.” A certeza de que o batismo leva à remissão de pecados é repetida muitas vezes pelos Pais, aparece no Credo Niceno e sua origem, na reflexão cristã, se encontra nas palavras de Pedro em At 2:38, que ensinam o mesmo. Pouco depois, citando certa versão de Ezequiel 47:12, a epístola continua a dizer: “‘Havia um rio que corria, vindo da direita, e árvores esplêndidas hauriam dele seu crescimento. Qualquer pessoa que delas comer, viverá eternamente’. Isso significa que descemos para a água carregados de pecados e poluição, mas subimos dela para dar frutos em nosso coração, tendo no Espírito o temor e a esperança em Jesus.” De maneira bem óbvia, o texto ensina que não houve perdão antes do Batismo, mas apenas nele. O momento anterior ao Batismo é visto como pecaminoso e o momento posterior, como uma renovação. O Batismo é, de maneira óbvia, um ponto de inflexão salvífico.

Sequer chegamos à metade do século II. Estamos a menos de cinquenta anos dos últimos escritos do Novo Testamento, e a concepção do Batismo como meio de salvação já é clara. Encontramos o mesmo ensinamento, poucos anos depois, em Justino Mártir, no Pastor de Hermas, em Sto. Irineu de Lião, em Teófilo de Antioquia, em Tertuliano de Cartago e em tantos outros. Nesses autores, a regeneração batismal é tão natural que eles sequer tentam prová-la com muitos argumentos. Por outro lado, não é possível citar um Pai da Igreja sequer que tenha rejeitado a Regeneração Batismal.

Rev. Gyordano M. Brasilino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s